Subitamente
Subitamente algo me aconteceu, enquanto vivia a minha vida. Subitamente comecei a sentir-me deprimido, subitamente comecei a sentir-me stressado. Subitamente nada do que vivia fazia sentido.
Sabes o que aconteceu? Sabes o que me deu?
A minha vida está a mudar todos os dias,
de todas as maneiras possíveis.
Nada disto é o que parece,
eu continuo a ser quem sou.
Por isso ajuda-me.
Dá-me as tuas mãos e vem comigo,
e assim não poderei fugir.
Dá-me apoio nos sonhos,
que nunca são o que parecem.
Mudemos a realidade ao mundo.
Subitamente algo me aconteceu enquanto vivia o meu sonho. Subitamente comecei a sentir-me acordado, subitamente comecei a sentir-me apavorado. Subitamente tudo começou a fazer sentido.
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Continuando pela estrada
A noite está escura. As nuvens tapando o céu e ameaçando chover por entre as árvores negras, como sombras dançando na escuridão. O assento da mota molhado não me incomoda enquanto o levanto para pegar a arma que assenta tão bem na minha mão. A bala fria entra facilmente e deixo a pistola no meu colo enquanto ligo minha companhia.
O ronronar forte do motor desperta-me à medida que o frio desaparece do motor, só as balas continuam frias no bolso do meu casaco enquanto coloco a pistola no seu coldre de cabedal, facilmente tão acessível. As mãos altas no guiador da minha companhia, sentindo as minhas mãos nuas nos punhos, o cabelo que começa a ficar ralo a abanar à medida que me movo.
...A cabana que deixo para trás mergulhada em sangue nunca mais será a mesma, as almas que lá ficaram sempre presas num suplicio que, se depender de mim, nunca acabará. O cheiro da morte ficará em mim como a memória de quem te matou...
Os quilómetros que ficam à minha frente estão marcados pelo sangue que ainda não derramei e iluminados pelas balas que ainda não disparei. O alcatrão que passo marcado pelo pneu molhado e pelas recordações que guardo. A estrada é apenas minha e da minha companhia.
A estrada é um rio negro marcada apenas pelos traços que o pneu pisa. A canção que me acompanha afasta as memórias, uma canção que canto apenas para espantar os sonhos. O tempo que passei no deserto do mundo apenas contribuiu para alimentar a raiva que não deixo que se apodere. A caminho de mais uma cabana para te vingar.
O blusão negro que me envolve confunde-me com a escuridão que abraço, as calças do fato que me vestem são as do fato com que me enterrarão, na minha mão brilha o anel cujos sonhos nunca mais me apanharão...
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Não tenho a certeza como cheguei aqui... A minha cabeça dói-me e não tenho uma noite decente de sono à semanas. Não era suposto ser assim... Suponho que sempre foi.
Sempre foi aqui que estive. Sempre será aqui que tudo se passa...
- Qual a tua fraqueza? - pergunta ela
A minha fraqueza... Como não soubesses. Sempre soubeste tudo sobre mim, sabes que eu hesito na resposta, sabes que eu sei mas não consigo dizer, como se o sair da minha cabeça para a realidade deste sitio fosse tornar a minha fraqueza mais real.
- A minha fraqueza és tu... - Sempre foste, sempre o soubeste, sempre... A minha cabeça dói mais uma vez e não quero que seja assim... Não quero perder estes pensamentos. Quero ser fraco para me consolares.
- A minha fraqueza é o amor... - Detesto como perco o controlo, como aquilo que guardo cá dentro de mim sai tão facilmente e como perco meu auto-respeito assim. Quero ser forte.
- Qual a tua fraqueza? - pergunta ela enquanto seus olhos vêem através dos meus. Enquanto morde o lábio à medida que vê a minha alma. Não fujo, minha cabeça dói-me demasiado para isso enquanto o meu controlo jaz em ruinas a seus pés.
- Tu interesssas-me... - Estas palavras atravessam-me assim ditas, ela não vê o meu amor a seus pés, não vê que me tortura enquanto olho nos seus olhos à espera de ver o que ela vê... à espera de sentir que qualquer fraqueza que possa ter é perdoada.
Só quero amar... ser amado é algo para o qual não tenho controlo, é algo que quero apenas quando passar esta dor de cabeça, apenas quando tiver conseguido dormir.
...
Acordo e sento-me... Ela acende a luz e pergunta que se passou... Nada, volta a dormir, tenho uma dor de cabeça...
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Meia-noite
Meia-noite
Nem um som vem do passeio, meus passos batem contra a pedra sem se ouvirem
Paro por um instante, um segundo preso no relógio
A Lua suspende-se no candeeiro, imóvel, por braços que não consigo descortinar
Um sorriso afagando-me a cara dormente onde já não me lembro de sorrir
As folhas do Outono rodeiam-me os pés enquanto o vento faz sentir a sua presença
Meia-noite
Nos prédios só uma luz se vê
As pessoas entregues ao conforto dos lençois
Eu e a Lua, sós, a ver quem sorri menos
Memória
Quero viver outra vez
Viver o tempo em que era eu que controlava a minha vida
Quero poder viver a memória do teu sorriso
Quero poder tocar o teu sonho preso em mim
Meia-noite
Quero poder afastar o candeeiro onde a Lua se suspende
Quero tomá-la nos meus braços e oferecê-la a ti
Pedir o perdão com uma oferta que não poderás recusar
Memória
Onde terei de procurar uma nova vida
Onde não poderei desistir
Meia-noite e memória
A confusão dos meus pesadelos
O segundo que finalmente se liberta do relógio
Agora é tempo de continuar, que venha a madrugada, que a Lua sorria e que a memória caia do candeeiro
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Vem até mim
Agora é mais um dia, mais um pequeno fio da minha vida que é traçado, mais um caminho escrito neste pequeno parque que é o mundo. Por entre as sombras e os raios de sol eu vivo, imóvel, curioso, julgando tudo e analisando tudo o que me rodeia. Procuro a informação com todos os meus sentidos, querendo a tua proximidade, querendo-te...
Aproxima-te pé ante pé, vem até ao pé de mim, o teu corpo apetitoso. Deixa-me provar-te, saborear-te, tocar-te. Esquece tudo e vem até mim, devagar. Deixa-me ver-te aproximar, deixa-me ser eu a iniciar contacto. Mas tu não queres, não me vês, nem sabes quem sou, eu, que aqui te espero. Espero-te com toda força que até doi, o meu interior clama por ti, meu corpo alimenta-se do teu até ao fim dos tempos - Mas tu não me vês. Passas por mim e ficas à minha volta e eu desespero.
Terei de ser cuidadoso, terei de esperar por ti? Mas não quero, não é quem eu sou, quero-te agora, quero-te saborear, quero-te com todas as minhas forças. Não quero sucumbir ao teus encantos, quero que vejas os meus, mas eu não os tenho. Sou a força da sombra, o livro ainda por escrever, sou apenas uma linha da vida que tu não vês.
Então não vejas, ignora-me, mas irás ser minha. Irei ter-te, irei saborear-te (quer queiras quer não), irei ser a linha da vida da qual nunca te irás escapar. E por aqui ficarás comigo, e eu irei alimentar-me de ti, obcessivo, compulsivo, horrendo, como o verdadeiro senhor das sombras, como o senhor das linhas da vida, irei sugar o teu nectar, irei matar-te...
(teia de aranha com orvalho - retirada de http://commons.wikimedia.org)E que venha a próxima vitima...
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