terça-feira, fevereiro 26, 2008

O contrário de mim não existe

há todo um fogo imenso dentro do trovão,
um coração escondido nestas noites que inundam a pele,
sem grito,
a morrer de ti

só luz nacarada
nas ruas desertas do meu rosto,
na pressa dos dedos.

é impossível não tentar dizer-te
tenho medo
medo que me persigas a vida inteira
na tela do teu colo

o corpo à escuta como algo eterno
numa rotina sem remédio

é o passo em falta que demora a tua fuga,
o traçado dos poemas
a tomarem forma
sem bojo

os dias não avançam,
sangram
só doem

Vanessa Pelerigo

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

HOJE À NOITE

Hoje à noite vi-te no teu quarto.
Estavas só, sem ninguém...
Para lá de ti só eu,
Com os meus olhos, a ver-te ao longe.
Percorri as tuas costas enquanto
Te despias com desdém.
Queria ter-te comigo num quarto meu
Onde a distância me deixasse abraçar-te.

Hoje à noite vou sonhar contigo.
Vou-te ter aqui, abraçar teu corpo
branco e robusto, cheirar os teus cabelos perfumados,
Amarra-te à cama e ficar a olhar-te.

Hoje à noite vais ser minha!
Vou-te possuir de todas as formas,
Seremos pela noite dois animais com o cio.

Hoje à noite será a noite em que venço esta distância!

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Estranha cidade...

Depois de um voo atribulado, devido ao mau tempo que se fazia sentir em toda a região, tinha chegado finalmente à cidade que me iria acolher nos próximos dias enquanto participava num congresso de história medieval. O terminal de aeroporto era bastante amplo e apresentava diversas indicações em inglês sobre o câmbio para a moeda local, tempo que se fazia sentir (bem frio e chuvoso por sinal), indicações sobre os transportes que faziam a ligação do aeroporto ao centro da cidade, entre outras indicações úteis para o viajante desprevenido. Depois de recolher a bagagem dirigi-me à zona de câmbios do aeroporto onde fui atendido por uma funcionária:

- I wanted to change 200 euros what is the changing rate?

- Can’t you see it on the screen?!

- It’s your job telling me the changing rate; if you can’t do it pick another job.

Depois de quase fazer um requerimento por escrito a apresentar queixa da funcionária lá consegui que me trocasse o dinheiro que necessitava. Dirigi-me para o terminal de táxis esperando que esta primeira impressão não se confirmasse ao longo a minha estadia. Mal cheguei ao terminal apanhei o primeiro táxi que apareceu

- Hotel Panorama please

Era notório que o taxista não dominava bem a língua inglesa mas havia compreendido o meu pedido que era o que interessava. Dirigíamo-nos para a cidade propriamente dita visto o aeroporto ficar nas redondezas da mesma, a cidade era esplendorosa onde se destacava uma mistura de edifícios do antigo regime comunista, grandiosas catedrais, castelos e museus. As ruas estavam perfeitamente alinhadas umas com as outras e a simetria e consonância entre os edifícios davam à cidade um aspecto geométrico, artificial, como se de uma maqueta se tratasse. Enquanto me admirava com o aspecto geral da cidade não pude deixar de notar que o taxista que me conduzia estava bastante concentrado naquilo que estava a fazer, e para além disso gesticulava com todo e qualquer taxista que lhe aparecesse pela frente, como se fosse algum código secreto entre eles, se umas vezes acenava, outras vezes mandava avançar ou parar como se de um policia sinaleiro se tratasse, o mais estranho é que os outros taxistas se comportavam da mesma maneira, que estranho todo aquele panorama! Tínhamos chegado ao hotel, era um hotel relativamente recente com um hall de entrada amplo, dirigi-me à recepção onde se encontrava um homem bastante delicado, para não dizer efeminado, que me atendeu:

- Good afternoon, I booked a room, my name is Pedro Alcântara.

- Let me check the files….check in confirmed, your room is the 221, our team wish you a pleasant stay…just one more thing, you can also book here the return flight if you wish.

- I’ve already booked the return flight; just don’t forget to add me to the wake up list

- Ok

Subi até ao meu quarto, era pequeno mas com tudo o que para poder passar ali alguns dias. Arrumei todos os meus pertences, tomei um banho e resolvi ir jantar fora do hotel até para conhecer um pouco melhor aquela estranha cidade. Ao sair para o exterior não pude deixar de notar que o frio era cortante, de modo que me dirigi com passo estugado até à avenida principal, onde estavam alguns restaurantes, entrei num bastante castiço com mesas que mais faziam lembrar enormes troncos de árvore cortados longitudinalmente onde me sentei e fui atendido por uma bela empregada, que me cumprimentou na sua língua

- dobrá nocní

- Do you speak english?

- A little bit

- I want a Svikova and a krusovice beer. Did i pronounce it correctly?

- You did it well but we say Svicková

- I won’t miss it next time

Comi bem e bebi ainda melhor, antes de pagar a minha conta fui à casa de banho do restaurante, era um bocado estranha pois para fazer o que mais ninguém podia fazer por mim tinha duas opções, tinha um compartimento com uma porta que isolava todo o cubículo; e tinha outro cuja porta que ficava a meia altura e que também tinha abertura por baixo. Por que carga de água havia duas portas tão diferentes na mesma casa de banho? Seriam duas casas de banho, uma para pessoas que requerem maior privacidade e outra para pessoas menos recatadas…deixei-me de pensamentos profundos, afinal já tinha ultrapassado a minha cota de álcool. Paguei a minha conta e saí. O frio tinha-se acentuado, mesmo para quem tinha comido e bebido bem, de modo que não tive outra alternativa senão acelerar o passo, aquela era uma zona de bares e restaurantes assim que havia uma certa animação apesar do frio, reparei que em todos os bares e night-clubs por onde passava havia uma espécie de angariadores de clientes e mais estranho ainda, e sem ser racista, eram todos pretos, e eu que desde que chegara à cidade não me lembrava de ter visto algum, pelo menos durante o dia, parece que se tinham reunido todos àquela hora naquele local, resolvi tirar uma foto daquele cenário estranho. Estava a começar a achar aquela cidade mais estranha do que seria de esperar para uma cidade estrangeira.

No dia seguinte levantei-me cedo, afinal a conferência a que me tinha proposto participar iniciava-se praticamente ainda de madrugada. Saí do hotel, à entrada estava um grupo de policias a multar um carro que estava numa posição bizarra: primeiro estava numa zona para peões bastante afastado da estrada propriamente dita, em segundo o carro estava numa posição pouco ortodoxa, apoiado exclusivamente na duas rodas de um dos lados, e com as restantes apoiadas sobre um pequeno parapeito, os polícias tiravam fotos daquele cenário quando pararam de o fazer para olhar para mim com ar inquisidor como se fosse eu o dono daquele carro, resolvi não pensar mais no assunto e concentrar-me na minha palestra agendada para aquele dia. Cheguei ao centro de conferências, na universidade local ainda a tempo das primeiras apresentações, o ambiente estava ao rubro pois ali estava em causa a preponderância que cada país tinha tido na idade média, assim não era de estranhar que o período de discussão e dúvidas fosse mais extenso do que a exposição propriamente dita. A minha palestra era “Inquisição, uma herança actual” aproveitei para improvisar um pouco sobre aquela terra e sobre a herança do antigo regime comunista daquele país, obviamente os estudiosos locais não gostaram da minha intervenção e aproveitaram para criticar o comportamento da Inquisição em Portugal, obviamente toquei-lhes no nervo, e as consequências foram imprevisíveis, pois este é um povo que não esquece… Após alguma discussão acesa a situação pareceu acalmar e a normalidade aparentemente voltou ao anfiteatro. As palestras foram-se seguindo dentro da normalidade, no fim pude dar-me satisfeito com a minha intervenção e com aquilo que havia aprendido. Terminadas as conferências, voltei para o hotel, desta vez trovejava e a meio caminho do hotel começou a chover abundantemente tal como se me fosse cair o céu em cima. Cheguei ao hotel completamente encharcado, no preciso momento em que havia cessado de chover, e eu lamentava-me para com os meus botões do desafortunado que havia sido.

Depois de um banho quente e ter trocado de roupa dirigi-me para o restaurante do hotel, estava apinhado de gente, algumas caras tinha-as visto na conferência. Servi-me do buffet com comida de todo o mundo desde a famosa paelha espanhola, passando pelo porco alemão, ou os bifes de carne picada russos, sem esquecer o chapati indiano. Servi-me de um pouco de cada coisa e sentei-me na minha mesa. Estava um grupo a falar atrás de mim, falavam todos em inglês mas com pronúncias provenientes de diversas partes do globo e estavam a ter uma conversa bastante estranha:

- …he’s Portuguese, is an historian and since he arrive this city is getting trouble in each corner he passes…

Fiquei perturbado com aquelas palavras, as semelhanças comigo eram evidentes, mas não era possível, não os conhecia de parte alguma nem sequer de os ver nas conferências de hoje, tinha de ser outra pessoa. Terminei de jantar e fui à recepção onde estava o mesmo homem efeminado que havia encontrado na chegada.

- Good evening I wanted to use internet.

- Ok, you can use the pc in that corner

E apontou-me para um computador no outro extremo do hall de entrada

- It’s 0.75 cents each 10 minutes, you need to insert a coin in the machine near the pc

- Ok, thanks

Fui para consultar o meu e-mail, estava à espera de receber alguns mails importantes da faculdade e não podia esperar mais. Inseri a moeda e abri o browser, fui para a minha conta de e-mail e quando ia para a minha caixa de entrada, retrocedia na página para a que tinha estado anteriormente. Tentei uma e outra vez sempre com o mesmo resultado. Consultei as minhas outras duas contas de e-mail, e precisamente quando estava para entrar na minha caixa de entrada, o browser recuava para a página anterior. Era impossível todas as minhas contas de e-mail terem o mesmo problema, voltar para trás precisamente quando estava para entrar na caixa de correio. Podia alguém estar a controlar as páginas que ia abrindo?! Nunca tinha visto tal coisa, mas já estava num estado em que desconfiava de tudo e todos. Olhei para o recepcionista e efectivamente estava ao computador, levantei-me rapidamente e dirigi-me a ele. Quando me viu aproximar ficou meio atrapalhado.

- I’ve a problem using the browser; i can’t access my e-mail accounts, and all of them have the same problem, when I try to go to the inbox it returns to the previous page.

- Let me try

O funcionário dirigiu-se ao computador e tentou entrar na sua conta de e-mail, e conseguiu.

- I can’t see any problem with the pc.

- Just a moment let me try again

Enquanto o recepcionista estava comigo consegui abrir a minha caixa de correio

- Now i can open my inbox, strange…

Depois de consultar o meu mail, resolvi ir para o meu quarto. Tinha sido um dia estranho, mais um desde que chegara àquelas paragens, e por muito que me tentasse abstrair, vinha-me sempre ao pensamento aquelas estranhas palavras no restaurante ou o episódio da Internet, para não falar em todos os outros pequenos detalhes que faziam daquele lugar um sitio bizarro. Praticamente não consegui pregar olho toda a noite, noite de trovoada incessante.

Levantei-me de manhã cedo, aquele era o último dia conferências, que hoje recomeçavam depois de almoço, aproveitei a manhã para trocar mais alguns euros e decidi fazê-lo fora do hotel, em busca de uma taxa de câmbio mais baixa e também ficar a conhecer melhor a cidade, também o banco mais próximo não poderia estar muito longe. Procurei pessoas mais novas pois em principio essas saberiam falar o inglês. Passei por uma bela jovem e perguntei:

- Where is the closest bank?

- I don’t know, sorry

Continuei em direcção a um ponto central pois ai teria mais hipóteses de encontrar o almejado banco, pelo caminho encontrei outro jovem ao qual lhe perguntei:

- Where is the closest bank?

- I don´t know

Parecia ser uma resposta recorrente, mas será que toda a gente desta cidade tinha o dinheiro debaixo do colchão?! Tentei perguntar mais algumas vezes mas a resposta foi sempre a mesma, já me sentia como se fosse um pedinte a mendigar por uma indicação que teimava em não chegar, a propósito de pedintes, todos os que havia visto tinham o mesmo comportamento, ajoelhavam-se de cabeça baixa em frente a um chapéu ou algo que lhe valesse, onde recebiam a esmola; era uma cidade muito uniforme em termos de comportamentos, não havia grande margem para a diferença, e eu realmente ali sentia-me um estrangeiro. Depois de andar uma hora à procura sem sucesso decidi voltar ao hotel, e pagar uma taxa mais elevada. De regresso ao hotel, parecia ver no semblante das pessoas que se cruzavam comigo um sorriso de troça. Seria impressão minha pelo cansaço acumulado e pelo acumular de situações estranhas que havia vivido desde que chegara àquela cidade.

Cheguei ao hotel e na recepção fui ver se me trocavam 70 euros, seria o que precisava até sair daquele país. Mas a resposta foi contundente

- We don’t have the exchange service available because of technical problems

Realmente estava atado de pés e mãos, só com euros no bolso não me iria safar naquele país. Resolvi não pensar muito mais no assunto, não ia adiantar nada. Dirigi-me ao centro de conferências e procurei alguém que estivesse interessado em trocar alguns euros, mas de todos a resposta foi a mesma.

-“I didn’t brought the wallet”

Aparentemente ninguém queria colaborar comigo e toda aquela maré de infortúnio tinha começado depois da minha intervenção no dia anterior na conferência.

No final das conferências voltei para o hotel, jantei qualquer coisa e fui para o quarto arrumar as coisas a fim de no dia seguinte de manhã regressar a Portugal. Só tinha euros no bolso, o positivo é que podia pagar a conta do hotel em euros, mas o transporte para me levar ao aeroporto é que forçosamente teria que pagar com a moeda daquele pais, o aeroporto distava do hotel mais de 13 Km’s.

Na manhã do dia seguinte, depois de tomar o pequeno-almoço, dirigi-me à recepção a fim de ver se o serviço de câmbios já estaria operacional. Atendeu-me o mesmo recepcionista efeminado:

- Hi, the exchange service is already available?

- No, I’m sorry

- Where can i exchange some euros?

- In this zone there is no such place apart from the hotel, only in the city center in some bank or exchange house.

- Today is Sunday I don’t think I’ll have any luck. There is the possibility to call a taxi that accept euros?

- The telephone line is down since yesterday

- There is something working in this hotel?!

- I’m sorry

- I also wanted to check out and to pay in euros

- Just a moment

it’s 120 euros

Paguei a minha conta de má vontade e decidi voltar a tentar a minha sorte lá fora. Tinha partida de avião às 13h00, era naquele preciso momento 9h00, teria que me apressar se o queria apanhar ainda hoje. Resolvi tentar apanhar um táxi e simplesmente perguntar se aceitava euros. E foi o que aconteceu mas a resposta infelizmente não me surpreendeu.

- I don’t accept euros!

Ainda tentei abordar mais dois taxistas mas as respostas foram tiradas a papel químico da primeira. Resolvi tentar o autocarro, tinha uma ideia dos números dos autocarros que me levariam ao aeroporto. Entrei pela porta de trás de forma ao condutor não me ver, o autocarro estava apinhado de gente que me fitava com olhar reprovador, ouvia alguns comentários na língua local que percebia virem dirigidos a mim muito embora não soubesse o que significavam. Numa paragem mais à frente vi entrar o revisor, que mais me podia acontecer, parecia a vingança perfeita…. Antes do revisor me abordar saí numa paragem algures, já nos arredores daquela cidade. Não devia estar muito longe do aeroporto, de maneira que procurei alguém que me indicasse o caminho para fazer a pé, já carregava a minha mochila há um par de horas, assim quanto antes chegasse ao aeroporto melhor. Encontrei um transeunte ao qual me dirigi:

- The airport please!

- I don’t know

Aquele ritual de conversação com transeuntes repetiu-se durante uma hora, mas as suas respostas culminavam sempre num encolher de ombros, já não sabia o que fazer para sair dali, já eram 12h00 e o mais certo era perder o voo de regresso.

Até aquele instante a colaboração que havia recebido era nula, ninguém sabia onde trocar dinheiro nem onde ficava o aeroporto. Portugal tinha muitos defeitos mas numa situação semelhante um estrangeiro já teria recebido indicações como se “desenrascar” e certamente já estaria a fazer o embarque de regresso a casa. Não valia a pena lamentar-me o que interessava agora era encontrar o maldito aeroporto.

Continuei a andar sem rumo, até que avistei ao longe uma estrutura que se parecia com um aeroporto: diversas balizas a indicar a direcção do vento, um radar enorme, uma torre de controlo, tudo condizia. Ganhei novo ânimo e acelerei o passo. Quando cheguei, para alem das características de aeroporto que havia visto à uns minutos atrás, vi mais qualquer coisa que me desconcertou, em vez de ver pessoas em trânsito com as suas bagagens vi uma multidão de crianças acompanhadas pelos seus respectivos pais naquilo que era um parque temático relacionado com aeroportos. Fiquei branco como a cal, tudo isto parecia uma brincadeira de mau gosto e eu era o alvo. Praguejei com todas as minhas forças naquele mesmo local, todos me olharam com surpresa mas no instante seguinte seguiam como se nada fosse com eles. Continuei a andar até ver uma indicação com um símbolo de um avião, era provavelmente a minha única chance, resolvi segui-la. Percorri aquela estrada durante quase uma hora perguntando-me se teria seguido o caminho certo, até que me apercebi de um avião a aterrar perto, só podia ser ali, segui a direcção do avião até chegar ao aeroporto, finalmente estava diante do verdadeiro aeroporto, mas já eram 14h00, e o meu voo estava marcado para as 13h00. Ainda fui ver nos ecrãs informativos se o voo estava atrasado ou não, mas nenhuma informação a esse respeito aparecia, depreendi que já tinha partido. Dirigi-me ao balcão da TAP a fim de esclarecer toda a situação e arranjar voo de regresso quanto antes.

- Tinha um voo de regresso a Portugal reservado para as 13:00 mas não me foi de todo possível estar cá a essa hora. Gostava de saber quando é o próximo voo para Lisboa?

- O seu nome por favor

- Pedro Alcântara

- …

Exactamente, tinha voo marcado para as 13:00, o próximo só 3ª-feira à mesma hora.

- Está-me a dizer que tenho de ficar aqui dois dias à espera?! Não há nenhuma alternativa dalgum voo com escala, com outra companhia?

- Infelizmente não, os funcionários do aeroporto de Lisboa estão em greve até 3ª feira precisamente, mesmo que encontre outra companhia que faça o voo antes terá sempre que aguardar por 3ª feira.

- E o que é que eu fico a fazer aqui durante dois dias?

- Tem uma cidade lindíssima para visitar, o que não dariam muitos para estar na sua situação! Afinal esta é uma cidade especial, quem a visita fica a ver o mundo de uma perspectiva diferente. A cidade está pensada ao pormenor não sei se já reparou, parece um jogo de xadrez.

- Sim deve ser uma cidade interessante para quem goste de ser uma peça de tabuleiro em vias de lhe fazerem xeque-mate!

domingo, janeiro 13, 2008

Cela Melancólica

Silêncio...

Não fala, não ouve, nem quer ver...

Escuridão...
Amargurada não passou pelo tempo.
Devolveu-me os seus segundos,
Aguardando pelo pior momento.

Melancolia...

Penso... em nada, ou em tudo...
Revejo parte das memórias.
Perdido do mundo, no seu imaginário,
Entrelaço as mãos sem nada fazer.

Perdido...

Aterrorizado... Imobilizado e inútil...
Segredei com o inconsciente humano,
Violando a força de vontade e a razão.
Perdi-me na sua ilusão...

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Rosa

Rosa vermelha
Enrolada sobre si própria
Rosa vermelha
Doce e suave ao toque
Rosa vermelha
Afogando-me no seu cheiro
Rosa vermelha
Que flor tão bela
Rosa vermelha
Seca e tombada sobre teu caixão

domingo, janeiro 06, 2008

Tudo por uma espera

Há gritos intransmissíveis à espera que me aconteças, convencido do teu pecado. Respirações frágeis, condensadas pelo frio e pelo vazio. A beleza pode doer-nos mais do que nos dói a dor. Aniquilar-nos por completo. Afinal de contas, sonhar é decretá-lo.

Ama-me contra o tempo. Desmancha-me em cada volta eterna do teu corpo.

Vanessa Pelerigo

sexta-feira, novembro 30, 2007

Subitamente

Subitamente algo me aconteceu, enquanto vivia a minha vida. Subitamente comecei a sentir-me deprimido, subitamente comecei a sentir-me stressado. Subitamente nada do que vivia fazia sentido.
Sabes o que aconteceu? Sabes o que me deu?

A minha vida está a mudar todos os dias,
de todas as maneiras possíveis.
Nada disto é o que parece,
eu continuo a ser quem sou.

Por isso ajuda-me.
Dá-me as tuas mãos e vem comigo,
e assim não poderei fugir.

Dá-me apoio nos sonhos,
que nunca são o que parecem.
Mudemos a realidade ao mundo.

Subitamente algo me aconteceu enquanto vivia o meu sonho. Subitamente comecei a sentir-me acordado, subitamente comecei a sentir-me apavorado. Subitamente tudo começou a fazer sentido.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Mais um Outono

Sinto o frio e o vento...
A pele seca, os lábios também.
Sinto a chuva e o ar sombrio...
A voz rouca, trovejando além.

A sombra em mim desapareceu,
O céu cobriu e a água à terra desceu...

Sinto a luz e o som...
A natureza relampejante.
Sinto o medo e a aproximação...
A energia trespassante.

O medo em mim desvaneceu,
E a terra molhada ao céu agradeceu...

segunda-feira, novembro 05, 2007

É uma dor que se agrava quanto mais me minto

Convenço-me que não. Que nada do que sinto é real, que dói-me aqui o peito e este aperto é do calor, é falta de ar. Só pode ser. Afinal, 33 graus são suficientes para a taquicardia. A roupa é pouca. A pele queima os ossos e tudo se estreita quando te penso. Mas, não. Não te penso. Não penso. Sangro demais por dentro para pensar. É do Verão esta ferida, esta desidratação de amor. O melhor mesmo é beber qualquer coisa fresca que me acaricie a boca e me gele o sentir. Saio talvez para lanchar, peço um sumo de laranja bem frio, um pastel de nata, uma torrada, qualquer coisa que me distraia os dedos da escrita e a alma de ti. E pronto, deve bastar. Pego no carro, abro a capota e a aflição não passa. Sem nó nem piedade, um sufoco apodera-se do corpo. Pesam-me os olhos, as mãos. Primeira, segunda, 60 km/hr e o vento a esvoaçar-me o cabelo e o juízo. E arde-me a saudade. Persuado-me que não é saudade. Claro que não é saudade. Como pode haver saudade de algo que nunca existiu senão no coração alcatifado? E eu afrontada, vidrada no alcatrão que sempre me abraça a mágoa e a vontade de fugir. Acelero sempre ao sinal vermelho. Tenho pressa de viver, de tocar o céu. Que ideia parva, tocar o céu. É tão mais fácil bater com a cara no chão, desfazer todos os sonhos nos rails do impossível e da desilusão. Travão a fundo. Milonga del Angel do Piazzola a vibrar-me os sentidos. Chega. Páro. Merda para o calor, a culpa é do aquecimento global e das pessoas. Que raio de ideia de destruirem o planeta e, aos poucos e poucos, a minha respiração. Dou por mim quase em sufoco por não te ter, mas a culpa não é tua. É mesmo desta brasa que me rasga a paz e o viver. Que culpa podes ter tu. Nenhuma, obviamente. Talvez devesses sossegar-me a inquietação com os teus braços. Estremecer-me com a tua boca nos meus lábios, mas não. Agora está muito calor. A ansiedade mistura-se com este ardor incandescente e com a inflamação do meu peito. Uma bebida bastaria e já falta pouco até à pastelaria. Entro. O pior já passou. Aqui o ar condicionado, quase gélido, insensível a este fogo e a ti basta. Mas, não basta nada. Porra, logo havias de ter decidido vir para aqui também tomares um chá para acabares com o glacial que te cobre o querer. Raios me parta a escolha e este desassossego. Digo boa tarde, só porque está calor. E para me convencer que não. Que nada do que sinto é real, que dói-me aqui o peito e este aperto é do calor, é falta de ar. Afinal, amar alguém assim é impossível.

Vanessa Pelerigo

quarta-feira, outubro 31, 2007

A vida em directo

Toca o despertador, o começo de um novo dia, deixo-me ficar na cama e desfruto destes últimos letárgicos momentos. Depois de me levantar a custo, arranjo-me e tomo o pequeno-almoço enquanto ligo a televisão e vejo as últimas noticias. Mais um bombista suicida provocou 12 mortos num mercado em Bagdad. Não pude deixar de reparar na expressão de atrapalhação da pivot, não seria certamente pelo conteúdo da notícia em si que estaria naquele estado, afinal noticia seria não haver atentados suicidas no Iraque! Parecia que estava a presenciar algo fantástico e que lhe estava a afectar a concentração na apresentação do jornal da manhã. Deixei de me preocupar com as atrapalhações da pivot e saí de casa em direcção ao emprego. Meti-me no autocarro e ao entrar reparei que toda a gente olhava para mim como se fosse algum criminoso com um cartaz em cada esquina a dizer procura-se, reparei que naquele preciso instante toda a gente puxava dos seus telemóveis e escrevia mensagens freneticamente. O que é que se estava a passar? Seria pura coincidência toda a gente olhar para mim com olhar inquisidor e começar a escrever uma mensagem nesse mesmo instante? Seria eu a cobaia numa experiência underground? Saí do autocarro, no preciso instante em que tinha começado a chover, apressei o passo e a chuva aumentou a intensidade até que tive de encontrar refúgio debaixo de um telheiro, parou imediatamente de chover, já não sabia o que havia de fazer, por mais que tentasse fugir ao destino ele perseguia-me sem dó nem piedade tal como se fosse um programa com capacidade para seguir e antecipar todos os meus passos ou melhor, os meus pensamentos! Este meu pensamento foi interrompido pela imagem de um vendedor de chapéus de chuva, veio mesmo a calhar, paguei e prossegui caminho até chegar a um cruzamento onde estava um grupo de pessoas que à medida que me ia aproximando ia reconhecendo como pessoas famosas, uns do mundo da televisão, outros do mundo da escrita, outros famosos eram por aparecer nas festas do jet set, todos em amena cavaqueira, que estariam todos ali a fazer? Passei por eles, fez-se silêncio, levantei os olhos para ver o que se passava naquele grupo e vi que todos olhavam curiosamente para mim, passei por eles no mesmo passo sem me mostrar afectado e segui caminho até chegar ao largo onde estava o escritório onde trabalhava, estava mesmo em frente um placar publicitário com um homem representado, era incrivelmente semelhante comigo, em baixo aparecia escrito o slogan “Seja o próximo a ficar nas bocas do mundo”, as semelhanças com a realidade eram assustadoras. Entrei no escritório, cumprimentei a dona Palmira da recepção com o “bom dia” habitual, não me respondeu, ainda assim manteve fixa em mim toda a atenção como se estivesse a seguir a novela da noite.

- Passa-se alguma coisa dona Palmira parece que viu um fantasma!

- Não é nada Pedro, não consegui pregar olho toda a noite foi isso.

A sua resposta deixou-me ainda mais espantado, como é que sabia o meu nome? Nunca me tinha apresentado a ela, pelo menos que me lembrasse. Continuei o meu caminho pelo corredor em frente e enquanto não chegava ao escritório propriamente dito ia-me perguntando e preocupando com o que se iria passar a seguir, como é que seria o comportamento dos meus colegas? Não demorou muito a saber a resposta. Estavam uns sentados em frente aos computadores outros de pé a falar, parou tudo quando cheguei como se fosse o patrão a anunciar novos despedimentos na companhia, segui com passo estugado em direcção à minha secretária enquanto ouvia cochichos e risinhos. Estava a ser uma manhã maldita, não via a hora de terminar o dia. Sentei-me em frente ao computador e comecei por consultar o meu e-mail, tinha a caixa cheia de junk mail, olhei rapidamente para os assuntos de cada mensagem: Be the star of your company, Be famous from one day to another! Tomorrow shall i bring the umbrella? Esta última havia sido enviada à 6 minutos atrás, era impressionante como estes assuntos se assemelhavam ao que me havia acontecido esta manhã, apaguei todo aquele lixo e tentei concentrar-me no meu trabalho. Ainda assim era difícil, sentia-me o centro das atenções. Resolvi retardar propositadamente a hora de almoço para as 13h a fim de evitar uma multidão de colegas todos curiosos com a minha pessoa. Seria imaginação minha ou aquilo que eu pensava estar a acontecer estava a acontecer na realidade? Como de há um tempo para cá não conseguia dormir, esta impressão podia ser do cansaço, mas tantas coincidências juntas era de desconfiar. Ás 18 era hora de abandonar o posto de trabalho, resolvi ficar mais um tempo de forma a deixar passar a hora de ponta de forma a poder avaliar melhor a situação. Saí uma hora mais tarde, mais uma vez começou a chover torrencialmente no preciso momento em que pus um pé fora do edifício, mas desta vez estava prevenido com um guarda-chuva. Percorri em sentido contrario o caminho que havia feito de manhã, mas desta vez, para além da abundante chuva, trovejava, por sinal muito perto do local onde estava, o ruído era ensurdecedor. De repente dei-me conta de um raio cair mesmo no prédio em frente, que dia aquele! Cheguei à paragem de autocarro e esperei até que chegou o autocarro que me levaria de volta a casa. Entrei, parou imediatamente de chover, deparei-me com um autocarro sem nenhum lugar sentado ainda assim não se podia considerar cheio, todos pararam o que estavam a fazer para me olhar curiosamente, no fundo só se ouvia:

- Só espero que agora não nos caia um raio em cima!

De repente vi uma pessoa a levantar-se e a acenar na minha direcção, como se eu fosse uma câmara de televisão, e ela estivesse a mandar cumprimentos para a família lá em casa, olhei para trás para ver se estava alguém que pudesse justificar aquele comportamento, nada, estava tudo sentado a olhar, eu já enervado com todos aqueles comentários e atitudes perguntei:

- É alguma coisa comigo?

- E se fosse havia algum problema?

- Se me estivessem a acenar e eu não conhecesse essa pessoa para nada é obvio que havia algum problema.

O indivíduo de repente puxa de uma navalha e tenta-me atingir.

- Agora vais ver o que é um problema

Desferiu diversos golpes, e eu, a custo e com a ajuda dos solavancos do autocarro, conseguia-me esquivar. Na altura em que ele tentava desferir outro golpe consegui enfiar-lhe um soco na cara, acabou por tombar, altura em que o autocarro parou e aproveitei para fugir. Claro está que a chuva voltou em força enquanto eu corria com todas as forças que tinha, até que cheguei a casa, imediatamente parou de chover. Sentia um rubor na face esquerda, pus a mão na cara e vi que estava a sangrar, aquele filho da %&#) tinha-me atingido.

Depois de fazer o tratamento da ferida e ter trocado de roupa, liguei a televisão, estava a dar o jornal da noite, o pivot que apresentava o jornal virou-se para mim e interrompeu por instantes o que estava a dizer, tentou retomar o raciocínio mas era obvio que estava perturbado. Eu já enervado com tudo aquilo grito em voz alta:

- Mas que raio se passa aqui!!!? Não têm uma vida própria, porque carga de água me estão a observar, isto é alguma experiência e eu sou a cobaia, vão-se mas é f#$&!

O pivot tinha enrubescido era notório que tinha ouvido tudo o que tinha acabado de lhe dizer. Até que se decidiu

- Caros telespectadores, vamos ter que interromper este telejornal devido a problemas técnicos esperamos voltar com a maior brevidade possível.

Resolvi desligar o televisor, jantei e fui-me deitar na esperança de na manhã seguinte não ter passado tudo de um pesadelo.

Na manhã seguinte acordei em sobressalto, estava curioso por saber se tudo aquilo era mesmo real ou não. Levantei-me num ápice e liguei a televisão. A pivot estava concentrada a apresentar as notícias, não modificou a expressão nem se atrapalhou a falar, parecia ter voltado tudo à normalidade. Este foi um primeiro sinal que as coisas estavam normais. Faltava ainda perceber se as pessoas e o tempo também estavam normais. Lavei-me, vesti-me e comi apressadamente e fui para a rua, estava um tempo magnífico, nem parecia que tinha havido uma tempestade na véspera. Apanhei o autocarro, as pessoas no seu interior pareciam indiferentes à minha pessoa, senti-me profundamente feliz, era mais uma pessoa anónima, sentei-me e olhei pela janela e apreciei a paisagem como se fosse a primeira vez que a estivesse a ver. Desci do autocarro e caminhei confiante até ao meu emprego. Pelo caminho fui abordado por uma freira com um recipiente para moedas ao pescoço.

- Jovem, veja lá se pode dar uma ajudinha para as missões.

- Deixe lá ver o que é que se pode arranjar, irmã.

Peguei numa moeda de 2 euros e introduzi-a no recipiente

- Obrigado jovem, a sua ajuda foi preciosa…Deus faz de nós seus instrumentos, os seus desígnios são insondáveis e todos têm o seu papel a desempenhar, como se todos fossemos actores num grande filme em que todos os nossos actos têm consequências até mesmo no tempo que vai fazer amanhã!

- Irmã nem sabe como, mas compreendo-a melhor do que imagina…

Esbocei um sorriso mesmo antes de virar costas e enfrentar mais um dia de trabalho.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Continuando pela estrada

A noite está escura. As nuvens tapando o céu e ameaçando chover por entre as árvores negras, como sombras dançando na escuridão. O assento da mota molhado não me incomoda enquanto o levanto para pegar a arma que assenta tão bem na minha mão. A bala fria entra facilmente e deixo a pistola no meu colo enquanto ligo minha companhia.

O ronronar forte do motor desperta-me à medida que o frio desaparece do motor, só as balas continuam frias no bolso do meu casaco enquanto coloco a pistola no seu coldre de cabedal, facilmente tão acessível. As mãos altas no guiador da minha companhia, sentindo as minhas mãos nuas nos punhos, o cabelo que começa a ficar ralo a abanar à medida que me movo.


...A cabana que deixo para trás mergulhada em sangue nunca mais será a mesma, as almas que lá ficaram sempre presas num suplicio que, se depender de mim, nunca acabará. O cheiro da morte ficará em mim como a memória de quem te matou...


Os quilómetros que ficam à minha frente estão marcados pelo sangue que ainda não derramei e iluminados pelas balas que ainda não disparei. O alcatrão que passo marcado pelo pneu molhado e pelas recordações que guardo. A estrada é apenas minha e da minha companhia.


A estrada é um rio negro marcada apenas pelos traços que o pneu pisa. A canção que me acompanha afasta as memórias, uma canção que canto apenas para espantar os sonhos. O tempo que passei no deserto do mundo apenas contribuiu para alimentar a raiva que não deixo que se apodere. A caminho de mais uma cabana para te vingar.


O blusão negro que me envolve confunde-me com a escuridão que abraço, as calças do fato que me vestem são as do fato com que me enterrarão, na minha mão brilha o anel cujos sonhos nunca mais me apanharão...

sexta-feira, outubro 19, 2007

Realidades... opostas

Apertou o nó da gravata e abriu a porta do quarto... Desceu ao primeiro piso do hotel e sentou-se em frente à farta mesa do pequeno almoço. Que dia aquele!

Penteou-se e saiu da casa de banho... Percorreu o corredor escuro da casa e na cozinha preparou meio papo seco com manteiga. Mais um dia aquele...

Cumprimentou o motorista e entrou na viatura nova em direcção à reunião. Abriu a pasta e releu o discurso novamente.

Despediu-se da Dona Laurentina e entrou na carreira em direcção à cidade. Olhou para a mica e certificou-se que tinha trazido os papéis.

Entrou no edíficio à hora marcada e tentou permancer indiferente aos flashes que se desprendiam das máquinas fotográficas. Dirigiu-se ao púlpito indicado por um assessor... fez uma pequena pausa e começou a falar.

Entrou no centro de emprego dois minutos atrasado e fez-se indiferente perante a antipatia do empregado. Subiu ao sexto andar como indicado por ele. Abriu a porta e aguardou que o homem falasse.

- Caros presentes. Este novo empreendimento desta conhecida multinacional, revela-se de extrema importância como todos sabem... Daqui resultarão cerca de mil novos postos de trabalho e permitirá dar um novo fôlego neste importante sector empresarial.

- Senhor Sousa. Este plano que o centro lhe sugeriu, parece não ter surtido efeito... Daqui não resultou nada que alterasse a sua situação e precisamos de tentar mudar algo para o intruduzir novamente no mundo do trabalho.

Dirigiu-se para a sala reservada para o cocktail, foi-lhe entregue em mao uma garrafa de champanhe... com um sorriso para os presentes, soltou a rolha de forma ruidosa e pediu um copo.

Enquanto o funcionário se dirigiu a uma sala contígua com papelada diversa, reparou na janela que se encontrava á frente... com um ar resoluto que ninguém podia ver, abriu-a em silêncio e saltou para o parapeito.

Três breves segundos... O tempo que o líquido demorou a cair no copo, perante o som das palmas ruidosas na sala.

Três angustiantes segundos... O tempo que o corpo demorou a cair na rua, perante o silêncio daquela manhã calma.



Boa noite este é o telejornal! O Primeiro Ministro inaugurou hoje a nova filial da empresa Kronix em Lisboa.

Boa noite eu sou Comandante Gomes... Dona Laurentina lamento informar que o seu filho morreu hoje em Castelo Branco...

sábado, setembro 22, 2007

Futebol

Dentro de quatro linhas jogado
Por duas equipas disputado
Jogar, fintar, passar, marcar
receita para quem quer ganhar

Onde se gastam milhões
Jogo de milhares de opiniões
Num instante tudo muda
e grita-se golo do outro lado da rua
talvez seja essa a razão
para prender todos à televisão

Num relvado ou num pelado
em parquet ou cimento armado
qualquer lugar serve para praticar
e para do último jogo falar
Jogo de casados e solteiros
de artistas e sarrafeiros
sem grandes exibições
perder nem a feijões

Fadado futebol lusitano
do inicio ao fim do ano
sofrido e trabalhado
de talento imigrado
Alegria e desilusão
Assim soa a nossa canção

Futebol é fantasia
que nos faz esquecer o dia-a-dia
Futebol é paixão

impossível conter a emoção

Jantar Tertúlia d´A Revista P.E.N.A.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Um adeus

Um último e suave adeus...

Num mundo cheio de loucura,
De ódios e violência,
De sangue e destruição.
Mil vidas são reduzidas,
Mil esperanças vencidas
Numa guerra sem razão,
Numa doença sem cura
Que mergulha a Terra na demência.

Mais uma jovem vida... ceifada
Pela loucura deste mundo.
Para os amigos a saudade,
Para os familiares a consternação,
Para o ser anónimo a desilusão
Por mais uma acto de insanidade,
Que numa manhã ensaguentada,
Lançou um silêncio profundo.

Um pouco de justiça, meu Deus...


"À memória de Maria José Maurício, brutalmente assassinada na manhã de 18 de Setembro de 2007 em Coimbra, e a todas as vítimas inocentes da loucura deste mundo."

quinta-feira, setembro 13, 2007

P. E. N. A.

Éramos dois sonhadores...
A música naquele entardecer...
E num momento de inspiração
Nasce uma nova canção,
Esquecem-se todas as dores
E algo mágico começa a aparecer...

Pensamentos a fluir
De gente tão normal.
Jovens simples e felizes,
Na escrita aprendizes.
Mas que fizeram surgir
Algo muito original.

Ideias, caneta e papel,
Um computador funcional,
Jacto de tinta, impressão,
Uma tesoura sempre á mão,
Um pedaço de cordel...
Ficou sensacional!

Fiéis e dedicados leitores.
Um desejo de expansão,
Penosos rochedos a escalar,
Mas com vontade de triunfar,
Jovens fortes e sonhadores
Continuaram a missão.

Um olhar cibernético,
Uma crença a alastrar...
À distância de um teclado,
Novo objectivo alcançado.
Textos em ritmo frenético,
Neste novo patamar.

Agora felizes, mas sempre a sonhar...
A nossa P. E. N. A. vamos celebrar!

domingo, setembro 02, 2007

.........

Que dirão aqueles que praguejam?
Que dirão vós que me alvitram...
Estalinhos sanguinários nas minhas veias....

Profundas veias...
Que um dia
Devido às imensas teias
Secarão sentidas...

Qual palhaço que ri de mim....
Vós que me criticais...
Olhai para vós e avaliai-vos

Cromo?Pateta?
Não me substimais,
Assim como não vos substimo,
Sim posso ser careta...

Entretanto....olhai-vos
E dizei-me:
Quando foi a última vez que vos sentistes vivos?
One more time again,
My red rage claims...
Staying in vain..
Don't tell me more my name...

Rage, brave and STAGE....

One hundred gringos in my soul...
Stolen from you
Be your tool...?

Can't stand this pain...
I'm a crazy strange to you...
How could say my name?

Rage, brave and STAGE....

sexta-feira, agosto 31, 2007

O Poema deles

Este poema é dedicado aos 4 anos do Blog d' A Revista P.E.N.A. Quatro anos de puro prazer literário. Para quebrar a rotina de reflexão, escrevo este poema dedicado às milhares de ratoeiras e tentativas que todos nós já tentamos pregar uns aos outros: "Eles vieram?". Por tudo isso, "O Poema deles", dos gajos sem juízo e enlouquecidos, de todos nós. Bem haja...

Todos perguntam por eles,
Numa rotineira paixão.
Não há saída ou diversão,
Que arrefeça essa tentação.

Soa sempre a companheirismo,
Na igreja ou no campismo,
Num bar ou a jantar,
Todos gostam de treinar.

Se és novo camarada,
E o tempo não pára,
Alguém te tentará a piada,
Para estimular sua tara.
Não tenho a certeza como cheguei aqui... A minha cabeça dói-me e não tenho uma noite decente de sono à semanas. Não era suposto ser assim... Suponho que sempre foi.

Sempre foi aqui que estive. Sempre será aqui que tudo se passa...
- Qual a tua fraqueza? - pergunta ela

A minha fraqueza... Como não soubesses. Sempre soubeste tudo sobre mim, sabes que eu hesito na resposta, sabes que eu sei mas não consigo dizer, como se o sair da minha cabeça para a realidade deste sitio fosse tornar a minha fraqueza mais real.

- A minha fraqueza és tu... - Sempre foste, sempre o soubeste, sempre... A minha cabeça dói mais uma vez e não quero que seja assim... Não quero perder estes pensamentos. Quero ser fraco para me consolares.

- A minha fraqueza é o amor... - Detesto como perco o controlo, como aquilo que guardo cá dentro de mim sai tão facilmente e como perco meu auto-respeito assim. Quero ser forte.

- Qual a tua fraqueza? - pergunta ela enquanto seus olhos vêem através dos meus. Enquanto morde o lábio à medida que vê a minha alma. Não fujo, minha cabeça dói-me demasiado para isso enquanto o meu controlo jaz em ruinas a seus pés.

- Tu interesssas-me... - Estas palavras atravessam-me assim ditas, ela não vê o meu amor a seus pés, não vê que me tortura enquanto olho nos seus olhos à espera de ver o que ela vê... à espera de sentir que qualquer fraqueza que possa ter é perdoada.

Só quero amar... ser amado é algo para o qual não tenho controlo, é algo que quero apenas quando passar esta dor de cabeça, apenas quando tiver conseguido dormir.

...

Acordo e sento-me... Ela acende a luz e pergunta que se passou... Nada, volta a dormir, tenho uma dor de cabeça...