sexta-feira, setembro 26, 2008

Soneto

Tem livros e revistas,

Tem comida e bebida,

Tem poetas e artistas,

E também tem muita vida!

 

Tem ouvintes e leitores:

Uns activos… Outros passivos…

Já se ouvem os rumores,

Mas não há lugares cativos!

 

D’A P.E.N.A. tinha de ser,

Esta festa tão animada!

Pois sete anos vai fazer!

 

Traz de lá a tua amada,

Venham somar-se à agitação!

Não se esqueçam dum livro na mão…

quinta-feira, setembro 25, 2008

Tens o resto da tarde para sair daí

Gosto de um guarda-chuva grande, daqueles com um bico. E de ir para à praia com frio. Quando a chuva acaba dá para escrever o teu nome na areia molhada. Lembro-me da extrema violência que me invadia quando o fazia. Tão bem que as minhas mãos não a conseguiam afugentar. Os dedos tão gelados e tão fortes.
Nunca medi tanto as palavras, não fosse alguma matar-me de arrependimento, mas a verdade é que vi sempre o meu nome, por aí, à procura do teu. Triste, cabisbaixo, taciturno, em penitência. Quando somos novos, mostramos a paixão com orgulho no meio da rua, no autocarro, na sala de aula. Mais tarde, vivemos a paixão errada no sítio certo à hora errada. Problemas de tempo. E eu gosto de me rever todos os dias a polir as horas em busca da perfeição. À procura de ti. E só vejo a minha alma a trair-me com as tuas recordações. Já dei uma parte de mim para te ter. A mais valiosa. Só que, às vezes, sinto-me forte, capaz de enfrentar o mundo nesta minha condição de mutilada; noutras cedo ao pânico.
Todas as pessoas têm dentro terrenos baldios. Espaços sem dono, vazios e extremamente reveladores. Como as caixas de sapatos - não pelo que são, mas pelo que conseguimos lá guardar. É aí que moram bilhetes com apenas um verso, cartões com despedidas, rosas secas, fotografias, cartas por enviar. As primeiras lágrimas, os primeiros sonhos de gente grande e a inocência que, a páginas tantas, nos traiu.
Todas as histórias belíssimas são dramáticas. A nossa não fugiu à regra, fugiu-nos a nós. Para bem longe. E o problema é que nunca fizémos amor.
O grande trunfo do Amor foi convencer as pessoas que não mata. Mas, mata e cega e eu preciso que tu me cegues. De alguém que me prive da realidade e me faça sonhar. Tens o resto da tarde para sair daí.

Vanessa Pelerigo

terça-feira, setembro 23, 2008

Foto Vencedora - II Tertulia d' A Revista P.E.N.A.

A fotografia vencedora:
Obrigado a todos pela colaboração.

Nos próximos dias será apresentado o flyer promocional, fiquem atentos!!

sexta-feira, setembro 19, 2008

Votação de Fotos - II Tertulia d' A Revista P.E.N.A.

Boas,

Recebi poucas fotos (6 a contar com as minhas) o que me surpreendeu pela negativa, esperava mais alguma receptividade...
Como o prometido é devido vamos submeter as fotos a votação.

As regras são: os Autores não podem votar na deles próprios; devem atribuir um valor de 1 a 4, sendo que o 4 é a nota mais alta; A votação terminará dia 22 deste mês; só serão validados votos que sejam assinados e reconhecíveis.

Fotos do Artur (A e B)



Fotos André (C e D)

Leonardo (E e F)

Boa votação!!!

segunda-feira, setembro 15, 2008

Uma estrela

Tatuei uma estrela no ombro, na esperança de inventar a eternidade na minha pele. É quase sempre assim: deixo-me levar pelas dores que me pontuam a vida e pelos sonhos imperfeitos. A definhar de mocidade, nos restos da noite. Ponho-me a olhar para fotografias à espera de qualquer coisa conhecida como o crepitar das chamas na noite do mundo. Uma voz a balbuciar-me o teu cheiro. Rostos a arderem devagar na minha memória cheia de saudade do que não foi. Se te expulso dela, então não me restará mais nada.
É inútil dizer que o tempo tudo cura. Há dias em que se esquece dos sulcos cravados no coração, das cicatrizes no rosto da alma, mas depressa faz frente a uma esperança impossível e tudo acende. Tudo desperta, até a ave magoada. E eu, sem conseguir respirar. Um aperto que me carcome os sentidos.
O que me falta é outra coisa qualquer. Espero. Respiro. Apenas um ranger de dentes na voz exaltada do amor. Um amor quase sempre a sucumbir no teu regaço. Gosto de ti, sem conseguir explicar porque ainda gosto e porque me recuso a deixar de fazê-lo. Foi sem querer que me comovi. Mas, eu sabia que isto não podia durar para sempre. O Inverno sempre arranja maneira de se anunciar nos meus olhos. E um silêncio para poder gritar.
Não consigo dormir e acabo por me desvelar na hesitação da escrita.

Vanessa Pelerigo

terça-feira, setembro 02, 2008

Quando...

E quando queria saborear
Esse teu rosto fechado,
Rasgava-te os lábios
Com meus dentes afiados.

E quando queria rasgar
Esses teus lábios encarnados,
Beijava-te de paixão
Enquanto rebolávamos no chão.

E quando quis sentir
Esse teu corpo perfeito,
Abri com as garras
Esse teu branco peito.

E quando a paixão
Foi embora de meu corpo
Atirei-me com teu cadáver
Para o fim do rio da dor...

quinta-feira, agosto 28, 2008

Ombro

No frio do amanhecer
Uma insónia te domina.
Algo te faz tremer
Assustada, como uma menina.
[Sossega, meu amor…

Um suspiro leve e alterado
Que me desperta.
Um murmúrio baixo e sobressaltado
Que me aperta.
[Aproxima-te, meu amor…

Aconchega-te no meu ombro
Enquanto te beijo o rosto.
Esquece esse teu assombro
Que o sol ainda está posto.
[Dorme, meu amor…

terça-feira, agosto 05, 2008

A Música (descrição de 4 minutos de prazer)

Som....
Uma guitarra electrizada.
Ritmo...
Uma bateria endiabrada.

Solo...
Respiração de emoção. 
Voz...
Uma magia teatral.

Música...
Abordagem espiritual.
Refrão...
O momento de reflexão.

Sinfonia...
Pura acção dos sentidos.
Harmonia...
Descanso meus ouvidos.

quinta-feira, julho 24, 2008

Lamento

Preenche-me o vazio que há na minha alma… Nesta noite quente em que a Lua me roubou as Estrelas…

Lamento desiludir-te, mas não sou Cyrano D’Bergerac… Não tenho, ao contrário dele, jeito com a espada e muito menos com a pena…

Sou apenas um homem… Este homem, com um pouco de cientista, outro tanto de artista e nada de poeta… A única poesia em mim existe no teu olhar, no teu sorriso, nas tuas mãos… No teu corpo dançando ao vento coberto por um manto de seda! O teu sorriso não é mais que uma forma na tua cara! Eu, vejo-o perfeito… Assim como vejo a ondulação do teu ventre…

Lamento desiludir-te, mas não sou Dorian Gray… Não tenho, ao contrário dele, uma beleza irrepreensível e muito menos guardo em mim o segredo da eterna juventude…

Sou apenas este que te olha com ternura… Possuo em mim apenas a vontade… O desejo de ser livre como o vento… De ir contigo… De Ser contigo… De deixar este garfo e este copo de uma qualquer bebida fermentada e sair daqui! Ir até onde Selene não nos roube as estrelas… Onde não faça tanto calor e possa ouvir o bater do teu coração por entre a ondulação do mar…

Lamento desiludir-te, mas não sou Romeu… Não sou, ao contrário dele, puro Amor, e muito menos seria capaz de morrer por ti…

Sou apenas alguém, que por um golpe de sorte ou azar se apaixonou por ti naquela praia! Sou apenas este alguém, que um dia ousou sonhar contigo! Ainda recordo o sabor da tua boca, mas já não sinto o bater do teu coração…

Lamento desiludir-te, mas não sou Hércules… Não sou, ao contrário dele, filho de um deus e muito menos tenho a sua Força…

Sou apenas mais um no meio da multidão… Certamente vês em mim o nada que sou…
Sou apenas filho do pó que cobre o asfalto e que um dia quis ser vento… A minha única tarefa é esperar pelo próximo carro e tentar voar um pouco mais…

Lamento desiludir-te, mas não sou O Rei Artur… Não tenho, ao contrário dele, o coração cheio de Virtude e muito menos a sua Bravura…

Sou apenas um homem com todos os defeitos inerentes e pouca ou nenhuma virtude… Com uma Vontade que nem o próprio corpo respeita!

Lamento desiludir-te, mas não sou Tom Swayer… Não sou, ao contrário dele, livre e muito menos tenho a ingenuidade de uma criança…

Sou apenas uma lembrança do jovem que fui um dia…. Como o Leão do jardim zoológico! E, que mais é a lembrança, senão o medo de esquecer? Sou apenas um homem com medo de esquecer o jovem que fui um dia… Com medo de esquecer a criança que queria mudar o Mundo!

Lamento desiludir-te, mas sou apenas este homem!

quarta-feira, julho 16, 2008

Tributo ao soldado perdido

Soldado que velas os mortos
num campo de batalha esquecido
Soldado que proteges os vivos
num campo de batalha afastado
Soldado que esqueces os amigos
num campo de batalha isolado
Soldado desconhecido
que morres sozinho
num campo, de teu sangue, encarnado

quarta-feira, julho 09, 2008

Para a Bruxa Encornada

Mel que escorrega viscoso pela alva pele
da Usina que te aquece o corpo quando o arqueias
quando te percorrem essas mãos delicadas
quando mergulha, essa tua musa, por entre as tuas pernas
donde brota esse mel...

Mato espesso que outrora era
aparado à força de dentadas violentas
que essa tua amiga te dava
quando nas costas cravava profundas
garras afiadas em tons de verniz escarlate.

Armações, dos antigos xamãs europeus
Cornos ornamentais pendurados nas casas das bruxas
Aquelas que comiam os filhos que não querias ter
Aquelas que te conduziram até onde não sabias ir
Aquelas que te percorreram o corpo, te furaram vezes e vezes sem conta
Com a sua língua afiada
Aquela outra que não vias na tua cama deitada
Que te deixou hoje uma mulher frustrada
E dos filhos dele será sempre a mãe amada...

sábado, junho 07, 2008

Levante

(ou Visão em Ti)

Visão de Ti:

Sinto o teu perfil com o olhar
Vejo a tua forma com as mãos
(beijo a tua forma com as minhas mãos!)
Deixo-me percorrer o teu perfil enquanto a minha mente se perde nos teus olhos
(desenho-te com as minhas mãos enquanto me prendo ao teu olhar!)
Vejo a tua mão sobre a minha
(beijo a tua mão com a minha!)
Sinto o rubor na tua face, e oiço os teus lábios húmidos a esperar um beijo… A esperar este beijo, que não te dou por timidez… ou pura estupidez!
Sinto o calor sufocante da paixão adolescente que nos aproxima… Que nos prende um ao outro, que não nos deixa sair, e nos impede de ficar!
Penso as mil e uma palavras que quero dizer-te, mas aquele nó… Este nó no estômago impede-me até de as sussurrar!
O pânico sufoca-me… Sufoca-nos! É um remoinho de paixão!
O vento acaricia o teu cabelo e desenha as tuas formas!
Como desejo ser esse vento… A abraçar-te eternamente!
(o vento, no seu abraço eterno, modela-se a ti… flúi por ti… quero ser esse abraço!)
Quero viver em ti… quero libertar-me destas palavras… Sussurrar-te ao ouvido mil baboseiras, que talvez não oiças…
(quero libertar-nos deste pânico sufocante… Talvez este vento guie as minhas palavras até aos teus ouvidos… talvez as oiças finalmente!)

Visão sem Ti:

O teu perfume inunda os corredores… As tuas cores espalham-se por todo o lado… Sinto a tua presença e percorro estes corredores à tua procura… À minha procura…
(cheiro a tua presença… percorro os corredores deste manicómio como o louco que sou… procuro-te em vão nesta noite gelada…)
A imagem da tua mão na minha inunda-me a mente… A visão daquele beijo persegue-me até à loucura…
DEIXA-ME VOAR! DEIXA-ME VOAR! DEIXA-ME VOAR!
Liberta-me desta prisão… Sê a Estrela do Norte na minha noite escura!
(perdido, busco em vão o teu olhar… persigo a tua presença, o teu calor!)
Sinto a tua presença tão próxima… o coração atropela-me o pensamento…
Umas mãos trémulas seguram um coração acelerado…
(as minhas mãos seguram-me o coração perdido!)
Tenho medo… Sinto pavor de não voltar a sentir-te…
(talvez nada disto seja verdade… talvez seja tudo imaginação… talvez nada tenha acontecido… talvez te tenha criado eu!)
E tu? Pensas em mim agora? Onde estás? Sentes as nossas almas a voar junto daquela estrela?
Eu não sei se sinto… Já não sei o que sinto…
(saudade?)

Nada faz sentido aqui… Sem Ti!

Visão em Ti:

Quero voar contigo….
Quero sentir o calor da fusão das nossas almas…
(sentir o elixir da vida a percorrer as artérias)
Sentir-nos!

Um dia, quando o Sol nascer, em uma qualquer praia do mediterrâneo
(um dia, se enquanto o sol nasce nesta praia do mediterrâneo!)
O Levante acariciar o teu cabelo
(o levante bailar no teu cabelo)
A tua mão beijar a minha
(a tua alma beijar a minha)
Sentir-te vibrar quando as nossas mãos se toquem…
(sentir o pulsar do teu coração quando as nossas mãos se beijem!)
Os nossos olhos perdidos, pela timidez que nos impede de olhar directamente o outro… Talvez vendo aquela gaivota que sobe e desce na linha do horizonte…
(talvez imaginado o nosso beijo)

Um dia… Apaixono-me por ti
(nesse dia… transformo-me neste vento e prendo-me a ti num abraço eterno!)

sexta-feira, maio 09, 2008

Horas mortas

Refugio-me nos credos de outrora,
Fugindo ao presente que me persegue
Repetindo gestos, retomando acções
As horas mortas, As horas tristes
E no amanhã que se avizinha
Fascinam-me os mistérios
Do tempo que já passou
As horas mortas, As horas tristes
E no exercício da palavra esquecida
Encontro em mim o que já fui
O que sou e o que procuro ser
As horas mortas, As horas tristes
E neste tempo tão gasto
Pleno de escuro e de medo
O passo em frente é sempre o errado
As horas mortas, As horas tristes
E não há sentido
E não há razão
Encerrado
N’As horas mortas, N’As horas tristes

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segunda-feira, abril 28, 2008

Guerra de Irmãos

Uma névoa fria banhava aquela manhã. No alto do monte, cuja relva ia perdendo os tons rubros da batalha que aí se desenrolara, encontraram-se finalmente, após todos estes anos. Olharam-se olhos nos olhos e o que viram nos do outro foi uma escuridão imensa. Olharam-se como os irmãos que eram. Como irmãos que não se falavam havia já muito tempo, demasiado tempo... Tempo em que haviam deixado que os seus exércitos se travassem de razões, um pouco por toda a parte, por um motivo que já nem era claro nem para um, nem para o outro. Ao seu redor os corvos e as aves de rapina banqueteavam-se! Parecia impossível, mas apenas restavam dois. Naquele campo, onde durante uma semana homens lutaram, homens morreram, homens entraram para a história, apenas dois restavam, eles os dois, que haviam começado aquela guerra, seriam também quem acabaria finalmente com ela.

Soprou um vento frio que arrastou os largos cabelos que ambos possuiam. Não diziam nada, olhavam-se. Não sabiam bem o que procurar na cara do outro. Podia ser que se lessem, podia ser que travassem um duelo mental, podia ser que procurassem perdão.
Não há perdão, não houve, nem nunca haverá à face da Terra quem possa perdoar os dois irmãos. Só Deus, se algum dia diante d’Ele se encontrarem, os poderá perdoar. As histórias que se contam é que o motivo pelo qual a guerra durou tanto tempo é porque o próprio Diabo os expulsou do Inferno. Ninguém diria no entanto que se enfrentavam os dois seres mais malévolos que já caminharam à face da Terra. Ambos pareciam jovens, mas cansados. Via-se que o peso de muitas batalhas lhes dobrava as costas. Via-se no seu ar muitas almas que clamavam por vingança.

Um clamor surgiu então nesse monte. Nos campos em redor, os mortos pareceram levantar-se, as suas armaduras quebradas a tilintar, os seus ossos pendurados e inertes mas as suas almas a clamarem por paz. Ambos os irmão souberam o que os mortos pediam e ambos viram aí o prenúncio do que aconteceria... perceberam então que, todos estes anos, mais não fizeram que adiar o inevitável. Teriam de ser eles a acabar com o derramamento de sangue. A altura de mandar outros para a chacina havia terminado...

Começou o da armadura negra por retirar a mesma. Ficou em tronco nú, segurando apenas uma espada larga, feita mais para ser usada como moca e como espeto do que objecto de corte. O da armadura branca pareceu anuir ao desafio e retirou a sua armadura e ficou a segurar uma espada em tudo idêntica à do seu irmão. Olharam-se mais uma vez longamente. Não havia entre eles receio, havia sim algo que os impedia de se lançarem um contra o outro. Finalmente, depois de tantos rios de sangue derramados perceberam que matar só era fácil quando não é o nosso sangue o derramado. Avançou então um, difícil dizer qual no meio da neblina e sem as armaduras que os identificavam, e o outro respondeu com um passo igualmente seguro em frente.

O vento era agora mais forte e trazia as vozes dos milhares de mortos que clamavam por vingança, já nenhum defendia um dos irmão, mas sim a morte de ambos! Ambos sentiam um frio maior do que aquele que lhes arrepiava a pele. Naquele momento era algo maior que eles que ali estava em questão e cada um lutava contra os milhares de mortos que causara no exército do outro. Apenas eles haviam sobrevivido, não porque fossem generais que não lutam, isso não, ambos investiam a pé, na frente dos seus exércitos, não, a explicação era outra... Ambos haviam sido treinados pelo mesmo mestre, o maior general do seu tempo e ambos haviam sido o seu maior discípulo. Dominavam todas as armas conhecidas como nenhum homem do seu tempo, mas aquelas espadas eram a fonte de toda a discórdia. Ambas possuiam poderes mágicos, que faziam do seu portador invencível. Ciente de que tal poder nas mãos de um só homem seria perigoso para todos os outros, o general havia oferecido uma a cada um dos seus discípulos. Não tardou que cada um desejasse para si a espada do outro e daí até à Guerra dos Irmãos foi um passo.

Muitos anos haviam passado e ambos haviam liderado os seus exércitos, recrutados com promessas de glória e fortuna, mas nunca revelando o poder das espadas aos seus soldados ou generais, muitas gerações de homens passaram e a Guerra dos Irmãos tornou-se na Guerra Eterna, travada entre exércitos maiores do que a imaginação consegue visualizar e sempre com duas figuras eternas a liderar. Dizia-se que era uma luta entre o Bem e o Mal, com o Mal a ser sempre o irmão opositor. Havia lendas construídas em redor de batalhas lendárias daquela guerra, mas aquela, no Monte Nodegamra seria a última, as espadas invencíveis conheceriam hoje a derrota.
À medida que se digladiavam o cansaço apoderava-se de ambos por igual medida. A cada um a espada ia sugando o que lhe restava de vida. Continuaram naquela dança macabra por dias e dias até que finalmente e em simultâneo, tolhidos pelo cansaço, tiveram o mesmo movimento em falso, rapidamente aproveitado pelo irmão para enterrar a espada no seu coração...

terça-feira, fevereiro 26, 2008

O contrário de mim não existe

há todo um fogo imenso dentro do trovão,
um coração escondido nestas noites que inundam a pele,
sem grito,
a morrer de ti

só luz nacarada
nas ruas desertas do meu rosto,
na pressa dos dedos.

é impossível não tentar dizer-te
tenho medo
medo que me persigas a vida inteira
na tela do teu colo

o corpo à escuta como algo eterno
numa rotina sem remédio

é o passo em falta que demora a tua fuga,
o traçado dos poemas
a tomarem forma
sem bojo

os dias não avançam,
sangram
só doem

Vanessa Pelerigo

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

HOJE À NOITE

Hoje à noite vi-te no teu quarto.
Estavas só, sem ninguém...
Para lá de ti só eu,
Com os meus olhos, a ver-te ao longe.
Percorri as tuas costas enquanto
Te despias com desdém.
Queria ter-te comigo num quarto meu
Onde a distância me deixasse abraçar-te.

Hoje à noite vou sonhar contigo.
Vou-te ter aqui, abraçar teu corpo
branco e robusto, cheirar os teus cabelos perfumados,
Amarra-te à cama e ficar a olhar-te.

Hoje à noite vais ser minha!
Vou-te possuir de todas as formas,
Seremos pela noite dois animais com o cio.

Hoje à noite será a noite em que venço esta distância!

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Estranha cidade...

Depois de um voo atribulado, devido ao mau tempo que se fazia sentir em toda a região, tinha chegado finalmente à cidade que me iria acolher nos próximos dias enquanto participava num congresso de história medieval. O terminal de aeroporto era bastante amplo e apresentava diversas indicações em inglês sobre o câmbio para a moeda local, tempo que se fazia sentir (bem frio e chuvoso por sinal), indicações sobre os transportes que faziam a ligação do aeroporto ao centro da cidade, entre outras indicações úteis para o viajante desprevenido. Depois de recolher a bagagem dirigi-me à zona de câmbios do aeroporto onde fui atendido por uma funcionária:

- I wanted to change 200 euros what is the changing rate?

- Can’t you see it on the screen?!

- It’s your job telling me the changing rate; if you can’t do it pick another job.

Depois de quase fazer um requerimento por escrito a apresentar queixa da funcionária lá consegui que me trocasse o dinheiro que necessitava. Dirigi-me para o terminal de táxis esperando que esta primeira impressão não se confirmasse ao longo a minha estadia. Mal cheguei ao terminal apanhei o primeiro táxi que apareceu

- Hotel Panorama please

Era notório que o taxista não dominava bem a língua inglesa mas havia compreendido o meu pedido que era o que interessava. Dirigíamo-nos para a cidade propriamente dita visto o aeroporto ficar nas redondezas da mesma, a cidade era esplendorosa onde se destacava uma mistura de edifícios do antigo regime comunista, grandiosas catedrais, castelos e museus. As ruas estavam perfeitamente alinhadas umas com as outras e a simetria e consonância entre os edifícios davam à cidade um aspecto geométrico, artificial, como se de uma maqueta se tratasse. Enquanto me admirava com o aspecto geral da cidade não pude deixar de notar que o taxista que me conduzia estava bastante concentrado naquilo que estava a fazer, e para além disso gesticulava com todo e qualquer taxista que lhe aparecesse pela frente, como se fosse algum código secreto entre eles, se umas vezes acenava, outras vezes mandava avançar ou parar como se de um policia sinaleiro se tratasse, o mais estranho é que os outros taxistas se comportavam da mesma maneira, que estranho todo aquele panorama! Tínhamos chegado ao hotel, era um hotel relativamente recente com um hall de entrada amplo, dirigi-me à recepção onde se encontrava um homem bastante delicado, para não dizer efeminado, que me atendeu:

- Good afternoon, I booked a room, my name is Pedro Alcântara.

- Let me check the files….check in confirmed, your room is the 221, our team wish you a pleasant stay…just one more thing, you can also book here the return flight if you wish.

- I’ve already booked the return flight; just don’t forget to add me to the wake up list

- Ok

Subi até ao meu quarto, era pequeno mas com tudo o que para poder passar ali alguns dias. Arrumei todos os meus pertences, tomei um banho e resolvi ir jantar fora do hotel até para conhecer um pouco melhor aquela estranha cidade. Ao sair para o exterior não pude deixar de notar que o frio era cortante, de modo que me dirigi com passo estugado até à avenida principal, onde estavam alguns restaurantes, entrei num bastante castiço com mesas que mais faziam lembrar enormes troncos de árvore cortados longitudinalmente onde me sentei e fui atendido por uma bela empregada, que me cumprimentou na sua língua

- dobrá nocní

- Do you speak english?

- A little bit

- I want a Svikova and a krusovice beer. Did i pronounce it correctly?

- You did it well but we say Svicková

- I won’t miss it next time

Comi bem e bebi ainda melhor, antes de pagar a minha conta fui à casa de banho do restaurante, era um bocado estranha pois para fazer o que mais ninguém podia fazer por mim tinha duas opções, tinha um compartimento com uma porta que isolava todo o cubículo; e tinha outro cuja porta que ficava a meia altura e que também tinha abertura por baixo. Por que carga de água havia duas portas tão diferentes na mesma casa de banho? Seriam duas casas de banho, uma para pessoas que requerem maior privacidade e outra para pessoas menos recatadas…deixei-me de pensamentos profundos, afinal já tinha ultrapassado a minha cota de álcool. Paguei a minha conta e saí. O frio tinha-se acentuado, mesmo para quem tinha comido e bebido bem, de modo que não tive outra alternativa senão acelerar o passo, aquela era uma zona de bares e restaurantes assim que havia uma certa animação apesar do frio, reparei que em todos os bares e night-clubs por onde passava havia uma espécie de angariadores de clientes e mais estranho ainda, e sem ser racista, eram todos pretos, e eu que desde que chegara à cidade não me lembrava de ter visto algum, pelo menos durante o dia, parece que se tinham reunido todos àquela hora naquele local, resolvi tirar uma foto daquele cenário estranho. Estava a começar a achar aquela cidade mais estranha do que seria de esperar para uma cidade estrangeira.

No dia seguinte levantei-me cedo, afinal a conferência a que me tinha proposto participar iniciava-se praticamente ainda de madrugada. Saí do hotel, à entrada estava um grupo de policias a multar um carro que estava numa posição bizarra: primeiro estava numa zona para peões bastante afastado da estrada propriamente dita, em segundo o carro estava numa posição pouco ortodoxa, apoiado exclusivamente na duas rodas de um dos lados, e com as restantes apoiadas sobre um pequeno parapeito, os polícias tiravam fotos daquele cenário quando pararam de o fazer para olhar para mim com ar inquisidor como se fosse eu o dono daquele carro, resolvi não pensar mais no assunto e concentrar-me na minha palestra agendada para aquele dia. Cheguei ao centro de conferências, na universidade local ainda a tempo das primeiras apresentações, o ambiente estava ao rubro pois ali estava em causa a preponderância que cada país tinha tido na idade média, assim não era de estranhar que o período de discussão e dúvidas fosse mais extenso do que a exposição propriamente dita. A minha palestra era “Inquisição, uma herança actual” aproveitei para improvisar um pouco sobre aquela terra e sobre a herança do antigo regime comunista daquele país, obviamente os estudiosos locais não gostaram da minha intervenção e aproveitaram para criticar o comportamento da Inquisição em Portugal, obviamente toquei-lhes no nervo, e as consequências foram imprevisíveis, pois este é um povo que não esquece… Após alguma discussão acesa a situação pareceu acalmar e a normalidade aparentemente voltou ao anfiteatro. As palestras foram-se seguindo dentro da normalidade, no fim pude dar-me satisfeito com a minha intervenção e com aquilo que havia aprendido. Terminadas as conferências, voltei para o hotel, desta vez trovejava e a meio caminho do hotel começou a chover abundantemente tal como se me fosse cair o céu em cima. Cheguei ao hotel completamente encharcado, no preciso momento em que havia cessado de chover, e eu lamentava-me para com os meus botões do desafortunado que havia sido.

Depois de um banho quente e ter trocado de roupa dirigi-me para o restaurante do hotel, estava apinhado de gente, algumas caras tinha-as visto na conferência. Servi-me do buffet com comida de todo o mundo desde a famosa paelha espanhola, passando pelo porco alemão, ou os bifes de carne picada russos, sem esquecer o chapati indiano. Servi-me de um pouco de cada coisa e sentei-me na minha mesa. Estava um grupo a falar atrás de mim, falavam todos em inglês mas com pronúncias provenientes de diversas partes do globo e estavam a ter uma conversa bastante estranha:

- …he’s Portuguese, is an historian and since he arrive this city is getting trouble in each corner he passes…

Fiquei perturbado com aquelas palavras, as semelhanças comigo eram evidentes, mas não era possível, não os conhecia de parte alguma nem sequer de os ver nas conferências de hoje, tinha de ser outra pessoa. Terminei de jantar e fui à recepção onde estava o mesmo homem efeminado que havia encontrado na chegada.

- Good evening I wanted to use internet.

- Ok, you can use the pc in that corner

E apontou-me para um computador no outro extremo do hall de entrada

- It’s 0.75 cents each 10 minutes, you need to insert a coin in the machine near the pc

- Ok, thanks

Fui para consultar o meu e-mail, estava à espera de receber alguns mails importantes da faculdade e não podia esperar mais. Inseri a moeda e abri o browser, fui para a minha conta de e-mail e quando ia para a minha caixa de entrada, retrocedia na página para a que tinha estado anteriormente. Tentei uma e outra vez sempre com o mesmo resultado. Consultei as minhas outras duas contas de e-mail, e precisamente quando estava para entrar na minha caixa de entrada, o browser recuava para a página anterior. Era impossível todas as minhas contas de e-mail terem o mesmo problema, voltar para trás precisamente quando estava para entrar na caixa de correio. Podia alguém estar a controlar as páginas que ia abrindo?! Nunca tinha visto tal coisa, mas já estava num estado em que desconfiava de tudo e todos. Olhei para o recepcionista e efectivamente estava ao computador, levantei-me rapidamente e dirigi-me a ele. Quando me viu aproximar ficou meio atrapalhado.

- I’ve a problem using the browser; i can’t access my e-mail accounts, and all of them have the same problem, when I try to go to the inbox it returns to the previous page.

- Let me try

O funcionário dirigiu-se ao computador e tentou entrar na sua conta de e-mail, e conseguiu.

- I can’t see any problem with the pc.

- Just a moment let me try again

Enquanto o recepcionista estava comigo consegui abrir a minha caixa de correio

- Now i can open my inbox, strange…

Depois de consultar o meu mail, resolvi ir para o meu quarto. Tinha sido um dia estranho, mais um desde que chegara àquelas paragens, e por muito que me tentasse abstrair, vinha-me sempre ao pensamento aquelas estranhas palavras no restaurante ou o episódio da Internet, para não falar em todos os outros pequenos detalhes que faziam daquele lugar um sitio bizarro. Praticamente não consegui pregar olho toda a noite, noite de trovoada incessante.

Levantei-me de manhã cedo, aquele era o último dia conferências, que hoje recomeçavam depois de almoço, aproveitei a manhã para trocar mais alguns euros e decidi fazê-lo fora do hotel, em busca de uma taxa de câmbio mais baixa e também ficar a conhecer melhor a cidade, também o banco mais próximo não poderia estar muito longe. Procurei pessoas mais novas pois em principio essas saberiam falar o inglês. Passei por uma bela jovem e perguntei:

- Where is the closest bank?

- I don’t know, sorry

Continuei em direcção a um ponto central pois ai teria mais hipóteses de encontrar o almejado banco, pelo caminho encontrei outro jovem ao qual lhe perguntei:

- Where is the closest bank?

- I don´t know

Parecia ser uma resposta recorrente, mas será que toda a gente desta cidade tinha o dinheiro debaixo do colchão?! Tentei perguntar mais algumas vezes mas a resposta foi sempre a mesma, já me sentia como se fosse um pedinte a mendigar por uma indicação que teimava em não chegar, a propósito de pedintes, todos os que havia visto tinham o mesmo comportamento, ajoelhavam-se de cabeça baixa em frente a um chapéu ou algo que lhe valesse, onde recebiam a esmola; era uma cidade muito uniforme em termos de comportamentos, não havia grande margem para a diferença, e eu realmente ali sentia-me um estrangeiro. Depois de andar uma hora à procura sem sucesso decidi voltar ao hotel, e pagar uma taxa mais elevada. De regresso ao hotel, parecia ver no semblante das pessoas que se cruzavam comigo um sorriso de troça. Seria impressão minha pelo cansaço acumulado e pelo acumular de situações estranhas que havia vivido desde que chegara àquela cidade.

Cheguei ao hotel e na recepção fui ver se me trocavam 70 euros, seria o que precisava até sair daquele país. Mas a resposta foi contundente

- We don’t have the exchange service available because of technical problems

Realmente estava atado de pés e mãos, só com euros no bolso não me iria safar naquele país. Resolvi não pensar muito mais no assunto, não ia adiantar nada. Dirigi-me ao centro de conferências e procurei alguém que estivesse interessado em trocar alguns euros, mas de todos a resposta foi a mesma.

-“I didn’t brought the wallet”

Aparentemente ninguém queria colaborar comigo e toda aquela maré de infortúnio tinha começado depois da minha intervenção no dia anterior na conferência.

No final das conferências voltei para o hotel, jantei qualquer coisa e fui para o quarto arrumar as coisas a fim de no dia seguinte de manhã regressar a Portugal. Só tinha euros no bolso, o positivo é que podia pagar a conta do hotel em euros, mas o transporte para me levar ao aeroporto é que forçosamente teria que pagar com a moeda daquele pais, o aeroporto distava do hotel mais de 13 Km’s.

Na manhã do dia seguinte, depois de tomar o pequeno-almoço, dirigi-me à recepção a fim de ver se o serviço de câmbios já estaria operacional. Atendeu-me o mesmo recepcionista efeminado:

- Hi, the exchange service is already available?

- No, I’m sorry

- Where can i exchange some euros?

- In this zone there is no such place apart from the hotel, only in the city center in some bank or exchange house.

- Today is Sunday I don’t think I’ll have any luck. There is the possibility to call a taxi that accept euros?

- The telephone line is down since yesterday

- There is something working in this hotel?!

- I’m sorry

- I also wanted to check out and to pay in euros

- Just a moment

it’s 120 euros

Paguei a minha conta de má vontade e decidi voltar a tentar a minha sorte lá fora. Tinha partida de avião às 13h00, era naquele preciso momento 9h00, teria que me apressar se o queria apanhar ainda hoje. Resolvi tentar apanhar um táxi e simplesmente perguntar se aceitava euros. E foi o que aconteceu mas a resposta infelizmente não me surpreendeu.

- I don’t accept euros!

Ainda tentei abordar mais dois taxistas mas as respostas foram tiradas a papel químico da primeira. Resolvi tentar o autocarro, tinha uma ideia dos números dos autocarros que me levariam ao aeroporto. Entrei pela porta de trás de forma ao condutor não me ver, o autocarro estava apinhado de gente que me fitava com olhar reprovador, ouvia alguns comentários na língua local que percebia virem dirigidos a mim muito embora não soubesse o que significavam. Numa paragem mais à frente vi entrar o revisor, que mais me podia acontecer, parecia a vingança perfeita…. Antes do revisor me abordar saí numa paragem algures, já nos arredores daquela cidade. Não devia estar muito longe do aeroporto, de maneira que procurei alguém que me indicasse o caminho para fazer a pé, já carregava a minha mochila há um par de horas, assim quanto antes chegasse ao aeroporto melhor. Encontrei um transeunte ao qual me dirigi:

- The airport please!

- I don’t know

Aquele ritual de conversação com transeuntes repetiu-se durante uma hora, mas as suas respostas culminavam sempre num encolher de ombros, já não sabia o que fazer para sair dali, já eram 12h00 e o mais certo era perder o voo de regresso.

Até aquele instante a colaboração que havia recebido era nula, ninguém sabia onde trocar dinheiro nem onde ficava o aeroporto. Portugal tinha muitos defeitos mas numa situação semelhante um estrangeiro já teria recebido indicações como se “desenrascar” e certamente já estaria a fazer o embarque de regresso a casa. Não valia a pena lamentar-me o que interessava agora era encontrar o maldito aeroporto.

Continuei a andar sem rumo, até que avistei ao longe uma estrutura que se parecia com um aeroporto: diversas balizas a indicar a direcção do vento, um radar enorme, uma torre de controlo, tudo condizia. Ganhei novo ânimo e acelerei o passo. Quando cheguei, para alem das características de aeroporto que havia visto à uns minutos atrás, vi mais qualquer coisa que me desconcertou, em vez de ver pessoas em trânsito com as suas bagagens vi uma multidão de crianças acompanhadas pelos seus respectivos pais naquilo que era um parque temático relacionado com aeroportos. Fiquei branco como a cal, tudo isto parecia uma brincadeira de mau gosto e eu era o alvo. Praguejei com todas as minhas forças naquele mesmo local, todos me olharam com surpresa mas no instante seguinte seguiam como se nada fosse com eles. Continuei a andar até ver uma indicação com um símbolo de um avião, era provavelmente a minha única chance, resolvi segui-la. Percorri aquela estrada durante quase uma hora perguntando-me se teria seguido o caminho certo, até que me apercebi de um avião a aterrar perto, só podia ser ali, segui a direcção do avião até chegar ao aeroporto, finalmente estava diante do verdadeiro aeroporto, mas já eram 14h00, e o meu voo estava marcado para as 13h00. Ainda fui ver nos ecrãs informativos se o voo estava atrasado ou não, mas nenhuma informação a esse respeito aparecia, depreendi que já tinha partido. Dirigi-me ao balcão da TAP a fim de esclarecer toda a situação e arranjar voo de regresso quanto antes.

- Tinha um voo de regresso a Portugal reservado para as 13:00 mas não me foi de todo possível estar cá a essa hora. Gostava de saber quando é o próximo voo para Lisboa?

- O seu nome por favor

- Pedro Alcântara

- …

Exactamente, tinha voo marcado para as 13:00, o próximo só 3ª-feira à mesma hora.

- Está-me a dizer que tenho de ficar aqui dois dias à espera?! Não há nenhuma alternativa dalgum voo com escala, com outra companhia?

- Infelizmente não, os funcionários do aeroporto de Lisboa estão em greve até 3ª feira precisamente, mesmo que encontre outra companhia que faça o voo antes terá sempre que aguardar por 3ª feira.

- E o que é que eu fico a fazer aqui durante dois dias?

- Tem uma cidade lindíssima para visitar, o que não dariam muitos para estar na sua situação! Afinal esta é uma cidade especial, quem a visita fica a ver o mundo de uma perspectiva diferente. A cidade está pensada ao pormenor não sei se já reparou, parece um jogo de xadrez.

- Sim deve ser uma cidade interessante para quem goste de ser uma peça de tabuleiro em vias de lhe fazerem xeque-mate!

domingo, janeiro 13, 2008

Cela Melancólica

Silêncio...

Não fala, não ouve, nem quer ver...

Escuridão...
Amargurada não passou pelo tempo.
Devolveu-me os seus segundos,
Aguardando pelo pior momento.

Melancolia...

Penso... em nada, ou em tudo...
Revejo parte das memórias.
Perdido do mundo, no seu imaginário,
Entrelaço as mãos sem nada fazer.

Perdido...

Aterrorizado... Imobilizado e inútil...
Segredei com o inconsciente humano,
Violando a força de vontade e a razão.
Perdi-me na sua ilusão...

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Rosa

Rosa vermelha
Enrolada sobre si própria
Rosa vermelha
Doce e suave ao toque
Rosa vermelha
Afogando-me no seu cheiro
Rosa vermelha
Que flor tão bela
Rosa vermelha
Seca e tombada sobre teu caixão

domingo, janeiro 06, 2008

Tudo por uma espera

Há gritos intransmissíveis à espera que me aconteças, convencido do teu pecado. Respirações frágeis, condensadas pelo frio e pelo vazio. A beleza pode doer-nos mais do que nos dói a dor. Aniquilar-nos por completo. Afinal de contas, sonhar é decretá-lo.

Ama-me contra o tempo. Desmancha-me em cada volta eterna do teu corpo.

Vanessa Pelerigo