quarta-feira, outubro 22, 2008
Saudades do Inverno
Já se vêem os cordões nas vitrines,
Anúncios em jornais, magazines,
Revistas e coisas mais!
Que raiva da febre consumista:
Do Dezembro ainda distante,
Da febre em todos dominante,
Da sociedade materialista,
Deste mundo actual!
Do corropio da multidão,
Das luzinhas de Natal
Enfeitando o quarteirão!
Mas Outubro é enfadonho...
Manhãs frias cortantes,
Tardes quentes sufocantes,
Sob um sol tristonho.
Que maçador que é:
Não ter praia para andar,
Não ter neve para pisar...
Percorrendo a rua a pé,
Nesta estação desigual.
Rua essa, sem multidão,
Onde se montam luzes de Natal
No quase deserto quarteirão
Ah que saudades tenho eu
Do frio ao entardecer...
Cruzando a tarde a correr,
Preso num pensamento meu.
Do corropio das pessoas,
Alegrando a calçada...
Da constante brisa gelada.
De muitas coisas boas,
No Inverno especial!
Ah saudades...
(Do corropio da multidão,
Das luzinhas de Natal
Enfeitando o quarteirão!)
terça-feira, outubro 21, 2008
Estrada de cinza (ou Alien)
Sentes um vazio de tudo na alma, se é que ainda tens alma… Tentas, por breves momentos seguir por essa estrada na tentativa desesperada de encontrar algo familiar… Sentes-te um estranho ao teu próprio corpo… Percorres as ruas desta cidade que não é tua, tens medo de continuar, principalmente por não saberes como vai reagir a mente, que já não é tua, quando se aperceber que, de facto, não existe nada familiar nesta cidade… Buscas no bolso interior do casaco uma qualquer agenda velha apenas para verificar que está cheia de nenhum compromisso… Tu és Ausência…
Sentes uma necessidade absurda de te sentir vivo, como se não bastassem as dores que afligem cada um dos teus miseráveis músculos… Encontras-te por fim na Porta do Desespero… Tal é o desespero, que apenas a semelhança de uma qualquer pedra da calçada seria o suficiente para te acalmar o espírito! Eu sei e Tu sabes… Tu és Raiva…
Por breves momentos julgas reconhecer um reflexo amarelado no chão de pedra… Como aqueles dos centros históricos de cidades muito antigas que nos levam a pensar que são os mesmos candeeiros de sempre a tentar iluminar as mesmas pedras… Eternas! Mas não é mais que um candeeiro velho em uma qualquer rua desta cidade que não reconheces… Tu és Necessidade…
Sentas-te num degrau de pedra com vista para um pequeno vale coberto de casas… Estás mais elevado que esse vale que se estende a teus pés fervilhando de energia e movimento por entre a “luz” do crepúsculo… Tens, durante breves momentos, a sensação de dominar o vale! Uma sensação que desperta mais uma vez aquele aperto no estômago, aquele grito da alma… Tu és Desilusão…
Atordoado pela descarga hormonal o teu corpo sucumbe nos degraus… O teu corpo repousa, no entanto, a tua mente voa, tentando reconstituir a viagem que te trouxe aqui… Vês claramente, o pôr-do-sol a reflectir-se nos campos verdes com animais e vinhas, também pequenas zonas de cultivo onde foste capaz de distinguir milho, arroz e centeio… Talvez também trigo… A tua lembrança traz também um belo rosto… Eras capaz de jurar estar mesmo agora a cheirar aquele mesmo perfume suave… A sentir aquelas pequenas maças de rosto na palma da tua mão… Beijar aqueles lábios de seda… Sabes que não o estás a fazer, e de certa forma sabes que não o voltarás a fazer… Há algo dentro de Ti que o afirma muito claramente! Sentes a vibração do comboio que desliza suave… Tu és Esquecimento…
Julgas ver por entre alguns edifícios mais baixos, uma grande igreja, ou catedral… Que pelos vistos aparece só quando lhe apetece… Umas vezes com uma iluminação quase mágica destacando enormes pinturas azuis e douradas… Outras sem qualquer tipo de iluminação como as ruínas de uma qualquer grande guerra… Segues em direcção à miragem, não por te ser familiar, mas por de certa forma, ser tão estranho que te faz sentir em casa… Sentes uma atracção inexplicável por esse pedaço de pedra… Indescritível… Tu és Esperança…
Conforme te aproximas reparas que é uma catedral real e que, de facto, algumas partes estão completamente destruídas sobrando apenas os enormes pilares e pequenos troços da parede… Enquanto outras mantêm um esplendor digno das melhores histórias de literatura fantástica, suplantando o que imaginas ser o esplendor máximo de qualquer dos Extintos Impérios Mágicos… As pinturas que, agora, reconheces como sendo, claramente, de lápis-lazúli e ouro estão intactas e com uma luminosidade incrível, própria diria eu, parecendo brilhar entre o nevoeiro que cobre a noite… Tu és Ilusão…
9 minutos
Ultimamente sonho muito… Muito, não! Sonho demasiado! Acordo de madrugada com o suor frio a incomodar-me as costas… E deixou-me ficar assim, mais lá do que cá… Ainda demoro um certo tempo a digerir o sonho… A despertar-me! Fico sempre na dúvida de quanto tempo será? É neste intervalo, enquanto a minha alma passeia entre o lá e o cá, que eu sonho na realidade… Sou capaz de ver com clareza o que aconteceu no sonho que me havia despertado momentos antes! Fico sempre com a sensação que passo horas neste estado de transe, sem que isto tenha uma repercussão directa no relógio que tenho à cabeceira da cama… Não deixa de ser impressionante a quantidade de momentos que posso viver nestes minutos! Chego a perguntar-me se será saudável… Chego a querer acordar e não conseguir, literalmente, lutando contra Eu mesmo…
Foi assim que fiquei a primeira vez que te vi…
Vi o teu ventre bailar por entre as alucinações! Vi o teu sorriso, destacado pelos teus suaves lábios da batalha que pequenos heróis vestidos de branco travaram, tentando escrever os seus nomes nos grandes Livros de História.
Pequenos heróis vestidos de branco com, não mais que, alguns centímetros de altura a inscreverem a sangue os seus nomes na História!
Juntos percorremos o Mundo… Entregamo-nos um ao outro sem nos preocuparmos com as consequências…
Não sei se foi sonho ou alucinação, sei apenas que nos relógios humanos durou exactamente 9 minutos!
Nove minutos apenas chegaram para me fixar na tua beleza, para beber da tua vida como se não houvesse amanhã! Nesse “curto” espaço temporal as nossas almas tocaram-se… Doce alucinação, esta, que deixa até a minha alma a tremer! Sentir-te tão próxima de mim é algo de tão indescritível que chega a ser ridículo querer explicá-lo a mim próprio…
Por isso quero pedir-te que voltes a fazê-lo… Invade os meus sonhos e arranca-me o coração com as tuas mãos, bebe o sangue que o rodeia e toma-o como teu! Prefiro Não Existir em Ti, a fazer de conta que existo neste Mundo… Sei que parece patético, louco na melhor das hipóteses, inclusivamente pode ser desculpa, ou razão, para me internarem rapidamente! Mas, sinceramente, tudo isto sou Eu! Quando abro as asas e voo sobre este Mundo em que vivemos, a única coisa que procuro é a tua janela, com a luz, ainda, acesa à espera do meu abraço... A angústia da busca tolda-me o pensamento e a visão, tudo me parece uma série de fotogramas desfocados, com os quais sou incapaz de construir um sequência lógica… Sei apenas que busco o teu quarto, quero entrar nesse ninho e…
Cheirar a tua Alma, Tocar o teu Pensar, Ouvir o teu Sangue, Saborear o teu Chorar, Ver o teu Ser…
Quero ser o teu sorriso e não parar nunca!
Quero ser o teu coração e não sofrer nunca!
Quero ser Tu e não deixar de ser Eu nunca!
Quero ser Eterno e, contigo, gozar com esse Velho a quem chamam Tempo! Quero ser deus e oferecer-me a Ti como o Escravo que mereces! Quero ser Nada, Todo Eu um Livro em Branco, para que em mim possas escrever o Homem que Sou!
terça-feira, outubro 14, 2008
II Jantar Tertúlia d' Revista P.E.N.A. - 8 Novembro

O grande Jantar Tertúlia da Revista P.E.N.A. aproxima-se a passos largos, é já dia 8 de Novembro!
Convidamos todos os visitantes do BLOG para comparecerem a partir das 18h com um livro, uma música e usufruírem de todos os prazeres literários.
A música pode ser enviada para o seguinte email: geral(arroba)com-palavras.com até dia 31 de Outubro. Serão posteriormente reproduzidas durante o evento.
Para confirmarem a vossa intenção de ingresso utilizem o seguinte formulário: https://spreadsheets.google.com/viewform?key=pP6Diq10Foq2tzoGtYD85AA
Haverá à disposição: entradas, jantar (com bebida à descrição), sobremesa e café.
O ingresso terá o valor simbólico de 13 euros por pessoa.
Local: Alessandro Nannini - Baixa de Lisboa (maps)
A duração máxima da Tertúlia serão 4-5 horas (fecho do estabelecimento: 23h).
Para os estreantes, estou certo que irão adorar!!
Fico a contar com a vossa participação!
segunda-feira, outubro 13, 2008
À hora certa no lugar errado... (AZAR!)
Sem tempo, para disfrutar.
A mente farta de lutar,
Os olhos já a ceder.
Milhas já gastas, usadas,
Para chegar e fugir,
Desfazer a mala e partir
Sem as novas aguardadas.
Meses calcorreados no calendário,
Metros de papel estendidos...
Dias, dias, mais dias perdidos,
Preenchendo o imaginário.
Um homem sempre apressado...
Parti!
Cheguei!
Voltei!
FUGI!
À hora certa, no lugar errado!
terça-feira, outubro 07, 2008
Petrificando a memória

sexta-feira, setembro 26, 2008
Soneto
Tem livros e revistas,
Tem comida e bebida,
Tem poetas e artistas,
E também tem muita vida!
Tem ouvintes e leitores:
Uns activos… Outros passivos…
Já se ouvem os rumores,
Mas não há lugares cativos!
D’A P.E.N.A. tinha de ser,
Esta festa tão animada!
Pois sete anos vai fazer!
Traz de lá a tua amada,
Venham somar-se à agitação!
Não se esqueçam dum livro na mão…
quinta-feira, setembro 25, 2008
Tens o resto da tarde para sair daí
Nunca medi tanto as palavras, não fosse alguma matar-me de arrependimento, mas a verdade é que vi sempre o meu nome, por aí, à procura do teu. Triste, cabisbaixo, taciturno, em penitência. Quando somos novos, mostramos a paixão com orgulho no meio da rua, no autocarro, na sala de aula. Mais tarde, vivemos a paixão errada no sítio certo à hora errada. Problemas de tempo. E eu gosto de me rever todos os dias a polir as horas em busca da perfeição. À procura de ti. E só vejo a minha alma a trair-me com as tuas recordações. Já dei uma parte de mim para te ter. A mais valiosa. Só que, às vezes, sinto-me forte, capaz de enfrentar o mundo nesta minha condição de mutilada; noutras cedo ao pânico.
Todas as pessoas têm dentro terrenos baldios. Espaços sem dono, vazios e extremamente reveladores. Como as caixas de sapatos - não pelo que são, mas pelo que conseguimos lá guardar. É aí que moram bilhetes com apenas um verso, cartões com despedidas, rosas secas, fotografias, cartas por enviar. As primeiras lágrimas, os primeiros sonhos de gente grande e a inocência que, a páginas tantas, nos traiu.
Todas as histórias belíssimas são dramáticas. A nossa não fugiu à regra, fugiu-nos a nós. Para bem longe. E o problema é que nunca fizémos amor.
O grande trunfo do Amor foi convencer as pessoas que não mata. Mas, mata e cega e eu preciso que tu me cegues. De alguém que me prive da realidade e me faça sonhar. Tens o resto da tarde para sair daí.
Vanessa Pelerigo
terça-feira, setembro 23, 2008
Foto Vencedora - II Tertulia d' A Revista P.E.N.A.
Nos próximos dias será apresentado o flyer promocional, fiquem atentos!!
sexta-feira, setembro 19, 2008
Votação de Fotos - II Tertulia d' A Revista P.E.N.A.
As regras são: os Autores não podem votar na deles próprios; devem atribuir um valor de 1 a 4, sendo que o 4 é a nota mais alta; A votação terminará dia 22 deste mês; só serão validados votos que sejam assinados e reconhecíveis.
segunda-feira, setembro 15, 2008
Uma estrela
É inútil dizer que o tempo tudo cura. Há dias em que se esquece dos sulcos cravados no coração, das cicatrizes no rosto da alma, mas depressa faz frente a uma esperança impossível e tudo acende. Tudo desperta, até a ave magoada. E eu, sem conseguir respirar. Um aperto que me carcome os sentidos.
O que me falta é outra coisa qualquer. Espero. Respiro. Apenas um ranger de dentes na voz exaltada do amor. Um amor quase sempre a sucumbir no teu regaço. Gosto de ti, sem conseguir explicar porque ainda gosto e porque me recuso a deixar de fazê-lo. Foi sem querer que me comovi. Mas, eu sabia que isto não podia durar para sempre. O Inverno sempre arranja maneira de se anunciar nos meus olhos. E um silêncio para poder gritar.
Não consigo dormir e acabo por me desvelar na hesitação da escrita.
Vanessa Pelerigo
terça-feira, setembro 02, 2008
Quando...
Esse teu rosto fechado,
Rasgava-te os lábios
Com meus dentes afiados.
E quando queria rasgar
Esses teus lábios encarnados,
Beijava-te de paixão
Enquanto rebolávamos no chão.
E quando quis sentir
Esse teu corpo perfeito,
Abri com as garras
Esse teu branco peito.
E quando a paixão
Foi embora de meu corpo
Atirei-me com teu cadáver
Para o fim do rio da dor...
quinta-feira, agosto 28, 2008
Ombro
Uma insónia te domina.
Algo te faz tremer
Assustada, como uma menina.
[Sossega, meu amor…
Um suspiro leve e alterado
Que me desperta.
Um murmúrio baixo e sobressaltado
Que me aperta.
[Aproxima-te, meu amor…
Aconchega-te no meu ombro
Enquanto te beijo o rosto.
Esquece esse teu assombro
Que o sol ainda está posto.
[Dorme, meu amor…
terça-feira, agosto 05, 2008
A Música (descrição de 4 minutos de prazer)
quinta-feira, julho 24, 2008
Lamento
Lamento desiludir-te, mas não sou Cyrano D’Bergerac… Não tenho, ao contrário dele, jeito com a espada e muito menos com a pena…
Sou apenas um homem… Este homem, com um pouco de cientista, outro tanto de artista e nada de poeta… A única poesia em mim existe no teu olhar, no teu sorriso, nas tuas mãos… No teu corpo dançando ao vento coberto por um manto de seda! O teu sorriso não é mais que uma forma na tua cara! Eu, vejo-o perfeito… Assim como vejo a ondulação do teu ventre…
Lamento desiludir-te, mas não sou Dorian Gray… Não tenho, ao contrário dele, uma beleza irrepreensível e muito menos guardo em mim o segredo da eterna juventude…
Sou apenas este que te olha com ternura… Possuo em mim apenas a vontade… O desejo de ser livre como o vento… De ir contigo… De Ser contigo… De deixar este garfo e este copo de uma qualquer bebida fermentada e sair daqui! Ir até onde Selene não nos roube as estrelas… Onde não faça tanto calor e possa ouvir o bater do teu coração por entre a ondulação do mar…
Lamento desiludir-te, mas não sou Romeu… Não sou, ao contrário dele, puro Amor, e muito menos seria capaz de morrer por ti…
Sou apenas alguém, que por um golpe de sorte ou azar se apaixonou por ti naquela praia! Sou apenas este alguém, que um dia ousou sonhar contigo! Ainda recordo o sabor da tua boca, mas já não sinto o bater do teu coração…
Lamento desiludir-te, mas não sou Hércules… Não sou, ao contrário dele, filho de um deus e muito menos tenho a sua Força…
Sou apenas mais um no meio da multidão… Certamente vês em mim o nada que sou…
Sou apenas filho do pó que cobre o asfalto e que um dia quis ser vento… A minha única tarefa é esperar pelo próximo carro e tentar voar um pouco mais…
Lamento desiludir-te, mas não sou O Rei Artur… Não tenho, ao contrário dele, o coração cheio de Virtude e muito menos a sua Bravura…
Sou apenas um homem com todos os defeitos inerentes e pouca ou nenhuma virtude… Com uma Vontade que nem o próprio corpo respeita!
Lamento desiludir-te, mas não sou Tom Swayer… Não sou, ao contrário dele, livre e muito menos tenho a ingenuidade de uma criança…
Sou apenas uma lembrança do jovem que fui um dia…. Como o Leão do jardim zoológico! E, que mais é a lembrança, senão o medo de esquecer? Sou apenas um homem com medo de esquecer o jovem que fui um dia… Com medo de esquecer a criança que queria mudar o Mundo!
Lamento desiludir-te, mas sou apenas este homem!
quarta-feira, julho 16, 2008
Tributo ao soldado perdido
quarta-feira, julho 09, 2008
Para a Bruxa Encornada
da Usina que te aquece o corpo quando o arqueias
quando te percorrem essas mãos delicadas
quando mergulha, essa tua musa, por entre as tuas pernas
donde brota esse mel...
Mato espesso que outrora era
aparado à força de dentadas violentas
que essa tua amiga te dava
quando nas costas cravava profundas
garras afiadas em tons de verniz escarlate.
Armações, dos antigos xamãs europeus
Cornos ornamentais pendurados nas casas das bruxas
Aquelas que comiam os filhos que não querias ter
Aquelas que te conduziram até onde não sabias ir
Aquelas que te percorreram o corpo, te furaram vezes e vezes sem conta
Com a sua língua afiada
Aquela outra que não vias na tua cama deitada
Que te deixou hoje uma mulher frustrada
E dos filhos dele será sempre a mãe amada...
sábado, junho 07, 2008
Levante
(ou Visão em Ti)
Visão de Ti:
Sinto o teu perfil com o olhar
(beijo a tua forma com as minhas mãos!)
(desenho-te com as minhas mãos enquanto me prendo ao teu olhar!)
(beijo a tua mão com a minha!)
(o vento, no seu abraço eterno, modela-se a ti… flúi por ti… quero ser esse abraço!)
(quero libertar-nos deste pânico sufocante… Talvez este vento guie as minhas palavras até aos teus ouvidos… talvez as oiças finalmente!)
Visão sem Ti:
O teu perfume inunda os corredores… As tuas cores espalham-se por todo o lado… Sinto a tua presença e percorro estes corredores à tua procura… À minha procura…
(cheiro a tua presença… percorro os corredores deste manicómio como o louco que sou… procuro-te em vão nesta noite gelada…)
A imagem da tua mão na minha inunda-me a mente… A visão daquele beijo persegue-me até à loucura…
DEIXA-ME VOAR! DEIXA-ME VOAR! DEIXA-ME VOAR!
Liberta-me desta prisão… Sê a Estrela do Norte na minha noite escura!
(perdido, busco em vão o teu olhar… persigo a tua presença, o teu calor!)
Sinto a tua presença tão próxima… o coração atropela-me o pensamento…
Umas mãos trémulas seguram um coração acelerado…
(as minhas mãos seguram-me o coração perdido!)
Tenho medo… Sinto pavor de não voltar a sentir-te…
(talvez nada disto seja verdade… talvez seja tudo imaginação… talvez nada tenha acontecido… talvez te tenha criado eu!)
E tu? Pensas em mim agora? Onde estás? Sentes as nossas almas a voar junto daquela estrela?
Eu não sei se sinto… Já não sei o que sinto…
(saudade?)
Nada faz sentido aqui… Sem Ti!
Visão em Ti:
Quero voar contigo….
Quero sentir o calor da fusão das nossas almas…
(sentir o elixir da vida a percorrer as artérias)
Sentir-nos!
Um dia, quando o Sol nascer, em uma qualquer praia do mediterrâneo
(um dia, se enquanto o sol nasce nesta praia do mediterrâneo!)
O Levante acariciar o teu cabelo
(o levante bailar no teu cabelo)
A tua mão beijar a minha
(a tua alma beijar a minha)
Sentir-te vibrar quando as nossas mãos se toquem…
(sentir o pulsar do teu coração quando as nossas mãos se beijem!)
Os nossos olhos perdidos, pela timidez que nos impede de olhar directamente o outro… Talvez vendo aquela gaivota que sobe e desce na linha do horizonte…
(talvez imaginado o nosso beijo)
Um dia… Apaixono-me por ti
(nesse dia… transformo-me neste vento e prendo-me a ti num abraço eterno!)
sexta-feira, maio 09, 2008
Horas mortas
Fugindo ao presente que me persegue
Repetindo gestos, retomando acções
As horas mortas, As horas tristes
E no amanhã que se avizinha
Fascinam-me os mistérios
Do tempo que já passou
As horas mortas, As horas tristes
E no exercício da palavra esquecida
Encontro em mim o que já fui
O que sou e o que procuro ser
As horas mortas, As horas tristes
E neste tempo tão gasto
Pleno de escuro e de medo
O passo em frente é sempre o errado
As horas mortas, As horas tristes
E não há sentido
E não há razão
Encerrado
N’As horas mortas, N’As horas tristes
tictactictactictactictactictactictactictac
segunda-feira, abril 28, 2008
Guerra de Irmãos
Soprou um vento frio que arrastou os largos cabelos que ambos possuiam. Não diziam nada, olhavam-se. Não sabiam bem o que procurar na cara do outro. Podia ser que se lessem, podia ser que travassem um duelo mental, podia ser que procurassem perdão.
Não há perdão, não houve, nem nunca haverá à face da Terra quem possa perdoar os dois irmãos. Só Deus, se algum dia diante d’Ele se encontrarem, os poderá perdoar. As histórias que se contam é que o motivo pelo qual a guerra durou tanto tempo é porque o próprio Diabo os expulsou do Inferno. Ninguém diria no entanto que se enfrentavam os dois seres mais malévolos que já caminharam à face da Terra. Ambos pareciam jovens, mas cansados. Via-se que o peso de muitas batalhas lhes dobrava as costas. Via-se no seu ar muitas almas que clamavam por vingança.
Um clamor surgiu então nesse monte. Nos campos em redor, os mortos pareceram levantar-se, as suas armaduras quebradas a tilintar, os seus ossos pendurados e inertes mas as suas almas a clamarem por paz. Ambos os irmão souberam o que os mortos pediam e ambos viram aí o prenúncio do que aconteceria... perceberam então que, todos estes anos, mais não fizeram que adiar o inevitável. Teriam de ser eles a acabar com o derramamento de sangue. A altura de mandar outros para a chacina havia terminado...
Começou o da armadura negra por retirar a mesma. Ficou em tronco nú, segurando apenas uma espada larga, feita mais para ser usada como moca e como espeto do que objecto de corte. O da armadura branca pareceu anuir ao desafio e retirou a sua armadura e ficou a segurar uma espada em tudo idêntica à do seu irmão. Olharam-se mais uma vez longamente. Não havia entre eles receio, havia sim algo que os impedia de se lançarem um contra o outro. Finalmente, depois de tantos rios de sangue derramados perceberam que matar só era fácil quando não é o nosso sangue o derramado. Avançou então um, difícil dizer qual no meio da neblina e sem as armaduras que os identificavam, e o outro respondeu com um passo igualmente seguro em frente.
O vento era agora mais forte e trazia as vozes dos milhares de mortos que clamavam por vingança, já nenhum defendia um dos irmão, mas sim a morte de ambos! Ambos sentiam um frio maior do que aquele que lhes arrepiava a pele. Naquele momento era algo maior que eles que ali estava em questão e cada um lutava contra os milhares de mortos que causara no exército do outro. Apenas eles haviam sobrevivido, não porque fossem generais que não lutam, isso não, ambos investiam a pé, na frente dos seus exércitos, não, a explicação era outra... Ambos haviam sido treinados pelo mesmo mestre, o maior general do seu tempo e ambos haviam sido o seu maior discípulo. Dominavam todas as armas conhecidas como nenhum homem do seu tempo, mas aquelas espadas eram a fonte de toda a discórdia. Ambas possuiam poderes mágicos, que faziam do seu portador invencível. Ciente de que tal poder nas mãos de um só homem seria perigoso para todos os outros, o general havia oferecido uma a cada um dos seus discípulos. Não tardou que cada um desejasse para si a espada do outro e daí até à Guerra dos Irmãos foi um passo.
Muitos anos haviam passado e ambos haviam liderado os seus exércitos, recrutados com promessas de glória e fortuna, mas nunca revelando o poder das espadas aos seus soldados ou generais, muitas gerações de homens passaram e a Guerra dos Irmãos tornou-se na Guerra Eterna, travada entre exércitos maiores do que a imaginação consegue visualizar e sempre com duas figuras eternas a liderar. Dizia-se que era uma luta entre o Bem e o Mal, com o Mal a ser sempre o irmão opositor. Havia lendas construídas em redor de batalhas lendárias daquela guerra, mas aquela, no Monte Nodegamra seria a última, as espadas invencíveis conheceriam hoje a derrota.
À medida que se digladiavam o cansaço apoderava-se de ambos por igual medida. A cada um a espada ia sugando o que lhe restava de vida. Continuaram naquela dança macabra por dias e dias até que finalmente e em simultâneo, tolhidos pelo cansaço, tiveram o mesmo movimento em falso, rapidamente aproveitado pelo irmão para enterrar a espada no seu coração...


