sexta-feira, dezembro 19, 2008
Fausto
quarta-feira, dezembro 17, 2008
Histórias Tristes dum Homem Feliz Diário de Vasco Carvalho
Prólogo
Passam poucos minutos das quatro da manhã, e encontro-me em Castellon de La Plana, pequena cidade na costa mediterrânica de Espanha, a poucos kilómetros de Valência. Está um frio de rachar nesta manhã de Outubro, o vento sopra gelado de Norte e corta-nos a alma fazendo-nos sentir vivos! Sempre gostei deste tipo de frio… Talvez porque me faça lembrar a sensação reconfortante da lareira e do cobertor que me aqueciam em dias assim quando era criança. O autocarro das quatro está atrasado, como sempre. No meio da pequena multidão de romenos e árabes que se movem nervosamente à minha volta, um rosto sobressaí… Um homem na casa dos quarenta anos com uma guitarra ás costas. Fixo-me neste homem, com aquele aperto que nos vem ao peito quando encontramos uma cara fora de contexto… Um rosto tão familiar, e a angustia de não sermos capazes de nos lembrar de onde o reconhecemos, apesar de sentirmos ser uma boa recordação… Começamos lentamente a tentar recordar todas as coisas boas que nos aconteceram nos últimos tempos e mais a angustia aumenta quando nos vemos incapazes de o fazer com exactidão… É quando começa a confusão temporal no nosso cérebro e já não somos capazes de organizar convenientemente a sucessão de momentos de que nos vamos lembrando! Até que alguma pequena faísca acidental nos faz lembrar exactamente o momento em que conhecemos aquele rosto e, a partir de aí tudo faz sentido, recuperamos as nossas memórias e o respectivo sentido cronológico. Para mim foi quando, este homem se cansou de esperar sentado pelo autocarro que já estava atrasado pelo menos meia hora e tirou a guitarra… Começou por tocar pequenas melodias de breves segundos, talvez aquecendo os dedos deduzi. Senti um ambiente daquele jazz tão brasileiro. Hummm… O vento continua a soprar gelado, mas a Bossa Nova aquecia o ambiente. Os romenos e árabes deixaram de me parecer tão frenéticos e tudo retomou a devida calma da espera, menos o meu cérebro, que por estas alturas continuava a sua batalha secreta por recordar este homem… Até que dou por mim a entoar, mentalmente, a letra d’A Garota de Ipanema, e pergunto-me porquê… De facto, aquela guitarra velha assim mo ditava e lembrei-me! Aquela música e a linda Adriana! Foi em Lisboa! Sim, conheci-o em Lisboa: verão de 2001! Chocamos, literalmente, no Castelo de S. Jorge! Ele estava a tocar esta mesma música e uma jovem de cabelos castanho-claros, pequenas ondas de paixão que lhe cobriam os ombros, com um vestido de alças, todo ele sinónimo de desejo, que cobria aquela escultura divina até dois dedos acima do joelho … Ela cantava a melodia e pequenos movimentos da sua cintura completavam o quadro… Claro está que absorto nesta visão idílica fui chocar com o guitarrista! Para além de ter estragado o momento verifiquei que alguns estrangeiros voltaram a por as moedas no mesmo bolso de onde as tinham acabado de tirar. Acabei por os convidar para beber um copo e, talvez, comer qualquer coisa. Mais para ver de perto esta reencarnação de Helena de Tróia, que por compensar as suas perdas monetárias, acho eu! A verdade é que aceitaram prontamente… O sol estava a pôr-se na foz do Tejo e Lisboa tingida pelos seus tons doirados completava a beleza da jovem. Ficamos ali perto, num café para turistas, não quis parecer inoportuno ou mal-educado em tentar escolher um sítio mais cómodo de preço, afinal de contas, tinha-lhes estragado o negócio e ainda estava adormecido por ter diante de mim tamanha formosura. Foi assim que nos conhecemos, ele na casa dos trinta, homem rude de roupas velhas, mas impecavelmente limpas, as mãos calejadas, a barba por fazer, olhos de um cinzento apagado que gritavam saudade, a guitarra com visíveis danos físicos e, a julgar pelo dono, psicológicos também. Nome: Vasco Carvalho; Idade: 33; Profissão: Fazedor de Nada, como ele se auto-proclamava; Proveniência: filho de portugueses, mais propriamente de Angra do Heroísmo, radicados nos Estados Unidos, São Francisco, para ser mais exacto. Ela, como já vos disse, capaz de mudar o significado de Beleza patente nos Dicionários… Nome: Adriana dos Anjos (ahhh! Como fazia jus ao nome…); Idade: 25; Profissão: Modelo, cantora, bailarina, ou, como acabou por simplificar depois de algumas garrafas de vinho, todo o tipo de trabalhos que dêem dinheiro só pelo facto de se ser bonita e em que não se tenha que utilizar directamente o corpo; Proveniência: filha de Brasileiros de uma cidade que não me lembro do nome, também eles a trabalhar nos States, São Francisco. Fora aí que se conheceram, no Bar de Jazz onde seu pai era o responsável por seleccionar os novos talentos que todos os dias apareciam a tentar a sua sorte! Vasco foi um deles, e apesar das escassas oportunidades como interprete, tornou-se um frequentador habitual, a principio apenas pelo prazer de ver Adriana e mais tarde pelos ensinamentos que ia recolhendo, principalmente do pai de Adriana, que ao ver que a sua filha se tinha apaixonado por um artista falhado, decidiu fazer dele alguma coisa de jeito, e a verdade é que conseguiu. Um ano depois de ter entrado no Bar pela primeira vez encheu a pequena sala de concertos. Decidiu que era altura de partir e conhecer o mundo! Decidira vir para Portugal, conhecer o país de que tanto ouvira os seus pais falar na sua infância! Adriana, como transparecia no seu olhar segui-lo-ia até ao fim-do-mundo, pelo que veio com ele utilizando a desculpa que Portugal fazia, também, parte das suas raízes… Já a Lua ia alta e ficamos por ali… Uma promessa vã de nos voltarmos a ver, se bem que eu não me importaria nada de voltar a encontrar Adriana… E nada mais… Até hoje! Em Castellon de La Plana, pequena cidade na costa mediterrânica de Espanha, a poucos kilómetros de Valência e a espera por um autocarro para Barcelona que está atrasado, como sempre, uma guitarra e alguns romenos e árabes nervosos! Não pude deixar de o cumprimentar! Primeiro verifiquei o seu olhar surpreso por alguém se lhe dirigir em português e depois, talvez a mesma angústia pela qual eu tinha passado momentos antes, a tentar lembrar de onde seria familiar o meu rosto. Resisti à tentação de o pressionar perguntando se já não se lembrava de mim, da mesma forma que não lhe retirei o prazer de se lembrar por si mesmo e exclamar: “Ahhhh! O desastrado do S. Jorge!” – Por breves momentos reavaliei as minhas duas ultimas decisões!
Fiquei desiludo ao saber que Adriana voltara para o conforto do Lar e questionei-me qual o interesse de continuar a falar com ele, um pequeno olhar em redor, para constatar que apenas romenos e árabes esperavam o autocarro forneceu-me razões suficientes… Nós éramos, ali e naquele momento, uma minoria étnica, pelo que tínhamos a obrigação de permanecer unidos! Chegou o autocarro, finalmente! Falamos de nadas, pequenas trivialidades e talvez outras coisas que não me lembro até Tarragona. Eu ficava por ali, tinha uns amigos para visitar neste, outrora, importante porto do Império Romano. Ele seguia viagem até Barcelona. Comentei em jeito de promessa vã, mais uma vez, que eu também lá estaria dentro de um par de dias… Na verdade, não julguei que o encontraria jamais, uma coincidência é muito numa vida tão curta! Mas, de facto, passadas duas semanas, estava eu a cumprir a minha visita ritual de ultimo dia em Barcelona ao Parc Güell, quando me fixei numa rapariga, esta de aparência normal, que fazia bolas de sabão gigantes, lembro-me de pensar que era uma excelente combinação com a arquitectura de Gaudi, quando ouvi uma guitarra chorar ali bem perto, claro que não poderia deixar de ser Vasco Carvalho, ou não fosse isto um prólogo decente de uma história ficcionada baseada em encontros improváveis entres duas almas perdidas. Falamos muito pouco, acompanhados por uma Voll-Damm, eu voltei a Lisboa e ele ficou por Barcelona…
Nada disto seria digno de registo sem um derradeiro encontro que marcaria, definitivamente, o início da nossa amizade!
Ocorreu no sítio mais improvável que possam imaginar a seguir aos Pólos, Himalaias e outros locais inatingíveis para meros mortais como eu e o Vasco, em Coimbra. Eu estava ali, mais uma vez, de visita a uns amigos, que tinham vindo fazer o seu Pós-Doutoramento; ele, claramente, pelo Fado. Poder-vos-ia contar os detalhes deste nosso encontro regado com um bom vinho do Dão e temperado com muito Fado. Mas, seguramente, não o faria tão bem quanto ele neste Diário que vos transcrevo.
APC
terça-feira, dezembro 16, 2008
Erguendo as Velas Rumo ao Sol Poente
Os dias crescem
O calor aumenta
A comida falta
A fome aperta
Escravos morreram
Há gente que falta
Lenha escasseia
Na floresta farta.
Jovens enérgicos
Com ímpeto guerreiro
Cresceram no escuro
De que é o Inverno feito
Chegados ao calor
Que traz a Primavera
É vê-los com sede
De mulheres e de guerra.
Tapamos os buracos
Que têm os cascos
Pintamos os escudos
Afiamos o aço
Bebemos cerveja
A pensar em igrejas
Vêmo-las a elas
A tear nossas velas.
Os dias vão longos
E sem negros assombros
Monstros adormeceram
Velas se ergueram
Mulheres se amaram
Rapazes cresceram
Homens para a guerra
Nos barcos partirão.
Ninguém se despede
Nem chora nossa partida
Os ventos da fortuna
Levam-nos nesta nossa vida
Partimos de tarde
Chegaremos de dia
Terror transportamos
Na ponta dos nossos braços.
Ferro, fogo e destruição
Tudo levamos até outra nação
Lá não nos esperam
Não sabem ao que vamos
Agarrados aos remos
Navegamos em frente
Erguendo as velas
Rumo ao Sol Poente.
segunda-feira, dezembro 15, 2008
O Velho
De alto a baixo contemplou-te
Mirou-te, e na sua velha mente
Violou-te...
O Velho, esse velho de pele
enrugada, que dentro de si
tinha ainda uma criança,
Esse velho olhou para ti,
Imaginou-te
E seguiu viagem.
sábado, dezembro 13, 2008
Não me olhes assim
quinta-feira, dezembro 11, 2008
"Realidade destroçada"
Só estas paredes de tempo
Onde caiba uma rosa
Só estas paredes entre a linha do amanhecer,
O meu querer
E o fim do mundo
Só uma inscrição na pedra,
Cheia de musgo,
A alastrar a sombra
E o devastador Dezembro
Apetecia-me dizer
Meu amor e cantar
Para sempre
Meu amor
E esta, a palavra
A repetir-se,
Vocativa do meu grito,
Sinal desse silêncio que não me permite
Esquecer-te
A vida toda
Meu amor
Eu que num encantado gesto
Definitivo e imortal,
Amei-te
Quando procurava o sol na solidão
Meu amor
E te perdi sem nunca te ter achado
Nesse canto fino e aguçado
Que é a fuga
Meu amor
Eu que perdi o passado
E bebi o vinho de todas as garrafas
Só para disfarçar o sabor do sangue
Por não te ter
Mas nada disto, meu amor,
Cabe numa só palavra
Porque amor não é uma palavra para mim
E por detrás do poema
Nada existe.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
Entra Sandman
Lembram-se daquele senhor que escreveu aquele trecho que declamei na tertúlia? O mesmo responsável por alguns textos aqui postados pela minha pessoa?... Sim, aquele a quem chamaram o "gajo da BD". Há também quem o chame de Neil Gaiman.
Ora bem... Parece que encontrei A COLECÇÃO INTEIRA DO SANDMAN PARA DOWNLOAD na net. Quem fizer questão que a peça ao menino jesus em vez das coisas feias do costume :P . Há agora uma versão encadernada que é linda, linda de morrer... não fosse o pack desenhado por DEUS (a.k.a. Dave Mackean, responsável por todas as capas da série Snadman).
Podem fazer o download em:
Sandman - coleção completa (75 volumes)
Já agora podem ler umas linhas sobre este ENORMÍSSIMO escritor na Wikipedia.
Basta clicar aqui
A minha parte favorita: "Gaiman received a World Fantasy Award for short fiction in 1991 for the Sandman issue, "A Midsummer Night's Dream" (see Dream Country). (Due to a subsequent rules change disqualifying comics for that category, Gaiman is the only writer to win that award for a comics script.)" Resumindo e fanatismos aparte: é o maior! :D LOL
Para os mais cépticos que este último link e a minha palavra sirva de alento para baixar 300 e tal mb de pura ARTE!
Disfrutem.
P.s. Caguem para os desenhos... a maioria são uma trampa (há excepções como o Mr. Zuli e a sua técnica estonteante em tinta da china). Se também dão importância ao factor grafico segurem o queixo cada vez que vos aparecer a capa de um volume no monitor.
sábado, dezembro 06, 2008
O centro do mundo
Enquanto tocava no centro
Do mundo,
Reparei nas pequenas cicatrizes
De vida
Além das tatuagens
Cravadas
Na pele:
O corte no joelho da bicicleta
O tornozelo com um pequeno defeito
E depois parei.
Como será que depois de ti,
estará o meu coração?
quinta-feira, dezembro 04, 2008
Mensagem para um amor em pe(le)rigo
É sempre dar... mais, mais e mais.
Adictivamente.
O amor é o heraldo obcessivo do altruismo... suscite reacção ou não, indiferente à natureza da mesma: é assim e assim continurá a ser, alheio a tudo e todos.
Pouco lhe interessa danos colaterais, quem ganha, quem perde... tudo são redundâncias. É escuma sobre uma obra de arte acabada de esculpir. E cuja limpeza nos é delegada e não a essa estupida ilusão que é o passar dos dias, que só os parvos e pobres de espírito comem como solução. Porque o amar não é quantificavel, à semelhança de todas as outras coisas belas.
E a razão pela qual te sentes tão dilacerada por dares à luz o sublime dos sublimes reside na lucidez da nossa alma... não és tu que transportas a cruz sorrindo em nome do amar supremo. Nenhuma alma humana o fez até hoje, exceptuando uma. Só essa alma entendeu na prefeição o quão falsa e aparente é a crueldade que muitas vezes atribuem ao amor.
Porque se é verdade que o teu amor não te pertence a partir do momento que o liberas, és tu mesma que sentes o impulso suicida de o sobrealimentar e de acartar toda e qualquer consequência de algo que já não controlas (e parece controlar-te ao invés).
Por isso não cometas a estupidez de guardar o amor para o teu eu. Limpa a escuma, ou retoca a escultura... e continua a dar. Porque apesar do amor ser enorme demais para te pertencer a ti ou a alguém, a obra resultante é sempre tua. E é sempre bela como as mais belas... mesmo quando ainda se encontra coberta de detritos que, ao remover, magoam o coração e não as mãos.
Porque o amor resume-se a isso: dar. E ninguém pode roubar algo que dás.
Em contraponto só pode ter uma resposta válida: amar também.
E amar nunca é receber.
É sempre dar... mais, mais e mais.
O teu amar não é dos outros, nem sequer teu ... é A SUPREMA obra de arte.
E essa obra de arte és tu.
P.S. : Palavras são palavras e parecem sempre pouco... bazófia aparte, aconselho que te lembres das ideias base deste texto nos próximos tempos. Pode ser que te ajudem.
Escuta-me
Juntos rimos (mais do que chorámos), e bebemos da vida a cada instante! Juntos partilhámos os sonhos e as tristezas, em momentos puros de felicidade... Hoje peço que me escutes meu amigo!
Não me interpretes mal, afinal sempre falámos e sempre foste ombro presente quando mais precisei, sempre o soubeste fazer, e por isso te agradeço... profundamente. Mas hoje peço que me escutes verdadeiramente, agora que os dias terminam mal tendo começado (e não será que terminam todos os dias?).
Sabes que eu represento aquilo que sou para ti... mas não saberás por ventura que não sendo nada e sendo tudo, caminho entre ambas as coisas com o medo da vida porque esse é o sinónimo do receio da morte. E sei que corajoso também não serás, porque ter a coragem de viver o dia a dia não é ter a coragem de o fazer sem uma mancha que te prenda constantemente... Nunca seremos livres, nem tu, nem eu! Até ao dia da liberdade (Será?).
Lembras-te da primeira palavra, do primeiro gesto? A nossa amizade cresceu de um nada, mas tu próprio nem eu conseguiremos algum dia descrever o nada, tal como nunca conseguiremos descrever a eternidade (ou conseguiremos?).
Eu ao contrário de ti acredito na Criação (não acreditarás tu também?). Não numa metáfora, mas em todo um processo cuja génese está para além da explicação científica, mas que toda a explicação científica complementa e dá sentido (saberei eu realmente o que é uma génese se não sei sequer o que é o nada).
Um dia caminharemos juntos no Paraíso, sem saber o fim do caminho... Se calhar nem saberemos o que é o fim (será que a eternidade tem um fim?). Porque até a morte tem um fim ( a não ser que a própria morte acredite na eternidade).
A minha ignorância incomoda-te? Ou incomodará quem porventura escutar estas palavras a ecoar ao vento...? A minha ignorância soa a blasfémia, e cada palavra proferida pela minha boca soa a medo, a tristeza e sobretudo a arrependimento...
Mas se cada palavra é uma despedida, também cada dia o é e amanhã nenhuma destas palavras será lembrada por ti. Irás esquecer, e talvez mesmo a eternidade não as vá lembrar se de facto ela existir. E ainda bem que assim é porque amanhã poderemos sorrir! Amanhã quando partirmos numa viagem. Porque cada minuto é uma viagem
segunda-feira, dezembro 01, 2008
Breves momentos
Ainda que por breves momentos,
Um fim de tarde melancólico…
O pôr-do-sol sempre belo numa perspectiva especial ilumina,
Ainda que por breves momentos,
A monotonia de uma viagem…
Um sorriso contagiante e inesperado provoca,
Ainda que por breves momentos,
Um sorriso tão reflexo como sentido…
A visão de um beijo pleno de amor inocente relembra,
Ainda que por breves momentos,
Um beijo há muito dado…
Um momento de prazer recorrente proporciona,
Ainda que por breves momentos,
Uma doce abstracção da realidade…
[Breves momentos que, na sua efémera existência,
Quebram a banalidade e a tristeza de um trajecto rotineiro]
domingo, novembro 30, 2008
Malas que viajam
A rapariga do check in algo abstraída
Que recebe, pesa, rotula e faz seguir
A malona, fechada, mas quase descosida!
O avião que descola e transporta
O passageiro descontraído e animado…
A ele, nada mais importa
Que chegar, inteiro, ao destino assinalado.
Mas se para o passageiro a viagem é tranquila,
No porão, a história é bem diferente…
A mala que devia seguir, descarrila
Num comboio, transviada para o oriente!
A samsonite metalizada que sai amolgada,
E a necessaire que não acaba a viagem
Porque a equipa de terra está paralisada.
Ahhhhhh, lá se foi a minha bagagem!!!
Malas que acabam perdidas,
Malas que viajam sem destino,
Malas que acabam remexidas,
Safa, mas que desatino!!!
sábado, novembro 29, 2008
Um discurso apaixonado não é um discurso justo
Diz-me que sabias tudo desde início. E que sabes agora como se nem sequer houvesse tempo. Que essa frincha estreita que encontraste foi o suficiente para me trespassares o coração. Só pelo prazer de me fazer sangrar do peito. Admite cobarde. Reconhece que me matas todos os dias, qualquer que seja o intento de te esquecer. Consente que gostas de brincar com a minha alma como se brinca com um pião colorido no recreio da escola. Acaba com isto que eu não aguento mais. A verdade é que és um empecilho na minha vida. Não respiro. Tu não percebes ou finges não perceber a verdade do que sinto. E eu não sei como explicar que só tenho os meus olhos para te abraçar. A minha carne deixou de ser minha quando te conheci e nada me responde. O que mata não é o tempo ou a espera. São os olhos vermelhos de tanto chorar, primeiro por desgosto, depois pela raiva de chorar. Não passo um dia sem te desejar, nem uma noite sem te odiar. Sinto-me tão a mais nesta ânsia.
Porque foges ciente da pele da minha mão? Observas-me indiferente e todas as minhas palavras bonitas, trabalhadas, morrem rapidamente nos teus olhos. Esperei a vida inteira por alguém como tu e cedo percebi que não sei quem és. Por ti mudei a ordem natural das coisas, ainda que aches que nada é assim.
Que se foda a verdade. Que se foda quem não acredita nela.
Vanessa Pelerigo
quarta-feira, novembro 26, 2008
Juntos
E eu e tu caminhamos, afastando as sombras da manhã.
E tu e eu alcançamos, apanhando o sol para além das nuvens.
E eu e tu aproximamos, tomando todo o sofrimento.
E tu e eu subimos, claramente, até ao movimento.
E eu e tu fugimos, para além do fim do esquecimento.
E tu e eu chamamos, o sonho do breve momento.
E eu e tu gritamos, a dor de presos no tempo.
E eu e tu...E tu e eu...
Juntos nunca desaparecemos.
segunda-feira, novembro 24, 2008
Sonhos
mas meus sonhos são negros.
São sonhos,
só para não lhes chamar pesadelos.
São medos,
que não encontram sossegos.
Em vê-los,
são negros meus pesadelos.
sábado, novembro 22, 2008
Tolices... doidas parvoíces
Ideias brilhantes quando sonhamos.
Ouvimos,
Crentes na sua filosofia.
Assimilamos,
Poucas palavras e alguns retratos.
Acordamos,
Baralhados e mal humorados.
Levantamos,
Na maior preguiça diária.
Espelhamos,
Uma imagem, um caos matinal.
Trabalhamos,
Crentes num futuro a termo incerto.
Alimentamos,
A força que nos dá vida.
Amamos,
Na mais bela e inesgotável força.
Divertimos,
Algures no tempo que restou.
Alcoolizamos,
Na bazófia, num rebuliço.
Adormecemos,
Esquecidos, na ausência de sentidos.
segunda-feira, novembro 17, 2008
Anticiclone
Simples e útil vogal,
Surgindo discreta e ligeira
Torna-se foco principal.
O "B" só vem a seguir...
Banal, pouco utilizada,
Sem motivos para sorrir
De tão ostracizada.
Se a primeira traz calmaria,
É a segunda perigosa...
Contudo bem mais saborosa.
Se a segunda o caos anuncia:
Antes o caos a reinar,
Que a primeira a dobrar!
Mais uma do "Sandman"
Dream: There isn't one.
Delirium: Oh. I thought maybe there was.
Dream: No. There isn't.
...
Delirium: Is there a word for forgetting the name of someone when you want to introduce them to someone else at the same time you realize you've forgotten the name of the person you're introducing them to as well?
Dream: No.
...
Delirium: Um. What's the name of the word for things not being the same always. You know. I'm sure there's one. Isn't there? There must be a word for it... The thing that lets you know time is happening. Is there a word?
Dream: Change."
sábado, novembro 15, 2008
"Nada"
Estou cansado. Sinto-o... mais do que estar, sinto-o. Que me interessa a honestidade do concreto se nunca é suficiente para aliviar o peso desta dúvida sempre presente que sufoca e cansa... e moi e entristece?... E cuja única certeza é que irá regressar...
vezes sem conta.
Logo, estou cansado. E cansado continuarei... nos meus raciocínios oxidados, pelo exterior, pelo interior, pelo passado que tive, pelo presente que não tenho, pelo futuro que temo vir a ter...
e não descanso.
Logo, estou cansado. De tanto ter para pensar... e tão pouco poder fazer.
Estou cansado. Cansado de estar cansado...
de estar para aqui...
Cansado.
Carlos Jantarada, Maio de 2008
"Livre"
Queres ser livre... Desde todo o sempre: grades! Grades à tua volta , dentro de ti, dentro dos outros... e queres sair, expandir, respirar... Viver, talvez!
E alimentas o sonho muito para além da vontade, da obcessão, da esperança, do amanhã, talvez mesmo de todo o sempre... até que um dia foges e triunfas:
És livre!
Pelo menos assim o pensas, qual pássaro de asas estropiadas evadido da sua gaiola...
perante o qual se abre um azul infindável.
e ao qual cada novo saltitar susurra a palavra... liberdade!
E és livre... No entanto descobres-te demasiado distante do céu que ansiavas... Na preversão brutal do condicionamento de outras liberdades (incontáveis!) que devoram a tua... Ou na clandestina covardia dos teus erros... No desculpar constante que alimentas com o mesmo sonho a que tanto aspiraste e agora desiludes. A mesma desilusão que irás camuflar na mesma roupagem dos abusos da multidão.
E és livre... Mas quem roubou essa teu céu afinal? A gaiola ou a própria liberdade? A tua? As dos outros? E quantas roubaste tu? O que foi causa? O que foi consequência? Existe mesmo alguma diferença... alguma relevância?
E és livre... até aferires que esse céu azul pelo qual tanto suspariram as tuas asas apenas serve de pano de fundo para as chagas da impossibilidade da tua descolagem ... Que não passa um encardido papel de parede sob o qual aguardam paredes de betão, cuja impenetrabilidade é de largo mais elevada do que a tua velha, familiar e confortável gaiola.
E ficas ali... parado... demasiado aterrorizado para regressar à clausura, demasiado pequeno perante a frustração de mil e um desejos que caem aos teus pés. A meio caminho de tudo... no alpendre de conquistar o ultimo nada... no desmanchar do teu destino... na nudez do teu fingir.
E és livre... mas talvez a liberdade nunca tenha sido moldada para ti... E permaneces. estático... Mas livre, enfim.
Ou então aprecebes-te que muitas prisões há ainda por abrir e muitas outras virão, tentando cerciar o serpenteante emergir da tua ansiedade... que muitas destas serão colocadas por ti, porque as tuas asas não cresceram livres... e que talvez a grande liberdade não seja alcançá-la... Mas sim preservá-la... dentro ou fora da tua cela. Mas sempre parte de ti. Esqueces as feridas, a clausura, o peso das tuas asas no arrastar de um sonho morto. Essas mesmas que agora são o estandarte que acenas perentório, caminhando (e não voando como tantas vezes te viste), indiferente a todos os cáceres que se atravessam nos apeadeiros da tua liberdade.
E finalmente... não a sonhas, não a desejas, não a cobiças... Vives somente...
Livre!
Carlos Jantarada Abril de 2008