segunda-feira, março 09, 2009

Mutantes S21

Cresci a olhar o tejo. A ver os barcos a entrarem e a saírem num rodopio constante. Na altura, ainda a Lisnave era a Lisnave e não um deserto de ferro e cimento. Na altura, a distância de Almada a Lisboa era superior aos vinte minutos do barco e os sonhos iam-se diluindo nas sujas águas do Tejo. Cresci a olhar o Tejo e como ele prometi correr na direcção do mar, ver outros portos e outras paragens, marinheiro livre num mar prazeres imensos, por entre fumos e orgias, mortes e fugas.

Como o Tejo viajei pelo mundo, fiz-me nuvem negra de paradeiro incerto e numa manhã negra chovi em Almada, capital de todo o meu mundo e que contempla essa capital de província onde a nossa aventura começou. Foi num tempo agora incerto, em que não sabíamos quem éramos, uma viagem por todo um mundo novo, uma iniciação à arte de viver... E que bem nos soube viver! Saborear o doce néctar da libertinagem, galopar nas ondas dos sentidos inebriados e sair, desse turbilhão, adultos e acordados, saudosos para todo o sempre desses meses, desejosos que mais ninguém repita os nossos passos, mas com a vontade que todos façam a sua viagem, se libertem de si mesmos, que peguem naquilo que são e no meio da transcrição diária, que é a rotina do dia-a-dia, dêem um pontapé numa perna e se tornem num mutante de si mesmos, nunca retornando ao que eram, acumulando erros e erros como forma de evoluírem, de se libertarem dos espartilhos mentais que em nós são incutidos desde crianças.

...

Ao fim de tantos anos contemplo novamente o Tejo. Ouço as sereias dos barcos e vejo as ruínas da Lisnave. Nas ruas os putos arrastam-se sem objectivos, desfrutam os dias com a obrigação única de chegarem até amanhã sem envelhecerem. Os que dum dia para o outro envelhecem, cedo arranjam quem sustentar com o seu suor. Não é para mim esta vida. Olho o Tejo enquanto enrolo uma broca e lembro-me que foi com uma broca na boca que apanhei o táxi para o Casal Ventoso.

quinta-feira, março 05, 2009

perda

vejo o rio e o gelo
e as pedras
e o lobo assalta-me
a fúria a angústia o medo
e só tu podes salvar-me
o que foi que perdi no fogo
o meu corpo o teu corpo aquele ser
mais que eu
que se perdia e encontrava
na curva do teu ombro
no conforto da tua face
e os cortes
nos meus braços nos meus pulsos na minhas veias
escorrem o sangue
que grita o teu nome

domingo, março 01, 2009

Tempo

Tempo livre a mais
Enquanto geme na cadeira
O meu cérebro grita por mais
Tardes estendido na eira!

Primavera

O Sol ergue-se das copas das árvores
Onde durante a noite reposou
Banhando de luz e apagando as dores
De todas as criaturas que um dia criou
A Natureza, embalada pelo encanto
Que lhe causava um estranho sentimento
De no mundo onde faltava tanto
Não haver quem desse contentamento
À vastidão imensa do nada
Que ficou com tal ocupação
Quando esse castanho que desagrada
Se transformava numa estação
Verde que é a Primavera!

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Indiferença

Lutar?
Lutar para viver
Lutar para crescer
Lutar para dar sem nunca receber
Lutar para viver

Vida que me abandonas
Vida que não compreende
Que não me quer nem me entende
Vida que me faz sofrer
Viver..

Momentos esquecidos
Momentos perdidos
Momentos que vão e nunca voltam
Palavras que custam
Que doem
Palavras que o vento leva

Vida que me abandonas
Sem motivo ou razão
Não tenho coração
Quero ignorar-te e abandonar-te
Como abandonas tudo o que faço por ti
Sem olhar para trás e menos ainda para mim

Tanto que te quero mostrar
Infelizmente o egoísmo não me deixa entrar
A energia vai desvanecendo
A vontade vou perdendo
Já não te quero abraçar

Sangue do teu sangue
Sangue que flui tão diferente
Sangue que questiono e me prende
Vida que me vê indiferente

Como fomos ao que fomos

Os seus lábios pareciam sussurrar algo. Naquele momento eu só ouvia a louca voz do desejo, mas não era esse desejo que ali estava, esse era mais lento e demorado, não o de um vôo directo para o ninho daquela ave. Naquele momento o meu desejo poderia ser saciado na casa-de-banho do bar, mas a voz que me sussurrava pedia algo mais, pedia-me que dançasse com ela (ou seria para ela?) e portanto seguia-a, não mais responsável pelos meus actos. Não era longe esse local onde com o corpo nos deviamos encantar, dois passos e estávamos mesmo no meio, ela a balouçar-se como uma serpente bem encantada, eu a olhar, como a águia que observa a sua presa lá do alto.
Naqueles instantes mirei-a de alto a baixo, os longos cabelos negros caídos sobre os ombros, tapando as alças do também negro top. Parecia não ter soutien, mas o par de rolas roliças a espreitar no seu decote, muito juntinhas uma à outra diziam o contrário. Também à espreita estava esse rendilhado escarlate, que quando ela lhe virava as costas assomava acima da cintura das calças de ganga, naquele momento as mais exóticas e atraentes do mundo, mas que à luz da manhã não passariam de um tapete no frio chão do quarto, que mais não faziam do que atrapalhar o andar.
Naquela noite não atrapalhavam! Pareciam o tecido mais ágil e elástico enquanto ela se contorcia e me ia enfeitiçando. Foi sem resistência alguma que a acompanhei até ao bar, reabastecemos o sistema alcoólico e ficámos ali à conversa. Não foi imediatamente, mas a mão dela acabou por tocar a minha. Seguindo a deixa, fui-lhe percorrendo o braço suavemente, com a parte de trás dos meus dedos, até que cheguei às já referidas alças. Ela virou-se um pouco de lado e com a outra mão conduziu a minha para o decote. Ali fiquei uns instantes a acariciá-la, até que de repente veio a ansiada proposta de ir mais longe, longe dali. Perguntou se eu tinha algo em mente e como eu demorasse a responder algo mais do que "Tenho o carro lá fora", ela sugeriu o quarto que tinha ali perto. Não a olhei nos olhos naquele instante. Olhei-lhe para o rabo, para as mamas, para as ancas, para as coxas, para a cintura, para todo o lado, menos para os olhos. O que não vi foi o olhar de luxúria que ela me deitava. Se o tivesse visto teria visto reflectido o mesmo olhar que lhe lançava, correndo o risco de nos cegarmos mutuamente.
O pensamento de uma casa, de um quarto, as imagens que daí vinham, o antecipar... Tudo me cegava naquele percurso, todas as imagens apetecíveis desligavam pouco a pouco o meu cérebro para os estímulos diferentes daqueles que ali estavam sentados ao meu lado. Os estímulos dispararam o inconsciente "Vamos!" que respondi...

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

À noite, antes do quarto à beira-rio

É noite. A noite que antecede a manhã que anteriormente narrei. Encontro-me num bar sozinho. Estava em casa e apeteceu-me sair. Apeteceu-me assim sem mais nem menos, sem nenhum motivo aparente, mas a verdade é que todos os nossos actos são definidos por aquilo que decidimos e não como voltar atrás. Se hoje pudesse voltar atrás não mudaria aquele momento, tê-lo-ia antecipado em vários dias, para que depois dele houvessem mil outros! Fui para um bar na vila piscatória, onde tudo o que se pesca é turistas. Turistas e gajos como eu, em bares frequentados por putos e pitas, o mais velho deles com idade para ser meu filho. Nenhuma delas no entanto se parece com filhas minhas. Eles são claramente putos, como se diz em inglês “boys will be boys” e não há roupa ou atitude que o disfarce. Um rapaz que se porte como homem no máximo faz ar de parvo e idiota. Um homem que se porte como um rapaz está apenas bem disposto e com ar de jovem. Muitos deles ainda nem eram projectos de filho quando as músicas que tocam foram feitas, alguns deles provavelmente foram pensados ao som das músicas mais melosas. Um amigo meu, americano, que um dia ali esteve comigo disse-me que “this bar has plenty of eye-candy for all” e a verdade era mesmo essa. Miúdas, mulheres, rapazinhos e homens feitos. Num canto um casalinho de gajos, da minha idade mais ou menos, comia-se discretamente, e uma pitareca, no meio da pista, entretinha-se a acariciar gentilmente o rabo a um amigo, enquanto o avô dela a abraçava por trás, num acariciar de seios nada discreto. Foi a observar este clima que a vi encostada ao balcão. Não sei o que me chamou a atenção, mas o que é certo é que num instante estava a condenar moralmente aquele velho rebarbado, no outro estava a imaginar conversas com aquela mulher. Porque era uma mulher que me parecia, ali, de copo na mão, a olhar para a pista.
Tinha o cabelo liso e solto, que lhe caía pouco abaixo dos ombros, uma pele pálida e um sorriso de animar um velório. É verdade que, sentado à janela de casa dela, quando olho para a cama não consigo pensar o que me atraiu nela, mas naquela noite parecia Afrodite encarnada e não consegui desviar nem olhar nem pensamento, até que ela, vendo-me a contemplá-la, se dirigiu a mim.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

De manhã à beira-rio

Acordo de manhã, o rio à minha frente, à esquerda o oceano.
Acordo e vejo na cama uma bela rapariga. Percorro-lhe com o olhar as curvas do corpo semi-nú, tapado, aqui e ali, pelos finos lençóis com que nos protegemos da brisa nocturna. Olho novamente o azul esverdeado do rio, que reflecte o brilho intenso do sol do meio dia. Deve ser já tarde, mas porquê ter pressa? Não há pressas que me tirem a noite passada. Vejo ali ao meu lado o corpo de uma bela rapariga. Agora despida de maquilhagem e de roupas não me parece mais do que uma adolescente. Se calhar é uma adolescente... Que diabo, se é uma adolescente a verdade é que se portou como uma mulher bem adulta!
Ela dá uma volta na cama. Irá acordar? Não, está apenas a aproveitar o espaço extra. Penso por um instante em arranjar-me e sair de casa, mas por algum motivo não o consigo e fico ali parado a olhar o rio que flui para o mar. Não dou comigo a pensar nela, ela é apenas umas palavras cordiais, um número de telefone que já não uso e um “adeus até nunca mais”, que nunca será dito. Provavelmente ela ou já pensou o mesmo, ou irá pensar quando acordar, afinal que atracção vem de duas pessoas que se conheceram num bar na mesma noite em que uma delas leva a outra para a intimidade do seu lar?

Não é nela que penso mas sinceramente, também não penso em mim. Penso apenas na paisagem, penso nos tons de verde que o rio reflecte. Foda-se, deve ser a paisagem mais espectacular que já vi. A vontade que dá é de ir para a marginal que passa logo por baixo da janela daquele primeiro andar e andar para trás e para a frente, a contemplar os pássaros. Será que este prazer me vai ser negado por muito mais tempo, apenas pela consciência que tenho de me despedir frontalmente de uma fonte de outros prazeres, que há muito chegaram ao oceano do meu ego?

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Recordar o descanso

Recordar a calma quotidiana é um privilégio que muitas vezes me passa ao lado. São horas desgastadas no trabalho, são minutos desligados da vida e no desleixo. Esquecido dos prazeres que nunca pensei rejeitar...

Hoje ganhei uns segundos de sobra e o reconforto fez-se sentir nas batidas da música e nas poucas linhas que hoje vos escrevo. Poucas palavras mas resumindo este breve sentimento de descanso (especial)!

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Primeira Vez

Ah, sei que não é aqui. Não devo, não posso. Os medos não se contam, que medos são coisas para esconder. Que pensarão, que dirão de mim? Talvez não pensem nem digam nada, e passe despercebida, sem ninguém me notar. E entretanto, pode ser que se passe uma vida, e tenha logrado não ser ninguém.

Não, mas não posso dizê-lo aqui. Não posso falar de mim, nem de jardins escondidos, nem de tempos antigos, que há coisas que se não contam, para que não nos possam julgar.
Não, certamente não falarei de mim, como se de outra pessoa falasse. Ainda assim não notem que me descrevo e me conto, em palavras que jamais me poderiam contar.

Esconderei a cada linha que tenho medos iguais aos outros, que tenho vida como os demais, que rio e choro a cada passo, que partilho angustias e remorsos semelhantes. E a cada palavra esconderei o quanto gosto de contar, de me contar, de contar o que me contam. Não demonstrarei em parágrafo algum o prazer da partilha, da escrita, da própria palavra.

domingo, janeiro 18, 2009

I walked a world of empty streets

Era uma vez num sítio errado, com as pessoas erradas, com tudo errado…
Estúpida. Sou mesmo estúpida. Apesar de saber tudo isso, insisto na estupidez. Nesta construção lenta do meu amor nos teus braços que tardam e nunca chegam. Porque o amor não depende das escritas, das letras, dos poemas ou das flores em que insisto. Depende dos olhos. Dos teus, convenhamos. Mas, a transparência não é teu apanágio. E a sensatez não me conhece.
Lembro-me todos os dias que um analfabeto pode ensinar um poeta.
Como pôde um fósforo atear este fogo imenso? Esta dor. Amarga dor. Doendo, tingindo, sangrando. O tempo não cura tudo. É um bom anestésico, apenas isso e pouco mais. A distância só adormece, não salva. Quando te olho tudo volve e há aí uma morte que queima, vezes sem conta. Porque o amor é um abandono e tu partes sempre ao primeiro sorriso que te coloco nos lábios.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Sleet

Chegaste já o sol era posto
E deixaste-me em pulos o coração...
Senti-te tocar-me o rosto,
Fizeste-me explodir de emoção.

Puseste-me a andar como louco,
Penetraste em mim em cada rua.
Mas acabaste por mostrar tão pouco
E instalou-se a realidade crua

Teu feitio não era consistente,
Tua presença tornou-se enfadonha.
De deusa tornaste-te decadente,
Fonte de uma tristeza medonha...

Tua presença foi longa
Quando devia ter sido mais breve
E por isso despede-te sem delonga
Maldita sejas, água-neve!



Nota de autor: Originalmente criado para www.meteopt.com

sábado, janeiro 10, 2009

A Morte

A morte vem devagar
Devagar com seus passos suaves
Para não nos incomodar
Traz na mão o encanto de uma vida
Plena e cheia de alegria
Com que nos seduz e bajula
Esses encantos próprios da sua
Condição terminal

A morte é uma criança
Inocente e cheia de esperança
Que o dia de amanhã é eterno
Dura para sempre e não acaba
A morte não sabe nada
Aparece e tudo muda
Tudo se altera, nada fica como era

A morte não é o fim
Mas a morte não é o princípio
A morte é mais um dia, um mês, um ano
Todo um estado em que estamos
E em que nada precisamos

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Como posso descrever?...

Como posso descrever?
Sinto as pernas carregadas, os músculos tensos, ainda a latejar… os olhos pesados e com fundo avermelhado, paro o carro e olho-me no espelho retrovisor, que cansaço esbatido no rosto. Após quatro noites de trabalho…, sinto o corpo quase a quebrar…

Desligo o carro e abro a porta, o frio cortante de hoje trespassa-me o rosto…, entra-me pelo casaco ainda desabotoado, sem pedir licença e consegue alcançar a minha pele, mesmo com as camisolas que trago vestidas. Faz-me arrepiar cada parte do meu corpo fatigado, faz-me sentir viva… . Abotoo-o e aconchego-me bem, enquanto dou os pequenos passos que são necessários até à porta do meu prédio…

Mas hoje há um cheiro familiar no ar… inspiro profundamente, sinto o ar frio da manhã de inverno a percorrer os pulmões e a fazer-me lembrar de cada parte do meu corpo que estava adormecido pelo cansaço e pelo calor do carro onde conduzi. Hoje existe o aroma de uma noite fria, com alguma humidade no ar…, apesar do céu azul que se desenha agora de manhã.

Como posso descrever?... Inspiro novamente….
Sabe bem o ar frio que me enche os pulmões e o vento gelado que corta o meu rosto, é engraçado, como o cheiro me é familiar, faz-me sentir simplesmente bem… Lembra-me o inverno frio, lembra-me aquelas manhãs frias em que somos crianças e ficamos em casa a ver os desenhos animados na televisão aos domingos de manhã, logo pelas 7horas, lembra-me sair de mão dada com os meus pais já depois de almoço e sentir este frio de agora igual, lembra-me… Simplesmente não consigo descrever…, recordo-me o levantar da cama sentir o frio a trespassar o meu pijama e correr para cozinha e pedir o leite com chocolate à minha mãe, ver ela a prepara-lo do sofá e bebê-lo quentinho na sua companhia… enquanto ela faz um bolo por ser domingo…

Meto a chave na fechadura do prédio…, sinto-me bem…, sinto-me viva… sinto-me com vontade de viver cada momento e cada pormenor que nos rodeia… Apesar do cansaço esbatido no rosto, tenho sede de viver… mas hoje subo as escadas chego a casa e adormeço profundamente enquanto a maioria das pessoas trabalha…
Vivo enquanto durmo, sonho… renovo-me para o que aí vem…**

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Fausto

Fausto.

Sempre aquele nome a cercar-lhe a pele como uma doença. Sempre aquele sentimento como um cancro a comer-lhe as tripas.

Fausto.

Aquele homem para sempre. Um homem que nunca amou, carne na carne. E, no entanto, o único que lhe ocupará o tempo para sempre.



07.20

Saio de casa agasalhada do frio, mas não do desgosto. A vida passou a ser uma rotina de gestos sem tempo ou cor. Apanho o autocarro e, depois, o metro e depressa chego ao trabalho. Sem ânsia. Processos e mais processos. Injunções, impugnações, oposições. Prazos, dívidas, pessoas já sem alma. Tanta coisa com tão pouca vida. Às vezes apetecia-me por fim a isto, sem dizer adeus.

Partir sem nunca chegar a lado algum. Mas, o teu nome chama-me quase todos os dias à razão, em gesto de fé e de alegoria ao querer. E eu fico. Por ti. Quando nada mais existe. Só tu e o teu nome

Fausto


Fausto, aquele nome. Quando, qualquer outro - João, Pedro, José, Luís, António ou Frederico - só quer dizer amor.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Histórias Tristes dum Homem Feliz

Diário de Vasco Carvalho

Prólogo

 

Passam poucos minutos das quatro da manhã, e encontro-me em Castellon de La Plana, pequena cidade na costa mediterrânica de Espanha, a poucos kilómetros de Valência. Está um frio de rachar nesta manhã de Outubro, o vento sopra gelado de Norte e corta-nos a alma fazendo-nos sentir vivos! Sempre gostei deste tipo de frio… Talvez porque me faça lembrar a sensação reconfortante da lareira e do cobertor que me aqueciam em dias assim quando era criança. O autocarro das quatro está atrasado, como sempre. No meio da pequena multidão de romenos e árabes que se movem nervosamente à minha volta, um rosto sobressaí… Um homem na casa dos quarenta anos com uma guitarra ás costas. Fixo-me neste homem, com aquele aperto que nos vem ao peito quando encontramos uma cara fora de contexto… Um rosto tão familiar, e a angustia de não sermos capazes de nos lembrar de onde o reconhecemos, apesar de sentirmos ser uma boa recordação… Começamos lentamente a tentar recordar todas as coisas boas que nos aconteceram nos últimos tempos e mais a angustia aumenta quando nos vemos incapazes de o fazer com exactidão… É quando começa a confusão temporal no nosso cérebro e já não somos capazes de organizar convenientemente a sucessão de momentos de que nos vamos lembrando! Até que alguma pequena faísca acidental nos faz lembrar exactamente o momento em que conhecemos aquele rosto e, a partir de aí tudo faz sentido, recuperamos as nossas memórias e o respectivo sentido cronológico. Para mim foi quando, este homem se cansou de esperar sentado pelo autocarro que já estava atrasado pelo menos meia hora e tirou a guitarra… Começou por tocar pequenas melodias de breves segundos, talvez aquecendo os dedos deduzi. Senti um ambiente daquele jazz tão brasileiro. Hummm… O vento continua a soprar gelado, mas a Bossa Nova aquecia o ambiente. Os romenos e árabes deixaram de me parecer tão frenéticos e tudo retomou a devida calma da espera, menos o meu cérebro, que por estas alturas continuava a sua batalha secreta por recordar este homem… Até que dou por mim a entoar, mentalmente, a letra d’A Garota de Ipanema, e pergunto-me porquê… De facto, aquela guitarra velha assim mo ditava e lembrei-me! Aquela música e a linda Adriana! Foi em Lisboa! Sim, conheci-o em Lisboa: verão de 2001! Chocamos, literalmente, no Castelo de S. Jorge! Ele estava a tocar esta mesma música e uma jovem de cabelos castanho-claros, pequenas ondas de paixão que lhe cobriam os ombros, com um vestido de alças, todo ele sinónimo de desejo, que cobria aquela escultura divina até dois dedos acima do joelho … Ela cantava a melodia e pequenos movimentos da sua cintura completavam o quadro… Claro está que absorto nesta visão idílica fui chocar com o guitarrista! Para além de ter estragado o momento verifiquei que alguns estrangeiros voltaram a por as moedas no mesmo bolso de onde as tinham acabado de tirar. Acabei por os convidar para beber um copo e, talvez, comer qualquer coisa. Mais para ver de perto esta reencarnação de Helena de Tróia, que por compensar as suas perdas monetárias, acho eu! A verdade é que aceitaram prontamente… O sol estava a pôr-se na foz do Tejo e Lisboa tingida pelos seus tons doirados completava a beleza da jovem. Ficamos ali perto, num café para turistas, não quis parecer inoportuno ou mal-educado em tentar escolher um sítio mais cómodo de preço, afinal de contas, tinha-lhes estragado o negócio e ainda estava adormecido por ter diante de mim tamanha formosura. Foi assim que nos conhecemos, ele na casa dos trinta, homem rude de roupas velhas, mas impecavelmente limpas, as mãos calejadas, a barba por fazer, olhos de um cinzento apagado que gritavam saudade, a guitarra com visíveis danos físicos e, a julgar pelo dono, psicológicos também. Nome: Vasco Carvalho; Idade: 33; Profissão: Fazedor de Nada, como ele se auto-proclamava; Proveniência: filho de portugueses, mais propriamente de Angra do Heroísmo, radicados nos Estados Unidos, São Francisco, para ser mais exacto. Ela, como já vos disse, capaz de mudar o significado de Beleza patente nos Dicionários… Nome: Adriana dos Anjos (ahhh! Como fazia jus ao nome…); Idade: 25; Profissão: Modelo, cantora, bailarina, ou, como acabou por simplificar depois de algumas garrafas de vinho, todo o tipo de trabalhos que dêem dinheiro só pelo facto de se ser bonita e em que não se tenha que utilizar directamente o corpo; Proveniência: filha de Brasileiros de uma cidade que não me lembro do nome, também eles a trabalhar nos States, São Francisco. Fora aí que se conheceram, no Bar de Jazz onde seu pai era o responsável por seleccionar os novos talentos que todos os dias apareciam a tentar a sua sorte! Vasco foi um deles, e apesar das escassas oportunidades como interprete, tornou-se um frequentador habitual, a principio apenas pelo prazer de ver Adriana e mais tarde pelos ensinamentos que ia recolhendo, principalmente do pai de Adriana, que ao ver que a sua filha se tinha apaixonado por um artista falhado, decidiu fazer dele alguma coisa de jeito, e a verdade é que conseguiu. Um ano depois de ter entrado no Bar pela primeira vez encheu a pequena sala de concertos. Decidiu que era altura de partir e conhecer o mundo! Decidira vir para Portugal, conhecer o país de que tanto ouvira os seus pais falar na sua infância! Adriana, como transparecia no seu olhar segui-lo-ia até ao fim-do-mundo, pelo que veio com ele utilizando a desculpa que Portugal fazia, também, parte das suas raízes… Já a Lua ia alta e ficamos por ali… Uma promessa vã de nos voltarmos a ver, se bem que eu não me importaria nada de voltar a encontrar Adriana… E nada mais… Até hoje! Em Castellon de La Plana, pequena cidade na costa mediterrânica de Espanha, a poucos kilómetros de Valência e a espera por um autocarro para Barcelona que está atrasado, como sempre, uma guitarra e alguns romenos e árabes nervosos! Não pude deixar de o cumprimentar! Primeiro verifiquei o seu olhar surpreso por alguém se lhe dirigir em português e depois, talvez a mesma angústia pela qual eu tinha passado momentos antes, a tentar lembrar de onde seria familiar o meu rosto. Resisti à tentação de o pressionar perguntando se já não se lembrava de mim, da mesma forma que não lhe retirei o prazer de se lembrar por si mesmo e exclamar: “Ahhhh! O desastrado do S. Jorge!” – Por breves momentos reavaliei as minhas duas ultimas decisões!

 

Fiquei desiludo ao saber que Adriana voltara para o conforto do Lar e questionei-me qual o interesse de continuar a falar com ele, um pequeno olhar em redor, para constatar que apenas romenos e árabes esperavam o autocarro forneceu-me razões suficientes… Nós éramos, ali e naquele momento, uma minoria étnica, pelo que tínhamos a obrigação de permanecer unidos! Chegou o autocarro, finalmente! Falamos de nadas, pequenas trivialidades e talvez outras coisas que não me lembro até Tarragona. Eu ficava por ali, tinha uns amigos para visitar neste, outrora, importante porto do Império Romano. Ele seguia viagem até Barcelona. Comentei em jeito de promessa vã, mais uma vez, que eu também lá estaria dentro de um par de dias… Na verdade, não julguei que o encontraria jamais, uma coincidência é muito numa vida tão curta! Mas, de facto, passadas duas semanas, estava eu a cumprir a minha visita ritual de ultimo dia em Barcelona ao Parc Güell, quando me fixei numa rapariga, esta de aparência normal, que fazia bolas de sabão gigantes, lembro-me de pensar que era uma excelente combinação com a arquitectura de Gaudi, quando ouvi uma guitarra chorar ali bem perto, claro que não poderia deixar de ser Vasco Carvalho, ou não fosse isto um prólogo decente de uma história ficcionada baseada em encontros improváveis entres duas almas perdidas. Falamos muito pouco, acompanhados por uma Voll-Damm, eu voltei a Lisboa e ele ficou por Barcelona…

Nada disto seria digno de registo sem um derradeiro encontro que marcaria, definitivamente, o início da nossa amizade!

Ocorreu no sítio mais improvável que possam imaginar a seguir aos Pólos, Himalaias e outros locais inatingíveis para meros mortais como eu e o Vasco, em Coimbra. Eu estava ali, mais uma vez, de visita a uns amigos, que tinham vindo fazer o seu Pós-Doutoramento; ele, claramente, pelo Fado. Poder-vos-ia contar os detalhes deste nosso encontro regado com um bom vinho do Dão e temperado com muito Fado. Mas, seguramente, não o faria tão bem quanto ele neste Diário que vos transcrevo.

 

APC

terça-feira, dezembro 16, 2008

Erguendo as Velas Rumo ao Sol Poente

De repente uma voz ergueu-se acima de todas as outras. Cantava, mas não havia instrumentos e o som daquela voz aquecia a alma de todos. Cantava naquela língua rude e áspera de terras onde as noites duram dias e não há escravos nem senhores. Cantava, numa toada entristecida que alegrava. Cantava sozinha, mas rapidamente todos começaram a cantar com ela, e quando me apercebi também já eu gritava a plenos pulmões:


Os dias crescem
O calor aumenta
A comida falta
A fome aperta
Escravos morreram
Há gente que falta
Lenha escasseia
Na floresta farta.

Jovens enérgicos
Com ímpeto guerreiro
Cresceram no escuro
De que é o Inverno feito
Chegados ao calor
Que traz a Primavera
É vê-los com sede
De mulheres e de guerra.

Tapamos os buracos
Que têm os cascos
Pintamos os escudos
Afiamos o aço
Bebemos cerveja
A pensar em igrejas
Vêmo-las a elas
A tear nossas velas.

Os dias vão longos
E sem negros assombros
Monstros adormeceram
Velas se ergueram
Mulheres se amaram
Rapazes cresceram
Homens para a guerra
Nos barcos partirão.

Ninguém se despede
Nem chora nossa partida
Os ventos da fortuna
Levam-nos nesta nossa vida
Partimos de tarde
Chegaremos de dia
Terror transportamos
Na ponta dos nossos braços.

Ferro, fogo e destruição
Tudo levamos até outra nação
Lá não nos esperam
Não sabem ao que vamos
Agarrados aos remos
Navegamos em frente
Erguendo as velas
Rumo ao Sol Poente.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

O Velho

E o velho olhou para ti
De alto a baixo contemplou-te
Mirou-te, e na sua velha mente
Violou-te...

O Velho, esse velho de pele
enrugada, que dentro de si
tinha ainda uma criança,
Esse velho olhou para ti,
Imaginou-te
E seguiu viagem.

sábado, dezembro 13, 2008

Não me olhes assim



- Porque me olhas assim?
- Assim como?
- Como se esperasses algo de mim?

Não sabes, ainda, que não há nada por que esperar?
Todo eu sou vácuo, nem o éter me enche a alma… Apenas cheio da nada… Nadas gigantes que me preenchem todo o espaço!
Aqui só há desespero e nada pelo que esperar… 
Não sei… Não sou capaz de suportar esses olhos sobre a minha alma… Quando me olhas todo eu estou nu diante de ti… Todo eu sou carne! 
Ainda que pareça despretensioso, esse teu olhar, é o meu sentenciador… 
E eu confesso: sou culpado! 
Não aguento mais… Sou culpado… De Ser, inevitavelmente, Eu!

- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me enlouqueces!

Porque me tiras de mim… Desvairas o meu pensamento, e eu não sei o que fazer nem como reagir… Não posso mais com a candura do teu olhar cor-de-mel! Fora eu cego, e ainda assim a intensidade do teu olhar me deixaria alucinado… Doido! 
Não consigo pensar, todo eu sou o teu olhar singelo… Deixas-me tão fora de mim, que pareço flutuar sobre a minha própria vida. Tudo se me sucede como pequenas nuvens de acontecimentos! Todo eu louco, a arfar, pelo teu olhar! Tudo o que luz é os teus olhos! 
O teu olhar faz-me vibrar! Entrar numa ressonância tal com a espiral da loucura que não consigo suportá-lo… Só quero que olhes noutra direcção!
E quando não me olhas:
Todo eu sou desejo desse olhar! Todo eu sou ciúme das coisas que olhas em vez de mim! Todo eu sou espera por esse olhar mágico! 

- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me aleijas!

Dói, saber que não te posso ter… Dói, saber que não és minha, ainda que eu seja teu!
Porque me feres a alma com esse olhar hipnótico! Porque não! Porque sim! Porque não me apetece! Porque tenho consciência da dor, talvez porque a precinta aqui tão perto, só à espera de uma oportunidade para nos atacar! 
Porque dói a certeza do futuro incerto! Porque dói a distância a que me condeno! Porque a dor não se deixa esquecer… Porque sou incapaz de me entregar a ti assim como o negro se entrega ao abismo! Porque não escolhi Ser eu! 
Porque o teu olhar me rasga em dois:
O Eu Animal… O Eu Primordial… Ou o que quer que lhe queiram chamar… Que te deseja tão ardentemente como os incêndios de Verão… Que te quer dilacerar! Que se condena a Ti todos os momentos… Que não vive senão pelo teu olhar! 
E:
O Eu Racional… Que te odeia como esses mesmos incêndios odeiam a água… Que sabe a impossibilidade de Nós! Sabe, também, que ainda que sejas minha alguma vez, não serás, nunca, de nós!

- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me dás medo!

Porque tenho medo que vejas todas as coisas boas e más que te quero fazer! Porque para esse teu olhar sou translúcido, todo eu transparente! E sei que vês bem dentro de mim, e… E tenho medo! Que vejas estes meus pensamentos! Que vejas como imagino o nosso primeiro beijo e os sítios bonitos da minha alma que te quero mostrar… Mas tenho mais medo ainda que vejas como te quero possuir como um animal, como necessito que sejas minha! Como a minha alma treme só de pensar na fricção dos nossos corpos… Como seria capaz de te matar apenas para não te perder… Tenho mais medo ainda de saber que isto é certo! Tão certo como não poder ter-te! Tenho medo que te condenes a mim, não pelo que sou, mas pelo eu que construíste em ti! Pelo eu que existe apenas para esse olhar! Sim, aquele que nem uma palavra consegue articular! Aquele que ouve o teu respirar pelo canto do olho e começar a flipar… Este eu, o outro eu! Tanto faz qualquer um! Nenhum é nada sem outro, e por isso vão sempre juntos, menos quando me olhas assim e me partes ao meio… Tenho medo que os fragmentos que vejas sejam piores que a soma!

- Não olhes assim, já disse!
- Porquê?
- Porque não!

Às vezes só queria arrancar este meu coração velho e ser todo eu aço! Todo eu uma impenetrável muralha que se apresenta perante esse teu olhar sem uma única réstia de sentimento ou dor!
Às vezes só queria não Ser! Às vezes penso que preciso de arejar as ideias e que a melhor forma para o fazer era colocar uma janela na cabeça!
Às vezes só queria arrancar este bocado de mim que és tu e…
E… Descansar! Deitar-me entre o feno e dormir, finalmente!
Às vezes só quero fugir daqui e não olhar para trás! 
Às vezes só queria chorar por não te ter!

E eu só quero que me olhes uma última vez! Que me olhes com um olhar singelo de quem vê pela primeira vez … 
Só quero ser simples!

Só quero não sentir este horror de ti!

quinta-feira, dezembro 11, 2008

"Realidade destroçada"

Mesmo que fossem só estas quatro paredes
Só estas paredes de tempo
Onde caiba uma rosa
Só estas paredes entre a linha do amanhecer,
O meu querer
E o fim do mundo
Só uma inscrição na pedra,
Cheia de musgo,
A alastrar a sombra
E o devastador Dezembro

Apetecia-me dizer
Meu amor e cantar
Para sempre

Meu amor

E esta, a palavra
A repetir-se,
Vocativa do meu grito,
Sinal desse silêncio que não me permite
Esquecer-te
A vida toda

Meu amor

Eu que num encantado gesto
Definitivo e imortal,
Amei-te
Quando procurava o sol na solidão

Meu amor

E te perdi sem nunca te ter achado
Nesse canto fino e aguçado
Que é a fuga

Meu amor

Eu que perdi o passado
E bebi o vinho de todas as garrafas
Só para disfarçar o sabor do sangue
Por não te ter

Mas nada disto, meu amor,
Cabe numa só palavra
Porque amor não é uma palavra para mim
E por detrás do poema
Nada existe.