quarta-feira, fevereiro 18, 2009

À noite, antes do quarto à beira-rio

É noite. A noite que antecede a manhã que anteriormente narrei. Encontro-me num bar sozinho. Estava em casa e apeteceu-me sair. Apeteceu-me assim sem mais nem menos, sem nenhum motivo aparente, mas a verdade é que todos os nossos actos são definidos por aquilo que decidimos e não como voltar atrás. Se hoje pudesse voltar atrás não mudaria aquele momento, tê-lo-ia antecipado em vários dias, para que depois dele houvessem mil outros! Fui para um bar na vila piscatória, onde tudo o que se pesca é turistas. Turistas e gajos como eu, em bares frequentados por putos e pitas, o mais velho deles com idade para ser meu filho. Nenhuma delas no entanto se parece com filhas minhas. Eles são claramente putos, como se diz em inglês “boys will be boys” e não há roupa ou atitude que o disfarce. Um rapaz que se porte como homem no máximo faz ar de parvo e idiota. Um homem que se porte como um rapaz está apenas bem disposto e com ar de jovem. Muitos deles ainda nem eram projectos de filho quando as músicas que tocam foram feitas, alguns deles provavelmente foram pensados ao som das músicas mais melosas. Um amigo meu, americano, que um dia ali esteve comigo disse-me que “this bar has plenty of eye-candy for all” e a verdade era mesmo essa. Miúdas, mulheres, rapazinhos e homens feitos. Num canto um casalinho de gajos, da minha idade mais ou menos, comia-se discretamente, e uma pitareca, no meio da pista, entretinha-se a acariciar gentilmente o rabo a um amigo, enquanto o avô dela a abraçava por trás, num acariciar de seios nada discreto. Foi a observar este clima que a vi encostada ao balcão. Não sei o que me chamou a atenção, mas o que é certo é que num instante estava a condenar moralmente aquele velho rebarbado, no outro estava a imaginar conversas com aquela mulher. Porque era uma mulher que me parecia, ali, de copo na mão, a olhar para a pista.
Tinha o cabelo liso e solto, que lhe caía pouco abaixo dos ombros, uma pele pálida e um sorriso de animar um velório. É verdade que, sentado à janela de casa dela, quando olho para a cama não consigo pensar o que me atraiu nela, mas naquela noite parecia Afrodite encarnada e não consegui desviar nem olhar nem pensamento, até que ela, vendo-me a contemplá-la, se dirigiu a mim.

4 comentários:

alphatocopherol disse...

Ora que venha então a continuação!

João disse...

"(...) não consigo pensar o que me atraiu nela, mas naquela noite parecia Afrodite encarnada (...)"

Nesta frase estão exemplificados os malefícios (e para alguns, benefício) da bebida LOL

Sem brincadeira, muito bem escrito, e a deixar vontade de ler o resto (?) da história!

Chas. disse...

Estou a gostar bastante do novo estilo que tens adquirido nos teus textos.

Agora fico a aguardar é que eles se apimentem ao ponto de irem tb para a PENAL :D

Tony Madureira disse...

Olá,

Gostei! Voltarei.

Abraço