quarta-feira, Agosto 13, 2014

Aranha

Apressa-se numa refeição estonteante
numa vereda amarfanhada
eléctrica e mortífera;
vibram-lhe os tentáculos musculados
para se extasiar cegamente.
Devora a vítima nos imensos cantos do enigma,
numa ressequida viagem paupérrima,
aglutina, revertendo-se simulada.
Vertiginoso e efémero momento...
são escassos segundos no compasso cru,
como um bisturi...golpeia com precisão,
a pele nua e sonâmbula.
Tombam as vítimas inertes na calçada,
apenas existem as luzes toscas,
dos imensos e solitários candeeiros de ferro;
escurecem os gritos roucos
entre os espaços negros de sangue,
que restam dos poucos minutos de vida...

Artur Patrício

Silencio

Silencio 
aproveito o silencio da noite
quebrado por musica 
produzida por uma agulha 
riscando um prato de vinil

silencio da noite 
que faz pensar em momentos
passados contigo 
momentos que poderíamos ter passado 

aproveito o silencio da noite
para te esquecer
para me reintegrar
para me reagrupar
para me reconstruir
para te colocar no álbum de recordações
que tu teimas em não ficar
com a tua constante presença 

este silencio nunca mais será o mesmo 
será sempre mais silencioso
será sempre mais solitário
será sempre mais triste

até esquecer e perder te na memoria

sinto me muito mais calmo sem ti 
muito mais solitário

e a agulha risca a ultima linha do prato de vinil
e o silencio volta a ser mais profundo 
depois de ti

Manuel Garcia

terça-feira, Agosto 12, 2014

The Bad Wolf...



A meu lado caminha um lobo,
que nunca se perde e nunca se cansa.
Sempre à distância de um olhar o encontro, esperando por mim.
A beleza dos seus olhos e a prata do seu pelo, escondem a sua verdadeira natureza,
pois o meu lobo é feito de paixão, de raiva e de medo.
É feito de uma fome infinita,
que nem mil vidas conseguiriam saciar.

Houve tempos em que não resisti em tocar-lhe,
em mergulhar no seu manto de seda  e sentir o seu calor.
Como qualquer animal selvagem, rasgou-me a carne,
dilacerou-me o peito, deixando-me à beira da morte.
E eu aprendi. Aprendi a caminhar a seu lado,
Contemplando-o em toda a sua infinita beleza, sem o deixar aproximar.

Mesmo no mais escuro breu, vejo o brilho dos seus olhos, o seu apelo silencioso,
E sei: caminharemos sempre lado a lado, eu e o meu lobo,
e só depende de mim, mantê-lo afastado.

segunda-feira, Agosto 11, 2014

Segundos

A chuva intensa ocultava-me por completo o caminho, restava-me apenas esperar por um milagre ou recolher-me num barracão velho que vira metros antes. O cenário era fantasmagórico, esperava-me um caminho às escuras delimitando o abismo...Parecia um filme a preto e branco. Na minha mente, além da pele encharcada, recordava os velhos filmes monocromáticos; era assim que eu estava, rodeado de incertezas e todas em tons cinza. Pesadelo! Tentava respirar conscientemente, quase sincronizadamente ao som das gotas pesadas que gritavam assim que embatiam no solo. A chuva intensa parecia não querer abrandar.
Tinha a certeza que ninguém vira o meu carro na ravina, nem sabia que ainda estava pendurado pela raiz daquela árvore velha. Tinha tido muita sorte apesar da infelicidade do acidente. Confesso. Apenas isso me mantinha equilibrado: pensar que não tinha que ser, não era esta a minha hora. Existe algo mais a fazer aqui neste mundo dos homens...
Finalmente tinha chegado ao barracão velho, parecia-me intacto embora muito envelhecido. Abri a suposta porta e senti cada gota de água na minha  pele a gelar, instantaneamente fiquei petrificado que o meu coração quase que parou. Fiquei ali, imóvel ao ver a imagem que a luz da Lua me mostrava, um texto, escrito toscamente num vermelho vivo que dizia: Foge!!!

segunda-feira, Agosto 04, 2014

Descoberta

- A idade do armário é possivelmente o período mais entrópico do esquentamento da cafeteira. A conquista dos limites emocionais e físicos, a descoberta da identidade, num conflito constante entre as duas fases. Para crescer é preciso gerir e regular a combustão para que não se entorne demasiada água e se apague o lume da vida prematuramente... Os limites parecem excentricidades aos olhos dos adultos mas eles são os mais genuínos! - respondeu Aurora enquanto ajudava a irmã a desligar a cafeteira nervosa.
- Obrigado irmã por adoçares o meu intelecto com o chá da vida.
- De nada. Curiosidade... Estás na idade tardia do armário? A ver pela violência da fervedura deves ter regressado à puberdade... Quem te esquenta a cafeteira?

Um silêncio pautou enquanto oxidavam as folhas aromáticas. Lúcia ergueu os olhos na direção da irmã - uma lágrima solitária e salgada caía na sua chávena criando um turbilhão de amargura.

- Encontrei o fio condutor da minha vida à mesma velocidade que o perdi. Esta palpitação que alimenta o nervosismo da minha existência é único... Errei ao tê-lo deixado cair com uma  leveza eléctrica!
- De quem falas tu? - perguntou Aurora completamente surpresa com a desinibição emocional da irmã.
- Falo da minha luz, do meu calor, do meu odor, do meu sabor... Que a minha estúpida razão deixou para trás. A combinação de metade da minha essência, ele, Pedro! 
A chávena tornará-se agora um depósito saturado de testemunhos. Aurora, emparelha suas mãos nas da irmã e com ternura e sabedoria, tranquiliza-a.
- Nem tudo está perdido. Ficaste com algum contacto? 
- Não! Saiu abruptamente.
- Assim é mais difícil mas... - o toque do telefone, electric eye, de Judas Priest, mais uma das partidas de Marco, interrompe o raciocínio de Aurora - é o teu sobrinho, o que terá feito para ligar a esta hora?

"Sim filho?! Que se passa? Encontraste quem? Hospital? A tua tia está aqui... Como disseste que ele se chamava? Está em que hospital? São José... mas está bem? Achas que foram eles? Calma, vá até logo filho. Txau!"


Lúcia petrificou o seu olhar no horizonte do corredor enquanto Aurora lhe batia na face.

- Lu, vá! Não entres em choque, explico já o que acabaste de ouvir - nisto Lúcia regressa à realidade fixando o olhar no leito ternurento e sábio de sua irmã - Marco encontrou um rapaz em mau estado, tinha sido espancado numa esplanada e deixou-o no hospital São José. Aparentemente ele falou numa Lúcia e o teu sobrinho achou que fosses tu... Mas acho que me oculta algo.
- Não quero acreditar na coincidência... Mas e quem eram os eles? Ele adiantou mais alguma coisa sobre o seu estado de saúde?
- Sabe que está vivo porque o entregou assim e deixou-o na porta das urgências. Eles... Bem... É uma longa historia! Vamos é saber do rapaz!
- Claro... Mas quero saber tudo, não quero mais segredos!

Rapidamente estavam na rua, desgovernadas na procura do amarelinho de luz verde... Tardava mas lá se aproximou um Mercedes 220 CDI nº 1989 de setembro de 2000.

- Bom dia senhor taxista, hospital de São José por favor!
- Bom dia meninas, com certeza, ele precisa de vocês!
As irmãs, arrepiadas, seguiram a viagem caladas como a cal. 
- Chegámos!
- Quanto foi a corrida? - solta Lúcia.
- Nada menina! Fiquem em saúde.
- Mas... - Aurora acotovelou a irmã - muito obrigado! - e saíram do táxi à porta das urgências.

Destinos traçados

Pedro adormeceu sobre os lençóis brancos isentos de culpa do hospital...as horas passaram tão depressa que nem deu conta do seu inglório presente. Preocupado, Pedro estava realmente preocupado. Havia algo que o inquietava, ainda escutava um burburinho de corredor, mas por estar demasiado “pedrado” não se conscientizou com aquele inferior momento. Estava mais concentrado na busca do seu subconsciente e, procurava quase insano a resposta aos seus pecados, ou a falta deles, quiçá. Perguntava-se sobre aquela abordagem tão evidente, só algo de ruim poderia vir daqueles lobos de rua...A voz da enfermeira acordou-o:

Pedro: Lúcia? És tu Lúcia?

Enfermeira Maria: Descanse Dr. Pedro, ainda está no hospital, sou a enfermeira Maria. Vá, agora durma um pouco para recuperar.

Pedro adormeceu de novo e pensava, naquele sorriso, daquela voz, daquela paixão louca em lava que fervilhava dentro de Lúcia como se não existisse o amanhã. Sentia-lhe o cheiro ainda nas veias, no seu sonho consciente estava com ela...queria-lhe certamente, o ósculo que o vento lhe levara no silêncio do corpo dos amantes, onde os lábios quebram a barreira do Universo e as mãos, numa só, desenham o equilíbrio do sangue. E agora?

Quando Pedro acordou, já eram 17 horas do dia seguinte.

Enfermeira Maria: Como está Dr. Pedro? Sente-se bem?

Pedro: Sim, acho que sim.

Enfermeira Maria: Então deixo-lhe aqui um lanchezinho para ganhar as forças. Quando estiver pronto vá ter comigo à recepção que precisamos de falar consigo.

Pedro: Claro, obrigado.

Pedro apressou-se para sair daquele lugar estranho, tinha poucas certezas, mas um que tinha é que não gostava de hospitais, aquele cheiro característico percorria-lhe as artérias do sofrimento.

Enfermeira Maria: Foi rápido Dr. Pedro, sente-se aí um pouco que já vou ter consigo.

Pedro: Obrigado.

A enfermeira Maria, acompanhada por outras enfermeiras comentava que o Dr. Pedro tinha sido trazido de uma forma misteriosa na noite anterior em mau estado.

Pedro, intrigado desconjuntou a sua carteira em mil pedaços, mas não faltava nada, nada, mesmo nada de nada, como se ele tivesse sido arremessado de um miradouro qualquer. Sim, Pedro estava bastante intrigado, no entanto, lembrava-se da voz do homem antes de acordar naquele hospital: “Não vais morrer de amor, Pedro...pelo menos hoje!”
Uma voz que não conhecia, uma voz misteriosa que sabia o seu nome, uma voz que começava a ganhar volume na sua cabeça...

Enfermeira Maria: Dr. Pedro? Dr. Pedro?

Pedro: Sim, desculpe, estava ausente.

Enfermeira Maria: Não se preocupe. Precisamos da sua assinatura para a alta.

Pedro: Sim, sim.

Em segundos assinou a papelada e pousou a esferográfica no balcão em pedra mármore já gasta pelos anos consentidos. Merecia restauro, pensou Pedro, mármore daquele já se vê pouco. Respirou e disse:

-       Pedro: Boa tarde minhas senhoras e muito obrigado.
-       Enfermeira Maria: Boa sorte Dr. Pedro, boa sorte!

Quase a chegar à porta, meteu a mão no bolso e sentiu algo estranho amarrotado. Era um guardanapo de pastelaria, e dizia:

-       Vem ter comigo, Rua Morais de Soares, 135 – 2º Esq. Lúcia.


O coração de Pedro parou sobre um desenho onde as vicissitudes da pele trespassam a pigmentação da própria cor, numa paleta onde a magia nasce  e saboreia os contrastes da tinta alterada pelo amor; submissa à vontade do mestre, a tela absorve a magia do ser e embebeda-se no percurso incerto do destino. São as tibiezas da pele que traduzem a natureza ao universo e Pedro, sorriu.

quarta-feira, Julho 09, 2014

Lisboa (Por entre as sombras e o lixo)

Lisboa… Cais do Sodré! A noite cai vagarosamente aqui. Olho em redor e vejo a multidão, caras fugidias e fechadas depois de um dia de trabalho e os olhos abertos a custo, que clamam por descanso. Aqui e ali uma comadre e outra trocam a rotineira cusquice. Ao redor a escuridão do calcário sujo dá ainda um tom ainda mais sombrio a toda a sujidão da zona portuária. Terá sido a cheia do rio ou a vazão do homem quem encheu as esquinas de entulho? Lá ao fundo, junto à rua do Alecrim, uns tímidos néons anunciam bares de especialidade duvidosa, onde se encontram já certamente a Alice e a Coxa… O Quim Navalhas também ciranda já as suas meninas, não venha o Ruca Batuta tentar levá-las para Monsanto…

Encosto-me a uma parede, meio caminho entre o barco e o comboio, enquanto vejo os movimentos na praça. Com mestria enrolo um charro que ponho logo à boca. Já combinei tudo com o Miguel e só nos falta droga suficiente para adormecer um elefante. Levo a mão ao bolso. Ainda lá tenho o monte de notas! Entro na praça e dirijo-me à fila de táxis que aguardam junto à Hora Legal. Dirijo-me ao primeiro e entro.
“Casal Ventoso, se faz favor!” digo ao taxista, com o charro dependurado no canto da boca. É hoje que parto deste buraco sem fundo. Eu e o Miguel!

Lisboa… Uma nuvem de fumos e salpicos de rio, escurecida pela multidão em movimento frenético, para trás e para diante, sem rumo certo e sem destino, embrutecida pela rotina do dia-a-dia. Hoje cansámo-nos e decidimos não deixar que a rotina se apoderasse de nós e, num acto de loucura, decidimos que algum dos barcos que descarregam na Rocha Conde de Óbidos irá para um lugar melhor que este.

“Aqui dentro não há dessas porcarias.” Responde à bruta o taxista. É um desses típicos taxistas de Lisboa: camisa às riscas, com os dois botões de cima abertos e os cabelos do peito cuidadosamente penteados. A unha do dedo mindinho muito longa e cuidada, serve essencialmente para limpar os ouvidos, com que escuta minuciosamente as conversas da clientela. “Está apagado, não se preocupe.” Respondo-lhe, enquanto me sento.

“Para o Casal não o levo. O melhor que lhe faço é deixá-lo em Alcântara-Terra.” Responde-me, ainda visivelmente contrariado. Para ir para onde ele me deixava, o 15 tinha servido e ainda era mais barato “e se me deixar na avenida” pergunto, “quer ir até Alcantâra eu levo-o, senão pode sair com as suas porcarias”. Não me lembro do 15. “Pode na ponta dos armazéns então?”

Assim que ele me larga dirijo-me a uma cabine telefónica. Que fica longe, do outro lado dos armazéns. Não tenho muitos trocos, mas preciso de confirmar com o Miguel.

“Estou” atende-me ele.

“Já estou em Alcântara. Vens cá ter ou vou andando sem ti?”

“Espera por mim no Pão de Açúcar.”

Dirijo-me ao supermercado e espero por ele, no bolso esquerdo um saco com os restos de cavalo, e no esquerdo haxe para uma semana. Enrolo um charro, coloco uma linha no meio, não sei se alguém já se lembrou desta merda, acendo-o e começo a sorver vagarosamente. Apercebo-me então que a escuridão vai caindo com todo o seu peso. Fica escuro, mas as luzes de um amarelo pálido disfarçam isso, impelindo-nos a todos para que não paremos. Pobre artifício dos tempos modernos! Olho bem à minha volta. Mesmo os que entram para o super não se apercebem, mas todos como que cantam um cântico triste, sonolento, uma música de embalar, que nos entorpece os membros, nos deixa moles, letárgicos, imóveis…

Reparo que o meu charro está quase no fim. Reparo que olham para mim de lado e se afastam. Sinto falta de calor humano e sento-me, encostado à parede, o Miguel Pedro não terá dificuldades em me encontrar se ficar aqui assim. Enquanto espero fascino-me, por um qualquer desígnio misterioso, com o monte de lixo que se amontoa junto à porta do armazém do super. Vejo uma caixa a remexer-se e de baixo sai uma enorme ratazana, que me olha por uns instantes e segue o seu caminho para dentro do armazém.

Acordo com o frio da noite e as mãos do Miguel a baterem-me no rosto. Deixei-me adormecer e agora apenas vultos passam à minha frente, um esporádico carro a acelerar e os ratos e ratazanas a rastejar. Olho para as horas. Não passou muito tempo, mas agora o céu é de um escuro como carvão, brilhando apenas um pouco quando passa um carro com os seus faróis, e outro, e logo outro, sucedendo-se até ao infinito.
“Cabrão de merda” diz o Miguel “tinhas de te pôr a fumar sem mim!” e dá-me mais um valente estalo para eu aprender. Tento pôr-me de pé e não consigo. O Miguel dá-me um bico de lado, pega-me pelos ombros e põe-me de pé. “Nem penses que vou sozinho, seu filho da puta!” Pomo-nos a caminho do Casal. Com o ar frio a bater-me no rosto e um cheiro a escape seguimos Avenida de Ceuta acima, merecendo olhares reprovadores dos transeuntes. Não me lembro muito bem do caminho até ao Casal. Nem me lembro muito bem do que se passou lá, só me lembro do Miguel a gritar “Foge que o filho da puta vai-me…” um tiro cortou-lhe a palavra e desatei a correr. Não queria saber o que estava ali, já fazia um esforço suficiente para não cair enquanto corria Casal abaixo por entre sombras estranhas e montes de lixo acumulado e os tropeções que dava em mim mesmo e no calcetado irregular.


Só quando cheguei a Alcântara-Terra é que me apercebi que o Miguel tinha o dinheiro todo. Na altura pensei “Cabrão de merda.”, mas o que me saiu da boca foi um “Raios part’ó dealer”.” O meu pensamento era fugir. Se antes queria fugir, agora mais motivos tinha. O medo impelia-me e nem me lembrei que, no estado em que eu estava, se me quisessem já me tinham. Segui para a Rocha Conde de Óbidos. Estavam a descarregar um barco. Fiquei ali o que restava da noite toda a olhá-los. Quando, a meio da madrugada acabaram, aproveitei uma distracção e entrei à socapa no barco. Não queria ser um clandestino e dirigi-me ao capitão. Não foi difícil de convencê-lo a deixar-me seguir a bordo do barco. Não queria saber a minha história desde que eu trabalhasse bem. Perguntei-lhe para onde ia e disse-me que tinha negócios a tratar em Barcelona. Era longe, agradava-me!

quinta-feira, Junho 26, 2014

Morrer de amor


Estava deitado sobre as pedras da calçada. O céu vestia-se de véus de tons de violeta e safira e as primeiras estrelas despertavam, ainda tímidas e baças. Uma aqui… três mais adiante. “Quem diria que ainda há pouco chovia…”, pensou para consigo e não pode deixar de se admirar com a quantidade de ideias parvas que nos passam pela cabeça, quando nos encontramos em situações limite. Recordou-se que já não contemplava as estrelas há tanto tempo, que lhe parecia ter sido numa outra vida. 

A sua atenção concentrou-se no jorro que lhe percorria a face direita, desde a testa até ao pescoço. Um rio quente e pulsante que lhe enchia as narinas de um aroma a ferro e lhe percorria a pele como a caricia de uma amante inconstante, ora suave e doce, ora lancinante como a onda de dor que sentia vinda da ferida que tinha na testa. “Que dia estranho…nunca imaginei que um dia em Lisboa pudesse ser assim”, pensou para consigo. “Num só dia vivi e senti mais do que em todos os dias somados destes últimos 5 meses que estive em viagem…aliás, penso hoje vivi mais que em todos os outros dias…”. 

À medida que a dor se foi tornando cada vez mais intensa, começou a perder o controlo do fio dos pensamentos, delirando livremente pelo céu estrelado, sentindo o toque de Lúcia, os seus olhos nos seus, a promessa dos seus lábios que ficara por cumprir. Começou a confundir dor com prazer e entrou em êxtase enquanto o céu de Lisboa girava sem parar sobre os seus olhos. “Não há maior honra que a de morrer por amor!”, citou Florentino Ariza como se ele próprio tivesse encarnado o personagem. Segundos antes de perder a consciência, conseguiu ainda distinguir um vulto de homem que se debruçava sobre ele e ouviu-o dizer: “Não vais morrer de amor, Pedro...pelo menos hoje!”


Acordou incomodado pela luz do sol que lhe entrava pela janela. Abriu os olhos com um esforço sobre-humano. A sua cabeça estava vazia, à excepção da dor aguda que partia da testa e que se espalhava por todo o seu corpo. Olhou à volta e percebeu que estava numa enfermaria de um qualquer hospital. A sua atenção fixou-se nas paredes e no tecto, manchados, com grandes lascas de tinta penduradas como pétalas de flores de velório. As fileiras de candeeiros incandescentes, com aspecto decrépito e o chão de azulejos partidos em tudo contribuíam para aquele ambiente de desolação. Tentou levantar a cabeça para tentar perceber onde estava e reparou que não estava sozinho. Haviam outras camas, com outros homens de feições indistintas e de tal forma iguais ao ambiente da sala que quase se poderia dizer que ali tinham sido colocados propositadamente, para tornar o ambiente ainda mais fúnebre.
Pedro fez um esforço por se levantar, mas a dor tornou-se insuportável e não conseguiu conter um grito. Uma enfermeira que passava no corredor apressou-se a chegar à sua cama.

- Olá Dr. Pedro! Deixe-se estar sossegado que precisa de recuperar! – Disse-lhe num tom maternal, enquanto o empurrava de volta para a almofada.

- Onde estou? O que me aconteceu?

- Está seguro, não se preocupe. Estamos no Hospital de S. José. Se se portar bem, estará fora daqui amanhã à tarde, mas até lá nada de aventuras!

- Como cá cheguei? Não me consigo lembrar como cá vim ter…

- Pois…isso, nós também gostávamos de saber! Foi encontrado inconsciente, no chão, ao pé da porta das urgências por volta das 21 horas de ontem. A polícia esteve cá, mas não conseguiu averiguar grande coisa, porque assalto não foi! Não senhor, que ainda tinha os documentos e o dinheiro todos consigo! Tentámos avisar que aqui estava, mas não conseguimos localizar nenhum dos seus familiares. Tem alguém a quem quer que ligue?

Não havia, de facto, ninguém da família que quisesse contactar. Nos últimos anos, com o trabalho na consultora e a depressão cada vez mais incapacitante de Rita, Pedro tinha descoberto a desculpa ideal para se afastar da família. Não tinha tempo para ir a casa, o emprego era exigente… a namorada não estava em condições de receber visitas. No fundo, não suportava aquela dinâmica de conversas superficiais, de afectos vazios, de conversas nunca tidas. No dia do funeral decidira pôr termo à relação. Com um breve adeus, desligou o telemóvel, pegou na mota e fez-se à estrada, deixando o Pedro que existira até então, debaixo de terra, junto com o corpo de Rita. A última coisa que desejava era voltar a falar seja com quem fosse que tivesse pertencido a essa outra vida. “Não somos passado. Aquilo que somos é o espelho daquilo que seremos e não do que já vivemos”. 

-A Lúcia! Sim…Lúcia! - Queria falar-lhe. Queria pedir-lhe desculpa pela sua fraqueza. Queria beija-la finalmente. Queria beijá-la para toda a eternidade! 

E foi nesse instante que Pedro se apercebeu que Lúcia tinha partido tal como tinha chegado: sem aviso, sem contexto, sem contacto.

segunda-feira, Junho 02, 2014

O silêncio

Olho-te com toda a atenção de que disponho
E encontro, no teu lugar, o vazio da dimensão que já foste.
Não te encontro numa única parte do teu corpo,
Outras vezes tão explosivo e cheio de emoções.
Talvez tenhas ficado encalhado dentro de mim,
Nalguma profundeza inacessível em que já não te sinto.
Sermos parte um do outro será também o esquecimento
De tudo o que um dia fomos quando éramos dois?
Este estado de ausência dá-me uma falta de sentir.


Outras vezes feroz e agora tão calmo, o silêncio...

segunda-feira, Maio 12, 2014

Mais logo - Prosa em Grupo 1

"E que isto te sirva de lição" ouviu antes da voz lhe desferir um último murro e um impropério. Não tinha passado muito tempo desde que, perdido nos pensamentos do que fizera e não fizera com Lúcia, havia sido interpelado por um grupo, três, ou quatro, ou mais que o convidaram a dar um passeio. Não lhe apetecia. Não lhe parecia que fosse um passeio. Não era realmente um pedido.

Com o sangue a escorrer-lhe pela cara sem saber bem donde, foi deixado ali. Pensou na polícia, mas a dor interrompeu-lhe o pensamento. Pensou no careca do boné, e novamente a dor que o interrompeu. Parecia que lhe faltava alguma coisa, mas parecia ter tudo. Não haviam ângulos esquisitos, não havia nada que indicasse o que se tinha passado. Nada lhe dizia o porquê, só aquele "tem cuidado" seguido de soco, o "voltas a fazer isso" e um pontapé que não deixava ouvir o quê. Ficou ali, deitado, imóvel a ver o sol pôr-se no alto das paredes sem janelas de um beco, numa colina, enquanto pensava no porquê e tentava lembrar-se de todas as caras. Todas exepto a do careca do boné, essa não esqueceria tão cedo.

"Está tratado." Disse ao telefone Rudi. "Tens a certeza?" perguntou uma voz de mulher do outro lado. Irritou-se com a desconfiança. "Se eu te estou a dizer que está tratado, para quê a pergunta?" atirou, a voz a subir-lhe mais do que queria. Detestava levantar a voz para Lurdes, mas ela conseguia o que poucos conseguiam, tirá-lo do sério. "Só pergunto para ter a certeza. Vens cá ter mais logo?" e ele disse que sim. Já sabia que mesmo que dissesse que não, ao final da noite ia lá ter.

terça-feira, Abril 29, 2014

Mais perto

Quero escrever-te como és,
Completamente tu,
Mas as palavras são tão suaves.
Entre a beleza que me fizeste tocar
E o papel em que escrevo,
Criou-se uma distância abismal.
Ainda assim tento. Uma vez mais...
Assumo o risco de não te fazer justiça,
Tanto na descrição como na memória...
Para onde foi a minha expressão fluída,
Que não a sinto quando te articulo em frases?
Por onde anda a consciência do meu sentir?
Apenas me chegam palavras insuficientes,
curtas demais para o sabor que me tens.
Se te pudesse olhar novamente,
Se te pudesse encontrar na minha pele,
Se te pudesse tudo... E um pouco mais.

Anda para onde te veja, mais perto, mais perto.

segunda-feira, Abril 28, 2014

Idade do armário

Lúcia, ainda enrubescida e ofegante das memórias que há muito pouco tempo brincavam nos seus pensamentos, ficou instantaneamente pálida e … como se todo o seu sangue se tivesse congelado em simultâneo!

- Entra….. herg! Bom dia! – disse, enquanto concentrava todas as suas energias em manter um aspecto sereno – Entra, vou fazer um chá!

Aurora notou um certo desconforto na irmã, mas não conseguiu identificar a sua origem.

- Tens companhia? – atirou à queima roupa, afinal eram as duas adultas, e apesar de não ter crescido juntas, da diferença de idades, e de certa forma não terem a cumplicidade que muitas irmãs partilham, eram ainda assim bastante próximas, e poder-se-ia dizer que não guardavam segredos uma da outra.

- Não… - respondeu Lúcia com a voz, ainda, um pouco intermitente – Ainda estava a dormir. Quer dizer, ainda estava na sorna na cama, porque já tinha acordado há um bom bocado… Mas não me apetecia levantar! Deve ser da mudança de hora! – Lúcia sorriu para a irmã e tentou parecer um pouco mais desperta – Senta-te enquanto faço o chá! Earl Gray, ou preferes outra coisa?

- Desculpa – respondeu a irmã! – Achei que já estavas acordada, acordas sempre cedo! Por mim Earl Gray é perfeito, bem sabes…

Lúcia encheu uma cafeteira de água e ligou o gás do fogão, tirou um pouco de pão do dia anterior do armário e cortou em fatias para torrar… Mas enquanto cortava as fatias de pão o seu pensamento voava para muito longe daquela cozinha! Mas para uma cozinha também, mais precisamente para o dia em que a avó Lúcia a foi buscar à terra para vir morar para Lisboa… Mais precisamente o dia em que nasceu o Marco! Lúcia tinha seis anos, e a sua mãe ficara muda de um momento para o outro, não podia continuar a viver naquela casa! Quer dizer, poder podia, mas não era certamente o ambiente indicado para educar uma criança, e sendo assim a avó Lúcia foi recolher a neta com o mesmo nome e criou-a como se fosse sua filha! Lúcia só percebeu o porquê da mudez da mãe na noite em que morreu a sua avó… Lembra-se como se tivesse acontecido na noite passada, alias o normal é acordar a pensar que acontecera ainda na noite passada e a relembrar palavra por palavra, suspiro a suspiro as últimas confissões da avó… Lúcia voltou um pouco mais tarde da escola nesse dia, porque tinha ficado na malandrice com o João, que era o seu namorado na altura. Chegou a casa e encontrou a avó na cama, o que não era nada habitual! Aliás, nunca tinha acontecido! Ao ver aquilo, Lúcia, a neta, uma jovem de 17 anos, com algo mais que hormonas a circular no seu sangue ficou claramente transtornada, e talvez até um pouco paranóica. A avó descansou-a a dizer que estava tudo bem, que era certamente culpa da tempestade que se ia fazer sentir nessa noite… Lúcia fez o jantar, e sentou-se ao pé da cama da avó, ainda sem saber, que estavam a partilhar a última refeição juntas. Naquela noite a avó contou-lhe tudo. Tudo o que aconteceu, contou-lhe porque razão a sua mãe ficara muda, e porque é que Lúcia teve de vir morar para Lisboa… Lúcia lembra-se de cada palavra… E do último suspiro da avó, com ele apagaram-se as luzes, não só daquela mulher de mãos ásperas e coração mole, mas de toda a cidade e de mais de metade do país… Lúcia não chorou, mas ficou triste e as nuvens escuras que invadiram o seu olhar nunca desapareceram completamente, e se olharmos com atenção ainda podemos ver bem lá no fundo, depois do olhar luminoso como que uma bruma, uma opacidade… Ainda podemos perceber o peso de uma nuvem escura no horizonte de um radiante dia de sol!
E aquela água que lentamente vai levantando fervura dentro da cafeteira é como se fosse dentro de Lúcia… Como se fossem todos estes pensamentos a agregarem-se em minúsculas bolhas de ar que crescem e logo saltam pela tampa… E tudo isto borbulhava cada vez mais intensamente na sua cabeça… Será que a irmã sabia que ela sabia? Porque é que lhe veio pedir conselhos sobre o filho a ela?

Porquê a mim, se eu nem tenho filhos? Aliás, sou praticamente da idade do Marco… OK, sou 6 anos mais velha… mas seis anos não são nada… Nem conheço ninguém, para além da Aurora, que tenha filhos… Ela certamente sabe mais de miúdos que eu… Eu nem nunca tive um animal de estimação… quer dizer tive uns quantos namorados, mas esses não contam, pois não? E por “uns quantos” não quero dizer muitos, não se ponham já com ideias… Tive a quantidade certa… OK?

A água da cafeteira entrava estava agora a ferver violentamente, Lúcia, enquanto colocava o chá, perguntou à irmã:

- O que é a idade do armário?