segunda-feira, Março 31, 2014

Sentires



São 9 horas. Lá fora a chuva cai como se a Primavera se tivesse esquecido de sussurrar ao vento a sua chegada. Cá dentro são 8 horas, pois o meu corpo (tal o tempo em Lisboa) ainda não está a funcionar em horário de verão.

Deixo-me ficar imóvel, de olhos fechados, sentido o calor do édredon na pele e o som da chuva a cair nos beirais. Esta é a minha hora preferida do dia. Aqueles minutos em que a memória ainda não despertou e que, apenas por momentos, não tenho nome, história, ou futuro. Apenas sou. Imóvel. Sentindo. Mas no segundo seguinte, tudo me chega à consciência como uma onda gelada. Pedro. Um nome de pombo. Um nome que não pertence a Lisboa, mas que está gravado por toda a cidade. No miradouro da Graça. No 28. No Camões… 

Vejo-me novamente no elétrico. Estamos sentados lado a lado e os olhos de Pedro brilham enquanto absorve todas as histórias que lhe conto sobre as ruas onde vamos passando. A pouco e pouco começa a contar-me a sua viagem por Portugal e sinto-o relaxar. Quando chegamos ao Carmo e pego-lhe na mão.

- Anda daí! Vou levar-te ao teu miradouro! – Digo, enquanto o puxo para sairmos do elétrico.
- Meu?
- Miradouro de S. Pedro! É por aqui.
Enquanto subimos a Rua da Misericórdia o céu vai-se tornando cada vez mais carregado. O final de tarde trouxe consigo nuvens cinzentas que rapidamente cobrem o céu.
- Sua Santidade… o miradouro!!!
Pedro ri-se enquanto os seus olhos tentam absorver a imensidão de Lisboa que surge diante de nós.
- Uau! Tanta beleza, tanta história…tantas estórias misturadas debaixo dos nossos olhos. Como um puzzle de vidas que encaixam para se tornar em algo maior. – Exclama maravilhado.
- E agora também cá está a nossa. Vês ali o miradouro da Graça? Ali estivemos nós, há poucas horas…
- Sim. Ali eramos estranhos.
- E aqui, o que somos? – Pergunto, olhando para o seu rosto ainda perdido na beleza da paisagem. O ar está tão carregado de eletricidade que torna difícil a respiração.

E de súbito, um clarão rasga o céu mesmo acima do Tejo e um barulho ensurdecedor traz consigo um dilúvio gelado. Não consigo conter uma gargalhada sonora. Perdeu-se o momento… Pedro olha-me meio surpreendido.
- De que ris?
- O S. Pedro não teve misericórdia de nós! – respondo e ambos rimos da chuva e de nós próprios.
Mas o riso de Pedro depressa desaparece, como se uma cortina tivesse caído sobre ele. Os seus olhos verdes transmitem uma dor tal que ferem.
- O que se passa, Pedro?
- Lúcia. Tu fazes-me sentir. Eu não quero sentir. Não posso sentir. Deixei tudo para trás e quando pensei que já estava bem, tu apareces e mudas tudo. Sentir só nos faz mal. Sentir dói. Traz consigo morte, vazio e saudade. Desculpa, mas não posso ficar.
O meu coração bate tão forte que parece que o sinto a sufocar-me. Pego-lhe na mão e coloco-a sobre o meu peito.
- Sentes? Estou viva. Estou aqui e também sinto. Nós não somos passado, Pedro. Aquilo que somos é o espelho daquilo que seremos e não do que já vivemos.
Só consigo ver os seus olhos e ouvir o bombear descompassado do meu coração contra a palma da sua mão. Sinto que Lisboa foi levada pela chuva e que apenas nós existimos neste momento.

O som da campainha traz-me de volta para o presente. Dois toques. É a Aurora. Levanto-me da cama e apanho o robe de cima do cadeirão. O que será que se passa para a Aurora estar aqui tão cedo? Corro a abrir a porta.
- Bom dia Lu!
- Bom dia, irmã! O que se passa?
- Desculpa acordar-te tão cedo, mas temos de falar. Estou preocupada com o Marco…Não sei se é da idade do armário ou não, mas o puto anda muito estranho!

quinta-feira, Março 27, 2014

A rota é sempre descoberta!

Marco, MARCO, MARCO!

Acordou, a transpirar...

Um sonho? Realidade?... As memórias da noite estavam ainda cravadas na sua pele... Levantou-se e vestiu o robe...

- Já vou mãe...

Na cozinha. O pão fresco sobre a mesa, a faca e a mensagem...

"Fui a casa da Lu, tens queijo fresco, no frigorífico, beijo, Mãe..."

Estava oficialmente louco! O seu coração começou a bater de novo descompassado. Uma sensação sinistra... Bebeu um copo de leite num trago e fechou-se de novo no quarto. Não acendeu a aparelhagem como de costume... o silêncio embora desconfortante pareceu-lhe o único refúgio.

Pedaço de papel na mão, caneta na outra.... tremendo...

E começou a escrever:

"Sou um puto... Bolas sou um puto! Que se passa comigo?? Que sonhos são estes? Porque surgi do nada no meio de tudo! Porque pareço mais crescido que todos aqueles que estão à minha volta, porque é que estas coisas só acontecem a mim, a mim, a mim, estou a falar contigo, MARCO.....  ziiiccrshhh, contacto, contacto, já não te dominas, ... só tenho 11 anos... 13 MARCO; 13... zrrrsshh, MARCO estamos a falar contigo, MARCO; MARCO; MARCO!!!!!...

MARCO!

Marco, MARCO, MARCO!

Acordou, a transpirar...

Um sonho? Realidade?...

Levantou-se e vestiu o robe...

- Já vou mãe...

De soslaio viu o papel em cima da mesa...

"TAREFAS:

- Comprar sumos para a festa de Sábado (Baldaram-se 2, somos só 13 (temos pena), compram-se 3 litros).

- Visitar o Miradouro da Graça

- Andar no elétrico 28 pela primeira vez

- Ir ao largo Camões ter com a Jéssica.

- Andar no elevador da Bica"

Um ar frio gelou-lhe a nuca...

A última linha estava escrita em maiúsculas... Não se lembrava de a ter escrito.

"AQUILO QUE NÓS SOMOS, É O ESPELHO DO QUE SEREMOS."

6 passadas... na viagem da vida

18h.... e 13.... 13 minutos!

O eléctrico cruza estranhamente veloz na porta de um café na baixa... A memória fugidia de uma tertúlia passada e contudo tão presente cruza-lhe o cérebro, no fundo cortando um pouco o enfado prolongado dos últimos 10 minutos. Aqueles minutos após o casal, ainda esbaforido de uma corrida, se ter sentado pelos lados da Graça no banco à sua frente e que, desde esse momento, se limitavam a trocar um olhar magnético... Apaixonados certamente... Sem paciência para estas lamechices.

Solitário, sempre fui. Roupas negras, olhar fugidio, faço agora as curvas da memória que me levam ao largo Camões. Último semáforo, deixo os pombinhos... Parvos!... Momento de remorso, pobres seres toldados pelas asas da paixão... certamente conhecem-se à pouco tempo.

Olho para a estátua no centro da praça... Por momentos vejo uma instalação insuflável ali no meio... gritos entusiasmados, o erguer de uma ginja no quiosque, ou apenas um ser estranho e risos à volta... Flashes de memória, idiotices cruzadas.

Percorro sem sentido algum agora a calma rua. Estranhamente tão diurna... As memórias que tenho dizem-me ser sempre noite aqui. Lisboa sempre foi noite neste canto, como se o sol nunca tivesse banhado estas vielas. Mas ás vezes é anoitecer... E agora ainda há luz.

Lembro-me de uma melodia... Qualquer coisa com "carcaças de carros"... Sorrio estupidamente... Ao ver uma carcaça dependurada... De metal amarelo, ou não será metal.... Ou será Heavy Metal....

Não sei... Estaco... 18 e 30... toca uma campainha... O estranho eléctrico que é elevador, ou é elevador que é eléctrico arranca... E uma faísca salta luminosa!!

Por demais luminosa... trás relâmpagos, traz trovões, traz um apagão, traz uma estátua, traz um coreto, traz de novo aquelas vozes na noite escura que são eu, mas não sou eu, trazem de novo o mistério e atiram-me inconsciente para o chão... 18 e 30 e não sei se são 30... se são 11 anos, se são o 13 de memórias se são o 5 ou o 6...

A viagem não acabou... Começou aqui em Lisboa!

sábado, Março 22, 2014

Na rota de Pedro Álvares Cabral

Perante a estátua Marco nada mais viu, todos os reflexos se convergiram sobre a pedra rugosa e molhada dos pés de Antero. A escuridão da noite húmida condensava nuvens cerradas - reflexo de um céu melancólico e rezingão.

No jardim vazio ouvia-se a composição musical e primaveril. Árvores vibravam de histórias nos seus ramos delgados, acenado à poesia crua de suas folhas. Os patos e os gansos dormitavam sob a ovação do pavão macho estridente. As rãs dos pequenos lagos coaxavam, num desespero selvagem pela concorrência dos morcegos citadinos.

A inquietude humana instalou-se. Passaram 5 minutos da hora combinada e os únicos vultos que se vislumbravam na penumbra do jardim - resultantes dos focos motorizados que circundavam a parte externa - permitiam descodificar algumas sombras em êxodo. O medo era colectivo, sete minutos sem iluminação não são habituais na rotina iluminada dos Lisboetas.

Marco impaciente decidiu começar a soletrar pequenos decibéis da sua jovem inexperiência.

- Vim para aqui porque era importante "nem um minuto a mais nem a menos" e agora estou aqui a apalpar sozinho o Barbudo suicida!

-" Embebido n'um sonho doloroso, 
Que atravessam fantásticos clarões,
Tropeçando n'um povo de visões,
Se agita meu pensar tumultuoso...
"
Encoou uma voz masculina vinda do meio do tudo... e do nada.
A frequência cardíaca de Marco disparou, alimentada pela choque de adrenalina.

- Quem está ai?!
Perguntou Marco enquanto rodava 360 graus em torno do seu eixo.

-"Com um bramir de mar tempestuoso
Que até aos céus arroja os seus cachões,
Através duma luz de exalações,
Rodeia-me o universo monstruoso..."

A voz ganhava eco e uma intermitência feminina.

- "Um ai sem termo, um trágico gemido,
Ecoa sem cessar ao meu ouvido,
Com horrível, monótono vaivém...
"

Marco recuou em relação à estátua, procurando um espaço mais amplo.

-"Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e afirma o Bem!
"

- Quem está aí, o que se passa? Não brinquem comigo.
Marco corria agora desesperado pela rua principal na direcção do coreto após ter tropeçado num galho partido.

- Descansa meu jovem, não te fazemos mal.
Tranquilizou uma voz sensual e claramente feminina.

- Quem és tu... quem são vocês?

- Sou a Despertar, o teu despertar....

- AH!! E a outra voz?

- A outra voz é o teu interior Marco, o teu interior!

- O meu interior? Mas estás a brincar comigo? Como sabes o meu nome? Quem são vocês?

Marco acelerou a passada e pulou para dentro do grande coreto. Olhou ciclicamente para toda a periferia na esperança de descobrir alguma forma, mas nada, apenas a escuridão. Após breves minutos tranquilizou-se no silêncio profundo que acabara por se instalar no jardim.

Deitou-se no chão de braços abertos, abriu os olhos e tentou retomar a experiência:

- Está ai alguém? Quem são vocês?

Uma voz rouca e autoritária, acompanhada por um clarão direccionou-se para dentro do coreto:

- Oh Jovem, o jardim fechou! Tens que sair!

Um vulto grande e gordo, de lanterna em mão - aparentemente o segurança do jardim - apontou para a saída mais a norte,  a rotunda da Avenida Pedro Álvares Cabral.

- Peço desculpa, mas estava à espera de encontrar... uma, um familiar que desapareceu.

- Lamento,  encerrei todos os portões e já só falta mesmo este... Meu rapaz já são horas para estares em casa, principalmente depois deste apagão.
Respondeu a voz experiente e responsável, já habituada à rotina de expulsar cidadãos notivagos e incautos.

- Obrigado. Estava com um familiar quando ficou escuro... já deve ter seguido para casa. Talvez seja melhor ir também andando.
Marco, não gostava que o considerassem criança preferia alinhar no tratamento infantil como forma de se desenvencilhar mais depressa das situações incómodas. 

- Moras longe e precisas de companhia?

- Moro já ali, na Rua do Cabo, junto à Saraiva de Carvalho. É perto. Obrigado.

E dirigiu-se em passada larga até ao exterior do Jardim.

- Adeus jovem!
Despediu-se o segurança que se encaminhou atrás dele mas de olho em todos os recantos por explorar.

Marco sentiu-se orgulhoso por ter escapado. Atravessou para o centro da rotunda e olhou bem alto na expectativa que um farolim o orientasse novamente.


terça-feira, Fevereiro 04, 2014

O Mistério da cegonha

O Marco até podia ser um jovem normal, se existissem exemplares disso: jovens normais! Por definição, os jovens são todos “não normais”, diferentes, peculiares, se quisermos! O Marco era, à sua maneira, peculiar. Vestia-se sempre de preto, as botas de biqueira de aço sempre perfeitamente engraxadas, calças de ganga preta com uma corrente a segurar as chaves, t-shirt preta, uma sweat (preta, claro está), e um casaco se estivesse frio… As meias e os boxers também eles pretos… Chapéu de chuva: nunca… Um impermeável, às vezes! Ia às aulas durante o dia, de  resto não se sabe muito bem onde andava nem o que fazia, nem quais as suas brincadeiras favoritas, e nem sequer qual o seu clube de futebol, dizem os que o conhecem pouco, porque também há os que não o conhecem quase nada… Sempre foi curto de palavras! 
Se em muitos destes jovens pode ser difícil explicar quando é que está “anormalidade” se começou a manifestar, no caso do Marco era perfeitamente evidente: era “assim” desde de que nasceu! Talvez até antes, quando ainda estava no ventre da sua mãe! A avó Jacinta veio da terrinha para ajudar a mãe do Marco com as tarefas da casa no último mês de gestação daquele que seria o seu primeiro e único filho… No ínicio de junho de 1989 profetizou a mesma avó que este rapaz havia de nascer a 19 do mesmo mês, em dia de lua-cheia, porque os rapazes nascem sempre em dia de lua cheia… Mas enganou-se! O Marco nasceu 3 dias antes, a 16 de junho, e até os deuses se enraiveceram… nessa noite choveram trovões em Lisboa com uma força tal que muito juram a pés juntos que parecia ser de dia… Alguns ainda se lembram deste dia como a pior trovoada na região de Lisboa de todo o sempre! Faltam provas que corroborem estes testemunhos. 
Na manhã seguinte a avó Jacinta foi visitar os dois à Maternidade Alfredo da Costa, e ao entrar naquele quarto era como se já soubesse o que tinha acontecido! Nunca mais disse uma palavra a sacana da velha… nem à filha nem ao neto, nem ao falecido marido quando o ia visitar ao cemitério, nem ao padre da aldeia… Nunca mais falou! Ficou muda, coscuvilhavam as vizinhas… Ou então, agora tem a mania que é senhora porque tem um neto que nasceu na Maternidade, dizia a outra! E a avó Jacinta, era como se não ouvisse, ali sentada ao lado delas sem dizer uma palavra! Nunca mais falou, nem quando foi internada de urgência abriu a boca para falar com o médico ou se queixar das dores… Foi assim, há quase 11 anos atrás!
Hoje, é terça-feira, 9 de maio de 2000. Para o Marco, e todos nós, podia ter sido um dia normal! Podia… mas só até às 22h! Nesse momento, enquanto Marco termina o último fio de esparguete toca o telefone, a mãe chama-o e diz que é para ele, uma voz abafada do outro lado da linha diz:
- Aparece no Jardim da Estrela ao pé da estátua do Antero de Quental às 22h40m, nem um minuto a mais nem um minuto a menos! Tchlim!
A mãe olhou-o como que censurando a hora de sair de casa, mas há muito tempo que já não dizia nada! O Marco pegou no casaco e saiu porta fora! No elevador, uma memória da sua infância assombrou-lhe pensamento, mas não ligou. Ao sair à rua verificou o relógio, e percebeu que podia ir a pé.

Chegou à entrada do jardim da Estrela às 22h38m, e sorriu de orgulho para si mesmo. A medida que se aproximava do recanto do poeta foi imaginando a sua silhueta como que vergada e as enormes barbas. No momento em que está a seus pés: escuridão. Sim, escuridão imediata. PAM! Em todo o lado… a cidade toda a cidade às escuras… No dia seguinte, o ministério, ou a EDP ou REN iriam culpar uma cegonha do apagão generalizado a sul do país…. Mas apenas o Marco, o Antero e o dono da voz ao telefone sabiam a verdadeira razão daquele apagão!

quinta-feira, Dezembro 19, 2013

Obsessão




Quando voltares vou sufocar-te com a minha obsessão de ti.

Quero que a saibas porque só tua. 

Quando voltares vou dar-te a loucura que me escorre na pele

e assim mostrar-te que não preciso de mais razões para te ter.

Apenas tu. 

Quando voltares não vou perder tempo com actualizações. 

Vou desfazer-te num abraço em beijo sem saída. 

Vou engolir-te pelo olhar até morreres dentro de mim. 

Vou abandonar-me ao teu corpo e deixar que me faças tua.

Sem mais rodeios. 

Quando voltares vamos passar os teus limites e os meus,

se é que os temos quando estamos juntos.

Quando voltares vou encontrar-te e perder-me em ti.

Não saberás mas, de facto, já me terei perdido na espera... 

Quando voltares quero dizer-te que para a próxima não vais sózinho, 

desço contigo para comprar tabaco.

quarta-feira, Dezembro 11, 2013

Corpos repartidos acabam sempre por matar

As palavras que agora me dás…
 Esse tudo cheio de inconsistências dissimuladas 
que me são nada... 
Não as quero. Não o quero. 
Leio-te a perda do que nos ligava, 
essa cola a que teimei chamar de amor. 
Podes levar as palavras contigo.
Não as quero sem o co
rpo que as dizia. 
O corpo inteiro, estou segura. 
Aceitar-te o corpo repartido, ocorreu-me. 
Ocorre-me sempre tentar o prazer para mim. 
Mas tu? Não outro… 
Tu, um pouco em mim, o resto noutro corpo? 
Talvez mais do que um…
 Mata-me um pouco todos os dias. 
Não tentei. Não tento.
 Desisti de ti e ainda estou! 
Não posso dizer que bem. 
Não obstante, ainda respiro.
 Isso é algo que me conforta, respirar. 
Procuro-te inteiro noutros corpos.
 Não te chegam, mas pelo menos não os amo. 
Corpos repartidos acabam sempre por matar. 
Somente este sabor que não me sai… 
O tanto que fomos... 
Choro-te. Nunca deixarei de te chorar.

domingo, Dezembro 01, 2013

Descansar

A dor que sinto não sei donde vem
A dor que sinto faz-me não querer sentir
Anestesiar-me
Pensar apenas em nada pensar
Nada querer sentir
A dor só me faz pensar em a ignorar
Só barulhenta e ruidosa barafunda
Directamente para o cérebro
Me deixa descansar

segunda-feira, Novembro 11, 2013

Fosse o mundo o teu sorriso

No teu sorriso, sinceridade
No teu sorriso, a beleza
No teu sorriso soltas palavras de paixão
No teu sorriso esculpes a expressão
No teu sorriso, amor
Com teu sorriso o emancipas!

quinta-feira, Outubro 17, 2013

Cinco ao iluminar das Seis

Cinco mesas cheias na esplanada.
Cinco o F na abertura fotográfica.
Cinco bancos lotados de paixão.
Cinco os dedos no gradeamento.
Cinco barcos abraçando o estuário.

Cinco minutos de contemplação.
Cinco as pulsações de hesitação.
Cinco passos na sua direcção.
Cinco as letras do seu nome.
Cinco segundos de iluminação:

"Sou Lúcia, esta é Lisboa. Ambas sinónimo de luz e tu?"

Um rosto corado e bochechudo, de olhar verde elevou o rosto.

"Pedro... "

A sua resposta fria e tímida gerou um ambiente desconfortável. Lúcia afastou-se gracejando:

"Pelos vistos não iluminei na tua graça mas acertei na desgraça. Olha, coincidência, estamos no Miradouro da Graça. AHAHA!"

Pedro sentiu-se incomodado pelo contacto tão abrupto e surrealista mas por outro lado admirado pela assertividade da estranha.  Normalmente passava despercebido para todas as pessoas, como se flutuasse num mundo inabitado, aglutinado pelo seu medo e oprimido nas catacumbas das memórias.

O seu passado recente era uma amálgama de experiências negativas e falhanço passionais. Com pouco mais de trinta anos tinha uma Licenciatura em Direito na Universidade do Porto, três estágios não remunerados - em escritórios de Advogados oportunistas e quatro anos numa consultora internacional sediada na Maia. Este último trabalho levou-o à exaustão e deterioração progressiva da sua qualidade de vida. Perdeu tempo de lazer - e para dormir as 8 horas que necessitava; afastou-se dos amigos e familiares; deixou de fazer desporto tendo engordado mais de 15 Kilos. 
Em cinco anos teve duas namoradas, uma traiu-o com um colega e a última, com quem vivia há dois anos, suicidou-se à cinco meses. 

Despediu-se em Maio, decidido a viajar pelo país em busca de paz interior e significado para a sua existência. Comprou uma vespa Piaggio e começou a viagem acampando pelo caminho.

Lúcia acabara de entrar na sua blindagem emocional e social. Olhou novamente para a desconhecida que alimentava junto ao muro amarelo dois pombos cinzentos. A pele branca reflectia o espectro de um Outubro ameno e as sardas lembravam-lhe as constelações visíveis fora dos centros urbanos.

Aproximou-se, convergindo o azul da sua íris no verde de esperança:

"O que a fez aproximar? Estranhei o seu contacto, na verdade estranharia qualquer contacto... mas..."

E engoliu em seco quando ela agarrou a mão e a elevou ao peito.

"Pedro. Nome bonito! Aquele pombo também se chama Pedro e aquele trapalhão, o mais gordinho, Budapeste! Gosto de alimentar quem conheço pelo nome."

Ergueu o cálice de Porto, em repouso na calçada, e ofereceu ao (recém) conhecido:

"Bebe um pouco e sente a magia da energia!"

Ainda meio acanhado demolhou os lábios nos contornos do vidro.

"Obrigado! Sou do Porto mas foram poucas as vezes que saboreei este licor divino."

E entregou o copo de volta.

"O que me fez aproximar foi querer ver uma fotografia nítida em vez de algo desfocado e sem cor. Ter um sorriso brilhante em vez da estátua fria e cinzenta. Não precisas de viver no passado... Lisboa é fado mas só quando cantado!"

Sentiu o corpo a arrepiar. Há algum tempo que não sentia estímulos corporais e chorou.

"Obrigado! Estava preso e não conseguia expulsar.  Muito obrigado!"

Ela abraçou-o, como se abraça um melhor amigo, e de seguida puxou-o para fora do Miradouro.

"Vem! São seis da tarde. Vem conhecer Lisboa aos olhos do eléctrico 28!"

segunda-feira, Agosto 05, 2013

Lu

"Lu, queres vir ao Budapeste?"

“Vou lá ter mais tarde!” – E sabia perfeitamente que não ia… Só queria mesmo sair dali. Do escritório com o cheiro pesado a humanidade! Se é que se pode chamar escritório às instalações do call center no Saldanha. Seguiu pela rua do mercado até à Praça José Fontana, um ritual que cumpria praticamente todos os dias. Gostava da inversão de papeis entre o mercado e o Liceu Camões. Quando passava pela manhã, sempre atrasada para o trabalho, e o Liceu era como um fantasma do passado, quase a preto e branco, e o mercado a fervilhar de vida. O cheiro de peixe que a muitos dá náuseas era para ela reconfortante. A azáfama dos comerciantes uma razão para, também ela, se aplicar com todas as forças no seu trabalho. E “ao fim do dia”, o mercado já fechado… O sentir de dever cumprido. Aqui e ali sobrava ainda um ou outro comerciante, nunca chegou a perceber se os que se arrastavam entre um café e uma mini eram os que venderam tudo ou os que não venderam nada. As suas expressões faciais eram de outro tempo e, para ela, incompreensíveis. Eram como pessoas gastas, ou desgastadas. E o Liceu, o Liceu… Um brotar de vida… Uma atmosfera carregada de hormonas! Aqui e ali roubava-se um beijo, sussurravam-se promessas… Rodava um cigarro ou uma ganza! Faziam-se planos… Queria parar um pouco! Demorar-se ali naquele quiosque ao lado do coreto, e educar aqueles míudos e míudas… Ensinar-lhes numa tarde o que tinha demorado décadas a aprender! E depois olhava-os novamente, e com desdém concluía que não valia a pena! O mundo será sempre uma espiral de contornos tão suaves que parece um circulo.

Consultou o relógio: “Ainda é muito cedo para ir observar os travestis ao Conde Redondo.”

E aquele rapaz sempre: "Lu, queres vir ao Budapeste?", e ela: “Não me dá jeito, tenho que ir ao Martim Moniz comprar caril!”

Deixou-se escorrer lentamente pela Duque de Loulé, e foi observando as entradas aparentemente fechadas dos bares de strip… Tinha uma certa atração inexplicável por estes locais. “Que tipo de pessoas trabalham aqui? Que tipo de pessoas vêm cá? Os que cá trabalham será que também se sentem subvalorizados no emprego, terão contratos a prazo, será que têm ordenados em atraso, ou dívidas ao fisco? Será que pensam em emigrar? E, os que cá vêm? Será que riem ou choram como as pessoas normais? Que é que procuram aqui? Haverá mais ou menos clientes em época de crise?” Foi deslizando nas ruas paralelas à Avenida, e as pedras da calçada diziam-lhe “Olá, estás muito tristes hoje!”, e ela olhava-as desconfiada como se fossem um produto da sua imaginação, e respondia “Não, estou só desanimada! Quero mais! Posso querer mais?”. E as pedras não respondiam, limitavam-se a desalinhar-se e fazer-lhe o caminhar mais desconfortável. E, quando se deu conta, já tinha passado as Portas de Santo Antão. Na primeira tasca de Ginginha um velho de face enrubescida atirou-lhe um piropo ao qual ela nem se deu ao trabalho de responder. Não tinha sequer a energia para esboçar o sorriso ténue da praxe.

Foi como se lhe tivesse dito: "Lu, queres vir ao Budapeste?" – E ela queria responder: “Em primeiro lugar o meu nome é Lúcia, herdei-o da a minha avó e gosto muito dele! – A mania de certas pessoas encurtarem o nosso nome sem que isso lhes seja sugerido só pode ser preguiça… Ainda por cima é um nome bastante bonito… Será que custa assim tanto dizer Lúcia? São só cinco letras: L-U-C-I-A, Lúcia, como a minha avó!”

Quando chegou ao Martim Moniz, o sol das quatro da tarde ainda afastava os clientes, e até os comerciantes. Lembrou-se da sua avó e de quando ela a trazia cá para comprarem especiarias. Cresceu em casa da avó, por razões que desconheceu até à adolescência. Era como se fossem o prolongamento uma da outra, e sorriu orgulhosamente ao recordar todas as vezes que os comerciantes desta praça e de outras sugeriam que ela tinha o mesmo feitio difícil da sua avó. Não era bem um feitio difícil, a avó era uma mulher forte e independente, cada ruga na sua face um desafio ultrapassado, e muitas pessoas não lidam bem com isso. Tinha orgulho em ter sido criada por aquela mulher de mãos ásperas e coração mole. Tinha a perfeita consciência que a sua avó era um exemplo excelente, e talvez por isso ainda hoje lhe custasse comprometer essa independência. Da avó herdou também as características físicas: a pela clara e macia, os olhos azuis, os caracóis pretos e a meia dúzia de sardas em cada bochecha. Não admira que muita gente achasse que eram mãe e filha. E, vejo-me obrigado a acrescentar, que muitos lhe atirassem piropos.

E aquele moço (era assim que a sua avó chamava aos rapaz novos) sempre: “Lu, queres vir ao Budapeste?” – e, ela: “Não, caralho! Não quero ir ao Budapeste, nem ao Roterdão ou ao Copenhaga… Quero que me deixes em paz!!! Quero ir a Lisboa! Estás a ouvir? Quero ir a Lisboa! Quero passear nas colinas como se fossem um escorrega gigante num parque infantil só para mim. Quero, sei lá! Olha: quero apaixonar-me por um estrangeiro num miradouro qualquer!!!”

Seguiu pela sombras das ruas estreitas da Mouraria para o miradouro da Senhora da Graça. Pelo caminho não pôde deixar de reparar que estas ruas tinham uma certa semelhança com o seu cérebro, ou pelo menos com a forma com que o imaginava. Ruas estreitas e labirínticas sempre aos altos e baixos! Aqui e ali uma praçeta… às vezes velha e decrépita, outras recém-recuperada com um aspecto ultra moderno. Decidiu ignorar a voz da sua cabeça a perguntar: “Lu, queres ir ao Budapeste?”. Tinha passado recentemente dos trinta anos, e já não tinha paciência para estas coisas!

O Miradouro da Graça tem uma chegada bastante interessante: de um lado da rua está a igreja (ou convento), e do outro um jardim que é praticamente um prolongamento da praça do miradouro. Esta profundidade é uma espécie de antecipação do miradouro em si… Ao percorrer esta rua, o coração de Lúcia saltava-lhe do peito, e ela lembrava-se de todas as vezes que percorreu esta mesma rua! De como as pedras se alinhavam para lhe suavizar a passagem ou desalinhavam para que fosse ainda mais sofrível chegar àquele miradouro. Gostava muito da cidade vista de aqui. Sentia um aconchego inexplicável. Um lugar mágico, protegido a norte pela senhora do Monte e a sul pelo Castelo de São Jorge. A cidade a perder de vista no horizonte. Vinha cá sempre que podia, e possivelmente já cá veio com todos os estados de espírito imagináveis! Tinha pouco mais de trinta anos, e muitas histórias para contar, e estas pedras da calçada eram protagonistas em muitas delas! Mas não eram essas histórias que a traziam cá hoje! Hoje estava ali pela cidade, por esta cidade que adora e nunca quis deixar.


Num gesto tímido, pediu um Porto no quiosque antes de trocar um olhar com a cidade. Respirou fundo, pegou no copo e foi-se sentar no muro. Quando repousou os olhos sobre a cidade ouviu sinos como se chegasse ao paraíso. Cinco da tarde!

quarta-feira, Abril 24, 2013

O Puzzle

Eis-me perante o Puzzle existencial...

Dizem alguns que Deus (considere o caro leitor, o "Destino" se assim o entender) joga aos dados... Eu acredito que Ele prefira os Puzzles...

Espalho as peças sobre a mesa. Cada uma das ínfimas peças dispostas sobre o frio da madeira, cada qual para seu lado... uma realidade disforme e confusa...

Eis que, no auge da juventude temporal deste enigma, pequenas peças se agrupam em vários quadrantes. Algumas, como golpe da Sorte, ou acaso do Destino, ligadas pelo seu intenso padrão cromático agrupam-se, magicamente entre milhares, numa ligação perfeita resolvendo parte de todo o mistério neste enigma da Vida....

No maturar dos cantos resolvidos, falta a chave... A ligação fulcral, a resolução de tão belo quadro que se augura como solução final para o problema...

E no centro de tudo... a tal chave. Com o amadurecer do tempo, com o passar inexorável dos ponteiros do relógio (ou serão os dias do calendário...), existem peças que se começam a unir, no Coração do Mundo... ou de cada Pequeno Mundo... no centro de tão bela gravura...
Existem peças que se unem com a  simplicidade da naturalidade...

Outras há, porém, que cromaticamente tão idênticas, parecem encaixar na perfeição... Mas a estranha chave da união das mesmas, como por capricho do Destino (ou queira observar o leitor, pela mão de Deus...), parece destinada ao fracasso. O desespero toma lugar quando, perante aquilo que parecia o encaixe definitivo, nem com a força dos dedos, nem tentando forjar a chave da perfeição, se unem... Podem parecer perfeitas, o desenho coerente. Mas a exactidão do Puzzle toma conta do sistema, a união forçada rompe, separa-se pela incompatibilidade da chave, da solução... E surge a separação! Esta última sub-divide-se em dois grupos. Ou a união é tão fraca que ambas as peças se soltam esperando por aquela que corresponde verdadeiramente a si ou, de tão forçadas que estão, se degladiam entre si até ao desfecho fatal, certo, destinado pelas regras do jogo...

E, finalmente, como por artes mágicas tudo começa a fazer sentido. Peças há que finalmente encaixam verdadeiramente. No óbvio e no menos óbvio.... Tudo faz sentido quando a Mente toma lugar e o Coração, esse Doido Sensato, toma as rédeas do Puzzle. Outras peças aparentemente insignificantes, na ligação Humana, Real, Verdadeira, da Humanidade, fazem a ponte que liga os Cantos, O Centro e todas as partes integrantes da Vida. Todas as Peças se unem por magia e constroem a figura Mágica da Vida.


A cola secou por fim... Emolduro o resultado final na fria parede da sala... na tarde de Inverno. Num patamar infinitamente abaixo de Deus, Destino (ou defina o Leitor, esse com "L" maiúsculo, a realidade que o faz existir, tão único e tão especial), observo deliciado o resultado final.... A vida segue, tal como a realidade dentro das paredes desta sala.... Simples... e Infinitamente Bela.

sexta-feira, Abril 19, 2013

Estações

As nuvens carregadas alimentam o cinzento húmido do Outono. Ele é drástico, ventoso e imprevisível. Apelar às emoções é um risco dada a sua insegurança. As marcas na natureza são testemunho do seu temperamento.

O luar da noite ilumina a escuridão fria do Inverno. Ele é silencioso, sombrio e frio. Testemunha a frieza dos momentos negativos e não deixa saudade. Toda a natureza se retrai à sua imensa força destrutiva.

O sol reactiva o brilho nas flores da Primavera. Ela é bonita, verdadeira e colorida. Num crescente de emoções faz fervilhar a paixão pela essência da vida. O amor aquece de cor todas as obras da natureza.

O calor ilumina as gotas quentes do Verão. Ele é optimista, luminoso e denso. A energia transpira de emoção todo o seu esplendor e vitalidade. A natureza não fraqueja aos ventos quentes da sua inquietude.



segunda-feira, Abril 15, 2013

Lisboa, Três da Tarde...

 A história começou... São três da tarde!

O sol alto começa a baixa, as sombras a alongarem-se para oriente e as formigas incansáveis começam a acusar as temperaturas, as suas mentes a escorregarem para cervejas e ginjinhas e pães embebidos em gordura envolvendo carnes tenras e pedras de calçada que não são já do alvo calcário mas amareladas como as lâmpadas dos lampiões. E ainda falta tanto tempo...

São três da tarde e na sua cara de quem só agora esqueceu o almoço farto de uma sandes trazida de casa, instala-se esse fugaz movimento dos olhos para o relógio, a contar as horas, os minutos, todos os instantes que ainda faltam para sair desse centro de atendimento onde, por mais um mês ou dois, conseguirá tirar a renda. Depois? Quem sabe o que virá depois? Outro centro, mais um mês ou dois? E nova chamada. O nome. Em que posso ajudá-lo? Pois sim... Pois... Infelizmente não o posso ajudar, mas vou passá-lo para a assistência técnica. Pois, também lamento. Vai tu!

São três da tarde, mas podiam ser três da manhã, não fosse às três da manhã não haver turnos. Três da tarde, onze da manhã, em passando a hora de ponta é tudo o mesmo! Para trás, para a frente, para trás, para a frente, só oito voltas para trás, oito para a frente, pouco mais de uma hora para o final deste dia, ou noite? Uma vida sem luz do sol, só a espaços as lâmpadas fluorescentes e o brilho do relógio que dita as horas por que se rege o dia. Todos os dias, exepto Domingo. Quando não calha...

Três da tarde, toque de saída, resto da tarde livre. "Lu, queres vir ao Budapeste?"

sexta-feira, Abril 12, 2013

Imperfeições do coração

No azul do dia a saudade do batimento
 Dão mote às fraquezas da saudade.
 Medo e tristeza dominam o momento
 Alimentando e corroendo a ansiedade.

quarta-feira, Abril 10, 2013

Lisboa… (Empresto-te a prosa, completa este rio…)

Este que flui até ao Bugio… sempre rio. O que espelha nas suas águas a luz mortiça, essa estranha mistura cromática que esbate o poder solar, numa reconfortante nostalgia que abraça esse mundo... esse reconfortante mundo, a que ainda ousamos chamar casa.

Ontem odiava-te. E não são os ódios transformados em amor a antítese da nossa naturalidade… Aquela natureza perversa que tanta vez torna o mais belo dos sentimentos no mais rancoroso dos finais... Lisboa tu não tens fim… és talvez o livro aberto sem começo.


Ao odiar-te não te conhecia… Percorria alheado as curvas do teu corpo sem verdadeiramente apreciar a beleza do teu interior… Sem saber que só a beleza do interior permite vislumbrar a tão resplandecente imagem, do teu quadro tão lindo… Talvez sejas, Lisboa, a mão que me descerra as pálpebras com a subtileza do teu suspiro.

Só hoje verdadeiramente vejo em ti o berço… a mãe… os braços que me seguram… Quanto mais longe de ti, maior o prazer do reencontro. Hoje não te vejo! Toco-te. Hoje não te odeio, sinto-te! Lisboa, hoje começa o novo capítulo da canção abraçada a tantas vozes.

E nasce o rio novamente… Junto ao Tejo… No bulício das gentes que se agitam, dos olhos que se abrem para te ver, inocentes por não conhecerem as tuas formas, surpreendidos como o jovem imberbe que vislumbra pela primeira vez teu seio desnudado… Observo-te, sinto-te, mergulho em ti e nas águas que agora, verdadeiramente nasceram. E aqui junto às águas que brotam do teu coração inicio a aventura que partilho com aqueles que também te sentem.

A história começou… São três da tarde!

terça-feira, Abril 09, 2013

Amar… para sempre!


São oito da manhã… a voz do despertador revela uma vontade louca para te beijar.

Sinto o calor e a respiração no teu corpo, numa batalha longa para despertar.

Transcrevo alguns carinhos, desenhando no teu rosto palavras eternas de amor,

Sinto nos teu lábios um desejo imenso, mas secreto, de brotares como uma flor.

São oito e meia da manhã e a luz do teu olhar iluminam as sílabas para te amar… para sempre.

segunda-feira, Março 11, 2013

Ela quer...


I - Um Almoço


"Então aqui dás-lhe espaço para ela pôr o molho." disse Dick.
"E isso vai correr bem?" perguntou Alcino, algo assustado. A verdade é que ver aquela cena era quase caricato. Alcino tinha uma musculatura desenvolvida no estaleiro, era um tipo bem falante que raramente se atrapalhava e no entanto ali estava ele com medo da proposta de um tipo de camisa havaiana aberta quase até ao umbigo.
"Não te preocupes pá! Aquilo é feito à base de gelado. Vais ver, no fim até gostas e não queres outra coisa."
"E quanto é que recebo por essa refeição?"
Dick não conseguiu evitar um sorriso. "Para cozinhares o almoço é o normal, as como espero que desta vez haja mais gente a querer provar o prato, dou-te cinco porcento da caixa."
"Não me fodas pá, cinco porcento são trocos! Sabes que a Marisa acha pouca piada a estas coisas e que eu já me reformei há uns anos. Se não fosse por sermos amigos, esta conversa nem estava a acontecer."
Dick estava a achar pouca piada à conversa de feirante. "Tens razão... Por sermos amigos é que esta conversa está a acontecer! Sabes quantos putos matavam só pela visibilidade? Achas que és o único com capacidade para fazer este trabalho? A Marisa tem problemas? Convida a gaja pá! Consegues a Marisa e levam cada um metade e sete porcento. Se aceitares, Sábado, pequeno-almoço, às dez, no estúdio."

II - Uma Cozinha

O estúdio era uma vivenda na Margem Sul. Uma casa de dois andares com garagem e uma sebe por cima de um muro. Quando Dick, acabado de chegar a Portugal, a comprara não haviam ainda nem a sebe nem o muro, mas o isolamento de que dispunha era aquilo que ele considerava fulcral no desenvolvimento do seu pequeno reino. Num mercado onde não tinha conhecimentos, nunca passara de um peixinho pequeno, mas bastou-lhe mudar para um aquário onde se percebia ainda menos para se tornar um tubarão. Fora nesses tempos que conhecera Alcino.
O muro que servia de vaso à sebe não tinha sido pensado como tal. Era, isso sim, para ser um muro de três metros até que aquele filho de mãe cabo-verdiana e pai português passa por ele, as mãos cinzentas do cimento que carregava nos baldes, e diz-lhe que "um muro mais baixo com arbustos por cima chama menos à atenção". O encarregado atirou-lhe logo um "vai trabalhar, preto do caralho" e Alcino foi. No dia seguinte o encarregado foi dispensado e o projecto alterado. Quando a Vivenda do Americano ficou pronta Dick pediu para falar com Alcino.
"Porque os arbushes?" perguntou num misto de português e inglês da Califórnia.
"Porque fica exótico e as pessoas olham menos." Respondeu Alcino num inglês esforçado, continuando "Assim parece mais casa de emigrant."
"Speak english?" perguntou meio admirado Dick.
"I must" respondeu-lhe Alcino. "Sou demasiado claro para não levar porrada e demasiado escuro para ser dos melhores da turma. Se não arranjar ferramentas não me safo."
Como Alcino se safava bem, Dick mudou para a sua lingua materna. "Então e porque achas que não quero chamar à atenção?"
"Os únicos sítios onde os muros são altos para tapar a vista de dentro para fora, são as prisões. Acho que ninguém vinha para aqui transformar uma casa numa prisão."
"Porque achas isso?"
"Porque é que o projecto mudou? Posso não saber o que se passa exactamente, mas sei que não é para se ver de fora para dentro. Como não é para se saber, eu prefiro que não me digam. Posso ir?"
"Quantos anos tens?
"Dezasseis."
"E trabalhas nas obras?"
"Só nas férias e aos fins de semana e tardes livres."
Dick parou um pouco a pensar. "Queres fazer outra coisa aos fins de semana?"

III - Os Cozinheiros

Foi com a promessa de que o que fariam apenas passaria a fronteira do legal pontualmente que Alcino começou a trabalhar com Dick, o Americano da Fonte da Telha. Essa promessa rapidamente passou a ser um affair constante com o lado de lá da lei e com o aprofundar da relação Alcino tornou-se o mais desejado cavalo da cavalariça em que o andar de cima era tratado por "o estúdio". A Vivenda do Americano pode-se gabar de ter sido o último sítio em que Alcino acartou baldes de massa. As tarde rapidamente passaram a ser passadas em ginásios onde aquele seu tom de pele eternamente bronzeado não era nem escuro demais para ser um "preto do caralho", nem demasiadamente claro para passar despercebido. Era simplesmente o tom correcto.
"Vai aos ginásios mas não abuses daquela merda." recomendava-lhe Dick, com um sorriso trocista "Ainda ficas para aí todo inchado e depois não te consigo arranjar nada." Alcino ria-se.
Alcino era um cavalo de tal forma apetecido que rapidamente se tornou um frequente. Como em todos os casos, Dick e Alcino começaram a falar mais e os conselhos de Dick rapidamente passaram a barreira do que fazer nos ginásios.
"Como não sabes o que escolher?!" irritou-se um dia "Estás a fazer mais dinheiro num mês que os teus pais numa vida. Sabes donde isto vem? Se sabes vais para uma de duas coisas: gestor ou advogado! Sim advogado, ou pensas que isto é só chegar aqui e já está?" O susto provocado por esta explosão foi tal que Alcino escolheu Direito. Um ano depois mudou para gestão. No final do curso o primeiro emprego foi numa pequena agência bancária em Almada. Ia para longe dos pais, mas ficava mais perto de Dick, que por esta altura já tinha muitos outros cavalos de corrida, pelo que Alcino acabava por participar em menos provas, mas dava-se ao luxo de escolher em quais participava.
A lealdade que sempre demostrara para com Alcino acabou por compensar naquela noite em que Alcino lhe ligou a dizer para esvaziar as contas todas. Pouco mais de um mês havia passado quando o banco faliu. Dick percebeu nesse dia que nunca poderia pagar o favor que contraíra.
Quando novos donos finalmente tomaram conta do banco Alcino encontrou-se de novo numa situação em que era demasiado escuro e demasiado claro. Demasiado escuro para estar à frente de uma agência e demasiado claro para ser promovido, Alcino viu-se remodelado numa rescisão amigavelmente forçada. Para Dick era bastante claro que não podia ficar parado e o cavalo dele precisava de voltar à pista.

IV - Os Temperos

Marisa sabia daquela vida, mas pensava que já era passado. Seria de esperar. Fora numa das, já na altura esporádicas, colaborações que o conhecera. De facto, não fora aquela a forma que idealizara para contar a Alcino que estava grávida, mas face ao que estava em causa, tinha de ser finalmente dito. No final acabou por quase ter de o obrigar a aceitar aquela participação. Com o cheque do subsídio cada vez mais curto, e Alcino obrigado a fazer a contabilidade para uma organização sem fins lucrativos para o receber, aqueles sete porcento davam muito jeito com o bebé a caminho. Não seria certamente nenhuma fortuna. O advento da internet tinha multiplicado a concorrência a qualquer idiota com um telemóvel, mas enquanto uns negócios iam caíndo, outros floresciam e Dick, se algo tinha mudado nele, é que agora andava mais descontraído e a olhar menos por cima dos ombros.

Quando no Sábado soube da gravidez ofereceu dez porcento. "Não fico mais satisfeita por isso..."
"Não seja assim Mary, eu sei que não percebes mas é a minha forma de dizer obrigado."
"Eu conheço os teus agradecimentos..."
"Esse tipo era um idiota! Diz lá que não ficas melhor com o Alcino? O Alcino não é um idiota e tu é que me devias agradecer em vez de andares para aí a segurar grudges."

"Quem é a miúda?"
"Não conheces. Esteve aí uma vez para um casting e não achei nada de especial, mas tem o nome e o sotaque certos para uma coisa que eu cá sei!" Disse o americano visivelmente satisfeito consigo mesmo. "Antes que perguntes, neste caso interessa."
"E como se chama essa promessa?"
"Filipa, mas prefere que lhe chamem Pêpa."

"Tu convidaste a..."
"Não," interrompeu "mas quase! Esta veio cá em Setembro, precisava de um extra para as propinas e tal, mas não foi nada de especial, como te disse. Só que quando vi o vídeo da outra lembrei-me logo desta. Falei com o Tavares, ele fez-me um guião em dois dias e cá estamos hoje."

"Sabes Dick, já me sinto melhor."
"Eu sabia que te ias divertir."

O expresso 20 *

Sábado de manhã...

A gare apresenta um aspecto pacato... Longe do rebuliço caótico das tardes que marcam a véspera do fim de semana. Na mão o rectângulo azul "viatura 20".
Eis que chega... dez minutos antes... e os poucos transeuntes que deambulam junto à linha 3, agarram em seus volumes, dirigindo-se à bagageira. Entretanto alguns outros abandonam a porta dianteira... A maioria para uma pequena pausa para uma bucha matinal.

Levemente zonzo, fruto do parco pequeno almoço coloco o pequeno saco à direita, mirando os paralelepípedos brancos que me traumatizarão toda a viagem, arrumados a régua e esquadro na parte mais traseira da bagageira lateral. Bilhete cortado e é hora de entrar... A viatura novinha em folha... o contraste do tempo. Ao contrário de muitos outros horários aquele, expresso provinciano direi, troca os anos da sua própria existência, tão novos quanto o cheiro a madeira envernizada e estofos quase por estrear, pela idade avançada dos seus frequentadores.... Acedo ao meu lugar, junto à janela... estranho o quente do estofo... Provavelmente alguém a trocar o conforto do campo pela semi urbe coimbrã...

Aguardo pacientemente o meu companheiro de viagem, à medida que o expresso vai preenchendo paulatinamente os lugares...

Existe sempre uma ténue e ridícula esperança na mente de um homem durante este processo... Quilómetros e quilómetros de alcatrão demonstraram-me sempre o quão agradável é a presença de um jovem rosto feminino ao lado... Nestes casos a viagem é sempre silenciosa e, garanto excelso leitor, sempre inocente. Não tenho particularmente um interesse específico por um rosto ou corpo jovem e esbelto junto a mim. Mas a presença de uma jovem ao meu lado trasmite-me uma sensação da paz inexplicável... Como se o melhor da natureza me escolhesse a mim, pobre ser, para desfrutar da sua companhia por umas horas rotineiras da minha vida.

Mas não... um rosto vermelho e enrugado entra no veículo quase em simultâneo com outros rostos carregados de sabedoria, o leve cheiro da naftalina disfarçado pelo odor forte dos paralelepípedos da bagageira, um corropio de cestos e malas de mão encardidos pelo tempo. Um sorriso fita-me... depressa percebo porque o meu banco ainda estava quente... Um pedido de licença e o pouco jovem senhor marcado pelas agruras da vida, mas com o sorriso castiço de tanta história por contar, quase sem palavras, acede a um lugar que talvez, esse sim, lhe pertença, a meu lado... O autocarro inicia o movimento e... conto paulatinamente os segundo até ao primeiro pretexto para o diálogo ser estabelecido... um mínimo pretexto...

...


...

50 km... uma vida ligada ao combate de fogos em edíficios
100 km... a rebeldia e os processos disciplinares
150 km... como os jornalistas dificultam a vida de quem tenta salvar a vida dos outros...

... Mas curiosamente e como por artes mágicas que só a sabedoria dos grandes comunicadores consegue ter, o tédio passa a diálogo, o diálogo a sorrisos, os sorrisos a gargalhadas e por instantes a ausência de um corpo jovem e esbelto dão lugar a toda uma cumplicidade que a sapiência da vida ilumina... e a manhã ganha um novo brilho, só atenuado pelo enjoo de um estômago que ronca, avivado pelo forte cheiro a leitão da bairrada, que provém de uns já esquecidos paralelepípedos na bagageira do veículo... Observo nauseado um documentário sobre sanitas de luxo que passa no ecran e tento esquecer a dor que se forma no estômago enquanto observo os prédios da capital...

Recuso educadamente a oferta de uma cerveja... O ar pela primeira vez austero daquele comparsa relembra-me a velha máxima de não recusar uma oferta... Mais enjoado que embriagado, aperto a mão, pela última vez, daquele estranho companheiro da bucólica manhã... o 20 abandona a linha 12...

E os pombos de Lisboa tornam-se reis e senhores da calma manhã de fim de semana...








* O presente texto, baseado numa experiência pessoal, é uma homenagem a APC e à sua obra "720".

domingo, Março 03, 2013

Felicidade

Em poucas palavras defino felicidade,
Partilho sua pureza e harmonia em paixão,
Amo-a livremente na simplicidade,
Numa mágica e eterna benção do coração.