Quarta-feira, Junho 23, 2010

Um Charuto

No meu bairro as casas são todas iguais. Todas têm dois andares, as mesmas cores na fachada e o mesmo telhado alto. Debaixo deste telhado surge o primeiro traço de originalidade e individualidade. Escondida. Debaixo destes telhados altos estão em algumas casa quartos, noutras arrecadações e noutras, como na da minha amiga Anabela, houve quem montasse um salão de jogos.

Não um salão de jogos na acepção de um local onde se paga para entrar e onde se gasta dinheiro. O que se passou foi que o pai dela queria um espaço para meter uma mesa de bilhar e uns computadores para jogar na net. Parece que umas máquinas todas artilhadas, mas como posso saber, estão todos bloqueados! Agora a mesa de bilhar não e ao final da tarde não é raro irmos para lá jogar.

Esta tarde estava-lhe a dar nas horas e por muitos jogos que fizéssemos, em menos de um quarto de hora já tinham acabado, com o resultado a ser invariavelmente uma vitória minha. Compreensivelmente a vontade de jogar não era muita e a Anabela decidiu que queria antes ir ver montras ao centro. Quando estávamos a sair do pequeno jardim
(talvez canteiro seja o termo mais correcto, mas a mãe dela insiste tanto em chamar-lhe jardim, que toda a gente acaba por alinhar com ela; quem disse que uma mentira repetida não se torna verdade?)
reparámos numa situação estranha: um homem, de calções e t-shirt, estava na varanda a fumar.

(Esqueci-me de dizer que todo o bairro está organizado por pracetas, com a frente das casas orientada para o centro e um acesso a uma rua principal no topo norte da rua. Todas as casas têm um acesso à porta ladeado por canteiros, uma garagem mesmo ao lado da porta e, a cobrir ambas as ombreiras, um varandim com não mais do que um metro de largura, mas onde alguns moradores ainda conseguiam colocar alguma verdura. A decoração das varandas é o segundo, e penúltimo, traço de individualidade.)

O estranho na situação é o haver alguém a olhar o quadrado morto em que se torna a praceta a meio da tarde. Aquela cena pareceu-me tão fora do sítio que o que me tomou não foi um sentimento de “é um homem a fumar um charuto”. Não! Naquele momento era mais que isso, era um estranho com um comportamento estranho! Não se pense que o estranho era o fumar, como já referi, o estranho era alguém olhar para a praceta enquanto o fazia, porque era isso mesmo que ele fazia, estava ali, de pé, encostado à ombreira da porta da varanda, um charuto na mão e o olhar vazio. Ou seria um olhar cheio, a tentar captar toda a praceta? Mas que havia na praceta para captar?

“Estás bem?” perguntou-me a Anabela, e só então percebi que estava parada a olhar para a varanda. “Não é nada de tão especial que pares para aí a olhar. Até parece ser já um bocado velho demais para ti!”

“Não é isso! Não achas esquisito o que ele está a fazer?” perguntei-lhe. A resposta veio na forma de uma pergunta e de uma risada e senti-me um bocado aparvalhada por ser confrontada com a naturalidade de acto de se fumar um charuto. “Mas não achas estranho alguém estar a fumá-lo sozinho a olhar para a praceta a meio da tarde? Que é que há aqui para ver?”

“Olha… Se estás tão cheia de dúvidas porque não vais lá perguntar?”

(continua)

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Quinta-feira, Abril 29, 2010

Desvanecer e ressurgir... Um breve conto.

Era sombria e fria a praça Central...

Vagueavam algumas pessoas por ela naquele fim de tarde. A norte, a velhinha igreja centenária fazia ecoar seu sino em cada quarto de hora, acelerando ou retardando o passo do transeunte. Em frente, olhando para si, a fachada do sólido edifício Setecentista...
Sólido? Talvez nem tanto... Corroído pois pelas agruras de um tempo que passa, de uma sociedade corrosiva, tanto como o tempo que discorre por um calendário inexorável.
1705... Novembro, em dia de sorte da Graça de Nosso Senhor... Última pedra colocada. Majestosa inauguração. Edifício histórico de gente nobre. Sólido de pedra e de valores... Feliz nos verdes anos de sua juventude. Frondoso e imponente em frente à recente igreja plantada à sua frente. Por lá passara el-Rei! Por lá passará mais vezes... Por lá o tempo também avança.

No presente, edifícios modernos se ergueram. Escritórios decadentes... à esquerda e à direita. Firmas de menos escrupulosos advogados. Empresas financeiras de métodos poucos recomendáveis. Nas suas fachadas esplanadas. Junto a belas moças de sedutoras formas e mini-saias reduzidas (caloroso era aquele sol, de um Abril anormal...), se acumulavam mil homens de pastas nas mãos. Políticos corruptos, gente do vil metal (Seriam todos... Parecia tal...). Gente que se arrastava penosamente por cada pedra da calçada, numa tarde banal... Agitando papéis... Ou apenas o cigarro na mão direita...

...Chupistas!!

Defronte resistia ele! O edifício degradado e desgastado... Sangrando de morte ao final da tarde... Arrastando suas fundições na dolorosa agonia dos últimos dias! Sobre ele a sentença capital. Da luxúria... Do futuro decadente. Entre suas paredes prendia o monstro do alumínio, dos vidros, do papel timbrado... do dinheiro sujo... Dos tribunais, políticas, "futebois" e rebaldaria... Negro futuro que se adivinhava mais que certo...
O pilar da sobriedade e dos valores oscilava... sofria...

21h... A rua deserta. A primeira lágrima escorreu entre o primeiro e o segundo andar... Desfazendo-se amarguradamente nas pedras da calçada. Ao longo da noite se fez pranto... Sob o troar das sirenes e de mil vozes gritantes. A voz mais alta ergue-se à queda do primeiro pilar!
"Não sois vós que me ireis derrubar... Antes cair sob o peso de mim próprio que às mãos sujas dos vil corruptos"...
E envolto em grades de metal e fitas plásticas amarelas adormeceu para sempre já o sol ia alto...


Colheu a singela flor amarela e ofereceu à menina ao seu lado...
Na praça central defronte da velha igreja existia um belo jardim florido, onde crianças corriam e velhinhos aproveitavam os últimos raios de sol daquela tarde. Ao lado alguns edifícios velhos e abandonados, davam já os primeiros sinais de agonia (e que interessava isso...)
Imponente o jardim era ponto de encontro de gerações...
E aquela flor terna era primórdio de um amor terno e duradouro... O primeiro amor... Aquele que é inocente e original.

Terça-feira, Abril 06, 2010

Ana Berta (conclusão)

O Bazar era pequeno para as multidões que lá se juntavam todas as noites. Conhecendo o Rui, ele sozinho de certeza que tinha convidado uma pequena multidão, a maior parte deles malta do secundário, para falarmos da nossa mais famosa colega, de tempos idos e de como as vidas tinham sido madrastas para nós e não para os outros. Como não me apetecia repetir conversas de pé, fui para lá reservar mesa uma hora antes do combinado.

Quando faltava cerca de um quarto de hora para o combinado vi aquele balancear de pernas familiar a entrar no bar. Vestida e maquilhada quase que passava despercebida, mas aquele andar, aquilo era-lhe tão enraizado e tão dela que não precisava de ver mais nada para saber quem entrava e se dirigia a mim.
-Então campeão? - disse-me aquela voz quente que não ouvia há muitos anos.
-Então? - estava ainda um pouco incrédulo que aquilo estava realmente a acontecer - Sei lá, "então"!... Há quanto tempo?
-Às vezes parece demasiado.
-Outras nem tanto. Vi hoje que fizeste carreira no mundo do espectáculo.
-É uma maneira simpática de pôr as coisas. Eu também já sei que dedicaste a, como alguém me disse uma vez, "morrer de tédio no lento suicídio do escritório". Lembra-te alguma coisa?
-Lembra-me alguém iludido com a vida. Quando não conheces o mundo, ele parece mais entusiasmante, com mais opções, menos impossíveis.
-E quando o conheces aprendes a ver outros possíveis, mas possíveis que te permitem fugir à rotina. Se olharmos bem - aqui uma pausa para pedir uma imperial - só temos de saber procurar as opções para fugir ao escritório.
-Tipo o quê? Tornar-me uma estrela porno?
-É uma opção. - sorriso maroto - Não é tão entusiasmante como parece, mas não é entediante. Claro que como qualquer profissão não é para qualquer um.
-Pois não, é preciso muito treino para...
-O Rui tinha razão! - interrompe-me com um tom algures entre o chateado e o cansado - Está uma sombra do que eras, partido, vencido, derrotado.
-Desculpa, o Rui!?
-Sim o idiota é que me arranjou a entrevista e é que me disse que estavas aqui agora.
-E tu vieste porque...
-Porque já não te vejo há imenso tempo! Não se pode ter saudades dos amigos? No meu ramo precisamos dos amigos, sabes?
-Claro que podes, mas vais-me desculpar estar esquisito, sabes nunca pensei que tu acabasses...
-...A vender o corpo?
-Sim. Provavelmente é isso. Que te correu mal na vida?
-Mal? - o ar dela enquanto gritava esta palavra era de espanto indignado - Ai tu achas que algo me corre mal na vida porque faço o que faço? Nunca pensaste no contrário, que isto é a vida a correr-me bem? Tu que passas nove horas num escritório, cinco dias por semana, quatro semanas por mês e tens menos de um mês de férias, quando te deixam gozá-las, perguntas-me o que me correu mal?
Filipe, Filipe... - e acenava com a cabeça condescendentemente - Que sabes tu de a vida correr bem? Desde que acabámos o décimo segundo que não ligas nem falas. Se não fosse pelo Rui nem sequer agora estávamos a falar.
-Desculpa mas o que é que isso tem a ver?
-Estás desculpado. Tu que ias mudar o mundo, passar a vida em férias constantes, quando é paraste de acreditar que isso era possível? Pára e pensa: és mesmo feliz? Sabes que para quem te conheceu a resposta é bastante óbvia: não!
-Porque com a tua actividade vem incluído um curso de psicologia barata que dá alegria aos outros. Bom a parte da alegria se calhar até vem...
-Porque com a minha actividade tenho uma semana de férias por mês, porque neste momento escolho os trabalhos que faço, com quem os faço, tenho direito a assistência médica paga e acima de tudo - aqui frisou que o que se seguia era a parte realmente importante - não tenho a monotonia da fábrica de carros onde penei durante dois anos, ganho num mês o que ganhava lá num ano, não tenho turnos impossíveis e tenho um horário reduzido. Ah! E quando chego ao fim do dia cansada é porque provavelmente nesse dia consegui ter um orgasmo genuíno e não porque nem para orgasmos tenho vontade.

Aqui eu já não ouvia bem o que ela ia dizendo. Pensei, por breves instantes, que poderiam ser as desculpas que ela se dava para justificar o trabalho, mas algo na forma de falar me dizia que não era esse o caso. Aquilo não eram desculpas, eram motivos, eram as razões pelas quais ela, ao fim de um dia na fábrica, farta de processar guias de transporte, folhas de pagamento e deves-e-haveres, havia decidido deixar aquela vida. Aquilo havia sido pensado, aquelas eram as razões e ela vivia tranquila com a sua consciência e encarava de frente um mundo que a segregava. Quase que fazia com que parecesse inveja!

-Então e namorados? - perguntei, apenas com a curiosidade de saber como conjugava o incompatível.
-Casada, divorciada. Presentemente sem ninguém. Estás interessado é? - não consegui resistir a sorrir.
-Não costumo cometer o mesmo erro duas vezes.
-Então e uma quecazinha? Aposto que tenho uns truques para te ensinar. - aqui engasguei-me. No meio de tudo não vi esta a chegar e só aqui percebi que a hora de encontro com o Rui já tinha passado para lá do atraso normal. Comecei a questionar-me que ao "pagas tu" não faltou acrescentar um "não e preocupes que é só copos para dois".
-O Rui sabia? - perguntei, quase que esperando um "foi ideia dele".
-Sabia. Foi complicado convencê-lo, mas lá acabou por concordar em não aparecer.
-Então ele sabe da proposta?
-Qual proposta? Achas que estava a falar a sério?
-Pensei que...
-Que eu era uma puta que dava uma borla de vez em quando? Nem uma, nem a outra! Mostro-me e deixo que me façam coisas, também faço coisas, mas isso tem um espaço definido e é só mais um trabalho.
-Ah, peço desculpa se confundi as coisas.
-Não é isso. Emocionalmente, achas que te consegues distanciar? Se sim, bora lá, até filmamos e poupas-me umas horas de trabalho. Até te mostro como se faz, quem sabe tenho um orgasmo daqueles que se ouve na rua toda e acorda os vizinhos. Mas pensa bem no dia seguinte. Achas que estás distante o suficiente para te meteres nisso? Não esperes que eu amanhã esteja toda ramelosa à tua volta.
Eu sei que achas que preciso de ser salva, mas não preciso. E mesmo se precisasse não era por ti! Agora pensa lá bem: queres alguma coisa?

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O sol bate-me de frente na cara e acordo num quarto de hotel. Penso para mim que deviam proibir quartos virados a nascente e apercebo-me que a água corre na banheira da casa de banho.
-Bom dia dorminhoco. - diz-me uma voz familiar e aconchegante - Não faças esse ar de parvo. Consigo ver-te pelo espelho. - olho e confirmo que é possível ver o seu corpo despido enquanto o seca.
-Bom dia! - solto aquilo que penso ser palavras, mas assumo que possa ser ouvido como um balbuciar.
-Quem era a tua amiga de ontem?
-A Ana?
-É esse o nome dela? Na revista dizia outro, um inglês.
-Sim, é actriz porno. Na revista vem o nome artístico.
-Uh! O meu namorado dá-se com actrizes porno. Tenho motivos de preocupação?
-Não 'mor, preocupa-te antes com o teu marido, que as minhas amigas são só isso mesmo: amigas!

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Quinta-feira, Abril 01, 2010

Ana Berta

-Bom dia, senhor Saraiva. Que vai ser hoje? - a saudação parece mais ajustada a um café do que um quiosque, mas a verdade é que desde sempre ali comprava o jornal, desde o menino Filipe até, agora, o senhor Saraiva, desde sempre vendido pelo, agora idoso, senhor Bastos do quiosque.
-Bom dia senhor Bastos. Hoje é "O Apito" e o "Diário de Trivialidades".
-Acho que "O Apito" esgotou, deixe só cá ver se sobrou algum. - e dizendo isto desaparece nas profundezas do quiosque, como que engolido.

O momento em que se espera pelo jornal é um momento mágico para o vendedor. Aquele ritmo lento com que ele procura, apurado com o lento passar dos anos, faz com que quem espera pelo jornal desde cedo perceba que é melhor entreter-se. Como o que não falta são cabeçalhos e capas para ler, a verdade é que nem nos importamos de sermos presos a uma outra capa e levar sempre algo mais do que vínhamos comprar.

Naquele dia chamou-me a atenção uma revista masculina, a CCM, que trazia na capa uma modelo escultural. Ou seria uma apresentadora semi-despida? Enfim, era escultural ou aparentava... Mesmo assim, o que me chamou a atenção foi uma das fotos mais pequenas, daquelas que aparecem nos cantos e cuja legenda anunciava "Uma portuguesa com a Europa entre as pernas" e que retratava nada mais nada menos que uma das minhas amigas de longa data, mas da qual havia já alguns anos não ouvia notícias. Na altura chamava-se Ana Filipa Machado, mas agora respondia por Cuntrine Wide.

Sei que fiquei ali um bocado, mas quando dei por mim já o senhor Bastos me olhava com os jornais na mão.
-Dê-me também uma CCM, faz favor.
-Aqui tem. - expedito - Para a semana quer que lhe guarde o Jornal de Palavras?
-Sim, se puder ser.
-Então ora aqui tem. Acertamos contas no Sábado?
-Sim, como de costume.
-Então passe bem, senhor Saraiva.
-Até logo, senhor Bastos. - e segui para o escritório com os jornais e a revista debaixo do braço, mas só um dele me fazia fervilhar de curiosidade.

-//-

Trabalhar naquele dia era impossível. Simplesmente não estava a ali, estava na revista. De facto nem sei dizer exactamente porque é que estava incomodado, afinal as estrelas porno também andaram na escola e foram colegas de alguém, simplesmente a vida não lhes havia corrido como aos outros. Eu simplesmente tinha sido colega de uma delas. E namorado.

Até compreendia que houvesse quem gostasse que lhe pagassem para fazerem aquilo, mas com a pressão das câmaras e o peso de milhares... milhões (vivemos numa época de milhões) de visualizadores de conteúdos para adultos (milhões de quase-adultos convém acrescentar) ao qual ainda se pode juntar a dificuldade de manter uma relação...

Toca o telefone:
-Estou?
-Foda-se, viste a capa da CM hoje? - a voz, quase que o grito, pertence ao Rui, amigo de muito longa data.
-A capa da...
-CCM, a revista de gajos, pá! Tens de ver, nem acreditas quem vem lá.
-A Filipa do secundário?! - disse, dando uma entoação de palpite casual.
-Porra, já viste. Ganda cena meu, andaste com uma estrela porno. - E quando ele diz isto quase que lhe vejo o grande sorriso trocista que certamente está a exibir para o telemóvel.
-Não se pode dizer que tenha o exclusivo da coisa, não é?
-Deixa-te de merdas! Logo copos no Bazar, pagas tu Dick Mountenjoy - Com a referência pornográfica desligou o telefone. O resto do dia prometia...

(continua)

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Terça-feira, Março 09, 2010

Novo velho blog meu

Eis um novo blog que mantenho desde o início do ano, mais dedicado a comentários do que oiço e leio.

Aguarda-se visitas e comentários!

Domingo, Fevereiro 28, 2010

Concurso de Fotografia :: PENA 2010

Camaradas, venho abrir o tão esperado concurso de Fotografia :: PENA 2010!

Cada autor deve participar com o máximo de três fotografias, uma por tema!

Nesta edição os temas são os seguintes:

  •  pessoas
  •  urbano
  •  natureza
  •  científico
  •  abstracto


A submissão de fotografias durará até ao final do mês de Março.

As submissões são aceites para o email geral do com-palavras. Neste deverá ser mencionado o(s) tema(s) e o nickname do autor.

Em Abril abriremos as votações.

Bom concurso!!!  :)

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Sexta-feira, Fevereiro 19, 2010

O meu novo blogue

A não perder: As Aventuras Radioactivianas - Agora ja funciona!

http://aventuasradioactivianas.blogspot.com/

Num lab perto de si!

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

NIN - DVD Grátis

Boas.

Vou ser breve. Depois de The Slip, TR oferece vi WWW o DVD da respectiva tour americana.
Sustentado por um espectáculo multimedia cuja utilização de recursos confere uma inteligência e impacto que nunca presenciei em 34 anos de visão/audição, Another Version Of The Truth ASSUSTA de tão bom que é. É favor sacar e difundir.

http://thisoneisonus.org/node/34

Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

Concurso de Fotografia com-palavras.com

Meninos e Meninas,

E que tal fazemos um concurso de Fotografia, com-palavras.com 2010?
Em que cada um entra com 2-3 fotos.

Depois podíamos também repensar numa tertúlia em 2010? Faltam é locais...

Terça-feira, Dezembro 29, 2009

BIP

TIC, TAC... Bip!

Do céu cinzento enfadonho
Escorrem lágrimas de um temporal.
Alegria disfarçada nos desejos,
Tantas vozes com ensejos...
Dizem ser algo especial!
Como se um minuto fosse um sonho...

Como um clique do relógio mágico
Ou a ilusão de um bip tecnológico.
Ironia crónica de um rito pagão,
Delírio banal de uma ocasião,
Desvario incontido, antropológico!
Segundo maravilhoso ou trágico.

Caramba, raios, maldição!
É apenas um segundo,
Não podeis mudar o mundo!

Só o infinito é fecundo....
E destrói a tradição
Em bip's de devastação...

BIP!

Terça-feira, Novembro 10, 2009

20 anos

Há 20 anos atrás, na cidade de Berlim
Ainda havia gente a brindar, depois de uma noite de festim

Há 20 anos atrás, na Berlim Ocidental
Abraçava-se um pai a ocidente, com seu filho Oriental.

Há 20 anos atrás, na unida Alemanha
Havia um espírito único, de uma felicidade tamanha

Em Novembro de 1989 em Portugal,
Havia uma criança, a outras igual.

Para uma enclopedia geográfica recente,
Olhava com uma expressão entediada.
Porque a realidade agora diferente,
Em poucas horas a tornava desactualizada.


Mudança...


3 sílabas... a história de uma vida!
Aquela que diz o poeta, ser feita de mudança.
E essa mudança, na qual o tempo dança,
Traz a nova realidade surgida.

O petiz cresceu envolto na mudança:
Essa mudança na juventude foi esperança...
Essa esperança em tudo foi fruto que se alcança,
E que transforma a tempestade na mais doce bonança.

Sábado, Novembro 07, 2009

Não me olhes assim II

Não me olhes assim

És suave como uma manhã de Outono…

Quando os raios de sol, filtrados pelo nevoeiro matinal, entram pela janela do quarto a acariciarem o meu despertar…

Vou à janela ver o mundo!

Umas quantas folhas amarelecidas pelo calor do verão voam na brisa para se acumularem num acolchoado tapete ruivo…

Sinto que te aproximas, viro-me para contemplar o teu vestido de pele branca… Hoje trazes esse longo cabelo preto solto até à cintura… Tens na mão, duas metades de romã… De uma delas, solta-se uma gota de sumo que tomba no chão branco, como se de uma gota de sangue se tratasse!

Os teus enormes olhos negros presos em mim…

- Porque me olhas assim?

- Assim como?

- Como se esperasses algo de mim!

Afasto-me, em direcção à janela… A respiração forte e irregular, a minha mão que treme como se fosse exterior a mim… Tu abraças-me pelas minhas costas, os teus braços entram por baixo dos meus, provocando um pouco de cócegas, para se alojarem no meu peito exaltado, sei que te apercebes, mas não o comentas, suspiras em silêncio e beijas o meu omoplata… Umas quantas lágrimas humedecem-me o olhar…

A nossa sombra, provavelmente, projectada na parede branca do quarto… E o nevoeiro matinal que tudo encobre… E o sumo da romã que continua a cair formando agora uma pequena mancha vermelha, no chão branco do nosso quarto.

Os nossos corpos nus fundidos naquela sombra, que, provavelmente, se reflecte na parede do quarto… Afasto-me mais um pouco, num gesto de vergonha, que também poderia ser considerado desprezo… Tu não me segues, mas as nossas mãos ficam suspensas, como uma ponte, entre os nossos dois seres… A minha mão esquerda continua a tremer demasiado… Se, ao mesmo, tu pudesses compreender…

Giro-me em direcção a ti… Verifico quão bela és! E, de novo, esse olhar…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me enlouqueces!

Uma metade de romã solta-se da tua mão e flutua, estranhamente, em câmara lenta até ao chão… Ao mesmo tempo, na avenida, uma bolota solta-se do carvalho mais próximo da minha porta… Saltitam umas três vezes antes de encontrarem o sítio perfeito para repousarem!

Algumas gotas de sumo voaram até às tuas pernas brancas! Ajoelho-me diante de ti e bebo o teu doce sangue! A mancha vermelha do chão continua a alastrar-se como se me fosse aprisionar… Discirno, claramente, como ganha vida e se alastra na minha direcção como se de uma enorme amiba vermelha se tratasse... Começam a formar-se uns braços em volta da minha perna… Procuro refugio nos teus olhos, mas, também eles, parecem devorar-me vivo…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me aleijas!

Moves-te em direcção à cama, começas por desfaze-la como se desmontasses o cenário do nosso pequeno Teatro dos Sonhos… Enquanto trocas os lençóis por uns lavados recentemente, o cheiro a lavanda inunda a pequena habitação em que nos encontramos… Com o meu braço na tua cintura obrigo-te a que te gires na minha direcção e abraço-te… o teu braço direito, tremulo, e que sustém, ainda, a romã encontra um repouso acutilante no meu peito, como se me apunhalasse o coração… O sangue, excessivamente, vermelho da romã escorre pelo meu tronco antes de cair no chão! Sinto-me fraco, e refugiando-me no teu abraço caímos os dois nos lençóis brancos que acabas de pôr na cama… As nossas peles brancas, camufladas, entre os lençóis são como pele de fantasmas, como se já não existíssemos… Acaricio-te a cara com ambas as mãos e aproximo os nossos lábios, talvez eles mais vermelhos que o sangue que tinge os lençóis, para te beijar… Neste movimento lento os meus olhos encontram os teus enormes botões negros neste universo branco e vermelho…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me dás medo!

Tomo consciência que a nossa pele desapareceu já, fundida por entre os lençóis… De nós sobra apenas a romã, agora esmagada entre os nossos corpos, os nossos lábios quentes e os teus olhos negros… Somos fantasmas do casal que viveu aqui um dia… Somos a recordação! Não voltaremos a ter vinte anos… Nunca mais voltaremos a ter vinte anos… Tento em vão olhar pela janela e aperceber-me do Outono… Sinto o ar gelado do quarto… Sinto o frio dos lençóis… Vejo o nevoeiro matinal a invadir o quarto, com ele veio a Morte para me acariciar as costas, mas ficou, ali a um canto, quando se apercebeu que já não tenho costas… Veio, também, um Anjo acariciar-te o cabelo, mas também ele permaneceu naquele canto, ao ver que já não tens cabelo… Aperto o lençol contra si mesmo, na esperança vã que sejam as nossas mãos que se apertam… Não quero perder-te… Fiquemos aqui para sempre, neste limbo… E que a Morte e o Anjo sejam os nossos guardas… Mas tudo é em vão… Cedo descobriram uma forma de nos levarem… E, eu, eu já sinto frio… Muito frio… Perecemos aqui no palco onde um dia construímos o nosso enorme Teatro de Sonhos… Nunca fomos uma bela história de Amor… Mas diluímo-nos como Amantes, entre os lençóis brancos tingidos pelo vermelho-rubro da romã… Fora da janela do nosso quarto o Outono continua a tingir tudo de ruivo… O nevoeiro permanecerá para sempre, como o ultimo suspiro de Nós… Num ultimo esforço busco o teu olhar fascinante…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque não!

E eu, que esta manhã só queria sair à rua descalço e percorrer lentamente a avenida enquanto o tapete ruivo de folhas secas se destruía debaixo dos meus pés… E tu, na janela, a ver-me, enquanto comias essa romã… Podíamos passar a tarde na praia… Voltar e acender a lareira… Eu sentava-me no chão… E tu no sofá… Abríamos uma garrafa de vinho… Eu lia-te um livro… No final beijava-te e dizia que te amava… Tu sorrias… Uma lágrima, provavelmente, humedeceria o meu olhar…

E eu, que esta manhã só queria que fossemos, descalços e de mãos dadas percorrer o enorme tapete ruivo que cobre a avenida onde está a nossa casa…


Este texto é uma outra forma de contruir um texto anterior:

http://www.pena.com-palavras.com/2008/12/no-me-olhes-assim.html


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Quinta-feira, Novembro 05, 2009

V – Os Transportes

Passam autocarros
Passam táxis
Passam pessoas
Espera-se e espera-se
Aí vem o próximo
Passam pessoas
Passam paisagens
Passam transportes
De quem asseia por casa

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Terça-feira, Novembro 03, 2009

As ruas do meu bairro

Ontem corria as ruas do meu bairro...

E aquela luz mortiça dos candeeiros no anoitecer chuvoso de Dezembro, era conforto na minha alma. No café havia gente (umas vezes mais outras menos...) e o travo amargo da cafeína, de qualidade por vezes duvidosa, era contudo bálsamo para os pensamentos. O tempo perdia-se diluído por um ou outro digestivo, mas as conversas prolongavam-se amenas até a noite já ir alta... Havia magia naquelas ruas, havia ecos familiares e sons difusos, sons esses que não voltam mais...

"Entre dois dedos de conversa amena,
Na força de um abraço apertado,
A noite seguia, agitada ou serena,
Até o corpo se deitar cansado..."

Hoje já vagueio pelas ruas do meu bairro...

E à luz de um sol mortiço, procuro remoer um ou dois pensamentos. No moderno snack bar pouca gente conheço e embora o aroma do café seja bem mais agradável, não me desperta a alegria dos bons pensamentos. A tarde arrasta-se em alguns diálogos de circunstância... Sem grande magia, em sons que já não conheço e que não sei se irão ficar...

"Acaricio os dedos, maquinalmente,
Aconchegando o corpo na rua fria.
A tarde segue decadente,
Indiferente e tão vazia...

Amanhã andarei perdido pelas ruas... do bairro!

De noite ou de dia nem saberei sequer o que pensar! Se houver café tudo bem, senão serve qualquer coisinha! Se não falar tanto melhor... E certamente que dispensarei qualquer som que me perturbe os pensamentos!

"... é melhor aquecer os dedos em casa
E observar a chuva a cair lá fora...
Pois o som que de lá extravasa,
Não é a melodia que ouvia outrora...

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Terça-feira, Outubro 27, 2009

IV - A Noite

Luzes de mil cores
E o tempo que congela
Vadios de rumo certo
Olhares ansiosos e vorazes
Apetites loucos à solta
Um sentimento de desconhecido
A cada esquina conhecida
Nos estranhos companhia
Que nos leva a estranhar
E abandonar a razão que temos
Grupos que crescem mesmo que apenas por horas
Horas que passam sem se verem
Véu negro que clareia
Passagem para o amanhã
Renascer da alegria

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A verdade na mentira

Um movimento discreto e furtivo;
Um gesto protector e esquivo.

Um forte pesar na cabeça,
Esperando que a memória se esqueça...

Uma fuga, um escape doloroso.
Um hábito, no dia vagaroso.

Se os gestos são fugas de nós,
Se existe um amargo sincero na voz,
Se o escape é tão inocente
E a brisa corre amena e feliz,
Tão doce nas palavras que diz
Quando o mundo roda contente.

Então a certeza ninguém me tira:
De que existe verdade na mentira!

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Quinta-feira, Outubro 22, 2009

III - Fim de Tarde

Sentir a brisa do fim de tarde
Os raios mortiços
De um sol que está de partida
O rebuliço das gentes
Que se vai com o calor
E o calor das gentes nos bares,
Que aumenta com a escuridão.

O ar sorridente
O ar cansado
O ar pesado
O ar carente
O ar de toda essa gente
O ar que tenho em mim.

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O Basilisco

Erguendo-se da água escura,
O Basilisco abandona o seu abrigo,
Com os seus olhos que inspiram loucura,
Tudo o que respira está em perigo.


Abrindo as asas sobe no ar,
Espalhando pelos campos o terror,
Voa sob os raios de luar,
Enchendo quem o contempla de torpor.


Misto de morcego e serpente,
Corpo de galo e de dragão,
Aterroriza fraca e forte gente,
Matando tudo o que se atravessa na visão.


Com o seu olhar venenoso,
Transforma em cinzas quem o vislumbra…
Com o seu hálito sulfuroso,
Sufoca o incauto na penumbra…


Este monstro, poucos o sabem deter…
Não com o odor de doninha nem canto de galo,
Pois apenas o seu reflexo o consegue abater,
Obrigando as trevas a recolher o seu vassalo.


E assim todas as longas noites brumosas,
O Basilisco atravessa o firmamento,
Aterrorizando as pessoas receosas,
Para por fim regressar ao seu acolhimento.


[Mergulhando na água escura,
O Basilisco regressa ao seu abrigo,
A uns, os seus olhos lançaram na loucura,
Aos outros, o medo do regresso do perigo.]

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Terça-feira, Outubro 13, 2009

II - Os Cafés

Há gente estranha
Que ocasionalmente olha para mim.
Estranhos não por serem esquisitos
Estranhos por serem diferentes.
Os muros que erguem são altos
E maciços, mas ali, na aragem do final de tarde
Sentimos os ventos da liberdade
E vemos o sol
Por entre as falhas dos tijolos.

É ali,
Com as suas bebidas e comidas
Do que para mim é o final do dia
Para eles o começo da noite
Que os vemos como são
Em amena conversa
De olhar agressivo.

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Nas asas (de um tempo...)

Comando televisivo na mão,
Um sorriso meio perdido,
Um coração meio esquecido,
Um esgar de comoção.

Um ar contempletativo,
Uma tranquilidade inquietante...
Uma recordação distante
Num caminho definitivo.

Uma felicidade diferente,
Uma calma enganadora,
Uma imagem tentadora,
A incerteza pela frente.

É caminhar.
É lutar.
É chorar.
É desesperar...

É ter tudo para ser feliz...
E viver sempre insatisfeito,
Num quadro meio desfeito
De quem ainda é aprendiz...

Mas que nas asas do tempo, impiedoso,
Apenas voa para um fim...


...Glorioso?

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