Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012
O sol bate-me nos olhos. Penso que casas com janelas viradas a nascente deviam ser proibidas. Olho pela janela e o brilho parece-me demasiado para um sol que nasce. Levanto-me e chego-me à janela, sem me importar com a nudez, apesar do parapeito baixo da janela.
Olho para o prédio em frente e para os que o ladeiam. As janelas são todas elas enormes,
(Não custa muito pensar o porquê: é o sol! As janelas são enormes para o sol poder entrar mesmo quando está oculto.)
mas no prédio em frente ninguém nu me contempla. Olho para o céu e vejo o Sol bem no seu pico. Não é uma casa com janelas a nascente, é uma casa com janelas a sul, aquela em que acordei. Olho em meu redor. Estou numa espécie de escritório. Ou numa de espécie de quarto. Será certamente um quartório, divisão híbrida que é habitada por espécies sem dinheiro para uma casa e que duma divisão fazem toda uma casa. Olho para a cama onde dormi, um colchão no chão com uns lençóis. Tento recordar a noite anterior mas não me lembro dos acontecimentos.
(Ou se calhar até lembro, mas prefiro apelar ao esquecimento. Estranha essa divisão a que chamamos memória. Tem na porta uma janelinha que abre do lado de fora e donde vemos todos os seus compartimentos, com janelinhas nas portas, para escolhermos os que nos convêm.)
Lembro-me isso sim dos prédios, a humidade palpável, as ruas imensas a passarem aos ésses por baixo dos meus pés e duas presenças. De um lado estava ela, pequenina, a rir-se copo de…
(sei lá que merda era aquela, era uma bebida qualquer, o copo era de cerveja, mas cerveja não tem aquela cor)
No outro.
(Pausa. Uma memória que sai do armário.)
Por instantes penso na amiga da Rapariga, a que mora na mesma casa, num quarto em frente, mas a presença não era ela, apesar da memória visual. Todos os restantes sentidos me transmitiam um conjunto de sentimentos diferentes. Por todo o lado, em meu redor, a presença que se sentia era como se o nevoeiro tivesse ganho vida, como se as sombras fossem gente, as gentes sombra, os candeeiros pirilampos e toda a cidade tivesse ganho vida e me abraçasse como uma mãe a um filho.
Ah! Cidade!
Um abraço terno, amoroso, apaixonado, como uma amante sedutora arrastando o seu amado, por ruas de algodão, colinas de molas, becos escuros de paredes rosadas.
Ah! Cidade!
E o sol reflectido nas janelas da frente, nas poças da rua,
(Não me lembro de chover.)
os passeios sujos a clamarem pelos meus passos. Os parques verdejantes, a assobiarem
(Deve ser do vento nas árvores.)
e atrás de mim uma porta que se abre, uma voz que pergunta se dormi bem. Olho para trás. A Rapariga aí está, roupas simples, discretas, e o mesmo olhar sem fundo, o mesmo sorriso eterno.
(Como podia ter dormido mal. Dormi que nem um bebé bêbado. Provavelmente mais como um bêbado do que um bebé.)
Diz-me que se quiser alguma coisa para a cabeça tem uma farmácia recheada. Respondo-lhe que quero algo para a barriga. Pergunta-me se dói e eu
(não percebes nada Rapariga)
respondo-lhe que não, tenho é fome.
(Como não me lembro de ter vomitado na noite anterior, provavelmente é do tempo que passou desde a última refeição.)
Ela conhece um sítio que servem grandes-pequenos-almoços. Porreiro.
O pequeno-almoço desta gente é muito parecido com o meu almoço. Diferença? Não o tomo numa livraria quando na sala ao lado decorre a apresentação de um livro. Não percebo nada do que dizem, mas parece-me que os que percebem na minha sala preferiam não perceber.
Acabo de comer. A Rapariga saiu para fumar e fiquei sozinho. Pego num livro. Não percebo isto. Dicionário Cidadês-Inglês, duas prateleira mais acima. “Embrenhei-me em terras longínquas, longe de rei, família e amigos” assim começa o calhamaço de poesia que tirei ao calhas da estante ao lado da mesa. Longe de rei, família e amigos… Rio-me para dentro.
Três meses. O orçamento não dá para tudo, mas a mudança para o chão do escritório da Rapariga ajudou a esticar. O partilhar momentos com a companheira encurtou-o. Gostava de ficar mais uns meses, talvez chegar ao ano, até arrisco pensar em não partir...
(Afinal o quarto era a porta em frente.)
O tempo lá fora está cinzento, escuro e frio, mas por dentro não sou já o tempo. Não é Rapariga que me mudou. No tempo que aqui passei nada se passou.
Já de Cidade não posso dizer o mesmo. Com Cidade e Companheira tudo se passou, tudo se transformou e os dias de frio e de tempo escuro e molhado foram-se entranhando nos ossos até serem tão naturais como acordar. Já não sentia frio, sentia a temperatura amena do dia-a-dia, nem tão quente que apelasse à preguiça, nem era aquele gelo que gelava o espírito mais inflamado.
As gentes que fugiam no passeio, os motoristas, os ciclistas e outros transeuntes preocupados com a sua vida, os bares apinhados, as ruas de tijolo vermelho antigo, adornadas com heras, arbustos e flores murchas, tornaram-se irmãos, irmãs e roupas adornadas, no colo de quem encontro refúgio, com as quais me aqueço no Inverno. Não eram já desconhecidos. Eram os primos afastados que ao fim de muitos anos precisamos de reconhecer, reconquistar. E aquela ciclista que à tarde quase me atropelava, no bar à noite podia ser com quem falava!
Fecho a mala preta. A mala preta, pequena, com umas quantas mudas de roupa, o suficiente para uma semana, ou assim. Leva as roupas e pequenas lembranças.
Pequenas lembranças, coisas, símbolos. Nada de postais ou t-shirts ou pins ou miniaturas. Copos como milhares de outros,
(Recheados com meias usadas para proteger do choque. Os funcionários de aeroporto acrescentam um carinho e simpatia nas malas, que a violência do descolar e aterrar parecem carícias que uma mãe extremosa.)
recolhidos em bares, no final de noites bem regadas. Dados desses bares, sujos, gastos nos cantos, de pintas grandes e pequenas, descalibrados. Bilhetes, de transportes, museus, concertos. Uns roubados, outros sobre-usados. Memórias. Essencialmente levo as memórias. O que era, quando cheguei. A memória do que é a descoberta. Levo-me a mim na mala preta que só leva roupa e memórias.
Na mesa da cozinha um bilhete de avião. Por cima do bilhete um maço de tabaco.
(Relembra-me que às vezes fumo.)
“Quando voltas?”
“Não sei”, respondo. Talvez amanhã, depois ou nunca. Emigro hoje para o meu país, porque quando o avião descolar e passar o manto cinza, estarei a deixar para trás, a minha Cidade.
Quinta-feira, Janeiro 12, 2012
A Cidade
O ar é fresco nesta cidade. Mesmo quando está calor, o ar que corre é sempre fresco e traz o cheiro da água dos canais,
(O que esta gente faz com o desvio de cursos é maravilhoso. E a forma como vendem a atracção…)
não um cheiro pestilento a águas paradas, o cheiro de vida, de peixes a nadarem, barcos a circularem, uma vida ligada. E hoje ela foi trabalhar… Ontem não deu para muito estava cansado, ela estava com um grupo de amigos. Uma cerveja e outra de conversa, queixas do tempo, queixas da comida e da frieza das relações, de como o pessoal e o profissional eram tão diferentes. Eu não sei. Nada de profissional me liga aqui.
(Nem pessoal, para dizer a verdade. Deveria dizer então que ‘nada me liga aqui’? Se o dissesse como tenho a certeza que vou perder o voo que descola daqui a pouco?)
Logo à noite vou jantar com ela.
(E como era bom o dia passar rápido. Assim, eu desejar ser noite e eis que as estrelas se vêem no céu. Não são muitas e o céu não é tão escuro.)
Afinal ela mora duas ruas acima da pensão
(Não que ela tenha de saber.)
e consigo não chegar atrasado. A colega de casa abre-me a porta, alta, magra, o cabelo artificialmente moreno,
(O contrário da Rapariga. Poder-se-ia dizer que coabitavam no mesmo espaço o positivo e o negativo de uma mesma pessoa.)
numa mão um cigarro aceso, na outra um copo de vinho tinto. O olhar já semi-cerrado do copo extra que nunca devia ter sido bebido. Quero-lhe perguntar por Rapariga, mas ainda antes de abrir a boca já ela me sorri
(Um sorriso desprovido de expressão, mas cheio de vontades...)
e pergunta se sou a visita. Respondo que não sou visita, estou só de passagem. “Há muitos que vêm de passagem e nunca mais passam daqui.” Pergunto-lhe se morre assim tanta gente em Cidade. “Morrem por dentro, e renascem, descobrem encantos nos becos escuros, apaixonam-se por telhados de cobre esverdeado e não conseguem nunca mais olhar para outras gentes que não estas. Tu tens esse olhar baço de quem se procura. Não queres entrar?”
Não quero mas acabo por entrar. Enquanto o meu contacto não se despacha, fechado que está num segundo andar, fico aqui na cozinha, sentado à mesa, e vejo a garrafa lentamente a ficar mais vazia e vejo uma segunda, que eu mesmo abro, vazar-se como a primeira. E enquanto passam os copos de vinho conversamos, conversamos e na rua levanta-se um burburinho. Gentes passeiam
(Amanhã não trabalham, é verdade! Hoje deve estar tudo cheio.)
e o pitoresco nocturno aparece. Do outro lado da rua, em frente à sex-shop, duas prostitutas conversam animadamente e, de vez em quando, metem-se com transeuntes. Um deles fica lá a dar-lhe conversa, até que um fulano, aspecto de oriental, vai ter uma conversa com ele. Parece-me ouvir a palavra ‘pagar’ no meio do burburinho. Uma bicicleta passa e quase atropela o turco,
(Sei lá se é turco. Veio-me agora a música o verso “veio ver se está tudo bem com as suas meninas”, mas isso não é o turco, é Conan o Bárbaro.)
que não protesta, mas que é protestado. Humildemente sobe para o passeio e vinga-se no transeunte, que entretanto já está de mão dada a uma das prostitutas.
Eu sei isto porque estou na janela, com a companheira da Rapariga a fumarmos. Descobri agora que fumo. Ela ofereceu-me e não disse que não. Descobri agora que o maço dela não tem cigarros só com tabaco e digo a mim mesmo que a noite a partir daqui só pode melhorar.
Viagem Para Casa
Segura-te ao varão com a mãoNão caias a caminho de casa
Deixa-te embalar pelo suave ondular
Dum autocarro cheio de gente
De cheiros
De histórias para contar
Segura-te ao varão com a mão
A mão de produção
Cansada de produzir
Conta-me esta noite as histórias do teu dia
Embala-me no berço em que durmo quando chegas
E não te esqueças de mim amanhã
Quando antes do sol saíres e te despedires de mim
A caminho do autocarro onde te vais segurar ao varão
Com a mão da produção cansada
Da produção que me tira de ti
Que te te tira de mim
Que me deixa sozinho em casa e na rua
A crescer sozinho
A comer sozinho
A aprender sozinho
A chorar sozinho
Segura-me a mão no teu leito de morte
Tenho uma hora contigo antes de sair
Entrar no autocarro e sozinho
Segurar-me ao varão com a minha mão produtora
Etiquetas: Barata
Quarta-feira, Dezembro 07, 2011
A Cidade
Sopra um vento frio nas ruas como nunca senti. Mais do que os ossos é a minha alma que está gelada. O porteiro da pensão disse-me que havia por aqui um bar de vinhos porreiro,(Ainda pensei que porreiro para ele fosse na onda de com quem me viu quando cheguei à pensão. Quase que ficou ofendido quando o sugeri…)
mas a verdade é que não vejo nada. As portas são fechadas, os bares, se existem, são caves com janelas minúsculas e ninguém passeia nas ruas. Caminho um pouco mais até que vejo um ajuntamento. Gente bem vestida, bem disposta, conversa calorosa. Não é um bar de vinhos, mas é um bar. Entro e sento-me ao balcão. Peço uma cerveja e recebo um copo de meio litro cheio de uma cerveja fraquinha, mal gaseificada, mas fresca. Perco-me nos pensamentos
(Na realidade não são pensamentos, são caras e com cada cara um pensamento de me aproximar, como o fazer, o que dizer, qual as respostas que vou ter. Todos estes pensamentos acabando nessa fatal e grande conclusão de que já estou demasiado enferrujado neste jogo.)
e nem me apercebo que um grupo se sentou ao meu lado e me tem estado a empurrar discretamente. Começo a ficar um pouco enervado até que uma rapariga, totalmente deslocada desta cidade, se mete comigo. A princípio não me apercebo, mas quando a vejo a olhar para mim, com duas cervejas na mão, acordo para a realidade.
“Estás com ar de quem bebia outra!” diz-me num inglês com sotaque de estrangeira. Como se não chegasse a baixa estatura e o cabelo preto para o denunciarem. E os olhos! Meu Deus os olhos! Nunca houve poeta que cantasse olhos escuros,
(Não castanhos escuros, pretos como carvão. Um antracite tão escuro e tão profundo que nos podíamos afogar lá dentro, mas que de certos ângulos ganhavam um brilho luminoso.)
e isso é porque nunca conheceram estes! Eu vejo-lhe a boca a mexer, oiço ruídos mas estou completamente absorvido pelos olhos. Nem o generoso decote
(que deixa antever umas gémeas 36. Não é imenso eu sei, mas prefiro elegância na escultura, a excessivo volume.)
me faz desviar o olhar. “O meu nome é Rapariga e o teu?” e respondo-lhe com o meu nome e cruzando a óbvia entoação das letras e a pronúncia com que os dizemos, concluímos ser conterrâneos.
“Estás com ar de quem bebia outra!” diz-me num inglês com sotaque de estrangeira. Como se não chegasse a baixa estatura e o cabelo preto para o denunciarem. E os olhos! Meu Deus os olhos! Nunca houve poeta que cantasse olhos escuros,
(Não castanhos escuros, pretos como carvão. Um antracite tão escuro e tão profundo que nos podíamos afogar lá dentro, mas que de certos ângulos ganhavam um brilho luminoso.)
e isso é porque nunca conheceram estes! Eu vejo-lhe a boca a mexer, oiço ruídos mas estou completamente absorvido pelos olhos. Nem o generoso decote
(que deixa antever umas gémeas 36. Não é imenso eu sei, mas prefiro elegância na escultura, a excessivo volume.)
me faz desviar o olhar. “O meu nome é Rapariga e o teu?” e respondo-lhe com o meu nome e cruzando a óbvia entoação das letras e a pronúncia com que os dizemos, concluímos ser conterrâneos.
Segunda-feira, Novembro 28, 2011
A Cidade
Não vai ser preciso calcorrear prolongadamente os passeios
(Tão diferentes dos meus, tão cinzentos, sujos, com tantos restos das noites que por eles passaram que se poderia escrever um romance por metro quadrado. Toda uma colecção onde não seria preciso repetir fórmulas nem personagens, apesar de estes poderem fazer visitas esporádicas noutros contos.)
tão desacertados que se diria que pulsam, agora subindo, agora descendo, consoante a inclinação do bloco de cimento, para encontrar o que procuro.
Tudo organizado, ali estão elas, ao longo das perpendiculares em grupos de três ou quatro, mas pouco mais. Um olhar em redor e reparo que alguns carros têm o condutor, ou, distanciados, homens a fumarem languidamente como se não fosse nada com eles.
(É assim que se arrumam em qualquer cidade: junto ao coração da mesma, onde o sangue novo chega quentinho, pronto a ser chupado.)
Deixei para trás o quarteirão dos hotéis, pensando que aqueles halls iluminados, de mármores reluzentes não são para mim, são para os que procuram em cada cidade o lado luminoso e vistoso, o vestido de gala com que ela se adorna para seduzir o visitante.
“Need some company for the night?”
(Oh baby if you only knew!)
Eis-me chegado ao que procurava. Olho-a. Não é o melhor exemplar que podia encontrar. Tem o ar de uma veterana da zona,
(Ou pelo menos a indumentária e a postura.)
o que me leva a concluir que a busca terminou, porque é mesmo isto que preciso. Não me preocupo com o aspecto físico. Podia arranjar melhor, mas também já havia tido pior, por um preço bem mais caro.
(Quando paramos para pensar, todos os engates são no fundo uma ida às putas. Tudo se resume a formas de pagamento: para umas é dinheiro vivo, para outras géneros.)
Respondo-lhe que cheguei agora, ela pensa ser uma desculpa para a evitar e começa a urdir os feitiços com que os incautos se deixam apanhar. Não sou incauto, mas deixo-me ir na mesma. Eu quero ir, ser levado, caçado e abusado!
(Pela conversa percebo que é de facto uma veterana. Nenhuma novata me diria as coisas como ela, nenhuma recém-chegada deixaria um veterano de ruas e vielas ansioso da maneira que fiquei.)
Ela perguntou em que hotel estava e eu respondi-lhe que ainda nenhum. Ela apontou então para uma janela com um letreiro intermitente ao fundo da rua. O meu palácio aguardava-me!
Não adianta estar a relatar os pormenores da noite. O sol vai alto
(Ou deveria ir, pelas horas, porque nesta cidade o sol dura uns dias no Verão. Não é Verão. O céu é cinzento, sempre cinza, ora escuro, ora claro, mas sempre um deprimente tom cinza.)
e estou numa esplanada embrulhado numa manta. Vejo o tráfego das bicicletas, que partilham o asfalto com carros e autocarros, e as ruas do centro com os peões. Vejo gente. Não vejo tipos de pessoas, vejo gente. Vejo engravatados, vejo atletas, vejo raparigas e rapazes, no fundo todo um povo. Levo o sumo de laranja aos lábios
(Está tão aguado que poderia confundi-lo com uma qualquer espelunca de turistas na minha cidade.)
para molhar a garganta. Tiro o panfleto do turismo do bolso de dentro do casaco e começo a ver o que a cidade tem para me oferecer. A verdade é que não queria ser turista, mas aqui é o que sou.
(Será alguém outra coisa quando chega a um sítio novo?)
Primeiro tenho de conhecer ruas. Até agora o que vi foi prédios de três ou quatro andares, todos num tijolo vermelho, com escadinhas à porta. Tudo construções, no mínimo, centenárias. Ou, pelo menos, de fachadas centenárias e reconstruídas no interior. Ruas largas, onde caberiam dois carros, fechadas ao trânsito para liberdade dos peões e bicicletas. E gente alta de cabelo claro, corpos magros. Para mim é fácil sobressair nesta multidão.
Um raio de sol fura as nuvens e toca-me na cara. Surpreendentemente esse toque aquece-me. Por entre um golo e outro tenho estado a tentar decifrar o que estou aqui a fazer. É verdade que ainda não passaram três dias desde que vendi a casa. Nessa noite fui ao site da companhia aérea e escolhi a promoção para Cidade, bilhete ida e volta, preço reduzido. Amanhã por esta hora estarei a perder o vôo de regresso e ainda não sei porquê. Na pensão já acertei uma renda. Consegui um negócio porreiro e consigo duplicar a estadia. Dois meses. É esse o tempo que tenho. Posso bem aproveitar o dia nesta esplanada, a ler um livro.
Terça-feira, Novembro 22, 2011
A Cidade
Que saída triunfante para um átrio cheio de desconhecidos que esboçam ares de felicidade quando me vêem. Ares que desaparecem assim que me não reconhecem e os seus olhares se focam na cara que vem atrás de mim.
Comboios para baixo, metro para cima e autocarros nas portas laterais do mesmo nível. Não sei para onde ir. Penso que com o dinheiro na conta posso dormir num hotel limpinho uma semana, ou numa pensão manhosa durante um mês. Nas informações para turistas devem ter recomendações. Enquanto caminho interrogo-me se terei o ar aparvalhado e perdido do turista típico; olhos esbugalhados
(Como se por estarem mais abertos conseguissem captar mais informação.)
e passinhos curtinhos.
(Com medo de pisar uma mina certamente.)
“Em que posso ajudar?” perguntam-me num inglês limpíssimo e sem sotaque.
(Há dois mil anos seria um latim do mais alto calibre, há quinhentos castelhano, há cinquenta se calhar esperavam que eu perguntasse em francês… Vou responder em francês!)
“Un bonne hotel, s’il vou plait.” Digo com a absoluta convicção de que alguma coisa está errada na frase. “Bien sure” e tira um mapa onde escrevinha umas coisas. Começa a falar num francês com sotaque, mas não é por isso que a conversa me passa ao lado, o francês é que é demasiado avançado para mim e perco-me a acenar que sim e a murmurar aceitação.
(Daqui a cinquenta anos que outra língua falarão? E daqui a quinhentos? Português? Chinês? Esperanto? Seremos parte dessa aldeia-global onde todas as ruas falam a mesma língua, ou continuaremos na herdade rural onde o estábulo muge, o senhor fala com o fazendeiro num dialecto erudito que é posteriormente transmitido brejeiramente à esposa que ouve o cacarejar das galinhas, enquanto pensa “o meu homem não se devia meter no que não percebe” e, lá longe, um pato grasna, os burros zurram e o vento assobia por entre as copas das árvores, enquanto na seara um lamento…)
Olho as cruzes no mapa, agradeço, e vou para o comboio.
Uma certeza do comboio é a estação central. Toda a cidade tem a sua Cidade-Central, onde o comboio se cruza com o autocarro, os táxis, o posto de correios, o turista que chega e o turista que está de partida,
(Como metáfora da ignorância do que será e da memória do que foi.)
e parece, com esse burburinho, que é em redor deste edifício, centenário, mas com laivos de contemporâneo introduzidos aquando das últimas obras de requalificação, que a cidade se ergueu, como que a facilitar as partidas e as chegadas.
(Teremos então daqui a uns centénios por coração das cidades o aeroporto Cidade-Aeroporto? Ou será que os aeroportos assumirão como sua a designação de Cidade-Central?)
A viagem para Cidade-Central decorre pelo meio de túneis, verde e braços de água, túneis, fábricas e algumas estações e apeadeiros, fábricas e estações fora de serviço, vidros partidos e Cidade-Central. Eis-me chegado ao coração da fera, onde o sangue circula depressa e se distribui pelas várias artérias e capilares, onde desembocam veias de diesel e táxis, o sangue novo chega para lhes dar vida, o velho parte com a melancolia
(Será isso? Não haverá algo de cansaço e desilusão? Quantos dos que vão irão também amanhã, porque entretanto regressaram? Estarei entre quais deles?)
de tempos passados em tecidos de profundidade variável, quantos deixaram carteira e valores, importante o primeiro, acessório o segundo.
Com este pensamento lembrei-me da questão da estadia. Afinal que melhor forma de mergulhar na profundidade dos tecidos da cidade do que misturar-me com o produto que todo o seu metabolismo, e que melhor sítio para encontrar esses metabolitos do que numa pensão rasca? Dobro o guia turístico; aquilo que procuro não vem lá, nunca vem, não importa a cidade, não importa o país, o produto final daquilo que somos não está no guia turístico, preciso de alguém que me saiba orientar para as minhas reais necessidades. Com a mala preta na mão desço as escadas no lado poente e dirijo-me à zona ocidental à procura de uma prostituta!
Segunda-feira, Novembro 14, 2011
A Cidade
O avião aterrou já há uma hora
(Céus como o tempo voa!)
mas da nova cidade ainda não vi mais do que pequenas casas em miniatura quando o avião curvou acentuadamente, tudo lá ao longe, enquadrado por campos de verde e encimado por nuvens em diversos tons de cinza,
(Será que o sol já brilha?)
como que a pressionar-me para fugir…
Uma hora à espera da mala, uma pequena mala preta que por não caber num gradeamento me obrigaram a despachar no porão. Pequena mala que só traz umas quantas mudas de roupa,
(O suficiente para uma semana ou duas.)
as necessárias para me encontrar. É isso! Encontrar-me.
Procuro-me nesta cidade, como me procuraria noutra qualquer que não fosse minha. Na minha conheço-lhe as curvas, as colinas, as gentes e os carros.
“Bom dia vizinho! Tudo bem?”
Tudo dito à pressa e sem esperar resposta.
(Não é retórica porque a resposta não é imediata. As coisas até podem estar mal, eu é que não quero saber.)
“Vai-se indo…”
(Que tanto quer dizer que está tudo bem, como podia estar melhor, ou simplesmente que não se está morto.)
Um “O cabrão do Clio está a ocupar dois lugares” de raiva dirigida ao carro que não tem vontade própria.
Nesta cidade não há o monótono afogamento da rotina nem sou consumido pelo tédio.
“Estás morto! Ou se não morreste, parece; não reages, não sais de casa, não…” Não interessa pois não? A verdade é que eu não saio
(ou deveria dizer saía?)
mas tu saíste e contigo tudo o que me prendia à casa. Que vendi quando saíste! Vendi e comprei a passagem, um bilhete de ida-e-volta que espero sem regresso breve, porque espero há uma hora pela mala preta, mas à minha volta respira-se outro ar. Olho e vejo aceitação, despreocupação. Olho e vejo que só eu estou impaciente e enervado com a situação. Na minha cidade, apesar de esperas constantes, medidas em blocos de sessenta minutos
(Porque razão terei pensado em minutos? Sessenta são uma hora. Será que é a necessidade de fazer parecer mais? Porque não em segundos então? Três mil e seiscentos. Sessenta minutos vezes sessenta segundos e o tempo seria já o de uma espera eterna.)
intermináveis na sua morosidade, não se desenvolveu a refinada calma e tranquilidade na espera. Aqui, pelo que experimentei até agora, também se espera horas, mas espera-se com um ar de aceitação triunfante e não derrotado desespero. Aqui quando se espera o tempo não é perdido mas ganho. Quando eles esperam põe a cara de quem vê os ponteiros a retroceder três mil e seiscentas vezes…
(E eis que a passadeira se começa a mexer e vejo que a minha mala é a segunda a sair das entranhas do aeroporto.)
(continua)
Texto publicado originalmente na Antologia BBdE
Domingo, Outubro 16, 2011
Gente
Leio notícias de genteQue ousa pensar diferente
E vêm-me à memória as aulas de história
Onde gente que pensa diferente
É perseguida
Torturada
Morta
Porque não ficam em casa como toda a gente
Leio o que pensa quem grita de dor
Gente que não sabe do que fala
Eu sei eu sofri
Aqueles apenas sabem estar ali
E penso para mim
Que pretende esta gente
Elogiam o chicote
Que lhes estala no lombo
Exigem que todos sintam
O desconforto que os faz chorar
E enquanto choram lamentam
Não há gente que o mal de mim afugente
Terça-feira, Outubro 11, 2011
O Atentado
Ribomba um trovão junto à estaçãoAssenta no chvo agora o pó da explosão
Pararam de rodar máquinas
Carruagens
Vagões
Reune-se agora a curiosa multidão
Ansiosa de sangue
Sedenta de ver
Os mártires da causa que não conhecem
Não sabem o manifesto ainda agora a ser escrito
Ao redor de uma mesa coberta de carne
De sumo
De pão
Ao redor de uma mesa se fez uma revolução
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Sexta-feira, Junho 10, 2011
O Cadáver Branco da Inocência
Abraçava-o com força e apenas a certeza de que não sentiria nada lhe dava algum conforto. Lá em baixo o gélido rio batia contra os pilares da ponte. Tudo tinha de ser rápido, se vacilasse tiravam-lho, internavam-na e ele...
Tinha sido uma alegria a notícia, mas o nascimento dera origem ao desapontamento. Não havia reacções, só respondia ao toque. Não adiantava falar, mas ela precisava de lhe dizer quanto gostava dele; não olhava para ela, só para o infinito, mas ela não conseguia tirar os olhos dele. Não adiantava falar com ele, mas ficava acordada para ouvir um gemido, um grito, um som. Aos poucos a vida deixou de ser a dela. Tinha de ser os olhos que não viam, os ouvidos que não ouviam e a voz que não ia desenvolver. Desde cedo que se inteirou disso. Dizia a si mesma que o filho nunca veria a maldade no mundo, nunca saberia como o olhavam, nunca se sentiria sozinho, porque nunca teria ninguém mais que ela, um toque, uma sombra, uma aura e aí percebia que ao primeiro toque, à segunda sombra, ele não as saberia distinguir.
O pai não viu as coisas assim. Durou algum tempo antes de chegar a casa e achar que seria melhor esquecer a criança. Ela não queria ouvir nada disso! Era um pedaço dela, foram meses a sentir o coração, os braços, as pernas, a comer por ele, a excretar por ele, e seguiam-se mais uns anos largos a ajudá-lo.
O pai hoje chegou bêbado a casa. Não tão bêbado como costumava desde que foi despedido. Por aparecer bêbado no escritório. Não tão bêbado que não soubesse porque bebia e, estando ela a descansar, decidiu recuperar a vida, o emprego e a sobriedade.
Quando ela acordou, não havia mais reacção ao toque, os olhos não viam mais o infinito, mas continuavam azuis celestes e não havia nenhum som, só uma almofada e um bêbado deitado no chão. Não conseguiu chorar, não conseguiu reagir. Não logo! Aguardou uns intantes e olhou para dentro de si. Estava vazia. Não fazia sentido seguir. Pegou no filho, arranjou-o como se fosse um desses passeios que davam em tardes soalheiras.
Via uma sirene na faixa de sentido contrário. Não mandariam uma ambulância. Agarrou o filho com mais força e atirou-se.
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Segunda-feira, Maio 23, 2011
O Cruzeiro (parte 3)
O mar bate ritmicamente no cais e sinto-me uma criança a ser embalada. Olho em redor o porto e vejo os turistas descontraídos, a aproveitar os últimos raios de sol de um dia prolongado. Para muitos não o será certamente, mas o longo Inverno é mais fácil de encarar se esquecer dias mais soalheiros. É fácil passar despercebido na nossa própria terra, mas o mesmo não acontece quando se é alto e moreno e se marca um encontro num porto turístico da Noruega. Estranho, mas é verdade, que alguém tão alto e moreno se destaque neste mar de gente.
"Odin não está satisfeito." diz-me ele enquanto se senta. Já sentado levanta o meu copo e aponta para ele, olhando a empregada. "Nada satisfeito." acrescenta.
"Odin nunca está satisfeito, mas era bom que percebesse que por vezes as coisas não são como planeamos." digo calmamente. Penso em beber um gole de cerveja, mas ele olha-me intensamente e percebo que aquela é uma competição que não posso perder. "Surgiram contratempos, memórias do passado. Berlim." A última palavra, dita assim, seca, sem oração, uma palavra só, daquelas que comportam, em si, todo um conto, faz com que se lhe arregalem os olhos.
"Ainda Berlim?"
"Ainda Berlim."
Uma pausa prolongada. Aproveitamos ambos para aproveitar o ar fresco que vem do fiorde e perdemo-nos por instantes a olhar o reboliço do porto de turistas.
O camarote de Malvindo estava abafado e decidimos procurar o náufrago para lhe fazer umas perguntas. Marlene é uma inconveniência e tenho de lidar com ela no Funchal. A maneira airosa seria sair com as malas e não voltar, mas o mais certo é que ela estranhasse e ainda punha a ilha em alvoroço, o que significa mais atenção. Definitivamente, uma inconveniência e daquelas que têm de ser geridas com luvas.
O náufrago também é uma inconveniência. A julgar pelo que disse o Malvindo é preciso muito cuidado. O facto de a maior parte dos passageiros se preparar para um original cricket ao luar tem de estar relacionado com o desaparecimento da figura, porque não pode ser coincidência o barco ter uma avaria e aquele fulano estar a bordo. Quer dizer... O desaparecimento pode não ser mais que um simples não-aparecimento!
"Assim não vamos a lado nenhum!" resmunga Malvindo pouco depois de começarmos e estranhamente concordo com ele.
"Tens razão. Volta para a tua cabine e prepara uma mala. O que quer que seja comprometedor e duas mudas de roupa. Eu vou fazer o mesmo e tratar de arranjar maneira de sairmos daqui. Vem ter à minha cabine daqui a..." uma pausa para olhar para o relógio e calcular quanto tempo para ir fazer a mesma coisa, encontrar um bote resguardado e voltar à cabine "quarenta minutos." Pelo ar, desconfia de mim. Claro! Um homem não sobrevive neste ramo a confiar em cada bom samaritano que nos salta ao caminho. "Trabalhei durante uns tempos em navios de cruzeiro e se há coisa que sei é que não se tiram os passageiros da cama à meia-noite por causa de avarias, a menos que o barco esteja a ir ao fundo." ainda nada " Pára e pensa um bocado: barco parado, passageiros todos concentrados... Não parece um bom argumento para uma caça ao homem? Se for, eu quero estar do lado dos caçadores, não dos caçados." Ainda hesitou uns segundos antes de, sem qualquer sinal, começar a andar em direcção ao seu quarto.
Estava já a voltar à minha cabina quando um vulto dobra a esquina do meu corredor. Pensei, pela figura, que pudesse ser Marlene e decidi segui-la. Face ao aconchego das armas com o silenciador à cintura, não consegui melhor do que ver a figura a dobrar um outro corredor. Num passo apressado, decidi chamá-la enquanto dobro a segunda esquina. A figura parou, virou-se e vi que afinal havia perseguido a figura de Fernanda, a animadora de bordo e que deveria estar a orientar os passageiros no seu original cricket nocturno.
"Os passageiros..." cortei-lhe a palavra ainda antes que ela pudesse chegar ao verbo.
"Você sabe tão bem como eu, ou melhor, que não há avaria nenhuma! Quer-me contar o que se passa ou procuro o capitão?" a julgar pela expressão facial, só a menção ao capitão virou a conversa para o meu lado.
"O capitão não está disponível de momento." disse com voz tremida.
"O imediato então..." acrescentei, tentando perceber algo da disponibilidade e virando costas como quem vai embora. Felizmente não precisei de me ir mesmo embora, embora se o fizesse talvez me tivesse limitado a dobrar a esquina.
"Espere!" disse enquanto me agarrava um braço. "O capitão está trancado no seu quarto e não responde. O capitão Picardo não costuma fazer isto, costuma passar as primeiras noites na ponte e é homem de sono ligeiro. Algo se passa! Pode-me ajudar?"
Acedi mais para poder chegar ao capitão do que pela voz entaramelada. Chegado à cabine do capitão ela bateu duas vezes à porta sem resposta. Na ausência de resposta, e deduzindo que não seriam as primeiras tentativas, dei violentamente com uma das solas na fechadura. A porta mal estremeceu, ao contrário da minha perna! "Blindada?" perguntei a Fernanda. "Não. Em caso de necessidade o capitão fica com a tripulação na ponte." Pois, em caso de necessidade todos saem dos quartos a correr e portanto as portas abrem para fora. Como pude ser tão parvo? Olho em redor e vejo que o extintor mais próximo se encontra a cerca de 50 metros, o que é estranho quando os procedimentos de segurança mencionam 30. "Pode-me ir buscar aquele extintor?" Ela vira costas e eu rapidamente tiro uma das armas, dou três disparos certeiros onde penso estarem as dobradiças e volto a guardar a arma. Ao fundo do corredor ela acaba de remover o extintor da parede e parece-me que não se apercebeu.
Uma vez dentro da cabine do capitão, Fernanda correu para o quarto enquanto eu me preocupava mais com um fax com o timbre da Interpol.
"Não!" gritou ela no quarto e pensei eu ao ver o fax com o currículo do náufrago. Desliguei-me daquele momento e transportei-me para uma casa a arder em Berlim, dois prisioneiros na cave e uma pequena fortuna em armas, prestes a irem pelos ares e a chamar muita atenção para uma operação discreta...
Cambaleei para o quarto. A tenente era agora uma carpideira cobre o corpo pálido do capitão.
"O náfrago?" perguntei, sem convicção e acabei por ficar sem resposta, ocupada que estava. Voltei a perguntar. Voltou a não responder. Levantou o olhar. Vermelhos de dor e encarnados de raiva, assim estavam os seus olhos, como se vermelho e encarnado fossem duas cores diferentes, a mesma manifestação de dois sentimentos distintos.
"O capitão não vai acordar, está demasiado pálido." disse-lhe com aquilo que mais tarde percebi ser uma frieza que só se adquire passando muito tempo com cadáveres. Demasiado tempo, na opinião de alguns. "Nós estamos vivos, mas a julgar por isto" passo-lhe o currículo para a mão "não sei por quanto tempo. Volto a perguntar: onde está o náufrago?" Enquanto ela lia o fax eu perguntava-me como podia ter sido tão parvo. Malvindo tinha-o reconhecido mesmo sem a barba e com o bronze e a fuligem. E estaria o cabelo pintado?
"Isto é terrível! O Paul desconfiava de algo, mas isto vai para lá do imaginável." e continuou a contar-me o que Paul imaginara. O que Paul, ela e mais um grupinho engraçado imaginaram!
"Fernanda, " interrompi " ainda não me disse onde posso encontrar o náufrago!"
"Mas você quer enfrentar um louco? Tem de ser..." a frase ficou em suspenso porque entretanto eu tirara as armas. Ainda ameaçou gritar mas o som não saiu.
"Isso! Não vale a pena estarmos a chamar a atenção." respiro fundo "Não vale a pena fazer de conta que sou dos tipos bons, mas se quiser ver o mundo a preto e branco, basta-lhe saber que estou consigo, enquanto estiver comigo. Há no mundo pessoas como eu, más por necessidade, e outras más por natureza. O nosso amigo Salvador está na segunda categoria. Eu estava de férias, mas acontece que o nosso amigo tem muita gente má à procura dele. É o chamado mau entre os maus." o olhar dela não era agora tão esbugalhado, mas ainda parecia bloqueado no cano da arma. Ainda! Inconscientemente apontara-lhe uma das armas...
A explicação ainda demorou um pouco mais, mas finalmente acedeu a ajudar-me. Quando cheguei à minha cabina já o Malvindo lá estava, com ar de libelinha perdida. Quando nos viu esbracejou. Quando os apresentei bufou. Quando contei o que aconteceu passou-se, mas o pior tinha sido mesmo o apresentá-los, o ela saber.
"E o que se faz com ela depois?" chegou mesmo a perguntar, enquanto eu tomava a dianteira para o bote onde guardara a minha espingarda e a roupa.
"O que se faz é deixá-la para poder voltar à vidinha dela. Estou de férias e não tenho ninguém marcado."
"Mas e o que ela sabe? Quem sabe tanto não pode andar por aí à solta!"
"Isso não é da minha responsabilidade. Vai connosco na balsa e depois logo se vê, mas se não houver espaço para ela, você fica já aqui!" Se não fosse o que ele disse a seguir, com um sorriso de escárnio, penso que era capaz de lhe ter apontado a arma.
"Balsa? Meu menino, tens menos de uma hora para fugires ao heli! De balsa nem chegas a ver as luzes do Funchal. Aprende com os mais velhos e ouve-me." e, esquecendo Fernanda, prosseguiu contando o plano para fugirmos daquele barco.
Atirei a cabeça para trás e senti o sal do fiorde a bater-me no rosto.
"No heli da polícia?" perguntava-me estupefacto "No heli sem matar ninguém?"
"Sim. Eu próprio quando ouvi o plano não queria acreditar, mas funcionou lindamente."
"Onde o deixaram?"
"Na Madeira. Aterrámos lá num pico, pegámos fogo àquilo e descemos à boleia para o Funchal. Já estava tudo apalavrado com o contacto e foi só tratar das formalidades."
"E a gaja?"
"Ela e o Malvindo pintaram um quadro de rapto e voltaram para o barco. Da última vez que ouvi falar nela tinha-se despedido da companhia de navegação. Não sei se há relação, mas conta-se que para se chegar à Fada Madrinha agora tem de se falar com um tal de Duende de Saias, mas não confirmo." gargalhada!
"Espera, aí! O Duende trabalhava num paquete?" encolho os ombros e ponho um ar de falsa inocência. "E estão-se a dar bem?"
"Não mantive contacto. Das duas vezes que me cruzei com aquele fulano as coisas tomaram um rumo que só vejo em filmes, e dos maus!"
"E Berlim? Fechaste Berlim?"
"Berlim está fechado. Com um bocado de sorte fica com as culpas do rapto, do heli, do massacre a bordo. Acho que planeado não ficava mais limpinho."
"Mexe com muita gente..."
"Mais do que recomendável para ser bem feito."
"Mas... Assim do nada?"
"Se fosse um poeta ou um skald dizia-te, por palavras cantadas, que apareceu à minha frente e que reagi tão depressa que foi só atirar. Não foi tão poético, mas podemos passar essa história."
Quinta-feira, Março 10, 2011
Crise de meia idade
Todas as vezes que olho para o espelhoas linhas da minha face afundam-se
marcando a passagem da minha vida,
Do amanhecer ao anoitecer
De Janeiro a Dezembro
Do principio ao fim.
Passei a minha vida a aprender
de livros escritos por sábios ou loucos,
e quando quero mostrar que sei ensinar,
enredo-me na maldição geral
que é necessário perder para poder vencer.
Quero esquecer,
por um dia
por um ano.
Quero viver,
por mais um dia
por mais um ano.
Quero ser o louco que ensina,
a besta que destrói o mundo
ou o herói que salva a donzela.
Quero ser o sorriso nos lábios,
as lágrimas dos outros
ou o simples sonho de ser.
Quero esquecer,
por uma hora
por uma semana.
Quero viver,
por mais uma hora
por mais uma semana.
Quero quebrar as correntes do mundo,
deixar que as rugas escorram com a água,
partir o espelho que me mostra
que existo.
Quero ser...
Mas tenho que me despachar esta manhã para ser mais uma formiga no carreiro.
Quinta-feira, Janeiro 27, 2011
O Cruzeiro (pt. 2)
“Que significam?” perguntou-me Marlene quando me sentei na berma da cama. O sol de final de tarde, em tons de laranja carregado, apelando à torpeza dos sentidos, ilumina a cabine da ruiva. Em simultâneo com a pergunta sinto uma mão a passar-me nos ombros. Que significam dois corvos tatuados num norueguês? Pergunto-me, completando a pergunta dela. “São os corvos de Lisboa! Passo cá muitas férias e decidi levar uma recordação da cidade.” Minto-lhe, com um sorriso que grita falsidade.“Parvo… Que significam? Ou simplesmente gostas de corvos?” insiste. Hesita. “Bom, em várias culturas os corvos são vistos como uma ligação ao mundo dos mortos. Na mitologia nórdica, existem dois corvos em particular, Huginn e Muninn, que são uma forma de comunicar directamente com Odin, o líder dos deuses.”
“E tu precisas de comunicar com Odin?” pergunta, não sem evitar uma certa entoação de escárnio. Ontem mal conseguia articular duas palavras sem ficar mais vermelha que o sol que ilumina a cabina. Hoje dá-se ao luxo de gozar com o que não conhece. Pior! Eu deixo e rio-me com ela e gozo com coisas demasiado sérias e para as quais não a quero arrastar. Raios! Este tipo de preocupações são perigosas e já nem me refiro ao meu dia-a-dia, refiro-me a este cruzeiro em particular.
Ponho um ar o mais sério possível, levanto-me e enquanto visto os calções e a t-shirt digo-lhe que “Devia ir para o meu quarto arranjar-me. Se calhar é melhor jantares sem mim.” e saio do quarto. Não lhe dei tempo de me seguir, mas não estranho quando menos de um minuto depois ela me bate à porta do quarto. “Que foi aquilo?” pergunta entre o choque e a raiva. “Para saberes vais ter de pensar muito bem no que foi o nosso fim de tarde. Amanhã vou almoçar com um amigo no Funchal. Se o nosso fim de tarde foi só isso, um fim de tarde, não esperes por mim ao meio-dia no cais. Hoje tenho assuntos pessoais para tratar e se calhar não devia ter sido tão brusco contigo, mas amanhã falamos melhor. Pode ser?” Vejo ainda alguma indecisão e espero que tenha parecido estúpido o suficiente para ela não esperar por mim. Despeço-me e encosto a porta.
Debaixo da cama duas malas iguais. Numa delas uma etiqueta diz Gungnir, a lendária lança de Odin. Na outra, Huginn e Muninn, os corvos de Odin, que em algumas culturas representam uma ligação ao mundo dos mortos. Lembro-me da conversa de ontem com o Malvindo e abraço-as…
Um náufrago não é um acontecimento habitual, mesmo para quem passa a vida no mar, mas um náufrago que, sem articular palavra, cura a bebedeira de Ernesto Malvindo, a “Fada-Madrinha”, é um náufrago que até a mim me interessa. E deixa nervoso! Procuro segui-lo, mas a comoção chamou gente de todo o barco e Marlene interpela-me. Não consigo dizer que não àqueles caracóis ruivos e ficamos para mais uma bebida, ou duas, ou três... Finalmente acompanho-a à porta do quarto. Carrego-a até à porta, pelo braço, seria um termo mais correcto. Pelo caminho peço a uma das tripulantes que me acompanhe “para a deitar”. Após alguma relutância fingida lá nos acompanha.
Perto do convés da tripulação cruzamo-nos com a flor-de-estufa. Parece que já entregou o seu peixinho a quem de direito e anda agora à pesca doutro atum. O olhar desiludido com que me olha diz-me que podia muito bem ter sido eu. Deixo a Marlene no quarto com a Joana, uma simpática tripulante que tem a nobre tarefa de fazer as camas. Quando ela sai do quarto pergunto-lhe se há camas muito desfeitas e ela responde-me que a dela “está sempre pronta para ser desfeita” porque “sempre serve de treino fazê-la”. O sorriso perverso que me deita fala por ela e convido-a para irmos até à amurada apanhar ar. Ela esquiva-se com um “é demasiado fresco. Sei de um sítio onde podemos apanhar ar mais quente.” Sigo a deixa e vou atrás dela.
O quarto dela fica na outra ponta do barco. No regresso ao meu barco aproveito mesmo o ar fresco da amurada. No salão o piano electrónico foi esquecido e continua a tocar. Dirijo-me lá dentro e vejo que na mesa de honra alguém se esqueceu de uma caixa de charutos. Cohiba. Reformulo, alguém com bom gosto esqueceu-se de um caixa de charutos. Tiro quatro, os que cabem no bolso da camisa e os fósforos que ali estão ao lado e continuo para o meu quarto. Na amurada, ainda junto ao bar uma voz rouca e familiar. “Fodidos, estamos todos fodidos”. O barman… Ou melhor outro barman “Tem de se ir embora. Qual o seu quarto?”
“Você não percebe? Estamos todos fodidos!” afinal parece que a bebedeira não está totalmente curada. Dirijo-me ao bar e digo ao barman que o levo para o quarto. Encosto-o à amurada e estendo-lhe um charuto.
“Cohiba! Sabes o que é bom miúdo!” Diz-me com o ar embevecido dos bêbados. Olha para mim um bocado à luz do terceiro fósforo. “Eu não te conheço de algum lado?” Respondo-lhe com o nome da cidade. “Berlim” Ele fica um bocado ocupado com o seu charuto até que me pergunta “Asgard?". Respondo afirmativamente. “Um caso complicado. Muito sujo. Mal feito. Não que a culpa fosse vossa, simplesmente não deu para melhor. Fiquei um ano fora da Alemanha e sabe Deus a quantidade de barrisque lá se beberam nesse ano…” Agora era um bêbado a recordar o passado, algo que eu queria evitar. Acima de nós havia pelo menos mais dois conveses, antes de se chegar à ponte. A última coisa que eu queria era alguém a ouvir conversas camufladas.
“Grande noite, esta!” soltei.
“Só te digo uma coisa: estamos todos fo-di-dos!”
“Então porquê?”
Quando chego ao meu quarto, depois de deixar o Malvindo no quarto dele, tiro duas malas debaixo da cama. Verifico que o conteúdo está completo e amaldiçoo a hora em que não trouxe uma ligação satélite segura.
Quinta-feira, Janeiro 20, 2011
Segunda-feira, Dezembro 06, 2010
Pairam sobre a tua cabeça
Pedaço de inferno na Terra
Mil e um corpos rodeiam-te
De braços estendidos para te tocarem
Mil e um com vontade de te levar
Erguido bem acima deles
Passando a mensagem que os vais tu
Levar erguer salvar
Sombra fingida de luz negra
Brilho apagado
Carta sem letras
Banquete de fome
Idolo de barro
Mil e uma palavras brotam da tua boca
Cápsulas vazias que se propagam
Pelas vazias orelhas da multidão
Que guias
Que te arrasta
Quando nos levas
Para esse maravilhoso Inferno
Que te mandam
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Domingo, Novembro 28, 2010
Em alturas de dor, o que nos vai na alma
é medido pela cor da nossa face;
e não existe dor como a do adeus.
Até a neve não poderia ser mais melancólica;
farrapos isolados que caem
congelando as lágrimas que saem
e quando sólidas tocam nos nossos ombros
é o frio que nos obriga a sentir.
E o vento gelado que geme;
sombras que crescem a nossos pés
mergulhando o mundo na escuridão
e obrigando-me a descerrar meu punho.
E sabendo que a minha face
não poderia estar mais pálida.
Sábado, Setembro 04, 2010
Um Charuto
Cheguei a casa. Se não fosse pela varanda despida não saberia qual minha no meio de todas estas casas iguais. Acho que por isso é que, apesar de aqui morar há três anos, nunca decorei a casa, nem a varanda. Para manter um traço de originalidade e, acima de tudo, para saber qual a minha casa. Não porque ela não tenha o número da porta, mas antes, de que outra forma ela seria reconhecida. Como poderia apontar ao longe e dizer “é a minha casa, estás a ver”, ou na net, num serviço de mapas com imagem satélite, apontar com clareza “é esta, não há que enganar”?Tiro o casaco e atiro-o para cima da mesa da cozinha. Quando aterra expõe um dos charutos que o Miguel levou hoje para o almoço. No caso o charuto que ele me deu e que não me apetecia fumar. Que estupidez, charutos porque vai ser pai! E depois de almoço sem podermos beber uns copos… Ficava a tarde toda com o sabor do tabaco na boca e…
Estou em minha casa. Na garrafeira há uma garrafa de Jack Daniels, porque não aproveito? Já sei, por causa do cheiro pestilento com que a casa fica depois! Mas posso sempre abrir uma janela. Bom, seja então!
Que merda, a porcaria do fumo passa a vida a ir para dentro de casa. Mas não vou para a varanda de boxers, porra! Oh! Que se lixe, também a esta hora não está ninguém na rua.
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Sexta-feira, Agosto 13, 2010
O Funeral
O dia estava cinzento. Mais do que as nuvens no céu, a disposição dos presentes contribuía para tal. Nenhum deles estava propriamente surpreendido, mas o longo definhar em nada ajudou a apaziguar a dor que cada um sentia naquele momento.Havia começado uns anos largos antes. No velório alguém lembrara como a transportavam ao colo, como a acarinhavam, a mostravam a desconhecidos. Como em todas as famílias a educação dos filhos também neles provocou discussões, algumas em tom bem amargo, outras bem regadas, mas indiferente a todas estas discussões a menina ia-se fazendo rapariga. Até que um dia sentiu necessidade de se expandir.
Andou um bocado intermitente. Experimentou várias roupas, vários estilos. Nunca se deu por satisfeita, chamou a atenção de gentes várias e não se apercebeu que crescia para lá do controlo da família. Não se apercebia que era ela própria o cimento que juntava a família, mas qual o adolescente que tem essa noção? Como todos os adolescentes fez-se adulta e tentou então aproximar-se da família. Ainda os juntou mas aos poucos sentia a vida a fugir-lhe. Foi uma daquelas doenças que surgem devagarinho, os sintomas tão camuflados que nem nos apercebemos que são sinal de algo grave. As reuniões de família traziam sempre novos elementos, mas ela saía de lá esgotada. Cheia de vitalidade, mas esgotada e isso perturbava-a. Nos dias seguintes queria fazer coisas, mas não encontrava eco.
Foi então que percebeu que os anos em que crescia a família tornava-se várias famílias. Não era mais o garante de união de várias pessoas, antes motivo para as várias famílias se verem de quando em quando e recordarem a sua pequena menina.
Com o afastamento da família ela descobriu o que era a solidão. Não de uma vez, aos poucos, à medida que o bicho lhe comia as entranhas e as pessoas se afastavam, não de nojo, desinteressadas, sem vontade de ajudar uma doente que cambaleava, mas não parecia doente. Havia dias em que acordava e o sol parecia brilhar com mais intensidade e nesses dias punha um sorriso bonito, num desses dias ousou até fumar, algo que não fazia desde... Não se lembrava!
Na verdade não acabou o cigarro. A meio sentiu-se melhor, muito melhor, e já só viu a sua vizinha de mãos na cabeça, quando estava de pé ao lado dela, a olhar o seu corpo caído no chão.
Mais uma vez tinha conseguido juntar a família. Sabia que era a última vez. Sabia-o e percebia-o agora finalmente. Tudo o que começa apenas tem por certo o fim. Queria aproveitar aqueles instantes ali no meio deles, ouvir as memórias pela última vez, antes de se desfazer em cinzas e se espalhar pelos cantos da memória colectiva daqueles que um dias foram a sua família.
Quarta-feira, Junho 23, 2010
Um Charuto
No meu bairro as casas são todas iguais. Todas têm dois andares, as mesmas cores na fachada e o mesmo telhado alto. Debaixo deste telhado surge o primeiro traço de originalidade e individualidade. Escondida. Debaixo destes telhados altos estão em algumas casa quartos, noutras arrecadações e noutras, como na da minha amiga Anabela, houve quem montasse um salão de jogos.Não um salão de jogos na acepção de um local onde se paga para entrar e onde se gasta dinheiro. O que se passou foi que o pai dela queria um espaço para meter uma mesa de bilhar e uns computadores para jogar na net. Parece que umas máquinas todas artilhadas, mas como posso saber, estão todos bloqueados! Agora a mesa de bilhar não e ao final da tarde não é raro irmos para lá jogar.
Esta tarde estava-lhe a dar nas horas e por muitos jogos que fizéssemos, em menos de um quarto de hora já tinham acabado, com o resultado a ser invariavelmente uma vitória minha. Compreensivelmente a vontade de jogar não era muita e a Anabela decidiu que queria antes ir ver montras ao centro. Quando estávamos a sair do pequeno jardim
(talvez canteiro seja o termo mais correcto, mas a mãe dela insiste tanto em chamar-lhe jardim, que toda a gente acaba por alinhar com ela; quem disse que uma mentira repetida não se torna verdade?)
reparámos numa situação estranha: um homem, de calções e t-shirt, estava na varanda a fumar.
(Esqueci-me de dizer que todo o bairro está organizado por pracetas, com a frente das casas orientada para o centro e um acesso a uma rua principal no topo norte da rua. Todas as casas têm um acesso à porta ladeado por canteiros, uma garagem mesmo ao lado da porta e, a cobrir ambas as ombreiras, um varandim com não mais do que um metro de largura, mas onde alguns moradores ainda conseguiam colocar alguma verdura. A decoração das varandas é o segundo, e penúltimo, traço de individualidade.)
O estranho na situação é o haver alguém a olhar o quadrado morto em que se torna a praceta a meio da tarde. Aquela cena pareceu-me tão fora do sítio que o que me tomou não foi um sentimento de “é um homem a fumar um charuto”. Não! Naquele momento era mais que isso, era um estranho com um comportamento estranho! Não se pense que o estranho era o fumar, como já referi, o estranho era alguém olhar para a praceta enquanto o fazia, porque era isso mesmo que ele fazia, estava ali, de pé, encostado à ombreira da porta da varanda, um charuto na mão e o olhar vazio. Ou seria um olhar cheio, a tentar captar toda a praceta? Mas que havia na praceta para captar?
“Estás bem?” perguntou-me a Anabela, e só então percebi que estava parada a olhar para a varanda. “Não é nada de tão especial que pares para aí a olhar. Até parece ser já um bocado velho demais para ti!”
“Não é isso! Não achas esquisito o que ele está a fazer?” perguntei-lhe. A resposta veio na forma de uma pergunta e de uma risada e senti-me um bocado aparvalhada por ser confrontada com a naturalidade de acto de se fumar um charuto. “Mas não achas estranho alguém estar a fumá-lo sozinho a olhar para a praceta a meio da tarde? Que é que há aqui para ver?”
“Olha… Se estás tão cheia de dúvidas porque não vais lá perguntar?”
(continua)
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Quinta-feira, Abril 29, 2010
Desvanecer e ressurgir... Um breve conto.
Era sombria e fria a praça Central...Vagueavam algumas pessoas por ela naquele fim de tarde. A norte, a velhinha igreja centenária fazia ecoar seu sino em cada quarto de hora, acelerando ou retardando o passo do transeunte. Em frente, olhando para si, a fachada do sólido edifício Setecentista...
Sólido? Talvez nem tanto... Corroído pois pelas agruras de um tempo que passa, de uma sociedade corrosiva, tanto como o tempo que discorre por um calendário inexorável.
1705... Novembro, em dia de sorte da Graça de Nosso Senhor... Última pedra colocada. Majestosa inauguração. Edifício histórico de gente nobre. Sólido de pedra e de valores... Feliz nos verdes anos de sua juventude. Frondoso e imponente em frente à recente igreja plantada à sua frente. Por lá passara el-Rei! Por lá passará mais vezes... Por lá o tempo também avança.
No presente, edifícios modernos se ergueram. Escritórios decadentes... à esquerda e à direita. Firmas de menos escrupulosos advogados. Empresas financeiras de métodos poucos recomendáveis. Nas suas fachadas esplanadas. Junto a belas moças de sedutoras formas e mini-saias reduzidas (caloroso era aquele sol, de um Abril anormal...), se acumulavam mil homens de pastas nas mãos. Políticos corruptos, gente do vil metal (Seriam todos... Parecia tal...). Gente que se arrastava penosamente por cada pedra da calçada, numa tarde banal... Agitando papéis... Ou apenas o cigarro na mão direita...
...Chupistas!!
Defronte resistia ele! O edifício degradado e desgastado... Sangrando de morte ao final da tarde... Arrastando suas fundições na dolorosa agonia dos últimos dias! Sobre ele a sentença capital. Da luxúria... Do futuro decadente. Entre suas paredes prendia o monstro do alumínio, dos vidros, do papel timbrado... do dinheiro sujo... Dos tribunais, políticas, "futebois" e rebaldaria... Negro futuro que se adivinhava mais que certo...
O pilar da sobriedade e dos valores oscilava... sofria...
21h... A rua deserta. A primeira lágrima escorreu entre o primeiro e o segundo andar... Desfazendo-se amarguradamente nas pedras da calçada. Ao longo da noite se fez pranto... Sob o troar das sirenes e de mil vozes gritantes. A voz mais alta ergue-se à queda do primeiro pilar!
"Não sois vós que me ireis derrubar... Antes cair sob o peso de mim próprio que às mãos sujas dos vil corruptos"...
E envolto em grades de metal e fitas plásticas amarelas adormeceu para sempre já o sol ia alto...
Colheu a singela flor amarela e ofereceu à menina ao seu lado...
Na praça central defronte da velha igreja existia um belo jardim florido, onde crianças corriam e velhinhos aproveitavam os últimos raios de sol daquela tarde. Ao lado alguns edifícios velhos e abandonados, davam já os primeiros sinais de agonia (e que interessava isso...)
Imponente o jardim era ponto de encontro de gerações...
E aquela flor terna era primórdio de um amor terno e duradouro... O primeiro amor... Aquele que é inocente e original.


