quarta-feira, Julho 09, 2014

Lisboa (Por entre as sombras e o lixo)

Lisboa… Cais do Sodré! A noite cai vagarosamente aqui. Olho em redor e vejo a multidão, caras fugidias e fechadas depois de um dia de trabalho e os olhos abertos a custo, que clamam por descanso. Aqui e ali uma comadre e outra trocam a rotineira cusquice. Ao redor a escuridão do calcário sujo dá ainda um tom ainda mais sombrio a toda a sujidão da zona portuária. Terá sido a cheia do rio ou a vazão do homem quem encheu as esquinas de entulho? Lá ao fundo, junto à rua do Alecrim, uns tímidos néons anunciam bares de especialidade duvidosa, onde se encontram já certamente a Alice e a Coxa… O Quim Navalhas também ciranda já as suas meninas, não venha o Ruca Batuta tentar levá-las para Monsanto…

Encosto-me a uma parede, meio caminho entre o barco e o comboio, enquanto vejo os movimentos na praça. Com mestria enrolo um charro que ponho logo à boca. Já combinei tudo com o Miguel e só nos falta droga suficiente para adormecer um elefante. Levo a mão ao bolso. Ainda lá tenho o monte de notas! Entro na praça e dirijo-me à fila de táxis que aguardam junto à Hora Legal. Dirijo-me ao primeiro e entro.
“Casal Ventoso, se faz favor!” digo ao taxista, com o charro dependurado no canto da boca. É hoje que parto deste buraco sem. Eu e o Miguel!

Lisboa… Uma nuvem de fumos e salpicos de rio, escurecida pela multidão em movimento frenético, para trás e para diante, sem rumo certo e sem destino, embrutecida pela rotina do dia-a-dia. Hoje cansámo-nos e decidimos não deixar que a rotina se apoderasse de nós e, num acto de loucura, decidimos que algum dos barcos que descarregam na Rocha Conde de Óbidos irá para um lugar melhor que este.

“Aqui dentro não há dessas porcarias.” Responde à bruta o taxista. É um desses típicos taxistas de Lisboa: camisa às riscas, com os dois botões de cima abertos e os cabelos do peito cuidadosamente penteados. A unha do dedo mindinho muito longa e cuidada, serve essencialmente para limpar os ouvidos, com que escuta minuciosamente as conversas da clientela. “Está apagado, não se preocupe.” Respondo-lhe, enquanto me sento.

“Para o Casal não o levo. O melhor que lhe faço é deixá-lo em Alcântara-Terra.” Responde-me, ainda visivelmente contrariado. Para ir para onde ele me deixava, o 15 tinha servido e ainda era mais barato “e se me deixar na avenida” pergunto, “quer ir até Alcantâra eu levo-o, senão pode sair com as suas porcarias”. Não me lembro do 15. “Pode na ponta dos armazéns então?”

Assim que ele me larga dirijo-me a uma cabine telefónica. Que fica longe, do outro lado dos armazéns. Não tenho muitos trocos, mas preciso de confirmar com o Miguel.

“Estou” atende-me ele.

“Já estou em Alcântara. Vens cá ter ou vou andando sem ti?”

“Espera por mim no Pão de Açúcar.”

Dirijo-me ao supermercado e espero por ele, no bolso esquerdo um saco com os restos de cavalo, e no esquerdo haxe para uma semana. Enrolo um charro, coloco uma linha no meio, não sei se alguém já se lembrou desta merda, acendo-o e começo a sorver vagarosamente. Apercebo-me então que a escuridão vai caindo com todo o seu peso. Fica escuro, mas as luzes de um amarelo pálido disfarçam isso, impelindo-nos a todos para que não paremos. Pobre artifício dos tempos modernos! Olho bem à minha volta. Mesmo os que entram para o super não se apercebem, mas todos como que cantam um cântico triste, sonolento, uma música de embalar, que nos entorpece os membros, nos deixa moles, letárgicos, imóveis…

Reparo que o meu charro está quase no fim. Reparo que olham para mim de lado e se afastam. Sinto falta de calor humano e sento-me, encostado à parede, o Miguel Pedro não terá dificuldades em me encontrar se ficar aqui assim. Enquanto espero fascino-me, por um qualquer desígnio misterioso, com o monte de lixo que se amontoa junto à porta do armazém do super. Vejo uma caixa a remexer-se e de baixo sai uma enorme ratazana, que me olha por uns instantes e segue o seu caminho para dentro do armazém.

Acordo com o frio da noite e as mãos do Miguel a baterem-me no rosto. Deixei-me adormecer e agora apenas vultos passam à minha frente, um esporádico carro a acelerar e os ratos e ratazanas a rastejar. Olho para as horas. Não passou muito tempo, mas agora o céu é de um escuro como carvão, brilhando apenas um pouco quando passa um carro com os seus faróis, e outro, e logo outro, sucedendo-se até ao infinito.
“Cabrão de merda” diz o Miguel “tinhas de te pôr a fumar sem mim!” e dá-me mais um valente estalo para eu aprender. Tento pôr-me de pé e não consigo. O Miguel dá-me um bico de lado, pega-me pelos ombros e põe-me de pé. “Nem penses que vou sozinho, seu filho da puta!” Pomo-nos a caminho do Casal. Com o ar frio a bater-me no rosto e um cheiro a escape seguimos Avenida de Ceuta acima, merecendo olhares reprovadores dos transeuntes. Não me lembro muito bem do caminho até ao Casal. Nem me lembro muito bem do que se passou lá, só me lembro do Miguel a gritar “Foge que o filho da puta vai-me…” um tiro cortou-lhe a palavra e desatei a correr. Não queria saber o que estava ali, já fazia um esforço suficiente para não cair enquanto corria Casal abaixo por entre sombras estranhas e montes de lixo acumulado e os tropeções que dava em mim mesmo e no calcetado irregular.


Só quando cheguei a Alcântara-Terra é que me apercebi que o Miguel tinha o dinheiro todo. Na altura pensei “Cabrão de merda.”, mas o que me saiu da boca foi um “Raios part’ó dealer”.” O meu pensamento era fugir. Se antes queria fugir, agora mais motivos tinha. O medo impelia-me e nem me lembrei que, no estado em que eu estava, se me quisessem já me tinham. Segui para a Rocha Conde de Óbidos. Estavam a descarregar um barco. Fiquei ali o que restava da noite toda a olhá-los. Quando, a meio da madrugada acabaram, aproveitei uma distracção e entrei à socapa no barco. Não queria ser um clandestino e dirigi-me ao capitão. Não foi difícil de convencê-lo a deixar-me seguir a bordo do barco. Não queria saber a minha história desde que eu trabalhasse bem. Perguntei-lhe para onde ia e disse-me que tinha negócios a tratar em Barcelona. Era longe, agradava-me!

quinta-feira, Junho 26, 2014

Morrer de amor


Estava deitado sobre as pedras da calçada. O céu vestia-se de véus de tons de violeta e safira e as primeiras estrelas despertavam, ainda tímidas e baças. Uma aqui… três mais adiante. “Quem diria que ainda há pouco chovia…”, pensou para consigo e não pode deixar de se admirar com a quantidade de ideias parvas que nos passam pela cabeça, quando nos encontramos em situações limite. Recordou-se que já não contemplava as estrelas há tanto tempo, que lhe parecia ter sido numa outra vida. 

A sua atenção concentrou-se no jorro que lhe percorria a face direita, desde a testa até ao pescoço. Um rio quente e pulsante que lhe enchia as narinas de um aroma a ferro e lhe percorria a pele como a caricia de uma amante inconstante, ora suave e doce, ora lancinante como a onda de dor que sentia vinda da ferida que tinha na testa. “Que dia estranho…nunca imaginei que um dia em Lisboa pudesse ser assim”, pensou para consigo. “Num só dia vivi e senti mais do que em todos os dias somados destes últimos 5 meses que estive em viagem…aliás, penso hoje vivi mais que em todos os outros dias…”. 

À medida que a dor se foi tornando cada vez mais intensa, começou a perder o controlo do fio dos pensamentos, delirando livremente pelo céu estrelado, sentindo o toque de Lúcia, os seus olhos nos seus, a promessa dos seus lábios que ficara por cumprir. Começou a confundir dor com prazer e entrou em êxtase enquanto o céu de Lisboa girava sem parar sobre os seus olhos. “Não há maior honra que a de morrer por amor!”, citou Florentino Ariza como se ele próprio tivesse encarnado o personagem. Segundos antes de perder a consciência, conseguiu ainda distinguir um vulto de homem que se debruçava sobre ele e ouviu-o dizer: “Não vais morrer de amor, Pedro...pelo menos hoje!”


Acordou incomodado pela luz do sol que lhe entrava pela janela. Abriu os olhos com um esforço sobre-humano. A sua cabeça estava vazia, à excepção da dor aguda que partia da testa e que se espalhava por todo o seu corpo. Olhou à volta e percebeu que estava numa enfermaria de um qualquer hospital. A sua atenção fixou-se nas paredes e no tecto, manchados, com grandes lascas de tinta penduradas como pétalas de flores de velório. As fileiras de candeeiros incandescentes, com aspecto decrépito e o chão de azulejos partidos em tudo contribuíam para aquele ambiente de desolação. Tentou levantar a cabeça para tentar perceber onde estava e reparou que não estava sozinho. Haviam outras camas, com outros homens de feições indistintas e de tal forma iguais ao ambiente da sala que quase se poderia dizer que ali tinham sido colocados propositadamente, para tornar o ambiente ainda mais fúnebre.
Pedro fez um esforço por se levantar, mas a dor tornou-se insuportável e não conseguiu conter um grito. Uma enfermeira que passava no corredor apressou-se a chegar à sua cama.

- Olá Dr. Pedro! Deixe-se estar sossegado que precisa de recuperar! – Disse-lhe num tom maternal, enquanto o empurrava de volta para a almofada.

- Onde estou? O que me aconteceu?

- Está seguro, não se preocupe. Estamos no Hospital de S. José. Se se portar bem, estará fora daqui amanhã à tarde, mas até lá nada de aventuras!

- Como cá cheguei? Não me consigo lembrar como cá vim ter…

- Pois…isso, nós também gostávamos de saber! Foi encontrado inconsciente, no chão, ao pé da porta das urgências por volta das 21 horas de ontem. A polícia esteve cá, mas não conseguiu averiguar grande coisa, porque assalto não foi! Não senhor, que ainda tinha os documentos e o dinheiro todos consigo! Tentámos avisar que aqui estava, mas não conseguimos localizar nenhum dos seus familiares. Tem alguém a quem quer que ligue?

Não havia, de facto, ninguém da família que quisesse contactar. Nos últimos anos, com o trabalho na consultora e a depressão cada vez mais incapacitante de Rita, Pedro tinha descoberto a desculpa ideal para se afastar da família. Não tinha tempo para ir a casa, o emprego era exigente… a namorada não estava em condições de receber visitas. No fundo, não suportava aquela dinâmica de conversas superficiais, de afectos vazios, de conversas nunca tidas. No dia do funeral decidira pôr termo à relação. Com um breve adeus, desligou o telemóvel, pegou na mota e fez-se à estrada, deixando o Pedro que existira até então, debaixo de terra, junto com o corpo de Rita. A última coisa que desejava era voltar a falar seja com quem fosse que tivesse pertencido a essa outra vida. “Não somos passado. Aquilo que somos é o espelho daquilo que seremos e não do que já vivemos”. 

-A Lúcia! Sim…Lúcia! - Queria falar-lhe. Queria pedir-lhe desculpa pela sua fraqueza. Queria beija-la finalmente. Queria beijá-la para toda a eternidade! 

E foi nesse instante que Pedro se apercebeu que Lúcia tinha partido tal como tinha chegado: sem aviso, sem contexto, sem contacto.

segunda-feira, Junho 02, 2014

O silêncio

Olho-te com toda a atenção de que disponho
E encontro, no teu lugar, o vazio da dimensão que já foste.
Não te encontro numa única parte do teu corpo,
Outras vezes tão explosivo e cheio de emoções.
Talvez tenhas ficado encalhado dentro de mim,
Nalguma profundeza inacessível em que já não te sinto.
Sermos parte um do outro será também o esquecimento
De tudo o que um dia fomos quando éramos dois?
Este estado de ausência dá-me uma falta de sentir.


Outras vezes feroz e agora tão calmo, o silêncio...

segunda-feira, Maio 12, 2014

Mais logo - Prosa em Grupo 1

"E que isto te sirva de lição" ouviu antes da voz lhe desferir um último murro e um impropério. Não tinha passado muito tempo desde que, perdido nos pensamentos do que fizera e não fizera com Lúcia, havia sido interpelado por um grupo, três, ou quatro, ou mais que o convidaram a dar um passeio. Não lhe apetecia. Não lhe parecia que fosse um passeio. Não era realmente um pedido.

Com o sangue a escorrer-lhe pela cara sem saber bem donde, foi deixado ali. Pensou na polícia, mas a dor interrompeu-lhe o pensamento. Pensou no careca do boné, e novamente a dor que o interrompeu. Parecia que lhe faltava alguma coisa, mas parecia ter tudo. Não haviam ângulos esquisitos, não havia nada que indicasse o que se tinha passado. Nada lhe dizia o porquê, só aquele "tem cuidado" seguido de soco, o "voltas a fazer isso" e um pontapé que não deixava ouvir o quê. Ficou ali, deitado, imóvel a ver o sol pôr-se no alto das paredes sem janelas de um beco, numa colina, enquanto pensava no porquê e tentava lembrar-se de todas as caras. Todas exepto a do careca do boné, essa não esqueceria tão cedo.

"Está tratado." Disse ao telefone Rudi. "Tens a certeza?" perguntou uma voz de mulher do outro lado. Irritou-se com a desconfiança. "Se eu te estou a dizer que está tratado, para quê a pergunta?" atirou, a voz a subir-lhe mais do que queria. Detestava levantar a voz para Lurdes, mas ela conseguia o que poucos conseguiam, tirá-lo do sério. "Só pergunto para ter a certeza. Vens cá ter mais logo?" e ele disse que sim. Já sabia que mesmo que dissesse que não, ao final da noite ia lá ter.

terça-feira, Abril 29, 2014

Mais perto

Quero escrever-te como és,
Completamente tu,
Mas as palavras são tão suaves.
Entre a beleza que me fizeste tocar
E o papel em que escrevo,
Criou-se uma distância abismal.
Ainda assim tento. Uma vez mais...
Assumo o risco de não te fazer justiça,
Tanto na descrição como na memória...
Para onde foi a minha expressão fluída,
Que não a sinto quando te articulo em frases?
Por onde anda a consciência do meu sentir?
Apenas me chegam palavras insuficientes,
curtas demais para o sabor que me tens.
Se te pudesse olhar novamente,
Se te pudesse encontrar na minha pele,
Se te pudesse tudo... E um pouco mais.

Anda para onde te veja, mais perto, mais perto.

segunda-feira, Abril 28, 2014

Idade do armário

Lúcia, ainda enrubescida e ofegante das memórias que há muito pouco tempo brincavam nos seus pensamentos, ficou instantaneamente pálida e … como se todo o seu sangue se tivesse congelado em simultâneo!

- Entra….. herg! Bom dia! – disse, enquanto concentrava todas as suas energias em manter um aspecto sereno – Entra, vou fazer um chá!

Aurora notou um certo desconforto na irmã, mas não conseguiu identificar a sua origem.

- Tens companhia? – atirou à queima roupa, afinal eram as duas adultas, e apesar de não ter crescido juntas, da diferença de idades, e de certa forma não terem a cumplicidade que muitas irmãs partilham, eram ainda assim bastante próximas, e poder-se-ia dizer que não guardavam segredos uma da outra.

- Não… - respondeu Lúcia com a voz, ainda, um pouco intermitente – Ainda estava a dormir. Quer dizer, ainda estava na sorna na cama, porque já tinha acordado há um bom bocado… Mas não me apetecia levantar! Deve ser da mudança de hora! – Lúcia sorriu para a irmã e tentou parecer um pouco mais desperta – Senta-te enquanto faço o chá! Earl Gray, ou preferes outra coisa?

- Desculpa – respondeu a irmã! – Achei que já estavas acordada, acordas sempre cedo! Por mim Earl Gray é perfeito, bem sabes…

Lúcia encheu uma cafeteira de água e ligou o gás do fogão, tirou um pouco de pão do dia anterior do armário e cortou em fatias para torrar… Mas enquanto cortava as fatias de pão o seu pensamento voava para muito longe daquela cozinha! Mas para uma cozinha também, mais precisamente para o dia em que a avó Lúcia a foi buscar à terra para vir morar para Lisboa… Mais precisamente o dia em que nasceu o Marco! Lúcia tinha seis anos, e a sua mãe ficara muda de um momento para o outro, não podia continuar a viver naquela casa! Quer dizer, poder podia, mas não era certamente o ambiente indicado para educar uma criança, e sendo assim a avó Lúcia foi recolher a neta com o mesmo nome e criou-a como se fosse sua filha! Lúcia só percebeu o porquê da mudez da mãe na noite em que morreu a sua avó… Lembra-se como se tivesse acontecido na noite passada, alias o normal é acordar a pensar que acontecera ainda na noite passada e a relembrar palavra por palavra, suspiro a suspiro as últimas confissões da avó… Lúcia voltou um pouco mais tarde da escola nesse dia, porque tinha ficado na malandrice com o João, que era o seu namorado na altura. Chegou a casa e encontrou a avó na cama, o que não era nada habitual! Aliás, nunca tinha acontecido! Ao ver aquilo, Lúcia, a neta, uma jovem de 17 anos, com algo mais que hormonas a circular no seu sangue ficou claramente transtornada, e talvez até um pouco paranóica. A avó descansou-a a dizer que estava tudo bem, que era certamente culpa da tempestade que se ia fazer sentir nessa noite… Lúcia fez o jantar, e sentou-se ao pé da cama da avó, ainda sem saber, que estavam a partilhar a última refeição juntas. Naquela noite a avó contou-lhe tudo. Tudo o que aconteceu, contou-lhe porque razão a sua mãe ficara muda, e porque é que Lúcia teve de vir morar para Lisboa… Lúcia lembra-se de cada palavra… E do último suspiro da avó, com ele apagaram-se as luzes, não só daquela mulher de mãos ásperas e coração mole, mas de toda a cidade e de mais de metade do país… Lúcia não chorou, mas ficou triste e as nuvens escuras que invadiram o seu olhar nunca desapareceram completamente, e se olharmos com atenção ainda podemos ver bem lá no fundo, depois do olhar luminoso como que uma bruma, uma opacidade… Ainda podemos perceber o peso de uma nuvem escura no horizonte de um radiante dia de sol!
E aquela água que lentamente vai levantando fervura dentro da cafeteira é como se fosse dentro de Lúcia… Como se fossem todos estes pensamentos a agregarem-se em minúsculas bolhas de ar que crescem e logo saltam pela tampa… E tudo isto borbulhava cada vez mais intensamente na sua cabeça… Será que a irmã sabia que ela sabia? Porque é que lhe veio pedir conselhos sobre o filho a ela?

Porquê a mim, se eu nem tenho filhos? Aliás, sou praticamente da idade do Marco… OK, sou 6 anos mais velha… mas seis anos não são nada… Nem conheço ninguém, para além da Aurora, que tenha filhos… Ela certamente sabe mais de miúdos que eu… Eu nem nunca tive um animal de estimação… quer dizer tive uns quantos namorados, mas esses não contam, pois não? E por “uns quantos” não quero dizer muitos, não se ponham já com ideias… Tive a quantidade certa… OK?

A água da cafeteira entrava estava agora a ferver violentamente, Lúcia, enquanto colocava o chá, perguntou à irmã:

- O que é a idade do armário?

Pôr-do-sol no Adamastor

E céu tinha voltado a ficar limpo, mesmo a tempo de apreciarem o pôr-do-sol no Adamastor, mas ainda não tinha chegado a noite e Lúcia teve que ir embora, levantou-se, beijou-lhe intensamente a face esquerda e disse “Adeus!” , e foi… Leve como quando tinha chegado!
A Lúcia foi-se embora, quase tão abruptamente como tinha entrado na vida dele… O céu tinha voltado a ficar límpido, mas nem por isso a mente de Pedro estava mais desanuviada! Pedro estava sozinho naquele miradouro! Sozinho não é bem o caso, ficou rodeado de uma multidão de pessoas de todos os tipos, idades e cores! Uma mistura surreal como se tivessem sido escolhidos a dedo para representar as várias partes da sociedade lisboeta, uma espécie de mini-arca de Noé, mas de pessoas, e de Lisboa. Enfim, uma pletóra de pessoas… Pedro gostava muito desta palavra: Pletóra! Soava-lhe bem…  Mas, mesmo estando rodeado desta pletóra de pessoas, Pedro estava sozinho, agora que Lúcia se foi embora, e que o céu voltara a ficar limpo… Sozinho, não! Estava ele; o Adamastor; as projecções minúsculas dos humanos que tentavam conquistar e subjugar o  Monstrengo; o final do pôr-do-sol a projectar tons avermelhados nas fachadas húmidas dos prédios e as sombras longas das colinas; o formigueiro na sua face esquerda e todas as memórias da tarde que agora terminava!
E Pedro olhava todas estas pessoas como se estivessem ali apenas para preencher o vazio, como se aquele miradouro estivesse sempre ocupado pelas mesmas pessoas, ainda que fossem caras, corpos e almas diferentes! Era a primeira vez que estava ali, mas era-lhe muito fácil imaginar tudo isto!
A dada altura uma miúda com tanto ar de inocente como de marota sentou-se ao seu lado e tentou convencê-lo de que se conheciam de algum lado! Enquanto falava de uma imensidão de locais onde Pedro nunca estivera a sua mini-saia subia-lhe pelas pernas descuidadamente deixando entrever onde acabavam as meias! Havia alguém que dançava atrás dela, ouviasse o som de uma guitarra, e algumas das pessoas começavam a vestir-se e a abandonar a praça como que oficializando o final do pôr-do-sol… E, Pedro olhava para tudo isto com a mesma indiferença que as folhas de um sobreiro olham para a passagem do inverno!
Os seus pensamentos, certamente hipnotizados pelo malabarista de fogo, viajavam por toda a aquela tarde! Pela primeira vez que viu Lúcia: a entrar, quase descoordenadamente, no miradouro da Graça… Poderiam ter trocado o primeiro olhar naquele momento, mas Pedro desviou os olhos como se tivesse medo de que Lúcia estivesse, também ela, a olhar para ele… Como se a troca de olhares o pudesse fulminar num segundo… Num piscar de olhos! E depois, a rapariga pôs-se a dar de comer aos pombos, ele, Pedro, odiava esses ratos voadores, mas não teve tempo de pensar, pois não? Num segundo aquela miúda precipitou-se sobre ele, e levou-o a passear por aquelas colinas! E não se limitou a precipitar sobre ele, precipitou-se sobre toda a sua vida até ao momento. Reduziu, num breve segundo, toda a sua existência naquela tarde de verão em Lisboa, como se toda a sua vida, o seu propósito fosse o de estar ali naquele momento a receber umas gotas de vinho do porto nos seus lábios e que agora lhe faziam adormecer a parte interna das bochechas com uma espécie de formigueiro que não conseguia descrever… E lembrou-se de tudo isto… Da forma abrupta com que ela lhe agarrou a mão e arrastou para o eléctrico, e como lhe mostrou numa tarde mais sobre ele, do que ele imaginava saber… E daquele momento no miradouro de S. Pedro de Alcântara… Sim, aquele momento! Percebia agora, com demasiada clarividência, a electricidade daquele momento, e na sua cabeça uma pergunta baloiçava:

- Porque não a beijei? Porque raio é que não a beijei logo!? Devo ser mesmo parvo! E ela deve ter ficado a pensar que sou um tótó… Ficou com certeza!!!

Tinha decidido que precisava de uma viagem de procura interior depois do que acontecera no Porto, e por isso tinha viajado por todo o país, e uma bela parte da Europa… Um viagem! Uma procura! Um encontro consigo mesmo! Mas não era nada disso, pois não?
E olhava a paisagem de vez em quando como que tentando entreter os seus pensamentos para não chegar à conclusão óbvia! E olhava a margem sul, e aquela ponte que a unia a Lisboa! Olhava para estas duas margem, o lá e o cá, o rio que se entrepõe, e a passagem estreita, e pensava como eram diferentes as margens do Tejo e do Douro… Como teve de chegar aqui neste momento, e conhecer uma rapariga num miradouro de Lisboa para constatar o óbvio, não é?

- Foi preciso tudo isto para saber que não estava a viajar para lado nenhum, não é? Foi preciso tudo isto para saber que estava apenas a fugir…

segunda-feira, Março 31, 2014

Sentires



São 9 horas. Lá fora a chuva cai como se a Primavera se tivesse esquecido de sussurrar ao vento a sua chegada. Cá dentro são 8 horas, pois o meu corpo (tal o tempo em Lisboa) ainda não está a funcionar em horário de verão.

Deixo-me ficar imóvel, de olhos fechados, sentido o calor do édredon na pele e o som da chuva a cair nos beirais. Esta é a minha hora preferida do dia. Aqueles minutos em que a memória ainda não despertou e que, apenas por momentos, não tenho nome, história, ou futuro. Apenas sou. Imóvel. Sentindo. Mas no segundo seguinte, tudo me chega à consciência como uma onda gelada. Pedro. Um nome de pombo. Um nome que não pertence a Lisboa, mas que está gravado por toda a cidade. No miradouro da Graça. No 28. No Camões… 

Vejo-me novamente no elétrico. Estamos sentados lado a lado e os olhos de Pedro brilham enquanto absorve todas as histórias que lhe conto sobre as ruas onde vamos passando. A pouco e pouco começa a contar-me a sua viagem por Portugal e sinto-o relaxar. Quando chegamos ao Carmo e pego-lhe na mão.

- Anda daí! Vou levar-te ao teu miradouro! – Digo, enquanto o puxo para sairmos do elétrico.
- Meu?
- Miradouro de S. Pedro! É por aqui.
Enquanto subimos a Rua da Misericórdia o céu vai-se tornando cada vez mais carregado. O final de tarde trouxe consigo nuvens cinzentas que rapidamente cobrem o céu.
- Sua Santidade… o miradouro!!!
Pedro ri-se enquanto os seus olhos tentam absorver a imensidão de Lisboa que surge diante de nós.
- Uau! Tanta beleza, tanta história…tantas estórias misturadas debaixo dos nossos olhos. Como um puzzle de vidas que encaixam para se tornar em algo maior. – Exclama maravilhado.
- E agora também cá está a nossa. Vês ali o miradouro da Graça? Ali estivemos nós, há poucas horas…
- Sim. Ali eramos estranhos.
- E aqui, o que somos? – Pergunto, olhando para o seu rosto ainda perdido na beleza da paisagem. O ar está tão carregado de eletricidade que torna difícil a respiração.

E de súbito, um clarão rasga o céu mesmo acima do Tejo e um barulho ensurdecedor traz consigo um dilúvio gelado. Não consigo conter uma gargalhada sonora. Perdeu-se o momento… Pedro olha-me meio surpreendido.
- De que ris?
- O S. Pedro não teve misericórdia de nós! – respondo e ambos rimos da chuva e de nós próprios.
Mas o riso de Pedro depressa desaparece, como se uma cortina tivesse caído sobre ele. Os seus olhos verdes transmitem uma dor tal que ferem.
- O que se passa, Pedro?
- Lúcia. Tu fazes-me sentir. Eu não quero sentir. Não posso sentir. Deixei tudo para trás e quando pensei que já estava bem, tu apareces e mudas tudo. Sentir só nos faz mal. Sentir dói. Traz consigo morte, vazio e saudade. Desculpa, mas não posso ficar.
O meu coração bate tão forte que parece que o sinto a sufocar-me. Pego-lhe na mão e coloco-a sobre o meu peito.
- Sentes? Estou viva. Estou aqui e também sinto. Nós não somos passado, Pedro. Aquilo que somos é o espelho daquilo que seremos e não do que já vivemos.
Só consigo ver os seus olhos e ouvir o bombear descompassado do meu coração contra a palma da sua mão. Sinto que Lisboa foi levada pela chuva e que apenas nós existimos neste momento.

O som da campainha traz-me de volta para o presente. Dois toques. É a Aurora. Levanto-me da cama e apanho o robe de cima do cadeirão. O que será que se passa para a Aurora estar aqui tão cedo? Corro a abrir a porta.
- Bom dia Lu!
- Bom dia, irmã! O que se passa?
- Desculpa acordar-te tão cedo, mas temos de falar. Estou preocupada com o Marco…Não sei se é da idade do armário ou não, mas o puto anda muito estranho!

quinta-feira, Março 27, 2014

A rota é sempre descoberta!

Marco, MARCO, MARCO!

Acordou, a transpirar...

Um sonho? Realidade?... As memórias da noite estavam ainda cravadas na sua pele... Levantou-se e vestiu o robe...

- Já vou mãe...

Na cozinha. O pão fresco sobre a mesa, a faca e a mensagem...

"Fui a casa da Lu, tens queijo fresco, no frigorífico, beijo, Mãe..."

Estava oficialmente louco! O seu coração começou a bater de novo descompassado. Uma sensação sinistra... Bebeu um copo de leite num trago e fechou-se de novo no quarto. Não acendeu a aparelhagem como de costume... o silêncio embora desconfortante pareceu-lhe o único refúgio.

Pedaço de papel na mão, caneta na outra.... tremendo...

E começou a escrever:

"Sou um puto... Bolas sou um puto! Que se passa comigo?? Que sonhos são estes? Porque surgi do nada no meio de tudo! Porque pareço mais crescido que todos aqueles que estão à minha volta, porque é que estas coisas só acontecem a mim, a mim, a mim, estou a falar contigo, MARCO.....  ziiiccrshhh, contacto, contacto, já não te dominas, ... só tenho 11 anos... 13 MARCO; 13... zrrrsshh, MARCO estamos a falar contigo, MARCO; MARCO; MARCO!!!!!...

MARCO!

Marco, MARCO, MARCO!

Acordou, a transpirar...

Um sonho? Realidade?...

Levantou-se e vestiu o robe...

- Já vou mãe...

De soslaio viu o papel em cima da mesa...

"TAREFAS:

- Comprar sumos para a festa de Sábado (Baldaram-se 2, somos só 13 (temos pena), compram-se 3 litros).

- Visitar o Miradouro da Graça

- Andar no elétrico 28 pela primeira vez

- Ir ao largo Camões ter com a Jéssica.

- Andar no elevador da Bica"

Um ar frio gelou-lhe a nuca...

A última linha estava escrita em maiúsculas... Não se lembrava de a ter escrito.

"AQUILO QUE NÓS SOMOS, É O ESPELHO DO QUE SEREMOS."

6 passadas... na viagem da vida

18h.... e 13.... 13 minutos!

O eléctrico cruza estranhamente veloz na porta de um café na baixa... A memória fugidia de uma tertúlia passada e contudo tão presente cruza-lhe o cérebro, no fundo cortando um pouco o enfado prolongado dos últimos 10 minutos. Aqueles minutos após o casal, ainda esbaforido de uma corrida, se ter sentado pelos lados da Graça no banco à sua frente e que, desde esse momento, se limitavam a trocar um olhar magnético... Apaixonados certamente... Sem paciência para estas lamechices.

Solitário, sempre fui. Roupas negras, olhar fugidio, faço agora as curvas da memória que me levam ao largo Camões. Último semáforo, deixo os pombinhos... Parvos!... Momento de remorso, pobres seres toldados pelas asas da paixão... certamente conhecem-se à pouco tempo.

Olho para a estátua no centro da praça... Por momentos vejo uma instalação insuflável ali no meio... gritos entusiasmados, o erguer de uma ginja no quiosque, ou apenas um ser estranho e risos à volta... Flashes de memória, idiotices cruzadas.

Percorro sem sentido algum agora a calma rua. Estranhamente tão diurna... As memórias que tenho dizem-me ser sempre noite aqui. Lisboa sempre foi noite neste canto, como se o sol nunca tivesse banhado estas vielas. Mas ás vezes é anoitecer... E agora ainda há luz.

Lembro-me de uma melodia... Qualquer coisa com "carcaças de carros"... Sorrio estupidamente... Ao ver uma carcaça dependurada... De metal amarelo, ou não será metal.... Ou será Heavy Metal....

Não sei... Estaco... 18 e 30... toca uma campainha... O estranho eléctrico que é elevador, ou é elevador que é eléctrico arranca... E uma faísca salta luminosa!!

Por demais luminosa... trás relâmpagos, traz trovões, traz um apagão, traz uma estátua, traz um coreto, traz de novo aquelas vozes na noite escura que são eu, mas não sou eu, trazem de novo o mistério e atiram-me inconsciente para o chão... 18 e 30 e não sei se são 30... se são 11 anos, se são o 13 de memórias se são o 5 ou o 6...

A viagem não acabou... Começou aqui em Lisboa!

sábado, Março 22, 2014

Na rota de Pedro Álvares Cabral

Perante a estátua Marco nada mais viu, todos os reflexos se convergiram sobre a pedra rugosa e molhada dos pés de Antero. A escuridão da noite húmida condensava nuvens cerradas - reflexo de um céu melancólico e rezingão.

No jardim vazio ouvia-se a composição musical e primaveril. Árvores vibravam de histórias nos seus ramos delgados, acenado à poesia crua de suas folhas. Os patos e os gansos dormitavam sob a ovação do pavão macho estridente. As rãs dos pequenos lagos coaxavam, num desespero selvagem pela concorrência dos morcegos citadinos.

A inquietude humana instalou-se. Passaram 5 minutos da hora combinada e os únicos vultos que se vislumbravam na penumbra do jardim - resultantes dos focos motorizados que circundavam a parte externa - permitiam descodificar algumas sombras em êxodo. O medo era colectivo, sete minutos sem iluminação não são habituais na rotina iluminada dos Lisboetas.

Marco impaciente decidiu começar a soletrar pequenos decibéis da sua jovem inexperiência.

- Vim para aqui porque era importante "nem um minuto a mais nem a menos" e agora estou aqui a apalpar sozinho o Barbudo suicida!

-" Embebido n'um sonho doloroso, 
Que atravessam fantásticos clarões,
Tropeçando n'um povo de visões,
Se agita meu pensar tumultuoso...
"
Encoou uma voz masculina vinda do meio do tudo... e do nada.
A frequência cardíaca de Marco disparou, alimentada pela choque de adrenalina.

- Quem está ai?!
Perguntou Marco enquanto rodava 360 graus em torno do seu eixo.

-"Com um bramir de mar tempestuoso
Que até aos céus arroja os seus cachões,
Através duma luz de exalações,
Rodeia-me o universo monstruoso..."

A voz ganhava eco e uma intermitência feminina.

- "Um ai sem termo, um trágico gemido,
Ecoa sem cessar ao meu ouvido,
Com horrível, monótono vaivém...
"

Marco recuou em relação à estátua, procurando um espaço mais amplo.

-"Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e afirma o Bem!
"

- Quem está aí, o que se passa? Não brinquem comigo.
Marco corria agora desesperado pela rua principal na direcção do coreto após ter tropeçado num galho partido.

- Descansa meu jovem, não te fazemos mal.
Tranquilizou uma voz sensual e claramente feminina.

- Quem és tu... quem são vocês?

- Sou a Despertar, o teu despertar....

- AH!! E a outra voz?

- A outra voz é o teu interior Marco, o teu interior!

- O meu interior? Mas estás a brincar comigo? Como sabes o meu nome? Quem são vocês?

Marco acelerou a passada e pulou para dentro do grande coreto. Olhou ciclicamente para toda a periferia na esperança de descobrir alguma forma, mas nada, apenas a escuridão. Após breves minutos tranquilizou-se no silêncio profundo que acabara por se instalar no jardim.

Deitou-se no chão de braços abertos, abriu os olhos e tentou retomar a experiência:

- Está ai alguém? Quem são vocês?

Uma voz rouca e autoritária, acompanhada por um clarão direccionou-se para dentro do coreto:

- Oh Jovem, o jardim fechou! Tens que sair!

Um vulto grande e gordo, de lanterna em mão - aparentemente o segurança do jardim - apontou para a saída mais a norte,  a rotunda da Avenida Pedro Álvares Cabral.

- Peço desculpa, mas estava à espera de encontrar... uma, um familiar que desapareceu.

- Lamento,  encerrei todos os portões e já só falta mesmo este... Meu rapaz já são horas para estares em casa, principalmente depois deste apagão.
Respondeu a voz experiente e responsável, já habituada à rotina de expulsar cidadãos notivagos e incautos.

- Obrigado. Estava com um familiar quando ficou escuro... já deve ter seguido para casa. Talvez seja melhor ir também andando.
Marco, não gostava que o considerassem criança preferia alinhar no tratamento infantil como forma de se desenvencilhar mais depressa das situações incómodas. 

- Moras longe e precisas de companhia?

- Moro já ali, na Rua do Cabo, junto à Saraiva de Carvalho. É perto. Obrigado.

E dirigiu-se em passada larga até ao exterior do Jardim.

- Adeus jovem!
Despediu-se o segurança que se encaminhou atrás dele mas de olho em todos os recantos por explorar.

Marco sentiu-se orgulhoso por ter escapado. Atravessou para o centro da rotunda e olhou bem alto na expectativa que um farolim o orientasse novamente.


terça-feira, Fevereiro 04, 2014

O Mistério da cegonha

O Marco até podia ser um jovem normal, se existissem exemplares disso: jovens normais! Por definição, os jovens são todos “não normais”, diferentes, peculiares, se quisermos! O Marco era, à sua maneira, peculiar. Vestia-se sempre de preto, as botas de biqueira de aço sempre perfeitamente engraxadas, calças de ganga preta com uma corrente a segurar as chaves, t-shirt preta, uma sweat (preta, claro está), e um casaco se estivesse frio… As meias e os boxers também eles pretos… Chapéu de chuva: nunca… Um impermeável, às vezes! Ia às aulas durante o dia, de  resto não se sabe muito bem onde andava nem o que fazia, nem quais as suas brincadeiras favoritas, e nem sequer qual o seu clube de futebol, dizem os que o conhecem pouco, porque também há os que não o conhecem quase nada… Sempre foi curto de palavras! 
Se em muitos destes jovens pode ser difícil explicar quando é que está “anormalidade” se começou a manifestar, no caso do Marco era perfeitamente evidente: era “assim” desde de que nasceu! Talvez até antes, quando ainda estava no ventre da sua mãe! A avó Jacinta veio da terrinha para ajudar a mãe do Marco com as tarefas da casa no último mês de gestação daquele que seria o seu primeiro e único filho… No ínicio de junho de 1989 profetizou a mesma avó que este rapaz havia de nascer a 19 do mesmo mês, em dia de lua-cheia, porque os rapazes nascem sempre em dia de lua cheia… Mas enganou-se! O Marco nasceu 3 dias antes, a 16 de junho, e até os deuses se enraiveceram… nessa noite choveram trovões em Lisboa com uma força tal que muito juram a pés juntos que parecia ser de dia… Alguns ainda se lembram deste dia como a pior trovoada na região de Lisboa de todo o sempre! Faltam provas que corroborem estes testemunhos. 
Na manhã seguinte a avó Jacinta foi visitar os dois à Maternidade Alfredo da Costa, e ao entrar naquele quarto era como se já soubesse o que tinha acontecido! Nunca mais disse uma palavra a sacana da velha… nem à filha nem ao neto, nem ao falecido marido quando o ia visitar ao cemitério, nem ao padre da aldeia… Nunca mais falou! Ficou muda, coscuvilhavam as vizinhas… Ou então, agora tem a mania que é senhora porque tem um neto que nasceu na Maternidade, dizia a outra! E a avó Jacinta, era como se não ouvisse, ali sentada ao lado delas sem dizer uma palavra! Nunca mais falou, nem quando foi internada de urgência abriu a boca para falar com o médico ou se queixar das dores… Foi assim, há quase 11 anos atrás!
Hoje, é terça-feira, 9 de maio de 2000. Para o Marco, e todos nós, podia ter sido um dia normal! Podia… mas só até às 22h! Nesse momento, enquanto Marco termina o último fio de esparguete toca o telefone, a mãe chama-o e diz que é para ele, uma voz abafada do outro lado da linha diz:
- Aparece no Jardim da Estrela ao pé da estátua do Antero de Quental às 22h40m, nem um minuto a mais nem um minuto a menos! Tchlim!
A mãe olhou-o como que censurando a hora de sair de casa, mas há muito tempo que já não dizia nada! O Marco pegou no casaco e saiu porta fora! No elevador, uma memória da sua infância assombrou-lhe pensamento, mas não ligou. Ao sair à rua verificou o relógio, e percebeu que podia ir a pé.

Chegou à entrada do jardim da Estrela às 22h38m, e sorriu de orgulho para si mesmo. A medida que se aproximava do recanto do poeta foi imaginando a sua silhueta como que vergada e as enormes barbas. No momento em que está a seus pés: escuridão. Sim, escuridão imediata. PAM! Em todo o lado… a cidade toda a cidade às escuras… No dia seguinte, o ministério, ou a EDP ou REN iriam culpar uma cegonha do apagão generalizado a sul do país…. Mas apenas o Marco, o Antero e o dono da voz ao telefone sabiam a verdadeira razão daquele apagão!

quinta-feira, Dezembro 19, 2013

Obsessão




Quando voltares vou sufocar-te com a minha obsessão de ti.

Quero que a saibas porque só tua. 

Quando voltares vou dar-te a loucura que me escorre na pele

e assim mostrar-te que não preciso de mais razões para te ter.

Apenas tu. 

Quando voltares não vou perder tempo com actualizações. 

Vou desfazer-te num abraço em beijo sem saída. 

Vou engolir-te pelo olhar até morreres dentro de mim. 

Vou abandonar-me ao teu corpo e deixar que me faças tua.

Sem mais rodeios. 

Quando voltares vamos passar os teus limites e os meus,

se é que os temos quando estamos juntos.

Quando voltares vou encontrar-te e perder-me em ti.

Não saberás mas, de facto, já me terei perdido na espera... 

Quando voltares quero dizer-te que para a próxima não vais sózinho, 

desço contigo para comprar tabaco.

quarta-feira, Dezembro 11, 2013

Corpos repartidos acabam sempre por matar

As palavras que agora me dás…
 Esse tudo cheio de inconsistências dissimuladas 
que me são nada... 
Não as quero. Não o quero. 
Leio-te a perda do que nos ligava, 
essa cola a que teimei chamar de amor. 
Podes levar as palavras contigo.
Não as quero sem o co
rpo que as dizia. 
O corpo inteiro, estou segura. 
Aceitar-te o corpo repartido, ocorreu-me. 
Ocorre-me sempre tentar o prazer para mim. 
Mas tu? Não outro… 
Tu, um pouco em mim, o resto noutro corpo? 
Talvez mais do que um…
 Mata-me um pouco todos os dias. 
Não tentei. Não tento.
 Desisti de ti e ainda estou! 
Não posso dizer que bem. 
Não obstante, ainda respiro.
 Isso é algo que me conforta, respirar. 
Procuro-te inteiro noutros corpos.
 Não te chegam, mas pelo menos não os amo. 
Corpos repartidos acabam sempre por matar. 
Somente este sabor que não me sai… 
O tanto que fomos... 
Choro-te. Nunca deixarei de te chorar.