quinta-feira, outubro 26, 2017

Prosas em Grupo - Compilação

ENTRE 10 DE ABRIL DE 2013 E 25 DE JANEIRO DE 2015 6 AUTORES DA REVISTA PENA CONTRIBUÍRAM PARA UM PROJETO DE ESCRITA EM GRUPO -  PROSA EM GRUPO. HOUVE DUAS RAMIFICAÇÕES DE HISTÓRIAS QUE HABILMENTE FORAM CONVERGIDAS NUMA PROSA EM GRUPO MISTA. O RESULTADO COMPILADO É FANTÁSTICO! 
A CONTINUIDADE AINDA ESTÁ EM ABERTO!

Lisboa… (Empresto-te a prosa, completa este rio…)
Publicada por alphatocophero - 10 de abril de 2013

Este que flui até ao Bugio… sempre rio. O que espelha nas suas águas a luz mortiça, essa estranha mistura cromática que esbate o poder solar, numa reconfortante nostalgia que abraça esse mundo... esse reconfortante mundo, a que ainda ousamos chamar casa.

Ontem odiava-te. E não são os ódios transformados em amor a antítese da nossa naturalidade… Aquela natureza perversa que tanta vez torna o mais belo dos sentimentos no mais rancoroso dos finais... Lisboa tu não tens fim… és talvez o livro aberto sem começo.


Ao odiar-te não te conhecia… Percorria alheado as curvas do teu corpo sem verdadeiramente apreciar a beleza do teu interior… Sem saber que só a beleza do interior permite vislumbrar a tão resplandecente imagem, do teu quadro tão lindo… Talvez sejas, Lisboa, a mão que me descerra as pálpebras com a subtileza do teu suspiro.

Só hoje verdadeiramente vejo em ti o berço… a mãe… os braços que me seguram… Quanto mais longe de ti, maior o prazer do reencontro. Hoje não te vejo! Toco-te. Hoje não te odeio, sinto-te! Lisboa, hoje começa o novo capítulo da canção abraçada a tantas vozes.

E nasce o rio novamente… Junto ao Tejo… No bulício das gentes que se agitam, dos olhos que se abrem para te ver, inocentes por não conhecerem as tuas formas, surpreendidos como o jovem imberbe que vislumbra pela primeira vez teu seio desnudado… Observo-te, sinto-te, mergulho em ti e nas águas que agora, verdadeiramente nasceram. E aqui junto às águas que brotam do teu coração inicio a aventura que partilho com aqueles que também te sentem.

A história começou… São três da tarde!

Lisboa, Três da Tarde…
Publicada por R.B. NorTør - 15 de abril de 2013


O sol alto começa a baixa, as sombras a alongarem-se para oriente e as formigas incansáveis começam a acusar as temperaturas, as suas mentes a escorregarem para cervejas e ginjinhas e pães embebidos em gordura envolvendo carnes tenras e pedras de calçada que não são já do alvo calcário mas amareladas como as lâmpadas dos lampiões. E ainda falta tanto tempo...

São três da tarde e na sua cara de quem só agora esqueceu o almoço farto de uma sandes trazida de casa, instala-se esse fugaz movimento dos olhos para o relógio, a contar as horas, os minutos, todos os instantes que ainda faltam para sair desse centro de atendimento onde, por mais um mês ou dois, conseguirá tirar a renda. Depois? Quem sabe o que virá depois? Outro centro, mais um mês ou dois? E nova chamada. O nome. Em que posso ajudá-lo? Pois sim... Pois... Infelizmente não o posso ajudar, mas vou passá-lo para a assistência técnica. Pois, também lamento. Vai tu!

São três da tarde, mas podiam ser três da manhã, não fosse às três da manhã não haver turnos. Três da tarde, onze da manhã, em passando a hora de ponta é tudo o mesmo! Para trás, para a frente, para trás, para a frente, só oito voltas para trás, oito para a frente, pouco mais de uma hora para o final deste dia, ou noite? Uma vida sem luz do sol, só a espaços as lâmpadas fluorescentes e o brilho do relógio que dita as horas por que se rege o dia. Todos os dias, exepto Domingo. Quando não calha...

Três da tarde, toque de saída, resto da tarde livre. "Lu, queres vir ao Budapeste?"

Lu
Publicada por APC  5 de agosto de 2013

"Lu, queres vir ao Budapeste?"

“Vou lá ter mais tarde!” – E sabia perfeitamente que não ia… Só queria mesmo sair dali. Do escritório com o cheiro pesado a humanidade! Se é que se pode chamar escritório às instalações do call center no Saldanha. Seguiu pela rua do mercado até à Praça José Fontana, um ritual que cumpria praticamente todos os dias. Gostava da inversão de papeis entre o mercado e o Liceu Camões. Quando passava pela manhã, sempre atrasada para o trabalho, e o Liceu era como um fantasma do passado, quase a preto e branco, e o mercado a fervilhar de vida. O cheiro de peixe que a muitos dá náuseas era para ela reconfortante. A azáfama dos comerciantes uma razão para, também ela, se aplicar com todas as forças no seu trabalho. E “ao fim do dia”, o mercado já fechado… O sentir de dever cumprido. Aqui e ali sobrava ainda um ou outro comerciante, nunca chegou a perceber se os que se arrastavam entre um café e uma mini eram os que venderam tudo ou os que não venderam nada. As suas expressões faciais eram de outro tempo e, para ela, incompreensíveis. Eram como pessoas gastas, ou desgastadas. E o Liceu, o Liceu… Um brotar de vida… Uma atmosfera carregada de hormonas! Aqui e ali roubava-se um beijo, sussurravam-se promessas… Rodava um cigarro ou uma ganza! Faziam-se planos… Queria parar um pouco! Demorar-se ali naquele quiosque ao lado do coreto, e educar aqueles míudos e míudas… Ensinar-lhes numa tarde o que tinha demorado décadas a aprender! E depois olhava-os novamente, e com desdém concluía que não valia a pena! O mundo será sempre uma espiral de contornos tão suaves que parece um circulo.

Consultou o relógio: “Ainda é muito cedo para ir observar os travestis ao Conde Redondo.”

E aquele rapaz sempre: "Lu, queres vir ao Budapeste?", e ela: “Não me dá jeito, tenho que ir ao Martim Moniz comprar caril!”

Deixou-se escorrer lentamente pela Duque de Loulé, e foi observando as entradas aparentemente fechadas dos bares de strip… Tinha uma certa atração inexplicável por estes locais. “Que tipo de pessoas trabalham aqui? Que tipo de pessoas vêm cá? Os que cá trabalham será que também se sentem subvalorizados no emprego, terão contratos a prazo, será que têm ordenados em atraso, ou dívidas ao fisco? Será que pensam em emigrar? E, os que cá vêm? Será que riem ou choram como as pessoas normais? Que é que procuram aqui? Haverá mais ou menos clientes em época de crise?” Foi deslizando nas ruas paralelas à Avenida, e as pedras da calçada diziam-lhe “Olá, estás muito tristes hoje!”, e ela olhava-as desconfiada como se fossem um produto da sua imaginação, e respondia “Não, estou só desanimada! Quero mais! Posso querer mais?”. E as pedras não respondiam, limitavam-se a desalinhar-se e fazer-lhe o caminhar mais desconfortável. E, quando se deu conta, já tinha passado as Portas de Santo Antão. Na primeira tasca de Ginginha um velho de face enrubescida atirou-lhe um piropo ao qual ela nem se deu ao trabalho de responder. Não tinha sequer a energia para esboçar o sorriso ténue da praxe.

Foi como se lhe tivesse dito: "Lu, queres vir ao Budapeste?" – E ela queria responder: “Em primeiro lugar o meu nome é Lúcia, herdei-o da a minha avó e gosto muito dele! – A mania de certas pessoas encurtarem o nosso nome sem que isso lhes seja sugerido só pode ser preguiça… Ainda por cima é um nome bastante bonito… Será que custa assim tanto dizer Lúcia? São só cinco letras: L-U-C-I-A, Lúcia, como a minha avó!”

Quando chegou ao Martim Moniz, o sol das quatro da tarde ainda afastava os clientes, e até os comerciantes. Lembrou-se da sua avó e de quando ela a trazia cá para comprarem especiarias. Cresceu em casa da avó, por razões que desconheceu até à adolescência. Era como se fossem o prolongamento uma da outra, e sorriu orgulhosamente ao recordar todas as vezes que os comerciantes desta praça e de outras sugeriam que ela tinha o mesmo feitio difícil da sua avó. Não era bem um feitio difícil, a avó era uma mulher forte e independente, cada ruga na sua face um desafio ultrapassado, e muitas pessoas não lidam bem com isso. Tinha orgulho em ter sido criada por aquela mulher de mãos ásperas e coração mole. Tinha a perfeita consciência que a sua avó era um exemplo excelente, e talvez por isso ainda hoje lhe custasse comprometer essa independência. Da avó herdou também as características físicas: a pela clara e macia, os olhos azuis, os caracóis pretos e a meia dúzia de sardas em cada bochecha. Não admira que muita gente achasse que eram mãe e filha. E, vejo-me obrigado a acrescentar, que muitos lhe atirassem piropos.

E aquele moço (era assim que a sua avó chamava aos rapaz novos) sempre: “Lu, queres vir ao Budapeste?” – e, ela: “Não, caralho! Não quero ir ao Budapeste, nem ao Roterdão ou ao Copenhaga… Quero que me deixes em paz!!! Quero ir a Lisboa! Estás a ouvir? Quero ir a Lisboa! Quero passear nas colinas como se fossem um escorrega gigante num parque infantil só para mim. Quero, sei lá! Olha: quero apaixonar-me por um estrangeiro num miradouro qualquer!!!”

Seguiu pela sombras das ruas estreitas da Mouraria para o miradouro da Senhora da Graça. Pelo caminho não pôde deixar de reparar que estas ruas tinham uma certa semelhança com o seu cérebro, ou pelo menos com a forma com que o imaginava. Ruas estreitas e labirínticas sempre aos altos e baixos! Aqui e ali uma praçeta… às vezes velha e decrépita, outras recém-recuperada com um aspecto ultra moderno. Decidiu ignorar a voz da sua cabeça a perguntar: “Lu, queres ir ao Budapeste?”. Tinha passado recentemente dos trinta anos, e já não tinha paciência para estas coisas!

O Miradouro da Graça tem uma chegada bastante interessante: de um lado da rua está a igreja (ou convento), e do outro um jardim que é praticamente um prolongamento da praça do miradouro. Esta profundidade é uma espécie de antecipação do miradouro em si… Ao percorrer esta rua, o coração de Lúcia saltava-lhe do peito, e ela lembrava-se de todas as vezes que percorreu esta mesma rua! De como as pedras se alinhavam para lhe suavizar a passagem ou desalinhavam para que fosse ainda mais sofrível chegar àquele miradouro. Gostava muito da cidade vista de aqui. Sentia um aconchego inexplicável. Um lugar mágico, protegido a norte pela senhora do Monte e a sul pelo Castelo de São Jorge. A cidade a perder de vista no horizonte. Vinha cá sempre que podia, e possivelmente já cá veio com todos os estados de espírito imagináveis! Tinha pouco mais de trinta anos, e muitas histórias para contar, e estas pedras da calçada eram protagonistas em muitas delas! Mas não eram essas histórias que a traziam cá hoje! Hoje estava ali pela cidade, por esta cidade que adora e nunca quis deixar.


Num gesto tímido, pediu um Porto no quiosque antes de trocar um olhar com a cidade. Respirou fundo, pegou no copo e foi-se sentar no muro. Quando repousou os olhos sobre a cidade ouviu sinos como se chegasse ao paraíso. Cinco da tarde!


Cinco ao iluminar das Seis
Publicado por Chas. - 17 de outubro de 2013

Cinco mesas cheias na esplanada.
Cinco o F na abertura fotográfica.
Cinco bancos lotados de paixão.
Cinco os dedos no gradeamento.
Cinco barcos abraçando o estuário.

Cinco minutos de contemplação.
Cinco as pulsações de hesitação.
Cinco passos na sua direcção.
Cinco as letras do seu nome.
Cinco segundos de iluminação:

"Sou Lúcia, esta é Lisboa. Ambas sinónimo de luz e tu?"

Um rosto corado e bochechudo, de olhar verde elevou o rosto.

"Pedro... "

A sua resposta fria e tímida gerou um ambiente desconfortável. Lúcia afastou-se gracejando:

"Pelos vistos não iluminei na tua graça mas acertei na desgraça. Olha, coincidência, estamos no Miradouro da Graça. AHAHA!"

Pedro sentiu-se incomodado pelo contacto tão abrupto e surrealista mas por outro lado admirado pela assertividade da estranha.  Normalmente passava despercebido para todas as pessoas, como se flutuasse num mundo inabitado, aglutinado pelo seu medo e oprimido nas catacumbas das memórias.

O seu passado recente era uma amálgama de experiências negativas e falhanço passionais. Com pouco mais de trinta anos tinha uma Licenciatura em Direito na Universidade do Porto, três estágios não remunerados - em escritórios de Advogados oportunistas e quatro anos numa consultora internacional sediada na Maia. Este último trabalho levou-o à exaustão e deterioração progressiva da sua qualidade de vida. Perdeu tempo de lazer - e para dormir as 8 horas que necessitava; afastou-se dos amigos e familiares; deixou de fazer desporto tendo engordado mais de 15 Kilos. 
Em cinco anos teve duas namoradas, uma traiu-o com um colega e a última, com quem vivia há dois anos, suicidou-se à cinco meses. 

Despediu-se em Maio, decidido a viajar pelo país em busca de paz interior e significado para a sua existência. Comprou uma vespa Piaggio e começou a viagem acampando pelo caminho.

Lúcia acabara de entrar na sua blindagem emocional e social. Olhou novamente para a desconhecida que alimentava junto ao muro amarelo dois pombos cinzentos. A pele branca reflectia o espectro de um Outubro ameno e as sardas lembravam-lhe as constelações visíveis fora dos centros urbanos.

Aproximou-se, convergindo o azul da sua íris no verde de esperança:

"O que a fez aproximar? Estranhei o seu contacto, na verdade estranharia qualquer contacto... mas..."

E engoliu em seco quando ela agarrou a mão e a elevou ao peito.

"Pedro. Nome bonito! Aquele pombo também se chama Pedro e aquele trapalhão, o mais gordinho, Budapeste! Gosto de alimentar quem conheço pelo nome."

Ergueu o cálice de Porto, em repouso na calçada, e ofereceu ao (recém) conhecido:

"Bebe um pouco e sente a magia da energia!"

Ainda meio acanhado demolhou os lábios nos contornos do vidro.

"Obrigado! Sou do Porto mas foram poucas as vezes que saboreei este licor divino."

E entregou o copo de volta.

"O que me fez aproximar foi querer ver uma fotografia nítida em vez de algo desfocado e sem cor. Ter um sorriso brilhante em vez da estátua fria e cinzenta. Não precisas de viver no passado... Lisboa é fado mas só quando cantado!"

Sentiu o corpo a arrepiar. Há algum tempo que não sentia estímulos corporais e chorou.

"Obrigado! Estava preso e não conseguia expulsar.  Muito obrigado!"

Ela abraçou-o, como se abraça um melhor amigo, e de seguida puxou-o para fora do Miradouro.

"Vem! São seis da tarde. Vem conhecer Lisboa aos olhos do eléctrico 28!"

O Mistério da cegonha
Publicada por APC - 4 de fevereiro de 2014

O Marco até podia ser um jovem normal, se existissem exemplares disso: jovens normais! Por definição, os jovens são todos “não normais”, diferentes, peculiares, se quisermos! O Marco era, à sua maneira, peculiar. Vestia-se sempre de preto, as botas de biqueira de aço sempre perfeitamente engraxadas, calças de ganga preta com uma corrente a segurar as chaves, t-shirt preta, uma sweat (preta, claro está), e um casaco se estivesse frio… As meias e os boxers também eles pretos… Chapéu de chuva: nunca… Um impermeável, às vezes! Ia às aulas durante o dia, de  resto não se sabe muito bem onde andava nem o que fazia, nem quais as suas brincadeiras favoritas, e nem sequer qual o seu clube de futebol, dizem os que o conhecem pouco, porque também há os que não o conhecem quase nada… Sempre foi curto de palavras! 
Se em muitos destes jovens pode ser difícil explicar quando é que está “anormalidade” se começou a manifestar, no caso do Marco era perfeitamente evidente: era “assim” desde de que nasceu! Talvez até antes, quando ainda estava no ventre da sua mãe! A avó Jacinta veio da terrinha para ajudar a mãe do Marco com as tarefas da casa no último mês de gestação daquele que seria o seu primeiro e único filho… No ínicio de junho de 1989 profetizou a mesma avó que este rapaz havia de nascer a 19 do mesmo mês, em dia de lua-cheia, porque os rapazes nascem sempre em dia de lua cheia… Mas enganou-se! O Marco nasceu 3 dias antes, a 16 de junho, e até os deuses se enraiveceram… nessa noite choveram trovões em Lisboa com uma força tal que muito juram a pés juntos que parecia ser de dia… Alguns ainda se lembram deste dia como a pior trovoada na região de Lisboa de todo o sempre! Faltam provas que corroborem estes testemunhos. 
Na manhã seguinte a avó Jacinta foi visitar os dois à Maternidade Alfredo da Costa, e ao entrar naquele quarto era como se já soubesse o que tinha acontecido! Nunca mais disse uma palavra a sacana da velha… nem à filha nem ao neto, nem ao falecido marido quando o ia visitar ao cemitério, nem ao padre da aldeia… Nunca mais falou! Ficou muda, coscuvilhavam as vizinhas… Ou então, agora tem a mania que é senhora porque tem um neto que nasceu na Maternidade, dizia a outra! E a avó Jacinta, era como se não ouvisse, ali sentada ao lado delas sem dizer uma palavra! Nunca mais falou, nem quando foi internada de urgência abriu a boca para falar com o médico ou se queixar das dores… Foi assim, há quase 11 anos atrás!
Hoje, é terça-feira, 9 de maio de 2000. Para o Marco, e todos nós, podia ter sido um dia normal! Podia… mas só até às 22h! Nesse momento, enquanto Marco termina o último fio de esparguete toca o telefone, a mãe chama-o e diz que é para ele, uma voz abafada do outro lado da linha diz:
- Aparece no Jardim da Estrela ao pé da estátua do Antero de Quental às 22h40m, nem um minuto a mais nem um minuto a menos! Tchlim!
A mãe olhou-o como que censurando a hora de sair de casa, mas há muito tempo que já não dizia nada! O Marco pegou no casaco e saiu porta fora! No elevador, uma memória da sua infância assombrou-lhe pensamento, mas não ligou. Ao sair à rua verificou o relógio, e percebeu que podia ir a pé.

Chegou à entrada do jardim da Estrela às 22h38m, e sorriu de orgulho para si mesmo. A medida que se aproximava do recanto do poeta foi imaginando a sua silhueta como que vergada e as enormes barbas. No momento em que está a seus pés: escuridão. Sim, escuridão imediata. PAM! Em todo o lado… a cidade toda a cidade às escuras… No dia seguinte, o ministério, ou a EDP ou REN iriam culpar uma cegonha do apagão generalizado a sul do país…. Mas apenas o Marco, o Antero e o dono da voz ao telefone sabiam a verdadeira razão daquele apagão!

Na rota de Pedro Álvares Cabral
Publicada por Chas. - 22 de março de 2014

Perante a estátua Marco nada mais viu, todos os reflexos se convergiram sobre a pedra rugosa e molhada dos pés de Antero. A escuridão da noite húmida condensava nuvens cerradas - reflexo de um céu melancólico e rezingão.

No jardim vazio ouvia-se a composição musical e primaveril. Árvores vibravam de histórias nos seus ramos delgados, acenado à poesia crua de suas folhas. Os patos e os gansos dormitavam sob a ovação do pavão macho estridente. As rãs dos pequenos lagos coaxavam, num desespero selvagem pela concorrência dos morcegos citadinos.

A inquietude humana instalou-se. Passaram 5 minutos da hora combinada e os únicos vultos que se vislumbravam na penumbra do jardim - resultantes dos focos motorizados que circundavam a parte externa - permitiam descodificar algumas sombras em êxodo. O medo era colectivo, sete minutos sem iluminação não são habituais na rotina iluminada dos Lisboetas.

Marco impaciente decidiu começar a soletrar pequenos decibéis da sua jovem inexperiência.

- Vim para aqui porque era importante "nem um minuto a mais nem a menos" e agora estou aqui a apalpar sozinho o Barbudo suicida!

-" Embebido n'um sonho doloroso, 
Que atravessam fantásticos clarões, 
Tropeçando n'um povo de visões, 
Se agita meu pensar tumultuoso... "
Encoou uma voz masculina vinda do meio do tudo... e do nada.
A frequência cardíaca de Marco disparou, alimentada pela choque de adrenalina.

- Quem está ai?!
Perguntou Marco enquanto rodava 360 graus em torno do seu eixo.

-"Com um bramir de mar tempestuoso
Que até aos céus arroja os seus cachões,
Através duma luz de exalações,Rodeia-me o universo monstruoso..."

A voz ganhava eco e uma intermitência feminina.

- "Um ai sem termo, um trágico gemido,
Ecoa sem cessar ao meu ouvido,
Com horrível, monótono vaivém..."

Marco recuou em relação à estátua, procurando um espaço mais amplo.

-"Só no meu coração, que sondo e meço,
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço,
Em segredo protesta e afirma o Bem!"

- Quem está aí, o que se passa? Não brinquem comigo.
Marco corria agora desesperado pela rua principal na direcção do coreto após ter tropeçado num galho partido.

- Descansa meu jovem, não te fazemos mal.
Tranquilizou uma voz sensual e claramente feminina.

- Quem és tu... quem são vocês?

- Sou a Despertar, o teu despertar....

- AH!! E a outra voz?

- A outra voz é o teu interior Marco, o teu interior!

- O meu interior? Mas estás a brincar comigo? Como sabes o meu nome? Quem são vocês?

Marco acelerou a passada e pulou para dentro do grande coreto. Olhou ciclicamente para toda a periferia na esperança de descobrir alguma forma, mas nada, apenas a escuridão. Após breves minutos tranquilizou-se no silêncio profundo que acabara por se instalar no jardim.

Deitou-se no chão de braços abertos, abriu os olhos e tentou retomar a experiência:

- Está ai alguém? Quem são vocês?

Uma voz rouca e autoritária, acompanhada por um clarão direccionou-se para dentro do coreto:

- Oh Jovem, o jardim fechou! Tens que sair!

Um vulto grande e gordo, de lanterna em mão - aparentemente o segurança do jardim - apontou para a saída mais a norte,  a rotunda da Avenida Pedro Álvares Cabral.

- Peço desculpa, mas estava à espera de encontrar... uma, um familiar que desapareceu.

- Lamento,  encerrei todos os portões e já só falta mesmo este... Meu rapaz já são horas para estares em casa, principalmente depois deste apagão.
Respondeu a voz experiente e responsável, já habituada à rotina de expulsar cidadãos notivagos e incautos.

- Obrigado. Estava com um familiar quando ficou escuro... já deve ter seguido para casa. Talvez seja melhor ir também andando.
Marco, não gostava que o considerassem criança preferia alinhar no tratamento infantil como forma de se desenvencilhar mais depressa das situações incómodas. 

- Moras longe e precisas de companhia?

- Moro já ali, na Rua do Cabo, junto à Saraiva de Carvalho. É perto. Obrigado.

E dirigiu-se em passada larga até ao exterior do Jardim.

- Adeus jovem!
Despediu-se o segurança que se encaminhou atrás dele mas de olho em todos os recantos por explorar.

Marco sentiu-se orgulhoso por ter escapado. Atravessou para o centro da rotunda e olhou bem alto na expectativa que um farolim o orientasse novamente.


A rota é sempre descoberta!
Publicada por alphatocophero - 27 de março de 2014

Marco, MARCO, MARCO!

Acordou, a transpirar...

Um sonho? Realidade?... As memórias da noite estavam ainda cravadas na sua pele... Levantou-se e vestiu o robe...

- Já vou mãe...

Na cozinha. O pão fresco sobre a mesa, a faca e a mensagem...

"Fui a casa da Lu, tens queijo fresco, no frigorífico, beijo, Mãe..."

Estava oficialmente louco! O seu coração começou a bater de novo descompassado. Uma sensação sinistra... Bebeu um copo de leite num trago e fechou-se de novo no quarto. Não acendeu a aparelhagem como de costume... o silêncio embora desconfortante pareceu-lhe o único refúgio.

Pedaço de papel na mão, caneta na outra.... tremendo...

E começou a escrever:

"Sou um puto... Bolas sou um puto! Que se passa comigo?? Que sonhos são estes? Porque surgi do nada no meio de tudo! Porque pareço mais crescido que todos aqueles que estão à minha volta, porque é que estas coisas só acontecem a mim, a mim, a mim, estou a falar contigo, MARCO.....  ziiiccrshhh, contacto, contacto, já não te dominas, ... só tenho 11 anos... 13 MARCO; 13... zrrrsshh, MARCO estamos a falar contigo, MARCO; MARCO; MARCO!!!!!...

MARCO!

Marco, MARCO, MARCO!

Acordou, a transpirar...

Um sonho? Realidade?...

Levantou-se e vestiu o robe...

- Já vou mãe...

De soslaio viu o papel em cima da mesa...

"TAREFAS:

- Comprar sumos para a festa de Sábado (Baldaram-se 2, somos só 13 (temos pena), compram-se 3 litros).

- Visitar o Miradouro da Graça

- Andar no elétrico 28 pela primeira vez

- Ir ao largo Camões ter com a Jéssica.

- Andar no elevador da Bica"

Um ar frio gelou-lhe a nuca...

A última linha estava escrita em maiúsculas... Não se lembrava de a ter escrito.

"AQUILO QUE NÓS SOMOS, É O ESPELHO DO QUE SEREMOS."

6 passadas... na viagem da vida
Publicada por alphatocophero - 27 de março de 2014

18h.... e 13.... 13 minutos!

O eléctrico cruza estranhamente veloz na porta de um café na baixa... A memória fugidia de uma tertúlia passada e contudo tão presente cruza-lhe o cérebro, no fundo cortando um pouco o enfado prolongado dos últimos 10 minutos. Aqueles minutos após o casal, ainda esbaforido de uma corrida, se ter sentado pelos lados da Graça no banco à sua frente e que, desde esse momento, se limitavam a trocar um olhar magnético... Apaixonados certamente... Sem paciência para estas lamechices.

Solitário, sempre fui. Roupas negras, olhar fugidio, faço agora as curvas da memória que me levam ao largo Camões. Último semáforo, deixo os pombinhos... Parvos!... Momento de remorso, pobres seres toldados pelas asas da paixão... certamente conhecem-se à pouco tempo.

Olho para a estátua no centro da praça... Por momentos vejo uma instalação insuflável ali no meio... gritos entusiasmados, o erguer de uma ginja no quiosque, ou apenas um ser estranho e risos à volta... Flashes de memória, idiotices cruzadas.

Percorro sem sentido algum agora a calma rua. Estranhamente tão diurna... As memórias que tenho dizem-me ser sempre noite aqui. Lisboa sempre foi noite neste canto, como se o sol nunca tivesse banhado estas vielas. Mas ás vezes é anoitecer... E agora ainda há luz.

Lembro-me de uma melodia... Qualquer coisa com "carcaças de carros"... Sorrio estupidamente... Ao ver uma carcaça dependurada... De metal amarelo, ou não será metal.... Ou será Heavy Metal....

Não sei... Estaco... 18 e 30... toca uma campainha... O estranho eléctrico que é elevador, ou é elevador que é eléctrico arranca... E uma faísca salta luminosa!!

Por demais luminosa... trás relâmpagos, traz trovões, traz um apagão, traz uma estátua, traz um coreto, traz de novo aquelas vozes na noite escura que são eu, mas não sou eu, trazem de novo o mistério e atiram-me inconsciente para o chão... 18 e 30 e não sei se são 30... se são 11 anos, se são o 13 de memórias se são o 5 ou o 6...

A viagem não acabou... Começou aqui em Lisboa!

Sentires
Publicada por Fanghua CS - 31 de março de 2014

São 9 horas. Lá fora a chuva cai como se a Primavera se tivesse esquecido de sussurrar ao vento a sua chegada. Cá dentro são 8 horas, pois o meu corpo (tal o tempo em Lisboa) ainda não está a funcionar em horário de verão.

Deixo-me ficar imóvel, de olhos fechados, sentido o calor do édredon na pele e o som da chuva a cair nos beirais. Esta é a minha hora preferida do dia. Aqueles minutos em que a memória ainda não despertou e que, apenas por momentos, não tenho nome, história, ou futuro. Apenas sou. Imóvel. Sentindo. Mas no segundo seguinte, tudo me chega à consciência como uma onda gelada. Pedro. Um nome de pombo. Um nome que não pertence a Lisboa, mas que está gravado por toda a cidade. No miradouro da Graça. No 28. No Camões… 

Vejo-me novamente no elétrico. Estamos sentados lado a lado e os olhos de Pedro brilham enquanto absorve todas as histórias que lhe conto sobre as ruas onde vamos passando. A pouco e pouco começa a contar-me a sua viagem por Portugal e sinto-o relaxar. Quando chegamos ao Carmo e pego-lhe na mão.

- Anda daí! Vou levar-te ao teu miradouro! – Digo, enquanto o puxo para sairmos do elétrico.
- Meu?
- Miradouro de S. Pedro! É por aqui.
Enquanto subimos a Rua da Misericórdia o céu vai-se tornando cada vez mais carregado. O final de tarde trouxe consigo nuvens cinzentas que rapidamente cobrem o céu.
- Sua Santidade… o miradouro!!!
Pedro ri-se enquanto os seus olhos tentam absorver a imensidão de Lisboa que surge diante de nós.
- Uau! Tanta beleza, tanta história…tantas estórias misturadas debaixo dos nossos olhos. Como um puzzle de vidas que encaixam para se tornar em algo maior. – Exclama maravilhado.
- E agora também cá está a nossa. Vês ali o miradouro da Graça? Ali estivemos nós, há poucas horas…
- Sim. Ali eramos estranhos.
- E aqui, o que somos? – Pergunto, olhando para o seu rosto ainda perdido na beleza da paisagem. O ar está tão carregado de eletricidade que torna difícil a respiração.

E de súbito, um clarão rasga o céu mesmo acima do Tejo e um barulho ensurdecedor traz consigo um dilúvio gelado. Não consigo conter uma gargalhada sonora. Perdeu-se o momento… Pedro olha-me meio surpreendido.
- De que ris?
- O S. Pedro não teve misericórdia de nós! – respondo e ambos rimos da chuva e de nós próprios.
Mas o riso de Pedro depressa desaparece, como se uma cortina tivesse caído sobre ele. Os seus olhos verdes transmitem uma dor tal que ferem.
- O que se passa, Pedro?
- Lúcia. Tu fazes-me sentir. Eu não quero sentir. Não posso sentir. Deixei tudo para trás e quando pensei que já estava bem, tu apareces e mudas tudo. Sentir só nos faz mal. Sentir dói. Traz consigo morte, vazio e saudade. Desculpa, mas não posso ficar.
O meu coração bate tão forte que parece que o sinto a sufocar-me. Pego-lhe na mão e coloco-a sobre o meu peito.
- Sentes? Estou viva. Estou aqui e também sinto. Nós não somos passado, Pedro. Aquilo que somos é o espelho daquilo que seremos e não do que já vivemos.
Só consigo ver os seus olhos e ouvir o bombear descompassado do meu coração contra a palma da sua mão. Sinto que Lisboa foi levada pela chuva e que apenas nós existimos neste momento.

O som da campainha traz-me de volta para o presente. Dois toques. É a Aurora. Levanto-me da cama e apanho o robe de cima do cadeirão. O que será que se passa para a Aurora estar aqui tão cedo? Corro a abrir a porta.
- Bom dia Lu!
- Bom dia, irmã! O que se passa?
- Desculpa acordar-te tão cedo, mas temos de falar. Estou preocupada com o Marco…Não sei se é da idade do armário ou não, mas o puto anda muito estranho!

Idade do armário
Publicada por APC - 28 de abril de 2014

Lúcia, ainda enrubescida e ofegante das memórias que há muito pouco tempo brincavam nos seus pensamentos, ficou instantaneamente pálida e … como se todo o seu sangue se tivesse congelado em simultâneo!

- Entra….. herg! Bom dia! – disse, enquanto concentrava todas as suas energias em manter um aspecto sereno – Entra, vou fazer um chá!

Aurora notou um certo desconforto na irmã, mas não conseguiu identificar a sua origem.

- Tens companhia? – atirou à queima roupa, afinal eram as duas adultas, e apesar de não ter crescido juntas, da diferença de idades, e de certa forma não terem a cumplicidade que muitas irmãs partilham, eram ainda assim bastante próximas, e poder-se-ia dizer que não guardavam segredos uma da outra.

- Não… - respondeu Lúcia com a voz, ainda, um pouco intermitente – Ainda estava a dormir. Quer dizer, ainda estava na sorna na cama, porque já tinha acordado há um bom bocado… Mas não me apetecia levantar! Deve ser da mudança de hora! – Lúcia sorriu para a irmã e tentou parecer um pouco mais desperta – Senta-te enquanto faço o chá! Earl Gray, ou preferes outra coisa?

- Desculpa – respondeu a irmã! – Achei que já estavas acordada, acordas sempre cedo! Por mim Earl Gray é perfeito, bem sabes…

Lúcia encheu uma cafeteira de água e ligou o gás do fogão, tirou um pouco de pão do dia anterior do armário e cortou em fatias para torrar… Mas enquanto cortava as fatias de pão o seu pensamento voava para muito longe daquela cozinha! Mas para uma cozinha também, mais precisamente para o dia em que a avó Lúcia a foi buscar à terra para vir morar para Lisboa… Mais precisamente o dia em que nasceu o Marco! Lúcia tinha seis anos, e a sua mãe ficara muda de um momento para o outro, não podia continuar a viver naquela casa! Quer dizer, poder podia, mas não era certamente o ambiente indicado para educar uma criança, e sendo assim a avó Lúcia foi recolher a neta com o mesmo nome e criou-a como se fosse sua filha! Lúcia só percebeu o porquê da mudez da mãe na noite em que morreu a sua avó… Lembra-se como se tivesse acontecido na noite passada, alias o normal é acordar a pensar que acontecera ainda na noite passada e a relembrar palavra por palavra, suspiro a suspiro as últimas confissões da avó… Lúcia voltou um pouco mais tarde da escola nesse dia, porque tinha ficado na malandrice com o João, que era o seu namorado na altura. Chegou a casa e encontrou a avó na cama, o que não era nada habitual! Aliás, nunca tinha acontecido! Ao ver aquilo, Lúcia, a neta, uma jovem de 17 anos, com algo mais que hormonas a circular no seu sangue ficou claramente transtornada, e talvez até um pouco paranóica. A avó descansou-a a dizer que estava tudo bem, que era certamente culpa da tempestade que se ia fazer sentir nessa noite… Lúcia fez o jantar, e sentou-se ao pé da cama da avó, ainda sem saber, que estavam a partilhar a última refeição juntas. Naquela noite a avó contou-lhe tudo. Tudo o que aconteceu, contou-lhe porque razão a sua mãe ficara muda, e porque é que Lúcia teve de vir morar para Lisboa… Lúcia lembra-se de cada palavra… E do último suspiro da avó, com ele apagaram-se as luzes, não só daquela mulher de mãos ásperas e coração mole, mas de toda a cidade e de mais de metade do país… Lúcia não chorou, mas ficou triste e as nuvens escuras que invadiram o seu olhar nunca desapareceram completamente, e se olharmos com atenção ainda podemos ver bem lá no fundo, depois do olhar luminoso como que uma bruma, uma opacidade… Ainda podemos perceber o peso de uma nuvem escura no horizonte de um radiante dia de sol!
E aquela água que lentamente vai levantando fervura dentro da cafeteira é como se fosse dentro de Lúcia… Como se fossem todos estes pensamentos a agregarem-se em minúsculas bolhas de ar que crescem e logo saltam pela tampa… E tudo isto borbulhava cada vez mais intensamente na sua cabeça… Será que a irmã sabia que ela sabia? Porque é que lhe veio pedir conselhos sobre o filho a ela?

Porquê a mim, se eu nem tenho filhos? Aliás, sou praticamente da idade do Marco… OK, sou 6 anos mais velha… mas seis anos não são nada… Nem conheço ninguém, para além da Aurora, que tenha filhos… Ela certamente sabe mais de miúdos que eu… Eu nem nunca tive um animal de estimação… quer dizer tive uns quantos namorados, mas esses não contam, pois não? E por “uns quantos” não quero dizer muitos, não se ponham já com ideias… Tive a quantidade certa… OK?

A água da cafeteira entrava estava agora a ferver violentamente, Lúcia, enquanto colocava o chá, perguntou à irmã:

  • O que é a idade do armário?
Pôr-do-sol no Adamastor
Publicada por APC - 28 de abril de 2014

E céu tinha voltado a ficar limpo, mesmo a tempo de apreciarem o pôr-do-sol no Adamastor, mas ainda não tinha chegado a noite e Lúcia teve que ir embora, levantou-se, beijou-lhe intensamente a face esquerda e disse “Adeus!” , e foi… Leve como quando tinha chegado!
A Lúcia foi-se embora, quase tão abruptamente como tinha entrado na vida dele… O céu tinha voltado a ficar límpido, mas nem por isso a mente de Pedro estava mais desanuviada! Pedro estava sozinho naquele miradouro! Sozinho não é bem o caso, ficou rodeado de uma multidão de pessoas de todos os tipos, idades e cores! Uma mistura surreal como se tivessem sido escolhidos a dedo para representar as várias partes da sociedade lisboeta, uma espécie de mini-arca de Noé, mas de pessoas, e de Lisboa. Enfim, uma pletóra de pessoas… Pedro gostava muito desta palavra: Pletóra! Soava-lhe bem…  Mas, mesmo estando rodeado desta pletóra de pessoas, Pedro estava sozinho, agora que Lúcia se foi embora, e que o céu voltara a ficar limpo… Sozinho, não! Estava ele; o Adamastor; as projecções minúsculas dos humanos que tentavam conquistar e subjugar o  Monstrengo; o final do pôr-do-sol a projectar tons avermelhados nas fachadas húmidas dos prédios e as sombras longas das colinas; o formigueiro na sua face esquerda e todas as memórias da tarde que agora terminava! 
E Pedro olhava todas estas pessoas como se estivessem ali apenas para preencher o vazio, como se aquele miradouro estivesse sempre ocupado pelas mesmas pessoas, ainda que fossem caras, corpos e almas diferentes! Era a primeira vez que estava ali, mas era-lhe muito fácil imaginar tudo isto!
A dada altura uma miúda com tanto ar de inocente como de marota sentou-se ao seu lado e tentou convencê-lo de que se conheciam de algum lado! Enquanto falava de uma imensidão de locais onde Pedro nunca estivera a sua mini-saia subia-lhe pelas pernas descuidadamente deixando entrever onde acabavam as meias! Havia alguém que dançava atrás dela, ouviasse o som de uma guitarra, e algumas das pessoas começavam a vestir-se e a abandonar a praça como que oficializando o final do pôr-do-sol… E, Pedro olhava para tudo isto com a mesma indiferença que as folhas de um sobreiro olham para a passagem do inverno!
Os seus pensamentos, certamente hipnotizados pelo malabarista de fogo, viajavam por toda a aquela tarde! Pela primeira vez que viu Lúcia: a entrar, quase descoordenadamente, no miradouro da Graça… Poderiam ter trocado o primeiro olhar naquele momento, mas Pedro desviou os olhos como se tivesse medo de que Lúcia estivesse, também ela, a olhar para ele… Como se a troca de olhares o pudesse fulminar num segundo… Num piscar de olhos! E depois, a rapariga pôs-se a dar de comer aos pombos, ele, Pedro, odiava esses ratos voadores, mas não teve tempo de pensar, pois não? Num segundo aquela miúda precipitou-se sobre ele, e levou-o a passear por aquelas colinas! E não se limitou a precipitar sobre ele, precipitou-se sobre toda a sua vida até ao momento. Reduziu, num breve segundo, toda a sua existência naquela tarde de verão em Lisboa, como se toda a sua vida, o seu propósito fosse o de estar ali naquele momento a receber umas gotas de vinho do porto nos seus lábios e que agora lhe faziam adormecer a parte interna das bochechas com uma espécie de formigueiro que não conseguia descrever… E lembrou-se de tudo isto… Da forma abrupta com que ela lhe agarrou a mão e arrastou para o eléctrico, e como lhe mostrou numa tarde mais sobre ele, do que ele imaginava saber… E daquele momento no miradouro de S. Pedro de Alcântara… Sim, aquele momento! Percebia agora, com demasiada clarividência, a electricidade daquele momento, e na sua cabeça uma pergunta baloiçava:

- Porque não a beijei? Porque raio é que não a beijei logo!? Devo ser mesmo parvo! E ela deve ter ficado a pensar que sou um tótó… Ficou com certeza!!!

Tinha decidido que precisava de uma viagem de procura interior depois do que acontecera no Porto, e por isso tinha viajado por todo o país, e uma bela parte da Europa… Um viagem! Uma procura! Um encontro consigo mesmo! Mas não era nada disso, pois não?
E olhava a paisagem de vez em quando como que tentando entreter os seus pensamentos para não chegar à conclusão óbvia! E olhava a margem sul, e aquela ponte que a unia a Lisboa! Olhava para estas duas margem, o lá e o cá, o rio que se entrepõe, e a passagem estreita, e pensava como eram diferentes as margens do Tejo e do Douro… Como teve de chegar aqui neste momento, e conhecer uma rapariga num miradouro de Lisboa para constatar o óbvio, não é?

- Foi preciso tudo isto para saber que não estava a viajar para lado nenhum, não é? Foi preciso tudo isto para saber que estava apenas a fugir…


Mais logo
Publicada por R.B. NorTør - 12 de maio de 2014

"E que isto te sirva de lição" ouviu antes da voz lhe desferir um último murro e um impropério. Não tinha passado muito tempo desde que, perdido nos pensamentos do que fizera e não fizera com Lúcia, havia sido interpelado por um grupo, três, ou quatro, ou mais que o convidaram a dar um passeio. Não lhe apetecia. Não lhe parecia que fosse um passeio. Não era realmente um pedido.

Com o sangue a escorrer-lhe pela cara sem saber bem donde, foi deixado ali. Pensou na polícia, mas a dor interrompeu-lhe o pensamento. Pensou no careca do boné, e novamente a dor que o interrompeu. Parecia que lhe faltava alguma coisa, mas parecia ter tudo. Não haviam ângulos esquisitos, não havia nada que indicasse o que se tinha passado. Nada lhe dizia o porquê, só aquele "tem cuidado" seguido de soco, o "voltas a fazer isso" e um pontapé que não deixava ouvir o quê. Ficou ali, deitado, imóvel a ver o sol pôr-se no alto das paredes sem janelas de um beco, numa colina, enquanto pensava no porquê e tentava lembrar-se de todas as caras. Todas exepto a do careca do boné, essa não esqueceria tão cedo.

"Está tratado." Disse ao telefone Rudi. "Tens a certeza?" perguntou uma voz de mulher do outro lado. Irritou-se com a desconfiança. "Se eu te estou a dizer que está tratado, para quê a pergunta?" atirou, a voz a subir-lhe mais do que queria. Detestava levantar a voz para Lurdes, mas ela conseguia o que poucos conseguiam, tirá-lo do sério. "Só pergunto para ter a certeza. Vens cá ter mais logo?" e ele disse que sim. Já sabia que mesmo que dissesse que não, ao final da noite ia lá ter.

Morrer de amor
Publicada por Fanghua CS - 26 de junho de 2014

Estava deitado sobre as pedras da calçada. O céu vestia-se de véus de tons de violeta e safira e as primeiras estrelas despertavam, ainda tímidas e baças. Uma aqui… três mais adiante. “Quem diria que ainda há pouco chovia…”, pensou para consigo e não pode deixar de se admirar com a quantidade de ideias parvas que nos passam pela cabeça, quando nos encontramos em situações limite. Recordou-se que já não contemplava as estrelas há tanto tempo, que lhe parecia ter sido numa outra vida. 

A sua atenção concentrou-se no jorro que lhe percorria a face direita, desde a testa até ao pescoço. Um rio quente e pulsante que lhe enchia as narinas de um aroma a ferro e lhe percorria a pele como a caricia de uma amante inconstante, ora suave e doce, ora lancinante como a onda de dor que sentia vinda da ferida que tinha na testa. “Que dia estranho…nunca imaginei que um dia em Lisboa pudesse ser assim”, pensou para consigo. “Num só dia vivi e senti mais do que em todos os dias somados destes últimos 5 meses que estive em viagem…aliás, penso hoje vivi mais que em todos os outros dias…”. 

À medida que a dor se foi tornando cada vez mais intensa, começou a perder o controlo do fio dos pensamentos, delirando livremente pelo céu estrelado, sentindo o toque de Lúcia, os seus olhos nos seus, a promessa dos seus lábios que ficara por cumprir. Começou a confundir dor com prazer e entrou em êxtase enquanto o céu de Lisboa girava sem parar sobre os seus olhos. “Não há maior honra que a de morrer por amor!”, citou Florentino Ariza como se ele próprio tivesse encarnado o personagem. Segundos antes de perder a consciência, conseguiu ainda distinguir um vulto de homem que se debruçava sobre ele e ouviu-o dizer: “Não vais morrer de amor, Pedro...pelo menos hoje!”


Acordou incomodado pela luz do sol que lhe entrava pela janela. Abriu os olhos com um esforço sobre-humano. A sua cabeça estava vazia, à excepção da dor aguda que partia da testa e que se espalhava por todo o seu corpo. Olhou à volta e percebeu que estava numa enfermaria de um qualquer hospital. A sua atenção fixou-se nas paredes e no tecto, manchados, com grandes lascas de tinta penduradas como pétalas de flores de velório. As fileiras de candeeiros incandescentes, com aspecto decrépito e o chão de azulejos partidos em tudo contribuíam para aquele ambiente de desolação. Tentou levantar a cabeça para tentar perceber onde estava e reparou que não estava sozinho. Haviam outras camas, com outros homens de feições indistintas e de tal forma iguais ao ambiente da sala que quase se poderia dizer que ali tinham sido colocados propositadamente, para tornar o ambiente ainda mais fúnebre.
Pedro fez um esforço por se levantar, mas a dor tornou-se insuportável e não conseguiu conter um grito. Uma enfermeira que passava no corredor apressou-se a chegar à sua cama.

- Olá Dr. Pedro! Deixe-se estar sossegado que precisa de recuperar! – Disse-lhe num tom maternal, enquanto o empurrava de volta para a almofada.

- Onde estou? O que me aconteceu?

- Está seguro, não se preocupe. Estamos no Hospital de S. José. Se se portar bem, estará fora daqui amanhã à tarde, mas até lá nada de aventuras!

- Como cá cheguei? Não me consigo lembrar como cá vim ter…

- Pois…isso, nós também gostávamos de saber! Foi encontrado inconsciente, no chão, ao pé da porta das urgências por volta das 21 horas de ontem. A polícia esteve cá, mas não conseguiu averiguar grande coisa, porque assalto não foi! Não senhor, que ainda tinha os documentos e o dinheiro todos consigo! Tentámos avisar que aqui estava, mas não conseguimos localizar nenhum dos seus familiares. Tem alguém a quem quer que ligue?

Não havia, de facto, ninguém da família que quisesse contactar. Nos últimos anos, com o trabalho na consultora e a depressão cada vez mais incapacitante de Rita, Pedro tinha descoberto a desculpa ideal para se afastar da família. Não tinha tempo para ir a casa, o emprego era exigente… a namorada não estava em condições de receber visitas. No fundo, não suportava aquela dinâmica de conversas superficiais, de afectos vazios, de conversas nunca tidas. No dia do funeral decidira pôr termo à relação. Com um breve adeus, desligou o telemóvel, pegou na mota e fez-se à estrada, deixando o Pedro que existira até então, debaixo de terra, junto com o corpo de Rita. A última coisa que desejava era voltar a falar seja com quem fosse que tivesse pertencido a essa outra vida. “Não somos passado. Aquilo que somos é o espelho daquilo que seremos e não do que já vivemos”. 

-A Lúcia! Sim…Lúcia! - Queria falar-lhe. Queria pedir-lhe desculpa pela sua fraqueza. Queria beija-la finalmente. Queria beijá-la para toda a eternidade! 

E foi nesse instante que Pedro se apercebeu que Lúcia tinha partido tal como tinha chegado: sem aviso, sem contexto, sem contacto.

Destinos traçados
Publicada por ajspatricio - 4 de agosto de 2014

Pedro adormeceu sobre os lençóis brancos isentos de culpa do hospital...as horas passaram tão depressa que nem deu conta do seu inglório presente. Preocupado, Pedro estava realmente preocupado. Havia algo que o inquietava, ainda escutava um burburinho de corredor, mas por estar demasiado “pedrado” não se conscientizou com aquele inferior momento. Estava mais concentrado na busca do seu subconsciente e, procurava quase insano a resposta aos seus pecados, ou a falta deles, quiçá. Perguntava-se sobre aquela abordagem tão evidente, só algo de ruim poderia vir daqueles lobos de rua...A voz da enfermeira acordou-o:

Pedro: Lúcia? És tu Lúcia?

Enfermeira Maria: Descanse Dr. Pedro, ainda está no hospital, sou a enfermeira Maria. Vá, agora durma um pouco para recuperar.

Pedro adormeceu de novo e pensava, naquele sorriso, daquela voz, daquela paixão louca em lava que fervilhava dentro de Lúcia como se não existisse o amanhã. Sentia-lhe o cheiro ainda nas veias, no seu sonho consciente estava com ela...queria-lhe certamente, o ósculo que o vento lhe levara no silêncio do corpo dos amantes, onde os lábios quebram a barreira do Universo e as mãos, numa só, desenham o equilíbrio do sangue. E agora?

Quando Pedro acordou, já eram 17 horas do dia seguinte.

Enfermeira Maria: Como está Dr. Pedro? Sente-se bem?

Pedro: Sim, acho que sim.

Enfermeira Maria: Então deixo-lhe aqui um lanchezinho para ganhar as forças. Quando estiver pronto vá ter comigo à recepção que precisamos de falar consigo.

Pedro: Claro, obrigado.

Pedro apressou-se para sair daquele lugar estranho, tinha poucas certezas, mas um que tinha é que não gostava de hospitais, aquele cheiro característico percorria-lhe as artérias do sofrimento.

Enfermeira Maria: Foi rápido Dr. Pedro, sente-se aí um pouco que já vou ter consigo.

Pedro: Obrigado.

A enfermeira Maria, acompanhada por outras enfermeiras comentava que o Dr. Pedro tinha sido trazido de uma forma misteriosa na noite anterior em mau estado.

Pedro, intrigado desconjuntou a sua carteira em mil pedaços, mas não faltava nada, nada, mesmo nada de nada, como se ele tivesse sido arremessado de um miradouro qualquer. Sim, Pedro estava bastante intrigado, no entanto, lembrava-se da voz do homem antes de acordar naquele hospital: “Não vais morrer de amor, Pedro...pelo menos hoje!”
Uma voz que não conhecia, uma voz misteriosa que sabia o seu nome, uma voz que começava a ganhar volume na sua cabeça...

Enfermeira Maria: Dr. Pedro? Dr. Pedro?

Pedro: Sim, desculpe, estava ausente.

Enfermeira Maria: Não se preocupe. Precisamos da sua assinatura para a alta.

Pedro: Sim, sim.

Em segundos assinou a papelada e pousou a esferográfica no balcão em pedra mármore já gasta pelos anos consentidos. Merecia restauro, pensou Pedro, mármore daquele já se vê pouco. Respirou e disse:

-       Pedro: Boa tarde minhas senhoras e muito obrigado.
-       Enfermeira Maria: Boa sorte Dr. Pedro, boa sorte!

Quase a chegar à porta, meteu a mão no bolso e sentiu algo estranho amarrotado. Era um guardanapo de pastelaria, e dizia:

-       Vem ter comigo, Rua Morais de Soares, 135 – 2º Esq. Lúcia.

O coração de Pedro parou sobre um desenho onde as vicissitudes da pele trespassam a pigmentação da própria cor, numa paleta onde a magia nasce  e saboreia os contrastes da tinta alterada pelo amor; submissa à vontade do mestre, a tela absorve a magia do ser e embebeda-se no percurso incerto do destino. São as tibiezas da pele que traduzem a natureza ao universo e Pedro, sorriu.

Descoberta
Publicada por Chas. - 4 de agosto de 2014

- A idade do armário é possivelmente o período mais entrópico do esquentamento da cafeteira. A conquista dos limites emocionais e físicos, a descoberta da identidade, num conflito constante entre as duas fases. Para crescer é preciso gerir e regular a combustão para que não se entorne demasiada água e se apague o lume da vida prematuramente... Os limites parecem excentricidades aos olhos dos adultos mas eles são os mais genuínos! - respondeu Aurora enquanto ajudava a irmã a desligar a cafeteira nervosa.
- Obrigado irmã por adoçares o meu intelecto com o chá da vida.
- De nada. Curiosidade... Estás na idade tardia do armário? A ver pela violência da fervedura deves ter regressado à puberdade... Quem te esquenta a cafeteira?

Um silêncio pautou enquanto oxidavam as folhas aromáticas. Lúcia ergueu os olhos na direção da irmã - uma lágrima solitária e salgada caía na sua chávena criando um turbilhão de amargura.

- Encontrei o fio condutor da minha vida à mesma velocidade que o perdi. Esta palpitação que alimenta o nervosismo da minha existência é único... Errei ao tê-lo deixado cair com uma  leveza eléctrica!
- De quem falas tu? - perguntou Aurora completamente surpresa com a desinibição emocional da irmã.
- Falo da minha luz, do meu calor, do meu odor, do meu sabor... Que a minha estúpida razão deixou para trás. A combinação de metade da minha essência, ele, Pedro! 
A chávena tornará-se agora um depósito saturado de testemunhos. Aurora, emparelha suas mãos nas da irmã e com ternura e sabedoria, tranquiliza-a.
- Nem tudo está perdido. Ficaste com algum contacto? 
- Não! Saiu abruptamente.
- Assim é mais difícil mas... - o toque do telefone, electric eye, de Judas Priest, mais uma das partidas de Marco, interrompe o raciocínio de Aurora - é o teu sobrinho, o que terá feito para ligar a esta hora?

"Sim filho?! Que se passa? Encontraste quem? Hospital? A tua tia está aqui... Como disseste que ele se chamava? Está em que hospital? São José... mas está bem? Achas que foram eles? Calma, vá até logo filho. Txau!"

Lúcia petrificou o seu olhar no horizonte do corredor enquanto Aurora lhe batia na face.

- Lu, vá! Não entres em choque, explico já o que acabaste de ouvir - nisto Lúcia regressa à realidade fixando o olhar no leito ternurento e sábio de sua irmã - Marco encontrou um rapaz em mau estado, tinha sido espancado numa esplanada e deixou-o no hospital São José. Aparentemente ele falou numa Lúcia e o teu sobrinho achou que fosses tu... Mas acho que me oculta algo.
- Não quero acreditar na coincidência... Mas e quem eram os eles? Ele adiantou mais alguma coisa sobre o seu estado de saúde?
- Sabe que está vivo porque o entregou assim e deixou-o na porta das urgências. Eles... Bem... É uma longa historia! Vamos é saber do rapaz!
- Claro... Mas quero saber tudo, não quero mais segredos!

Rapidamente estavam na rua, desgovernadas na procura do amarelinho de luz verde... Tardava mas lá se aproximou um Mercedes 220 CDI nº 1989 de setembro de 2000.

- Bom dia senhor taxista, hospital de São José por favor!
- Bom dia meninas, com certeza, ele precisa de vocês!
As irmãs, arrepiadas, seguiram a viagem caladas como a cal. 
- Chegámos!
- Quanto foi a corrida? - solta Lúcia.
- Nada menina! Fiquem em saúde.
- Mas... - Aurora acotovelou a irmã - muito obrigado! - e saíram do táxi à porta das urgências.


Borboletas na barriga
Publicada por ajspatricio - 24 de setembro de 2014

Borboletas na barriga...imensas explosões no peito que fariam girar o mundo um milhão de vezes e, um sorriso capaz de derrubar as barreiras do tempo. Era assim que Pedro se sentia: apaixonado, sim! Ele estava apaixonado. Inspirado, já tinha alugado um apartamento na Lua por tempo indeterminado, vivia no epicentro da sua existência, enfeitiçado pelo olhar que permanecia na sua memória: dançava nas estrelas com Lúcia, dançavam juntos...
Pedro já não caminhava, corria sobre os carris do eléctrico como uma bala, sentia as gotas de suor a embater no ferro com violência desmaterializando o seu reflexo. Exausto, ainda morro de amor antes de beijar os seus lábios – pensava Pedro sempre que os seus músculos gritavam de dor, gritavam por socorro! Ai meu Deus!!! Dá-me forças caramba!!! – Gritava Pedro, já em desespero.

Ainda estava longe, muito longe. No fundo Pedro sabia que jamais conseguiria manter aquele ritmo e chegar até Lúcia com vida. Precisava de parar, era urgente parar. Pedro parou, ainda longe do seu destino, tão longe que o fez pensar na borrada de não esperar pelo autocarro ou, pelo táxi, que não apareceu naquele crucial momento. Que raiva! – gritou Pedro com raiva, imobilizando um olhar indiscreto de uma senhora, já de idade avançada, que passava devagar.

Velhinha: Sente-se bem meu filho? Perguntou a senhora de idade.

Pedro: Sim, simmmm. Desculpe, estou exausto.

Velhinha: Saia do meio da estrada, venha até ali ao banco de jardim um pouco. Ai como está meu filho, encharcado até aos ossos da pele.

Pedro respirou fundo e enquanto caminhava junto da senhora até ao humilde banco de jardim pensava que, estaria certamente perdido. Já não sentia nada, apenas a dor reivindicava o direito de presença. Que fiz eu? – falava Pedro furioso consigo.

Velhinha: Vá, meu filho, fique aqui que eu vou ali à mercearia comprar umas bananas e já venho ter consigo. Não saia daqui! – falava a senhora de idade à medida que se afastava.

Pedro já não ouvia nada, deitou-se no banco, olhou o céu a sentir terlintar dos seus músculos e pensou no quanto estava exausto, no surreal o pulsar do sangue nas veias, parecem loucas as curvas das articulações que se desenham em precipícios verticais, no limite profundo da mente e do desejo. Em segundos, a respiração entra num outro estado, numa outra razão de incandescência, onde permanece em perfeita lucidez aguda, superando cada patamar pré-definido nas gotas de suor que deixam a pele para sempre. Outro concerto, outro palco de marionetas desengonçadas, apenas em equilíbrio devido ao axioma da pauta cravada no corpo...

Velhinha: Vá meu filho, levante-se coma uma banana! – disse a senhora de idade.

Pedro: Obrigado. – disse Pedro enquanto se tentava endireitar naquele branco que já lhe parecia familiar.

Velhinha: Meu filho, já está a ficar com outra cara, assim já gosto mais, mas conta-me lá o  que aconteceu.

Pedro: Se soubesse...

Velhinha: Eu sei meu filho – interrompeu a senhora já de idade.

Pedro: Sabe? – perguntou Pedro com um ar espantado.

Velhinha: Sim, eu sei, esta vida já não me esconde os seus segredos, nem esse. O de amor que nos mata e que nos mantém vivos. Sabes meu filho, nem sempre fui velha, já fui nova e bela. Tive muitos pretendentes, mas apenas casei com um deles, o único homem que amei nesta vida e de quem tenho tantas saudades, tantas... – a senhora de idade chorou – Sabes meu filho, nesta vida, desenham-se cousas transcendentes, coysas que existem para além das coisas das cousas, que existem sobre os pilares do Mundo, numa frágil pétala onde sobrevive o coração que se eleva no beijo do vento e que se encantada pelo desejo do Sol enfurecendo as planícies desertas apenas para sorrir uma vez mais.

Pedro estava espantado a escutar a senhora já de idade, na verdade estava sem palavras e apenas conseguiu soltar umas curtas palavras.

Pedro: Como se chamava o seu marido?

Velhinha: Pedro, sim Pedro era o seu nome.

Pedro: Como eu, também sou Pedro.

A senhora já de idade sorriu, beijo-lhe a testa e afastou-se devagar, desejando-lhe boa sorte e muita coragem. Já a uns bons metros Pedro gritou:

Pedro: Como se chama?

Velhinha: Lúcia, meu filho, Lúcia.


Pedro sentou-se, não queria acreditar na coincidência e levantou-se em dois tempos seguindo em direção de Lúcia, a sua cara metade. Nada mais importava para Pedro, apenas a respiração sobre os cabelos negros de Lúcia que dociliza a fera do destino; choravam-lhe me as mãos destas todas as coysas que interruptamente teimavam em o afastar do seu destino, sentia-se capaz de derrubar as barreiras de fogo com o mármore da sua pele...

(In)consciente
Publicada por Chas. - 25 de janeiro de 2015

Capítulo anterior:
- Bom dia senhor taxista, hospital de São José por favor!
- Bom dia meninas, com certeza, ele precisa de vocês!
As irmãs, arrepiadas, seguiram a viagem caladas como a cal.
- Chegámos!
- Quanto foi a corrida? - solta Lúcia.
- Nada menina! Fiquem em saúde.
- Mas... - Aurora acotovelou a irmã - muito obrigado! - e saíram do táxi à porta das urgências.
- O que foi aquilo Aurora, como sabia o taxista? - Lúcia sentiu o mistério a adensar-se sobre todos os acontecimentos.
- Calma irmã. Lembras-te do telefonema do teu sobrinho?
- Lembro! O que tem?
- Ele tem alguns conhecimentos... uma longa história!
- Outra vez essa desculpa...
- Depois explico, não é fácil, é complexa, não dá para explicar agora....

As irmãs tinham chegado ao destino mas um estranho deja-vu apertou o frágil coração de Lúcia - como se tivesse viajado no tempo, quando acompanhou o corpo frio da avó à morgue - uma gotícula salgada escorreu-lhe pelo rosto e sorriu, contrariamente à recordação, a luz refractou esperança.

- Irmã, vamos entrar? A sombra das lembranças vieram à memória portanto o melhor é procurar algo que nos traga boas energias! - apertou a mão da irmã e puxou-a para dentro do Hospital.

São José era um museu hospitalar. Nas suas paredes cor de rosa, tão desgastadas pelas camadas de tinta, assim como pelas profundas fendas de dor, brotavam fetos e musgo, numa perfeita simbiose arquitectónica. Os azulejos retratavam Portugal, de Todos os Santos à sua edificação, a evolução da medicina ao longo dos séculos e as crenças religiosas.

A recepcionista parecia fria, sofrida de tanta constipação social - congelada no tempo, qualquer gripe emotiva seria convertida em morgue certa, mas ainda assim Lúcia tentou a sua sorte.

- Cara senhora, talvez nos consiga ajudar. A enfermeira Maria ainda está no seu turno?
- A enfermeira Maria... sabe o apelido?
- Maria Augusta, salvo erro.
- Claro, é a nossa chefe de enfermaria. Em que posso ajudar?
- Gostaríamos de falar um minuto com ela.
- Devo invocar quem?
- Lúcia.
- Lúcia, quê?
- Lúcia Lisboa.
- Bonito apelido!
- Não é o meu apelido é como ela me conhece.
- Como queira, vou ligar-lhe, um momento por favor.
- "Enfermeira Maria, está aqui uma senhora que queria ter um minuto do seu tempo... chama-se Lúcia Lisboa... eu indico. Certo. Obrigada. Com a sua licença." - a enfermeira Maria vem já ao vosso encontro. Entrem na sala à vossa direita e aguardem por favor.
- Muito obrigada senhora.
- Não é senhora, é Conceição - e sorriu, pela primeira vez desde que ali chegaram as desconhecidas.
- Obrigada Conceição, um prazer. 

A noventa graus estava uma porta com a placa, "Entrada proibida a estranhos", desgastada pelo tempo. As estranhas entraram numa sala com ar de cafeteria improvisada, pequeno balcão, algumas mesas de tampo de mármore e cadeiras de escola básica.

- Sentamos irmã? - Avançou Aurora.
- Sim, sentamos mas espera aqui que eu vou ali apanhar qualquer coisa para esquentar estes lábios frios. Duas bicas?
- Boa ideia! Sim, acompanhada com uma nata, por favor!
- Claro, duas! - e esboçou um sorriso de carinho.

As duas irmãs esperaram pouco tempo, após uns breves cinco minutos, ainda Aurora não tivera tempo para dar a segunda trinca no seu pastel de nata, ouviu-se no extremo oposto da sala uma voz familiar:

- Lisboa, há quanto tempo! Creio que seja a tua famosa irmã mais velha? - dirigiu-se a Lúcia com um sorriso na face e um brilho lacrimejante no olhar.

Maria era uma bela enfermeira, bem conservada, com curvas proporcionais, olhos de mel, cabelo preto liso, sardas ténues sobre a pele branca e lábios finos como pequenas gomas de tangerina. Apesar de dois anos mais velha foram outrora grandes amigas e confidentes na adolescência. Só há cerca de três anos é que congelaram a relação por causa de um conflito amoroso.

- Olá Maria, sei que não me tens visto ultimamente... Andei desaparecida. Precisei de me afastar para me conhecer melhor. A última vez que tivemos juntas foi há três anos?
- Sim, foi... por causa do João, desculpa. A culpa foi minha, devia ter percebido que ele ainda estava no teu coração. Devo dizer-te algo que não me deixaste na altura...
- Culpa minha por me ter desligado dessa grande amizade. Aquele rapaz não merecia tanto. O meu coração descobriu agora a verdadeira essência, na altura andava sem rumo e qualquer coisa me servia como acervo para o meu conforto emocional. Mas conta-me...
- Hum... pois bem, o João... ele era aquilo que tu sabes - um belo prato - e deixei-o assim que percebi que te tinha magoado. Achava que ele já não te dizia nada desde mais nova, desculpa. Tentei contar-te mas nunca mais quiseste conversar e acabei por desistir. Fico feliz por saber que agora encontraste o teu fio condutor. Conheço-o?
- O meu fio condutor... quer dizer, encontrei-o, perdi-o e entretanto soube que está aqui hospitalizado... uma grande história, terei oportunidade de contar pormenores. Ele foi espancado e trazido para cá pelo meu sobrinho.
- O Marco é teu sobrinho? Pois é, tu tinhas um sobrinho... filho da Aurora, agora faz sentido.
- Sim, é o Marco mas como tu o conheceste?
- Conhece o meu filho? Ele nunca me falou de si?! - rematou Aurora.
- Conheci-o após me ter afastado da Lúcia. Por coincidência comecei a dar-me mais com ele desde que ocasionalmente começou trazer pessoas para a enfermaria. É um bom amigo e um bom samaritano.
- Confirma-se que existe um Marco desconhecido aos meus olhos... mas avante, terei oportunidade de saber mais depois. Num desses internamentos está um jovem adulto chamado Pedro?
- Sim, chegou ontem um Pedro. Está na enfermaria sobre o efeito de fortes sedativos mas deve ter alta ainda hoje ao final do dia.
- Deve ser ele! Posso vê-lo?
- Hum... aquilo do rumo e tal é com este Pedro? Bem, ele está sedado e não deve estar acordado, acompanhem-me.
- Obrigada Maria, fico-te a dever esta. Deixa-me terminar a bica e vamos de seguida - enquanto dava o último trago do café segurou num guardanapo e escreveu: "Vem ter comigo, Rua Morais de Soares, 135 – 2º Esq. Lúcia".
- O que estás a escrever mana? - perguntou Aurora.
- É para o caso dele estar a dormir, não o quero perturbar nem obrigar a nada. Assim deixo um bilhete, se conseguir - sussurrou baixinho - pronta. Vamos?
- Sigam-me por favor.

Nos corredores frios, carregados de azulejos e de escadas de mármore, deambulavam alguns doentes numa insuflação de sofrimento prolongado. Aproximaram-se de uma sala mais arejada, com paredes de pladur, cores juvenis e piso de linóleo.

- Lisboa... desculpa, Lúcia. Nos velhos tempos era assim que te chamava. Chegámos! Hei-lo aqui, espreita pela janela. Como esperava está a dormir. Se quiseres podes entrar por um bocadinho.

Lúcia entrou rapidamente no quarto. Suas pulsações elevaram-se a uma pseudo taquicardia - até sentiu as pálpebras - as pupilas dilataram e lacrimejaram assim que tocou na mão do seu amado. Pedro tinha o rosto negro, uma sutura junto ao lábio e alguns arranhões na testa mas estava vivo. Sentiu-o agitado, murmurando, "Como eu, também sou Pedro", perdido algures num sonho ou pesadelo. Beijou a testa e sussurrou ao ouvido, "E o meu é Lúcia". Procurou pelo casaco, largou no seu bolso o guardanapo dobrado e fechou a porta do quarto. 

- Está ferido e um pouco moído mas parece-me que vai ficar bem. Havemos de combinar algo Maria. Prometo, sem ressentimentos. Temos muita conversa para pôr em dia. Ahh... e podes chamar-me Lisboa - e sorriu enquanto lhe entregava o seu contacto - é o meu número de telemóvel.
- Ficará sim, eu tomo conta dele até sair. Concordo querida Lisboa e terei muito gosto, anota o meu: 94 600 56 66.
- Obrigada Maria, mesmo obrigada e cuida bem dele! Não precisas de avisar que estive cá, ele seguirá o seu trilho, espero - respirou fundo, estava ansiosa e despediu-se com dois beijinhos.
- Prazer Aurora, haveremos de falar noutras ocasiões. Beijinhos.
- Pois havemos Maria. E já sabe onde me encontrar. Beijinhos.

As irmãs afastaram-se numa passada lenta, de quem alimenta a esperança em cumplicidade. Maria regressou ao quarto. Pedro acordou no preciso momento em que a enfermeira encostou a porta:


"Como está Dr. Pedro? Sente-se bem?"

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