quinta-feira, junho 26, 2014

Morrer de amor


Estava deitado sobre as pedras da calçada. O céu vestia-se de véus de tons de violeta e safira e as primeiras estrelas despertavam, ainda tímidas e baças. Uma aqui… três mais adiante. “Quem diria que ainda há pouco chovia…”, pensou para consigo e não pode deixar de se admirar com a quantidade de ideias parvas que nos passam pela cabeça, quando nos encontramos em situações limite. Recordou-se que já não contemplava as estrelas há tanto tempo, que lhe parecia ter sido numa outra vida. 

A sua atenção concentrou-se no jorro que lhe percorria a face direita, desde a testa até ao pescoço. Um rio quente e pulsante que lhe enchia as narinas de um aroma a ferro e lhe percorria a pele como a caricia de uma amante inconstante, ora suave e doce, ora lancinante como a onda de dor que sentia vinda da ferida que tinha na testa. “Que dia estranho…nunca imaginei que um dia em Lisboa pudesse ser assim”, pensou para consigo. “Num só dia vivi e senti mais do que em todos os dias somados destes últimos 5 meses que estive em viagem…aliás, penso hoje vivi mais que em todos os outros dias…”. 

À medida que a dor se foi tornando cada vez mais intensa, começou a perder o controlo do fio dos pensamentos, delirando livremente pelo céu estrelado, sentindo o toque de Lúcia, os seus olhos nos seus, a promessa dos seus lábios que ficara por cumprir. Começou a confundir dor com prazer e entrou em êxtase enquanto o céu de Lisboa girava sem parar sobre os seus olhos. “Não há maior honra que a de morrer por amor!”, citou Florentino Ariza como se ele próprio tivesse encarnado o personagem. Segundos antes de perder a consciência, conseguiu ainda distinguir um vulto de homem que se debruçava sobre ele e ouviu-o dizer: “Não vais morrer de amor, Pedro...pelo menos hoje!”


Acordou incomodado pela luz do sol que lhe entrava pela janela. Abriu os olhos com um esforço sobre-humano. A sua cabeça estava vazia, à excepção da dor aguda que partia da testa e que se espalhava por todo o seu corpo. Olhou à volta e percebeu que estava numa enfermaria de um qualquer hospital. A sua atenção fixou-se nas paredes e no tecto, manchados, com grandes lascas de tinta penduradas como pétalas de flores de velório. As fileiras de candeeiros incandescentes, com aspecto decrépito e o chão de azulejos partidos em tudo contribuíam para aquele ambiente de desolação. Tentou levantar a cabeça para tentar perceber onde estava e reparou que não estava sozinho. Haviam outras camas, com outros homens de feições indistintas e de tal forma iguais ao ambiente da sala que quase se poderia dizer que ali tinham sido colocados propositadamente, para tornar o ambiente ainda mais fúnebre.
Pedro fez um esforço por se levantar, mas a dor tornou-se insuportável e não conseguiu conter um grito. Uma enfermeira que passava no corredor apressou-se a chegar à sua cama.

- Olá Dr. Pedro! Deixe-se estar sossegado que precisa de recuperar! – Disse-lhe num tom maternal, enquanto o empurrava de volta para a almofada.

- Onde estou? O que me aconteceu?

- Está seguro, não se preocupe. Estamos no Hospital de S. José. Se se portar bem, estará fora daqui amanhã à tarde, mas até lá nada de aventuras!

- Como cá cheguei? Não me consigo lembrar como cá vim ter…

- Pois…isso, nós também gostávamos de saber! Foi encontrado inconsciente, no chão, ao pé da porta das urgências por volta das 21 horas de ontem. A polícia esteve cá, mas não conseguiu averiguar grande coisa, porque assalto não foi! Não senhor, que ainda tinha os documentos e o dinheiro todos consigo! Tentámos avisar que aqui estava, mas não conseguimos localizar nenhum dos seus familiares. Tem alguém a quem quer que ligue?

Não havia, de facto, ninguém da família que quisesse contactar. Nos últimos anos, com o trabalho na consultora e a depressão cada vez mais incapacitante de Rita, Pedro tinha descoberto a desculpa ideal para se afastar da família. Não tinha tempo para ir a casa, o emprego era exigente… a namorada não estava em condições de receber visitas. No fundo, não suportava aquela dinâmica de conversas superficiais, de afectos vazios, de conversas nunca tidas. No dia do funeral decidira pôr termo à relação. Com um breve adeus, desligou o telemóvel, pegou na mota e fez-se à estrada, deixando o Pedro que existira até então, debaixo de terra, junto com o corpo de Rita. A última coisa que desejava era voltar a falar seja com quem fosse que tivesse pertencido a essa outra vida. “Não somos passado. Aquilo que somos é o espelho daquilo que seremos e não do que já vivemos”. 

-A Lúcia! Sim…Lúcia! - Queria falar-lhe. Queria pedir-lhe desculpa pela sua fraqueza. Queria beija-la finalmente. Queria beijá-la para toda a eternidade! 

E foi nesse instante que Pedro se apercebeu que Lúcia tinha partido tal como tinha chegado: sem aviso, sem contexto, sem contacto.

5 comentários:

Fanghua CS disse...

Atenção ao mega acto falhado que estava na versão original: a última frase devia ser "sem contacto" e não "com contacto". Quem ler a versão em mail, que me desculpe. Se o tio Freud visse esta... :D

Chas. disse...

Mágico, brilhante e apaixonante. Mágica a forma como viras o enredo para algo apaixonante. Brilhante pela escrita fluída.Ver se pego no outro já comecei mas ainda pouco...

alphatocopherol disse...

Só agora, finalmente, consegui ler e... Caramba. Desde o pegar em peças soltas, ao moldar de um texto carregado de sentido (e sentimentos...). Para mim um dos momentos mais altos da história da PENA. Está impressionante!

ajspatricio disse...

Está mesmo muito bom! Parabéns! :)

Fanghua CS disse...

Obrigada, amigos! É sempre uma honra poder escrever convosco.

Bjos,