quarta-feira, julho 20, 2005

Contos do Exílio - O Regresso, Parte IV: A última vela (continuação)

Chegou a noite do dia seguinte e do velho nem sinal. Começou-se então a preparar para partir e assim que pegou na vara, dois vultos atravessaram a orla do clarão da fogueira e sentaram-se junto dela.
- Demoraste demasiado tempo a partir, ó Filho da Montanha! - Era o Mestre que lhe falava. Um dos dois vultos era o do Mestre, mas qual deles? Reparou então que ambos vestiam robes idênticos e apenas os cajados eram diferentes, sendo um deles de madeira clara e o outro de uma madeira escura. O do cajado claro virou-se então para o outro.
- Ó Guardião dos Cegos, tendes a certeza que ele está pronto?
- Tenho. -respondeu a voz do Mestre.
- Mas Guardião dos Cegos, ele parece tão frágil e tão perdido no mundo.
- Já vos esquecestes com quem falais? Já agora, já vos esquecestes de quem falais? - Esta última questão intrigou-o. Tinha a certeza que falavam dele, mas o tom empregue não se ajustava a nada do que vivera.
- Desculpem, mas que conversa é essa? - interrompeu.
- Filho da Montanha... Há tanto para saberes que te peço: senta-te connosco aqui junto ao fogo. Pela manhã partimos para o bosque de Caladon e queremos que nos acompanhes.
- Porque havia de vos acompanhar?
- Porque Caladon, fica longe de tudo o que conheces, apesar de estares relacionado com ele... - suspirou o Mestre - Mas senta-te aqui e ouve o que tenho para te contar.

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Não acabou de lhe contar a história naquela noite. Na realidade, muitas noites se passaram antes que chegassem ao velho bosque e a história terminasse. A história de como num bosque ardiam sete velas, cada uma representando um dos guardiões da floresta, a história do porque é que hoje só ardia uma delas, a do Guardião dos Cegos, o povo que vivia no coração da floresta, a zona mais escura e onde o mal, até recentemente, não ousara nunca entrar. Ao fim e ao cabo, a história do velho a quem ele chamava Mestre, a história do tempo que o Mestre procurara uma criança há muito desaparecida. Ele! O Exilado!
Em tempos idos, habitava no coração da floresta um feiticeiro que tinha um filho. No dia em que, pela última vez, o feiticeiro gritou de dor, a criança transformou-se em pedra. Os sete guardiães partiram com essa estátua para a mais alta das montanhas que conheciam. Uma vez lá chegados, soprou um vento terrível, que por entre fragas assobiava melodias proféticas sobre Caladon. Rezavam os ventos notícias de como gnomes e elfos devastavam Caladon, apenas poupando as zonas escuras, que eram assolaas pela fúria devastadora dos orcs, que armadilhavam os caminhos e incendiavam a floresta.
Dos sete guardiães, seis regressaram a cantar aquele que ficou conhecido como o Cântico do Vento, mas o Guardião dos Cegos ficou e tomou conta da estátua, até ao dia em que esta desapareceu.
- Um dia mais tarde passei pela aldeia dos Caminhantes. Contaram-me tudo sobre o que se passara e que culminara no exílio de um deles e numa luta interna na tribo, após a qual os Caçadores abandonaram a vida da aldeia. Desde a noite em que te encontrei até hoje é uma história que já conheces.

Estavam acampados na orla de Caladon, planeando como furar através das linhas de terror escarlate que se viam ao longe, bem dentro da muralha verde. Só ali culminara a história e encontravam-se a comer tranquilamente do pão que o velho tinha e que parecia não acabar! Quando mais tarde se preparavam para dormir, um grunhido próximo deles alertou-os.
O Mestre levantou-se segurando a vara na mão e começou a entoar um lamento, soprando como o vento nas copas das árvores e em simultâneo, como o zéfiro que bate nas fragas da encosta de uma montanha. O seu companheiro exclamou "A Canção do Ancião" e ele reconheceu-a, pois lá no fundo da sua alma aqueles suspiros e uivos eram-lhe familiares e sentia-se inquebrável ao entoar mentalmente aquela ladaínha. Subitamente uma horda de orcs surgiu da floresta. Mal tiveram tempo de se levantar e pegar nas varas, enquanto o Mestre atingia um orc violentamente na cabeça e partia a perna a outro. Assim que se pôs de pé, o Exilado entrou também em acção, servindo-se da hesitação dos orcs perante o ímpeto do Mestre. Rodopiando a vara acima da cabeça rachou o crâneo a pelo menos seis orcs. Graças ao treino do Mestre conseguia antever os movimentos dos inimigos e a escuridão não o incomodava, mas ali os inimigos pareciam uma avalanche que se abatera sobre eles, era impossível vencê-los a todos, morreriam ali, a lutar heroicamente! Quando o seu corpo começava a acusar o cansaço e o cheiro a sangue de orc lhe provocava vómitos, um urro ecoou na clareira e todos os orcs bateram em retirada.

1 comentário:

Mestre Maco disse...

Se fosse eu era com uma desaparafusadora automática Bosch naquelas cabecinhas nojentas! Sim, porque Bosch, é bom!!