quarta-feira, maio 31, 2006

Contos do Exílio - O Regresso, parte V: O Confronto

A Vidente sentiu-se desfalecer e não fora segurarem-na pelos braços, encontrar-se-ia prostrada no chão a carpir a sua predilecta, que havia caído aos pés do seu maio inimigo.
Ele parecia não se importar com o que havia feito. Não era a primeira vez que matava e não sabia quantas vezes mais o teria de fazer. Caminhava agora em direcção à Vidente, parando a pouco mais de dois passos dela.
-E nós? Como vai ser?
-Pára por favor! – disse o Obreiro – Eu levo-a para longe da Montanha se o pedires, mas peço-te que páres. Como tu disseste, já foi derramado sangue que chegue. Peço-to como favor pessoal.
Ele olhou-o nos olhos, olhou para ela e recuou alguns passos.
-Obrigado...
-Pediste-mo como favor pessoal e concedo-to. Podem levar com vocês todos os vossos pertences e todos os que vos quiserem seguir. Todos os que partirem com vocês nunca mais serão benvindos ao vale. No entanto tal não se aplicará aos vossos filhos, para quem o vale será sempre um refúgio.
-Basta! – gritou a Vidente – Não vou deixar que estranhos discutam o que façam e ponham termos à minha vida. – E pegou na vara do Impulsivo. – Muito bem... Se tem que ser, que seja então! – E ao calar-se carregou sobre o Exilado, que surpreso se limitou a amparar os golpes de fúria da Vidente. Esta, cega pela raiva, não se apercebia que ele não se movia. Até que ele ao bloquear um golpe, a rasteirou em resposta.
-Pára. Aceita a derrota e junta-te aos teus. Ainda tens quem se preocupe contigo, quem acredite em ti, quem te siga. Porque não páras?
Ela não respondeu. O Obreiro apelou-lhe também para que ela aceitasse a derrota. O Exilado chamou-lhe a atenção para o facto de estar em clara desvantagem. Mesmo assim, ela ergueu-se e avançou novamente para ele. Desta vez ele esquivou-se e voltou a rasteirá-la.
-Pára! Não chegou já a Discípula? Pensas que tenho prazer em matar? Pensas que gosto de o fazer?
-É o preço que pagas! Destruiste a minha tribo, atraiçoaste-me e agora mataste a minha preferida. Lamento, mas isso só se resolve quando um de nós matar o outro.
Ele emitiu então um som semelhante ao de um ramo seco a mexer-se ao sabor do vento e os corvos investiram em direcção à cara dela. Quando finalmente se afastaram levavam cada um um olho como troféu e deixavam uma Vidente histérica de pavor e dor.
-Desculpa Obreiro, foi a vontade dela acima da tua. – E avançou para o corpo que se contorcia, ergueu a vara e com uma só pancada seca acabou com a agonia daquela que em tempos fora a sua protectora.

Duas piras ardem no centro da Clareira. Junto a uma delas o Obreiro contempla as chamas com um olhar vago e distante, os seus olhos a guardarem lágrimas que teimam em não cair, as mãos agarradas atrás das costas e a expressão rija como pedra. Junto à outra fogueira o Impulsivo chorava de dor, das duas dores que sentia, a física e a emocional. Só quem o conhecia sabia como ele carregava a esperança daquela relação impossível e agora a esperança acabava. Para sempre! No meio das árvores, um pouco mais atrás, dois vultos observavam. Haviam ficado ali durante toda a cerimónia e quando todos se haviam ido embora, decidiram ficar na sombra, para não incomodarem quem chorava os mortos.
-E agora?
-Agora não sei.
-Mas que tinhas planeado para depois disto tudo?
-Nada. Nada disto era para ter acontecido. – hesitou – Não planeei nada disto, esperava-a sozinha, esperava falar com ela, chegar a um entendimento. Esperava que o tempo a tivesse mudado também a ela, que fosse possível agora falar, não esperava matar ninguém. Acima de tudo, não queria nem esperava, que ela tivesse de morrer. – E ao calar-se correu-lhe uma lágrima pela face.
-Não fiques assim. Ela é que escolheu o caminho dela. Sabes... Foi pior para ela ver que tinhas razão! Depois de tudo o que se passou, ela percebeu que estavas certo, percebeu que também tinhas o dom e que o teu era mais aguçado e mais exacto que o dela. Invejou-te. Desejou ser como tu, desejou ter-te com ela e ao mesmo tempo odiou-te, porque nunca te submeteste à vontade dela, porque foste sempre fiel a ti próprio e às tuas ideias. Não te remoas se as coisas tomara um rumo com que não contavas.
-És capaz de ter razão!
-E agora?
-Agora? Não sei. Há tanto a fazer, devolver a normalidade ao nosso clan e lidar com a tribo dela. É isso. Agora a normalidade. – E sorriram um para o outro, antes de se abraçarem e virarem costas às piras


--->O FIM<---

2 comentários:

Norsk Tørskfisk disse...

Acabado que está o épico, vou agora de férias por uns tempos!

Ha det bra!

Captain Dildough disse...

Vai tu pá! ;)

Não podia deixar de me lembrar do Kill Bill, na cena dos corvos a cegarem a velha...

Mesmo assim, pareceu tudo muito rápido... Leu-se tudo de uma PENAda!

Gostava que tivesses desenvolvido mais as personagens, a não ser que seja tua intenção fazê-lo em contos (e exílios) futuros...