sábado, dezembro 13, 2008

Não me olhes assim



- Porque me olhas assim?
- Assim como?
- Como se esperasses algo de mim?

Não sabes, ainda, que não há nada por que esperar?
Todo eu sou vácuo, nem o éter me enche a alma… Apenas cheio da nada… Nadas gigantes que me preenchem todo o espaço!
Aqui só há desespero e nada pelo que esperar… 
Não sei… Não sou capaz de suportar esses olhos sobre a minha alma… Quando me olhas todo eu estou nu diante de ti… Todo eu sou carne! 
Ainda que pareça despretensioso, esse teu olhar, é o meu sentenciador… 
E eu confesso: sou culpado! 
Não aguento mais… Sou culpado… De Ser, inevitavelmente, Eu!

- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me enlouqueces!

Porque me tiras de mim… Desvairas o meu pensamento, e eu não sei o que fazer nem como reagir… Não posso mais com a candura do teu olhar cor-de-mel! Fora eu cego, e ainda assim a intensidade do teu olhar me deixaria alucinado… Doido! 
Não consigo pensar, todo eu sou o teu olhar singelo… Deixas-me tão fora de mim, que pareço flutuar sobre a minha própria vida. Tudo se me sucede como pequenas nuvens de acontecimentos! Todo eu louco, a arfar, pelo teu olhar! Tudo o que luz é os teus olhos! 
O teu olhar faz-me vibrar! Entrar numa ressonância tal com a espiral da loucura que não consigo suportá-lo… Só quero que olhes noutra direcção!
E quando não me olhas:
Todo eu sou desejo desse olhar! Todo eu sou ciúme das coisas que olhas em vez de mim! Todo eu sou espera por esse olhar mágico! 

- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me aleijas!

Dói, saber que não te posso ter… Dói, saber que não és minha, ainda que eu seja teu!
Porque me feres a alma com esse olhar hipnótico! Porque não! Porque sim! Porque não me apetece! Porque tenho consciência da dor, talvez porque a precinta aqui tão perto, só à espera de uma oportunidade para nos atacar! 
Porque dói a certeza do futuro incerto! Porque dói a distância a que me condeno! Porque a dor não se deixa esquecer… Porque sou incapaz de me entregar a ti assim como o negro se entrega ao abismo! Porque não escolhi Ser eu! 
Porque o teu olhar me rasga em dois:
O Eu Animal… O Eu Primordial… Ou o que quer que lhe queiram chamar… Que te deseja tão ardentemente como os incêndios de Verão… Que te quer dilacerar! Que se condena a Ti todos os momentos… Que não vive senão pelo teu olhar! 
E:
O Eu Racional… Que te odeia como esses mesmos incêndios odeiam a água… Que sabe a impossibilidade de Nós! Sabe, também, que ainda que sejas minha alguma vez, não serás, nunca, de nós!

- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me dás medo!

Porque tenho medo que vejas todas as coisas boas e más que te quero fazer! Porque para esse teu olhar sou translúcido, todo eu transparente! E sei que vês bem dentro de mim, e… E tenho medo! Que vejas estes meus pensamentos! Que vejas como imagino o nosso primeiro beijo e os sítios bonitos da minha alma que te quero mostrar… Mas tenho mais medo ainda que vejas como te quero possuir como um animal, como necessito que sejas minha! Como a minha alma treme só de pensar na fricção dos nossos corpos… Como seria capaz de te matar apenas para não te perder… Tenho mais medo ainda de saber que isto é certo! Tão certo como não poder ter-te! Tenho medo que te condenes a mim, não pelo que sou, mas pelo eu que construíste em ti! Pelo eu que existe apenas para esse olhar! Sim, aquele que nem uma palavra consegue articular! Aquele que ouve o teu respirar pelo canto do olho e começar a flipar… Este eu, o outro eu! Tanto faz qualquer um! Nenhum é nada sem outro, e por isso vão sempre juntos, menos quando me olhas assim e me partes ao meio… Tenho medo que os fragmentos que vejas sejam piores que a soma!

- Não olhes assim, já disse!
- Porquê?
- Porque não!

Às vezes só queria arrancar este meu coração velho e ser todo eu aço! Todo eu uma impenetrável muralha que se apresenta perante esse teu olhar sem uma única réstia de sentimento ou dor!
Às vezes só queria não Ser! Às vezes penso que preciso de arejar as ideias e que a melhor forma para o fazer era colocar uma janela na cabeça!
Às vezes só queria arrancar este bocado de mim que és tu e…
E… Descansar! Deitar-me entre o feno e dormir, finalmente!
Às vezes só quero fugir daqui e não olhar para trás! 
Às vezes só queria chorar por não te ter!

E eu só quero que me olhes uma última vez! Que me olhes com um olhar singelo de quem vê pela primeira vez … 
Só quero ser simples!

Só quero não sentir este horror de ti!

4 comentários:

João disse...

Uma vez mais, a majestosa pequena diferença entre o amor e o ódio expressa num texto deste blogue.

Quem não experimentou já todas as emoções descritas pelo autor?

Incrível como, ainda que situações diferentes, pessoas diferentes, momentos diferentes, mundos diferentes, nada disso implique sentimentos e angústias únicas: neste texto encontra-se retratado, ou melhor, pintado, como num quadro, o que todos nós algum dia já sentimos. E o que os mais afortunados já deixaram de sentir.

Amor e simplicidade são duas coisas que nunca combinaram, nem encaixam numa mesma frase...

Em suma, um texto simplesmente maravilhoso

Chas. disse...

Mais uma bela contribuição do APC na sua já clássica estrutura de escrita.

alphatocopherol disse...

Sem dúvida um texto muito bem conseguido, muito apaixonado, muito violento nas palavras, não pelas palavras em si, mas no peso que carregam e no significado que certamente está preso a cada sílaba!

Muito bom!

annie stelar disse...

sem palavras