sábado, novembro 29, 2008

Um discurso apaixonado não é um discurso justo

Diz-me que sabias tudo desde início. E que sabes agora como se nem sequer houvesse tempo. Que essa frincha estreita que encontraste foi o suficiente para me trespassares o coração. Só pelo prazer de me fazer sangrar do peito. Admite cobarde. Reconhece que me matas todos os dias, qualquer que seja o intento de te esquecer. Consente que gostas de brincar com a minha alma como se brinca com um pião colorido no recreio da escola. Acaba com isto que eu não aguento mais. A verdade é que és um empecilho na minha vida. Não respiro. Tu não percebes ou finges não perceber a verdade do que sinto. E eu não sei como explicar que só tenho os meus olhos para te abraçar. A minha carne deixou de ser minha quando te conheci e nada me responde. O que mata não é o tempo ou a espera. São os olhos vermelhos de tanto chorar, primeiro por desgosto, depois pela raiva de chorar. Não passo um dia sem te desejar, nem uma noite sem te odiar. Sinto-me tão a mais nesta ânsia.
Porque foges ciente da pele da minha mão? Observas-me indiferente e todas as minhas palavras bonitas, trabalhadas, morrem rapidamente nos teus olhos. Esperei a vida inteira por alguém como tu e cedo percebi que não sei quem és. Por ti mudei a ordem natural das coisas, ainda que aches que nada é assim.

Que se foda a verdade. Que se foda quem não acredita nela.

Vanessa Pelerigo

5 comentários:

Chas. disse...

Muito bom...
;)

alphatocopherol disse...

Excelente!

João disse...

A expressão de como entre o amor e ódio apenas existe uma fina linha...

Gostei mt

Carlos Jantarada disse...

Puro... honesto ...visceral.. bruto! Quando se escreve com estes atributos a guiarem-nos a tela final só pode ser de grande qualidade.
Seja ela escura ou alva... ou vermelho vivo (como penso ser o caso.)

APC disse...

Intensamente belo!