quarta-feira, abril 27, 2005

Sombras negras

Sombras negras esvoaçam no pensamento,
Que com melancolia distorce a realidade.
Vergonha cega, fugitiva da verdade,
Foge do mundo, alimentando o ressentimento.

A solidão abre a mão ao desconhecido,
Erguendo sua muralha, o egocentrismo.
O recalcamento da ira, o negativismo,
Adormeceu o mundo, deixando-o perdido.

terça-feira, abril 12, 2005

Viagens

Longe vão as viagens do ser,
Perdidas da emoção e da vida.
Prazer libidinoso, imaturo...
No futuro cresce e torna-se maduro.

Mão jovem procurou...

Procurou desvendar o mundo,
Navegar pela lógica negra da vida.
Mas medos travaram-lhe o caminho...
Vozes interiores negavam conhecer.

A mão adolescente tremeu...

Abrandou a conquista obscura,
Aproximou-se da emoção.
O coração batia, maduro...
Tinha encontrado o seu futuro.

A mão que restou...

Caminha devagar no seu lugar.
Pois a viagem há de terminar.
Paixão e memória, darão o fruto!
Os último suspiros, serão a vida.

sábado, março 19, 2005

Contos do Exílio - O Regresso, parte III: O Mestre (conclusao)

- Essa missão tu vais aceitá-la, sabe-lo bem! - respondeu o Mestre, olhando-o directamente nos olhos, transbordando calma - Vais aceitá-la porque se não tivesses esperança de que surgisse tal oportunidade, já te tinhas matado ou deixado morrer há muito tempo.

- Que sabes tu de mim para afirmares tal coisa? - contrapôs ele agressivamente.

- O suficiente... Sei donde vens, algo que tu não sabes, e sei qual o teu destino, algo de que foges e te recusas a ver...

- Como posso ver o que não se vê?

- Limita-te a acreditar! - exclamou o Mestre - Todo este tempo te remoeste com pensamentos de culpa e vingança, só nunca acreditaste realmente nessa vingança que te consumia por dentro. - Fez uma pausa e continuou. - Alguma vez paraste e refletiste sobre a forma como concretizarás a tua vingança?

- Sim... - E um brilho de maldade e raiva encheu-lhe os olhos - Muitas noites sohei com que lhe faria quando a reecontrasse...

- Não! Não te pergunto o que lhe farias, mas sim como te encontrarias com ela... - levantou-se num repente e apontou uma montanha no horizonte - Vim ontem daquela montanha. Por trás dela o Sol irá deitar-se hoje e por trás dela repousa o Clã dos Caminhantes. - Os olhos do Exilado brilharam de entusiasmo à menção do seu Clã. - Quando nós repousarmos debaixo do olhar atento da Deusa-Lua, na tenda dos anciãos a Vidente preparará o futuro da tribo, o futura em que a Discípula comandará a tribo! Queres realmente isso?

Ele não respondeu. Sentia arde em si um fogo invisível. Sentia as pernas a retesarem-se e os punhos a cerrarem-se, salivava sem cessar e a lembrança dos nomes das responsáveis pelo seu Exílio despertavam nele o que de pior o seu ser tinha.

- Exilado! - Gritou o Mestre, pegando no cajado que repousara até então ao seu lado. - Exilado, acorda da Fúria!

Só então se apercebeu que cerrara os punhos com tanta força que havia cravado as unhas na sua própria carne.

- Desculpa... Não me consegui controlar quando referiste...

- ... Eu sei! - interrompeu o Mestre. - Não o devia ter feito, mas não pensei que a Fúria estivesse ainda tão desperta em ti.

- A Fúria?! - perguntou o Exilado, espantado com tudo o que o Mestre dizia.

- O feitiço que a Vidente te lançou. Levou-lhe uma Viagem a urdi-lo e quando finalmente o deu por terminado, na primeira noite que passaram no Grande Vale, deixaste de responder por ti. Passaste nessa noite a agir em conformidade com os desejos dela e ela incutiu em ti o espírito do Lobo. Podes não o saber, mas tu não nasceste com o espírito do lobo...

- Com que espírito nasci então? - interrompeu ele.

- Não interessa! Nos dias de hoje respondes só pelo Lobo. Esse espírito foi-te dado para que tu a odiasses a ela e à sua astúcia de raposa...

- Como se contraria esse ódio? Voltando ao espírito antigo?

- Estou aqui para te ajudar a recuperares o espírito do Morcego, o caçador das trevas, que sem ver alcança sempre a sua presa, que fazendo barulho ninguém o ouve.

- E como é que isso me ajuda a regressar à tribo?

- Uma coisa não invalida a outra! Arrisco mesmo dizer-te que sem o teu espírito não passas de mais um dos seus instrumentos dela; com o teu espírito tornas-te um lutador e será tua a vontade de ocupares o teu lugar dentro do teu Clã!

Fez-se um silêncio pesado, apenas se ouvindo esporadiacamente o crepitar do fogo elevar-se acima da respiração pesada de ambos.

- E se eu quiser ficar com o espírito do Lobo?

- Estás sempre sujeito à Fúria. Momentos em que te tornas incontrolável, em que perdes a noção de onde estás e o que és; apenas a morte, o sangue e o saciar a fome interessam nesse instante. Será a primeira fraqueza que ela vai explorar. Sentes-te mesmo capaz de mudar a esse ponto e correr esse risco?

- Sinto! Na prática já não sou o que era antigamente. Teria de renascer para que me tornasse no que era. Mais vale trabalhar aquilo que me tornei e descobrir as minhas falhas, para que ela não se valha delas.

- Tens então de escolher quem serás daqui para a frente.

- Corrige-me as falhas e torna-me no Homem-Lobo!

FIM do capítulo III

Próximo Capítulo: A última vela (Homenagem a Blind Guardian)

quinta-feira, março 17, 2005

Gritar ao mundo
e não ter voz para falar
Querer fugir
e não ter pernas para escapar

Sentir perdido por entre a rima forçada
Dizer "Desculpa mas não se passa nada"
Gritar impropérios a medo
Ter sonhos mas desistir cedo

Gritar ao mundo
e não ter voz para sonhar
Querer fugir
e não ter pernas para andar

Querer mostrar fé mas nunca a ter
Mostrar ter força mas nunca o ser
Envolver o mundo numa especulação
Ser firme mas tremer a mão

Gritar ao mundo
e não ter voz para gritar
Querer fugir
e não ter pernas para gatinhar

Querer tudo e não ter nada
Simplesmente ficar
e deixar-me acabar

segunda-feira, março 07, 2005

Contos do Exílio - O Regresso, parte III: O Mestre (cont.)

Ficou então sozinho com a sua refeição. Enquanto tomava a sua refeição, sentia que o mundo era agora um sítio diferente. Os pássaros cantavam nas árvores, o orvalho que pingava não era mais uma forma de saciar a sede, mas também uma forma de refrescar o rosto pela manhã. Encontrava-se entregue a um sentimento de espanto quando o velho regressou. Pela primeira vez apercebeu-se da real estatura do velho. Não era muito alto, talvez pouco mais alto que os seus ombros, tinha os cabelos lisos e estranhamente curtos e brancos como neve. A sua cabeça era redonda e os olhos pequeninos mal se viam, por se encontrarem sempre semi-cerrados. Possuia ainda uma longa e estreita barba branca, que lhe tocava o meio do peito.

- Não sei se já me apresentei. - começou por dizer - O meu nome é Mestre. Assim como tu foste um dia baptizado Exilado e outros que conheceste com os seus, assim eu recebi este nome. - Sentou-se ao lado dele e ateou o lume. - Vês esta fogueira? Ontem ardia de tal maneira que parecia ter nela todo o calor do mundo. Hoje, quando acordaste, estava morta, fumegando e pouco mais, no entanto agora voltou a pegar fogo e se a alimentarmos tornar-se-á um clarão a irradiar energia e calor. - Fez uma pausa para colocar mais uma acha na fogueira. Olhou para ele com os olhos suficientemente abertos para ele se aperceber do seu negrume, e disse então: - Assim é também a vida do Homem! - e os seus olhos faíscaram!

- O que é que isso tem a ver com o tu estares aqui? Como é que isso se relaciona comigo?

- Meu caro... - hesitou - Na verdade, tem tudo a ver contigo! - sorriu - Quando nascemos todos nós temos uma missão e todos os nossos passos nos conduzem para o momento em que vamos ser chamados a realizá-la. Não importa os empurrões que nos dão ou o quanto fugimos dela, invariavelmente acabamos por ter de optar entre cumpri-la ou não a cumprir. A minha missão é estar aqui, agora, contigo. A tua... revelá-la-ei mais tarde, porque só a ti te cumpre realizá-la ou não!... - dizendo isto calou-se e ficou à espera, perscutando-o com aquele olhar escuro e profundo.

- Mestre, - começou o Exilado - tudo o que dizes é muito bonito. De certa forma lembra-me a minha vida passada. - hesitou - Mas essa já passou! Com ela muita dor, muita revolta, muito sofrimento... - Ia acrescentar muitas pessoas, mas não foi capaz. - A tua preença faz com que as memórias do passado não despertem em mim uma fúria selvagem, nem causam a amargura das noites de luar. Assim é a tua missão porventura fazer-me esquecer tudo isso e devolver-me a minha humanidade?

- A tua humanidade já te foi devolvida. No momento em que abriste a boca e dela saíram palavras, aí recuperaste a tua humanidade! - Pareceu dizer a frase colocando um particular ênfase em "tu" e "tua". - A minha missão, Filho da Montanha, é fazer com que não esqueças nunca as amarguras da vida pelas quais passaste. A minha missão é fazer com que retornes ao teu clã e assumas o teu lugar como orientador da próxima geração de Caminhantes!

- Essa missão eu recuso-a! - interrompeu ele, num grito e com os olhos a arderem furiosamente.

(continua)

sábado, março 05, 2005

E é na ontologia deste amor
Que me descubro
Fragmentada, dividida
Pela mão de outro
E no frémito das horas
Sinto o toque da saudade,
Que crava no meu rosto
A métafora do que és
Encarnada no que vivo
E nas palavras que talhaste
no meu corpo,
A epopeia de um amor clandestino

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Revolução

Ouçam amigos, ouçam
O que vos venho anunciar
Tremam, amedrontem-se, mas não esqueçam
Que o mais ansiado dos meus desejos
Se está prestes a realizar...

Ouçam amigos, ouçam
Pois aproxima-se não a passo, mas a trote
A revolução que tudo engolirá!
Está a chegar, pulsante, vibrante!
E debaixo de uma turba raivosa
Os alicerces da sociedade ruirão,
A terra firme e escura virará céu,
E o fogo crepitante tudo consumirá
Numa labareda quente, eterna,
E penitenciante...

Ouçam amigos, ouçam
Que o trovador do que virá
O bardo do apocalipse
O arauto dos novos tempos
Vos avisa

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Contos do Exílio - O Regresso, parte III: O Mestre

Dormiu descansado pela primeira vez, no que parecia já um eternidade. Quando acordou já o Sol ia bem alto e o orvalho havia secado na plantas em seu redor, algo novo para ele. Não se lembrava de nenhum sonho. Nada! Não havia nele sequer os habituais desejos animalescos de caça, como se o simples acto de comer um pão e de dormir junto a uma fogueira houvessem despertado nele uma humanidade hibernante.
Levantou-se e descobriu, para lá do monte de cinzas que era agora a fogueira, o velho que na noite anterior o acolhera. Aí se encontrava, imóvel, sereno, sem esboçar qualquer sinal de vida, como se de uma estátua de bronze se tratasse. No seu ombro esquerdo repousava, altivo, um falcão e junto aos seus pés um corvo debicava o que parecia ser os restos de pão da noite anterior.
-Bons dias Exilado! - saudou-o o velho, sem pestanejar sequer, permanecendo imóvel. -Creio que tens muitas perguntas para fazer e eu tenho muitas respostas para te dar.
-Bom dia... Como te chamas? Quem és tu? - perguntou, ainda meio atordoado pela situação, mas com um sentimento de segurança. Sentia-se estranhamente seguro junto àquele desconhecido, que pretendia conhecer a curto prazo.
-Penso que estarás mais receptivo a respostas após uma boa refeição. Toma, come! - disse retirando de um bornal um pão, em tudo idêntico ao da noite anterior, e um cantil. - Se tiveres sede podes beber do cantil. Tem uma bebida revigorante que faço para mim, mas pareces necessitar mais dela do que eu.
-Como sabes as minhas necessidades? Como sabes quem eu sou?
-Come descansado, com o tempo saberás as respostas, porque com o tempo eu tas direi. Por agora - e levanta-se num repente, apenas se servindo das pernas, num gesto que revelou bastante agilidade - vou devolver os meus amigos à sua vida normal. Volto já.
Dirigiu-se então à clareira, o corvo e o falcão esvoaçando atrás dele, não se importando, ou figindo não se importar, com aquele ser que deixava especado a olhar para ele.

(continua)

domingo, janeiro 30, 2005

Reencontro

Toca a porta, caminho até ela, alguém sussurra, estendo a mão e agarro a chave, a voz soou baixo, seguro-a firme, não entendo, aproximo o olho para espreitar, volta a tocar a campainha, pergunto “quem é?”, a voz macia pronuncia um nome, vejo uma silhueta ao longe, o nome vibra nos ouvidos, eu respondo “que fazes aqui? Vou já abrir!”, ela sorri e aproxima-se mais, afasto-me da porta e rodo a chave num ruidoso roçar de ferros sentindo o coração bater de emoção, abro a porta, sinto um beijo profundo e uma mão carinhosa a agarrar a camisola, foco os olhos cruzando os dela, ela olha-me nos lábios e solta um sorriso de paz e paixão, respondo com um beijo, as palavras não saem, sentimento comum num reencontro, o olhar é guarnecido e num abraço unido.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Tonan, O Barbariano - 5ª Parte

O recém-iniciado nas Artes Místicas e Afins (não confundir com Artes Arcanas, Marciais E Outras Que Tais, um canudo tão desejado como difícil de obter) olhava, incrédulo e apavorado, para a inverosímil personagem à sua frente. O terrível Barbariano com que se deparava fazia mais que juz às medonhas histórias que o infeliz pseudomago ouvira na sua infância, com a agravante de vir acompanhado do factor "cheiro", uma sensação tão desagradavelmente pungente que quase fizera o pobre e cabeçudo aprendiz esquecer as vestes urinadas (que por pouco também não borrara de medo)...
- "Ughar! Ittuk!" - grunhiu Tonan, pois este era o nome pelo qual era conhecido o temível salteador, molestador de frades e devorador de criancinhas (não, não os troquei). Encontrava-se desarmado pois perdera as suas armas na longa viagem desde a Floresta Negra até à Orla.
Poderia pensar-se que a sua natureza animalesca o tivesse tornado desajeitado ao ponto de perder os seus utensílios por pura inconsciência. Tal era não apenas uma dedução incorrecta como também uma subestimação grosseira, pois qualquer arma resistia pouco tempo a Tonan, último dos Gu'Man, devido ao tremendo desgaste que sofria nas mãos desse virtuoso carniceiro. Apenas um instrumento em particular resistia a tal manipulação, mas não reproduzirei aqui a sua descrição para evitar ferir as mentes mais susceptíveis...
Era, pois, um Barbariano desarmado que se apresentava ao jovem aprendiz, o que de maneira nenhuma o tranquilizava. Já tinha visto aqueles poderosíssimos braços em acção quando o selvagem, num ataque de fúria (os leitores assíduos decerto recordarão o pitoresco episódio), arrancara metade das árvores do bosque em que se encontravam. Aquela zona da Orla - o nome dado à região da periferia de Tarkul, cidade capital de Takar - fora conhecida pela beleza da sua floresta de coníferas, da sua fauna delicada de corças e felpudos esquilos... Agora, com a sua vegetação devastada, o ar conspurcado pelo fedor pestilencial, a bicharada pisada e devorada, a sua beleza fora-se para sempre. Assim era onde quer que passasse Tonan.
- "Ughar! Ittuk!" - repetiu Tonan, feito notável para algo com uma mente tão rudimentar.
O semifeiticeiro indagava-se acerca de tais grunhidos quando se tornou claro o seu significado: Tonan corria na sua direcção, uma fúria insana no seu olhar!
Genuinamente aterrorizado, o jovem mágico pré-amador invocou, como recurso desesperado, o único encantamento ofensivo que aprendera em toda a sua vida:
- "Crescepello!!!"

(fim da 5ª Parte)

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Sonhar, ser mundo, perder-me na vontade de ser.
Serei eu, será gente?
Gente não é certamente e o mundo não é meu.

Talvez seja o vento,
talvez seja a emoção.
Perder-me no mundo não é vida
nem criar esperança no coração.

Então que hei-de fazer,
quem irei acariciar?
Tocar no fundo de mim não é vida
se não existe ninguém para me dar paixão.

Um dia talvez me arrependa
dos sonhos que corrompi,
mas por agora sou apenas eu
numa vida que não é para mim.

terça-feira, dezembro 21, 2004

Desejo...

Paixão arrebatadora e quente
Que incontrolável me invade
Torna o meu olhar ardente
E cheio de desejo, beijando-te
Com insana vontade...

Mãos trémulas e desejosas
Percorrem teu corpo tentador
Determinadas, embora ansiosas
Por uma carícia ardente...
Em mim, todo o teu calor!

Os teus beijos me envolvem
Lábios húmidos, insaciáveis
Que ao paraíso me devolvem...
Horas parecendo segundos
Cheios de prazeres inigualáveis...

Dois corpos que se abraçam
Unidos num ritual de amor
Dois pulsares que se entrelaçam
Num nó, momentaneamente, eterno...
Clímax de prazer entontecedor!

Sinto-te, sentes-me...
Dois seres, sentindo como um só...

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Inconsciente

“A razão chama por mim,

Na realidade do cansaço,

Na cama que desfaço,

Acaba mais um dia, enfim…”


Pelas ruas semi-vidradas do inconsciente vibram vozes nas janelas, nelas sorriem pessoas alegremente. São como tons de cristal a organizar a minha orquestra mental.
A melancolia, numa janelinha ao fundo, quebra a organização musical. Partem-se vidros em infinitos estilhaços como refugiando-se na sua pequenez. A janelinha aproxima-se transformando a melancolia em malvadez. Já não há pessoas a sorrir, apenas rostos a partir, escondendo-se do mundo, tentando refugiar-se nas suas origens, mas a dor acaba por derrotar-me a mim também.

“O coração olha para ti,

Na imaginação da dor,

Na cama uma chama de amor,

Acabo mais uma noite, sem ti…”

Ecos relembram-me do mundo imaginário, como um aviso. Talvez nem tudo seja imaginário, talvez nem tudo seja um sonho, talvez algum pessimismo… Oriento-me em direcção ao que não sou, ao que não acredito. O medo persegue-me e não desaparece… Tudo em mim enlouquece…


“Na escuridão olho pelo mundo,

E não o vejo,

Com um desejo

De querer sair do fundo…”

Sem nada a apoiar meu inconsciente tento adormecer novamente.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Contos do Exílio - O Regresso, parte II: Encontro (cont.)

Exilado... Vêm-lhe à cabeça imagens de uma aldeia, um grupo de adultos a olhar para ele, um grupo de crianças na brincadeira, uma caçada na floresta! Exilado... A palavra faz badalar um sino na sua cabeça, acorda nele a memória do antigamente, memória essa que lhe refresca a alma como se da brisa do mar, na orla do Grande Mar se tratasse!

-Levanta-te Filho da Montanha! Aqueles que um dia chamaste pais esquecem-se de ti, a cada dia que passa e tu, preso neste teu exílio do mundo, acentuas o esquecimento, esqueces-te de quem és, de quem foste e de quem tens de ser! Levanta-te que não és nenhuma criatura da floresta, não te vergues como elas se vergam perante ti.

Toda e cada palavra que o velho pronunciava, despertavam-no para a sua humanidade. Sentia-se agora como não se sentia havia já muitas Viagens... Sentia-se um Homem Novo, sentia que tinha acabado de nascer só que o mundo lá fora não era estranho, só os sentimentos! Levantou-se e caminhou em direcção ao velho, que entretanto não mexera mais nenhum músculo para além dos necessários para levantar levemente um dos cantos da boca, gesto que lhe acentuava as muitas rugas do rosto.

-Tenho fome... Tenho sede... - balbuciou, a sua voz entaramelada dada as poucas palavras que havia pronunciado desde que chegara à floresta. Parecia-lhe que era a primeira vez, desde sempre, que se dirigia a alguém. Não andava longe desta realidade uma vez que essa última vez havia já sido apagada da sua memória e certamente não lhe havia transmitido a satisfação que este encontro lhe trazia.

-Acredito, Filho da Montanha, Exilado do teu povo, Vítima Injustiçada. Senta-te comigo junto do fogo, trouxe-te comida e vestes. - dizendo isto sentou-se. O Exilado sentou-se ao seu lado. Sentia agora na face o ar quente que emanava da fogueira. Comeu do pão que o velho trazia, saciando-se como se de um animal de grande porte se tratasse. De seguida bebeu do cantil do velho, que lhe assegurava que era água, no entanto não havia água em toda a floresta que fosse tão refrescante e que mais do que saciar a sede, aliviava os pensamentos e parecia limpá-lo por dentro. Quando acabou o velho ordenou-lhe que dormisse ali no chão, junto à fogueira. "A manhã traz consigo um novo dia. Que estejas recuperado para o enfrentares e à tua nova vida."

terça-feira, novembro 23, 2004

Contos do Exílio - O Regresso, Parte II: Encontro

Aquela floresta era-lhe tão familiar como se parte integrante de si mesmo, um mero prolongamento do seu ser. Cada galho, cada raíz eram-lhe tão familiares como se fossem os seus dedos e as suas mãos. Conhecia cada árvore como os seus próprios braços, o ribeiro saudava-o todas as manhãs e as grutas abriam-se ao pôr-do-sol, para que nelas repousasse em paz. Apesar de tudo isso, neste momento caminhava hesitante!...

Era um sentimento novo e estranho. Ele, que se tornara parte das lendas sobre seres fantásticos e tenebrosos, caminhava hesitante. Ele que combatera alcateias de lobos e era visto como devorador de Homem e Animal, estava agora no lugar da presa, caminhando hesitante e receoso, rumo a uma chama que ardia tão longe e no entanto tão perto. Cada vez mais perto...

Subitamente uma forte lufada de ar da noite tapou-lhe a vista com os seus próprios cabelos desgrenhados. O seu instinto de caçador fê-lo correr para a sua esquerda e agachar-se na erva alta que aí brotava. Havia decidido avançar sobre a fogueira pelo lado contrário àquele em que antes de encontrara, de modo a evitar que o vento levasse o seu cheiro até quem quer que estivesse junto da fogueira. Colado ao chão começou então a rastejar. Quando finalmente se encontrava ao alcance da vista de quem quer que estivesse junto da fogueira, reparou que apenas um velho se sentava, de costas voltadas para ele, junto ao lume onde assava um pequeno animal. Atrás dele, pousados no chão, repousavam dois cajados e ao seu lado havia uma pequena trouxa, que mais não parecia do que um amontoado de trapos...

A Fome!... Esse sentimento escondido, esse desejo de pão, essa vontade de pegar numa vara, essa sensação que lhe acelera a pulsação, lhe retesa os músculos, que o isola de todo o mundo, menos daquele que os seus olhos conseguem captar. Já há muitas Viagens que não a sentia vibrar em si, mas a vista dos cajados acordou esse sentimento escondido nos recantos do seu ser onde a humanidade hibernava.

Imagens de uma vara partida, um grupo com tochas, um guerreiro vestido de verde, memórias passadas e imagens futuras, tudo lhe atravessava a mente enquanto contemplava o velho, que se encontrava agora de pé e a olhar atentamente para o local em que se encontrava.

-Levanta-te ó Exilado! O teu futuro começa hoje e não lhe poderás escapar! - a voz do velho ressoou pelas copas das árvores. Era uma voz cavernosa e ninguém diria que um velho de aspecto tão frágil seria capaz de fazer vibrar o meio em seu redor daquela forma. Aquelas palavras gelaram-lhe o sangue. Gelava-o não tanto a forma como haviam sido ditas, mas sim pelo que diziam e pelo que significavam. Aquele velho sabia onde ele estava! O velho revelara saber ainda algo mais, revelara que a sua humanidade perdida, não lhe era de todo desconhecida!
(continua)

quarta-feira, novembro 17, 2004

Criança

Sonho com naves flamejantes
extraterrestres e humanos
Sonho com prados verdejantes
flores e nuvens num céu azul
Sonho com histórias de encantar
princesas e dragões para escravizar
Sonho com lutas terriveis
em que saio sempre vitorioso
Sonho com corridas
em que sou sempre o mais rápido

Sonho, sonho, sonho... em ser criança outra vez e não me preocupar com o mundo

segunda-feira, novembro 15, 2004

“E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço”
Jorge de Sena

Encontrar-nos-emos noutros lugares,
Estranhos e novos
Plenos de sentido
Num outro tempo,
Em que o momento é o certo
À espera de ser vivido

Encontrar-nos-emos noutros lugares,
Em que o hoje é diferente
E as distâncias são as mesmas
E a comunhão se faz sentir
E o olhar finalmente
se encontra

Encontrar-nos-emos noutros lugares
Já que separados,
Só resta a esperança
Que esta rotina rompida
Toque o espírito
E nos faça crer

Encontrar-nos-emos noutros lugares
Convictos que o destino
Que actuou assim,
Firme no seu propósito,
O fez porque hoje não teria sentido
O que amanhã fará

Encontrar-nos-emos...

segunda-feira, novembro 08, 2004

Contos do Exílio - O Regresso, Parte I: Despertar

A noite cai, escura e pesada como se anunciasse a todos os seres vivos a total ausência de amanhã.
A noite cai e acorda nele essa sede adormecida. Sentado ali na clareira, sem a presença da lua, sente despertar em si toda uma fúria acumulada ao longo dos tempos. Na sua mente desfilam imagens que não conhece, imagens de uma falésia, imagens de pessoas, imagens todas elas de uma outra vida passada.
"Abre os olhos e contempla o Céu!"
Uma voz que ressoa dentro da sua cabeça. Fumo! O cheiro áspero de pinho queimado invade-lhe as narinas e o crepitar de uma fogueira ao longe, ressoa através das árvores. Sente perigo, um perigo que se aproxima!... Reside já há muito tempo deste lado da montanha, tempo suficiente para saber que ninguém se aventura para este lado da montanha com o ânimo tão leve que faça uma fogueira, tão leve que revele a sua presença nas imediações. O tempo ensinou-lhe que perseguir os incautos era a melhor forma de adquirir roupas e provisões, pois mais cedo ou mais tarde a floresta acabaria por cobrar-lhes algo mais do que um mero pagamento pela travessia nunca terminada. A fogueira revelava assim ou alguém muito confiante, um agressor, ou mais um visitante incauto, uma vítima.
A Sede voltou, secando-lhe a garganta! Sentia esse apelo, esse aperto, essa vontade imensa de falar com alguém, não um animal, não o ribeiro, não a Floresta, mas alguém, um semelhante. Sentia esse aperto de uma forma nunca antes sentida e o cheiro a pinho queimado intensificava-o a cada instante.
Levantou-se, sem se aperceber, e começou a caminhar desse fogacho intermitente do outro lado da grande clareira onde dormia já há três noites. Caminhava hesitantemente, sem se dar conta que cada passo representava um regresso à humanidade perdida, o despertar para uma nova vida.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Tonan, o Barbariano - 4ª Parte

"Olha qui coisa tão linda, tão cheia dji graça, é a não-sei-quantas qui coiso, a mina qui passa, é a coisa mai linda qu'eu já vi passaaar..."
Assim trauteava o cabeçudo aprendiz de feiticeiro aquela velha música das praias de Titiloqui, o país mais solarengo do grande continente de Takar. Sob domínio Pharpal, podia não ter a aura de sofisticação e requinte de Létis, a sua homóloga Tartaglionesa, mas compensava-o com o seu clima quente e a sua exótica fauna local. Por assim dizer...
O jovem fazia esvoaçar a túnica encardida enquanto saltitava pelo carreiro que atravessava o bucólico bosque, degustando aquelas saudosas recordações da sua viagem de fim de curso, a lembrança daqueles cálidos encontros com as jovens «titilôcas» (e também as não muito jovens, diga-se de passagem) ainda acariciando a sua memória... Ao ponto de ter de compor, dissimuladamente, uma prega no manto.
Não havia passado muito tempo desde que concluira o curso de Iniciação às Artes Místicas e Afins na Faculdade de Ciências Mágicas, nas soalheiras encostas de Capanova, uma localidade no pequeno país de Gurtapol.
Bom, não era o mesmo que um canudo em Iniciação às Artes Arcanas, Marciais e Outras Que Tais, na mítica Cidade-Fortaleza-Universidade de Oxifarad, nas agrestes montanhas de Shrlombo-Tim, mas já era alguma coisa. Era uma rampa para se lançar em estágios mais elaborados, e quiçá até um Mestrado!
Pelo menos fora o que lhe garantira o velho Professor Kibomba, o seu tutor durante as árduas duas semanas de curso.
"Tu lembra di qui este curso, apesar di útil, não chegará pra desenrascar! Lembra di qui ainda tem qui ler muita folha de chá e tripa de saguim pra chegar à unha do pé di qualquer grandi sábio! Tu lembra ainda de que......
...Chi, esqueci!"
Fora a última vez que vira o velho sábio antes deste desaparecer misteriosamente para destino incerto, com a igualmente incógnita quantia que cobrara como propina aos alunos inscritos (sim, todos os nove! Os Nove? Hum... Será que?... Nahhh)
Mas tinha o seu canudo! E apesar de ter perdido a conta ao número de vezes que lhe bateram a porta na cara, lhe chamaram "Palhaço!" ou atiraram lama (queria pensar que era lama), nunca desistiu de procurar o seu lugar no conturbado mundo de então.
Até aquele momento. Estava farto. Preferia viver como um eremita porco e sujo na Floresta Negra do que continuar a gramar aquelas merdas.
Olhou para o seu canudo como se fosse um bocado de papel higiénico várias vezes reutilisado, e lançou-o com um grito de raiva para lá das árvores que o rodeavam...
...até que o ouviu embater em algo que, julgara, seria grande e pesado. Não pelo ruído que o canudo fizera ao bater. Antes pelo tamanho das árvores que começaram a ser arrancadas na curta distância que o separava daquilo... A facilidade com que eram lançadas vários metros acima e além da sua cabeça também não o tranquilizava.
O terror que dele se apossara já lhe tinha ensopado as vestes quando se encontrou, finalmente, frente a frente com a temível criatura. Era mais baixa do que estava à espera, mas isso não queria dizer nada. Tinha um aspecto que feria só de olhar, e do cheiro nem falar. Tinha uns desenhos no corpo que faziam lembrar o rapaz de umas histórias que ouvira enquanto criança, de uns vagabundos meio tresloucados que gostavam de andar à bulha e de apanhar grandes bebedeiras...

Sim, só podia ser! Estava a olhar para um Barbariano!

(fim da 4ª Parte)

terça-feira, outubro 26, 2004

Samhain

Nesta noite da morte, a vida vibra
Palpitante e ébria
Imersa na sua própria essência
A roda gira, e uma vez mais
O ciclo perdura
Nada é estanque e imóvel
E na noite da morte
Os que foram, voltam
Para serem celebrados
Para serem perpetuados
E na roda da vida,
E da morte
Nesta noite
As vozes erguem-se
A luz estremece com a brisa
Os fumos esvaem-se
E em comunhão plena
A morte, a vida
Num ciclo eterno
Coincidem
Na noite escura