sábado, março 18, 2006

Contos do Exílio - O Regresso, parte V: O Confronto

A Montanha! Uma viagem depois de Caladon encontrava-se novamente diante da Montanha. A crer nas memórias que guardava daquela zona, as quais eram já um pouco vagas, encontrava-se a cerca de uma Fase da aldeia dos Caminhantes. Chegaria na fase da Presença, quando a Deusa-Lua brilhasse em todo o seu esplendor e os caçadores estivessem reunidos a festejar. Sorriu ao pensar nos dias de felicidade que com eles passara. Endurecia-se-lhe o rosto ao pensar no que faria dali para a frente. Não que fosse um futuro sombrio aquele que tinha em mente, mas antes pelo facto de o caminho até ele ser tingindo em tons rubros de fogo e sangue. Atirou mais um pau para o fogo e recostou-se a meditar. Fechou os olhos e imaginou a forma das chamas, escutou o vento que soprava manso por cima das árvores e sentiu o aroma doce do fumo encher-lhe as narinas.
Era um aroma a orvalho aquele que o ia tornando progressivamente mais letárgico. Estava já em comunhão com aquela cena calma quando um estalido atrás de si o despertou. Podia ser o sinal de que um animal nocturno se encontrava nas vizinhanças. Tudo estaria bem se o som não se repetisse mais próximo. Tudo estaria bem se não houvesse apenas um animal nocturno que se aproxima do fogo... Levantou-se num repente e num salto colocou-se fora do círculo de luz mortiça que emanava da fogueira, com o seu cajado na mão, pronto a ver quem se dirigia para a sua clareira, sem que esse alguém o visse.
Demorou alguns instantes até que um vulto feminino entrou furtivamente na clareira. Parou e olhou em redor. Não vendo nada de estranho aproximou-se da fogueira e estacou a olhar para as varas que ele deixara ao seu lado. Como que respondendo aos apelos dele, a floresta deixou então que uma aragem entrasse na clareira e avivasse as chamas. A figura feminina assustou-se e deu um salto para trás revelando a sua face à luz trémula e pálida e de repente, ao ver aquela cara, o aroma a orvalho tomou uma forma física e uma memória à muito enterrada veio ao de cima!
- Diz-me sobra da noite: a aprendiza já superou os mestres? - disse enquanto caminhava para o círculo de luz.
Tendo sido apanhada de surpresa, a figura à sua frente colocou-se numa posição defensiva, mas ao reconhecer a voz e o rosto que se apresentavam à sua frente, encheu-se de alegria de rapidamente começou num brado de contentamento.
- Tu... - começou por dizer com a voz trémula - Tu estás vivo! Estás vivo! - e as lágrimas corriam-lhe pela face.
- Pois... Parece que sim! - disse ele e riu-se - Como é que me descobriste?
- Acidente. Nem sabia que eras tu. Estou acampada numa clareira perto daqui e vi o clarão da tua fogueira enquanto procurava qualquer coisa para comer.
- Nestas matas não há nada para comer à noite. Nada que tu queiras comer pelo menos...
- Cheguei aqui ainda não há uma Fase da Deusa-Lua, não me quero comparar com quem está aqui vai para três Viagens.
"Já passou tanto tempo...", pensou ele, deixando que entre eles se intalasse um silêncio pesado.
- Não estive aqui tanto tempo. Cheguei hoje mesmo de... - hesita - muito longe! - completa.
- E para onde vais?
- Não sei. Sinto que devia ir para aldeia dos Caminhantes, ma o tempo que passou é tanto que não sei o que tenho para lhes dar.
- Sabes que há quem sinta a tua falta lá?
- Não, não sei! Estou ausente há muito tempo e só mo disseste agora.
- Tens razão. Mas é verdade, há quem sinta a tua falta e até há quem sinta que fazes falta para lhes dar um rumo. Mesmo quando outrora foram contra isso.
- Houve mesmo quem mudasse?
- Tu não mudaste?
- Porque é que eles mudaram?
- Quem sabe? Eu por mim tenho que foi o tempo. Cresceram e abriram os os olhos e viram de outra forma o que se passou. - ajeitou-se e continuou - Depois do juízo da tribo a Vidente Nómada instalou-se na aldeia dos anciãos, tendo construído a sua cabana, a Cabana dos Nómadas como ela gosta de lhe chamar. Com o tempo ela acabou por se revelar. Cega pelo ódio que te nutre, e que acho que ainda não passou, começou a ver-te em cada vez mais gente, afastando muitos e gerando ódio noutras aldeias. Junto dos Caminhantes são poucos os que se lhe mantêm fiéis e os poucos que o fazem não procuram a companhia do resto da tribo, passam os dias com ela.
- Quem são?
- A Discípula, o Impulsivo e o Passivo.
- E o Obreiro? E a Camaleão?
- O Obreiro é-lhe fiel, o que não quer dizer que se deixe influenciar por ela. De todos é o único em que não arde o fogo da vingança e do ódio. Nos primeiros tempos andou esquisito e ausentava-se muito tempo. Houve quem dissesse que o viam ir e vir na direcção do Grande Vale. Diria mais que ficou magoado e desiludido do que revoltado e odioso. A camaleão ninguém a vê em nenhuma aldeia já lá vão muitas Fases. Há quem a veja perto das aldeias, mas dizer que está numa aldeia é complicado.

(continua)

sábado, março 11, 2006

Estou aqui

Mais um dia que passa, mais um sonho que se perde. Suavemente, lentamente, os traços da minha vida vão-se apagando, diluindo-se no corre-corre do dia a dia da humanidade. Torno-me mais um da manada, junto-me às formigas que correm e reduzo-me à minha insignificância. "Estou aqui" - grito eu, mas nem eu consigo seguir a minha voz para me encontrar. A minha consciência vai-me gritando que eu interesso e que posso lutar, mas ainda é cedo, ainda a consigo ignorar.

A pouco e pouco o dia cai, a lua levanta-se pálida no céu, esquecida por entre as luzes dos prédios que se vão acendendo. Saio à rua, aconchego o casaco ao corpo à medida que o frio me enregela os ossos. Acendo mais um cigarro; "Amanhã paro" - penso eu, rindo-me logo de seguida à medida que penso que todos os dias digo o mesmo, o eterno diálogo com a minha conciência que, ainda, não me abandonou. Vou agora contra-corrente, as formigas apressadas passam por mim em direcção a casa, é altura de a manada se recolher, mas eu continuo, devagar, por entre as pessoas. O casaco cingido ao corpo, as palavras entregues à minha mente quase tão apressada como as pessoas que me empurram. "Continuo aqui" - digo eu, mas continuo sem me ouvir.
Paro no meio das pessoas apressadas e olho para o céu, a lua ténue está por cima de mim, banhando-me numa luz que não existe e que mais ninguém vê. Talvez seja tempo de desaparecer.

A madrugada apanhou-me mais uma vez, o alcool que era suposto anastesiar-me vai-se libertado a pouco e pouco do meu corpo. Uma esquina abandonada dá um certo alivio aos meus rins, um canteiro mal tratado dá alivio ao meu estômago. Agora grito e oiço-me. "Estou aqui" e as palavras ecoam-me no cérebro obrigando-me a calar. A minha consciência já está abafada sobre o manto de comprimidos, mas sou demasiado cobarde para sair com dignidade. Estou finalmente sozinho, sem formigas à minha volta, e ainda tenho os meus cigarros que a pouco e pouco vão devorando o meu interior.
Já nada me pode salvar do meu destino.

domingo, fevereiro 26, 2006

Contos do Exílio: O Regresso

LINK EM CIMA -> O regresso

A pedido da totalidade (até ao momento) dos comentadores do último texto, aqui segue a versão compilada do conto "O Regresso" (Ver link acima) tal como se encontra. Qualquer contribuição que achem que o conto mereça, mandem mail que eu dou o NIB da conta onde depositar :P

Se acharem que não merece uns trocados o autor contenta-se com um comentário honesto (não é preciso ser simpático!).

Ah! A continuação continua a ser tratada e não está parada!

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Confuso

Lábios frios que me aquecem
No gelo do meu descanso...
Desperto, e os meus sonhos arrefecem...
Um abismo... Será que me lanço?

Das cinzas surge um ser...
Uma fénix renascida?
Ou uma alma perdida?
Quem renasce primeiro tem que perecer...

Um destino outrora límpido
Agora, um charco difuso...
Quando já tudo me parece insípido
Lamento e choro, confuso...

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

AA featuring Fernando Alcoolizoua

Por isso eu consumo alcool:
Dá-me fulgor
Por momentos, ponho de lado os sentimentos
E banalizo o amor...

EU BEBO!!!
Não invejo a quem é abstémio
Pois ver passar a vida sóbrio
Dá-me tédio!...

domingo, janeiro 29, 2006

Contos do Exílio - O Regresso, parte V: O Confronto

- Discípula! - uma voz grita na escuridão de uma aldeia. - Discípula! Onde estás?
- Chamou Vidente? - responde, num murmúrio, uma segunda voz.
- Chamei.
- Que... - a Vidente faz-lhe um gesto de silêncio. As casas em redor estão vazias, construções de madeira, sem vida nem alegria. Na do meio senta-se a figura escanzelada da Vidente. De pé, à porta da barraca, a Discípula aguarda. Na distância ouve-se o assobiar do vento nas copas dos pinheiros e o roçagar das folhas dos carvalhos.
- Ouves? - perguntou a Vidente.
- O vento? - questionou a Discípula, com um tom de hesitação. Estava certa que era o vento, mas não sabia o que ouvir no vento...
- Sim, o vento! Ouves a mensagem que ele traz? Consegues distinguir o leve assobiar do vento, o que passa por cima da montanha, vindo de onde se apaga o sol, daquele que sobra monte abaixo?
- Não grande Vidente. - murmurou lamuriosa - Lamento mas não consigo... - disse envergonhada a figura magra, que se sentava agora ao lado da velha Vidente.
- Ajuda-me a ir lá para fora... - ordenou a mais velha. A mais nova ajudou-a a levantar-se e a custo e lentamente se dirigiram para o centro da aldeia. Sentaram-se e a mais velha começou, apontando para a encosta à sua frente:
- Vês como os pinheiros se agitam quando uma corrente desce a encosta? Agora pára e ouve... - A outra acenou afirmativamente, mas a velha não reagiu. De repente:
- Vês agora como as árvores estão paradas, mas o vento assobia por cima do monte?
- Oiço... dois sons distintos quando juntos, mas que separados parecem o mesmo. O que quer isto dizer?
- Ele não morreu! - afirmou a Vidente, e abriu os olhos, revelando as órbits brancas, sem nenhum vestígio de sangue. - Ele... não morreu! - Exclamou assustada.
- Quem? - perguntou a Discípula, assustada com as atitudes da Vidente.
- Ele não morreu! Ele vem aí... - insistiu, cada vez mais perturbada, a Vidente. Continuou assim por instantes. Exclamava cada vez frases mais complexas, ignorando os apelos murmurados da Discípula. "Não!" gritava, "Não! Ele não morreu! Ele vem aí, procura vingar-se, procura o que é dele... Não!" gritava agora a plenos pulmões, perante a assustada discípula. Foi então que começou com um guincho, progressivamente mais agudo, até que se calou.
- Vidente... - sussurrou a Discípula.
- Agora não. - interrompeu a Vidente - Arruma tudo. Voltamos à aldeia do caminhantes e voltamos ainda hoje. Temos duas fases para nos prepararmos. Explico-te tudo pelo caminho, mas prepara-te: na fase da Aparição a minha luz irá apagar-se.

Metáforas dos meus sentimentos

A água corre rápida, devastada, triste
Não pode ser travada, segue o seu rumo

Sempre... sempre... sempre...

Um ego que se julga um lobo
E no fim se revela um bezerro
Uma fogueira de emoções que se acende
No reconhecimento de um erro
Mesmo quando não se o pretende...

Uma barragem que devia conter um rio
E que deixa passar uma torrente...
Nas águas, o reflexo da luz do passado
É quebrado pela escuridão do presente.
Força esgotada, rosto cansado...

Uma luta que a razão travou, incessante
Com um confuso e trémulo coração
Uma batalha épica, longa, intolerante
Que acaba num crepúsculo de emoção:
Mesmo vencendo a batalha, perdeu-se a guerra...

Tudo metáforas, simples metáforas
Do que foi,
Do que já não é,
E do que ficará para todo o sempre
[Ausente

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Testemunho matinal

Deixo o frio matinal percorrer-me pela manhã, longe do aquecimento espiritual de outros tempos.
Saudades, saudades do tempo sempre meu, dos caminhos e dos amigos... e do regresso em paz.
Olho para a ponte... Por baixo dela passo...

Quem me dera passar por cima... deste sentimento...
Afinal a vida é o momento... e esquecer apenas adia o tormento deste sofrimento.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

"O silêncio devora o escuro da noite, apagando as luzes que teimo em manter acesas. O medo de não estares ao pé de mim queima-me a pele, deixando cicatrizes profundas na minha alma..."

Guarda um espaço em ti para mim. Deixa-me perder entre os teus olhos verdes, devagar, como se mergulhasse num mar só teu. Deixa-me vogar por entre as ondas dos teus olhos e sentir a tua alma envolver-me. Tens espaço em ti para mim? Será que podes partilhar parte do teu calor comigo? Eu acredito que sim, que tens algo em ti para mim, que os meus sonhos também são teus e que juntos fazemos algo melhor.
Deixa-me agarrar-te mais um pouco, deixa-me aquecer no teu coração, não fujas agora de mim. Deixa-me perder entre os teus lábios, preciso tanto do teu amor. Deixa-me crescer em ti, deixa-me amadurecer e deixar de ser criança. Dá-me os teus sonhos, diz-me que me amas e pouco a pouco deixemos a vida tomar conta de nós. Preciso de alguem que me abraçe, preciso do calor que é nosso, preciso do teu amor.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Espelho

Espelho que tudo vês
Sem julgar, sem decidir...
Diz-me, mostra-me a razão
Que me levou a agir, reagir
E a escurecer meu coração?

Espelho que tudo mostras
Sem distorcer, sem ajuizar...
Diz-me o motivo, o sentido
Para quê vir, se não é para ficar
E aqui me deixar de rastos, vencido?

Espelho que tudo devolves
Sem modificar, sem aquecer...
Diz-me, se reflectes a luz e a claridade
Porque não iluminas o meu ser
E me devolves um pouco de felicidade?

sexta-feira, dezembro 16, 2005

A REVISTA P.E.N.A. nº VII - Regresso da pérola

Venho aqui publicar pela primeira vez na história deste blog a continuação da tão esperada A Revista P.E.N.A.. Espero que gostem da ideia e que esta versão em PDF possa circular num futuro próximo, de preferência em papel. Para já limitamos este número ao BLOG mas nos próximos dias(1-3 semanas), vai estar disponível numa edição em papel limitada a 20-30 exemplares, se alguém desejar que nos peça.

Os textos foram selecionados pelos quatro administradores do site com-palavras.com pelo que alguma sugestão ou crítica deve ser reencaminhada para o mail geral@com-palavras.com.

domingo, dezembro 04, 2005

Contos do Exílio - O Regresso, Parte IV: A Última Vela

(No link esta o ultimo texto, sort of...)

(continuação)

No rescaldo da batalha, apenas dois corpos ainda respiravam na clareira. Por muito que procurassem, nenhum dos companheiros conseguia encontrar o corpo do Mestre por entre os cadáveres.
- Levaram-no! - disse o companheiro - Raios! Perdi-os a todos, não fui capaz de defender Caladon, falhei... Tu! Filho da Montanha, não é? - ele deve ter acenado que sim, porque o companheiro continuou - Temos de ir atrás deles!
- Mas como? Durante a noite será impossível seguir-lhes o rasto... - o companheiro preparava-se para responder quando uma voz cavernosa ecoou a partir das sombras:
- Meus caros... Não se preocupem que o velho não está morto. Pelo menos por enquanto! É demasiado valioso, precisam dele para completarem o feitiço que destruirá todo Caladon...
- Tu! - Os olhos do companheiro faíscavam de raiva ao olharem o gnomo que se aproximava lentamente deles. - Que sabes tu, seu vendido?
- Sei como morreram os outros seis guardiões. Sei porque é que eles não o vão matar já. Sei tantas outras coisas que tu não sabes, tantas coisas que te podia contar, entre elas onde podes encontrar o velho e ajudar-te a prevenir que a Última Vela se apague. Claro que tudo isso vos custará mais do que podem pagar... Por outro lado sou um negociador. Estou disposto a oferecer-vos uma resposta. Apenas uma, por isso escolham bem a pergunta!
- Dou-te um pão do velho se nos ajudares a salvá-lo! Sabes como é valioso, e a tua ajuda sempre é mais necessária do que a tua informação. - Disse o Exilado. Face a esta proposta o gnomo arregalou os olhos.
- Dois pães, dás-mos agora e apenas vos conduzo pelo escuro! Caso estejam esquecidos, sou a vossa única hipótese...

Muito custosamente lhe deram os pães, não sem antes o companheiro murmurar qualquer coisa como "corrupto". Caminharam o que faltava da noite até que a aurora surgiu por cima das copas das árvores. "Depressa, estamos quase a chegar e o tempo escasseia" incitou-os os gnomo. Passavam pelas fogueiras da orla da cidadela no coração da floresta quando um raio de sol despontou acima das copas. Imediatamente se levantou um vento muito forte que os projectou a todos para o chão e a escuridão encheu a terra. Quando acordaram, o gnomo, bem como todas as árvores, haviam desaparecido sem deixar rasto. Cerca de cem metros mais à frente apenas uma cabana.

Enquanto avançavam em direcção à cabana e o seu companheiro lhe explicava que era normal um gnomo fugir da luz, um vento levantou-se novamente e à medida que avançavam. Um vento não tão forte como o anterior, mas que bastou para fazer voar a cabana e mostrar o cenário de horror que ela ocultava. No chão repousava um corpo sem cabeça. Ao seu lado a cabeça, e em redor da cabeça seis velas. No cimo do corpo uma vela ardia, quase já sem corpo para arder. Quando chegaram àquele espaço identificaram o corpo como o do velho.
- O Guardião dos Cegos morreu. - disse-lhe o companheiro. - Caladon desapareceu. Não me resta nada aqui. Parto para lá do Reino das Dunas, regresso ao meu povo. Que te disse o vento?
- Quando a última vela de se apagar, há esperança para todos. Quando a última vela se apagar, é tempo de viver. - hesitou um pouco - Só não sei o que significa...
- Creio que sabes muito bem o que significa! - riu-se um pouco - Engraçado... Acho que cada um ouve coisas diferentes! - e dizendo isto partiu, rumo ao sítio onde o nasce o sol, deixando-o ali sozinho.

Meditou um pouco sobre o que aquilo queria dizer. Não havia contado tudo ao companheiro. Não contara os versos "Caminha através das terras e espera até ouvires a canção do feiticeiro. Mesmo que vejas o corvo ao longe e não o vejas cantar a música!". Quando acabou de meditar, um corvo poisou no seu ombro e grasnou. Percebeu o que o vento lhe dissera. Partiu no sentido contrário ao do companheiro, em direcção à montanha, onde tudo começara.

domingo, novembro 27, 2005

Diário de um homem morto - Desejo

Era um pouco triste ao que tinha descido. Especado, à chuva, em frente à porta do bar, hesitava. Tinha sido um colega do escritório, a recomenda-lo. “É o sítio ideal para o engate, todos sabem ao que vão! Já lá fui diversas vezes, e nunca saí sozinho!!”, dissera. Durante alguns dias recusei-me, indignado, a aceitar a sugestão. Mas ultimamente o desejo tinha-me corroído a um ponto quase insustentável, desgastando-me, e quanto mais lutava para resistir, mais cedia terreno nessa luta. Até que uma sexta feira, ao acordar, a batalha estava definitivamente perdida. “Hoje depois do jantar vou lá. Um copo nunca fez mal a ninguém”, pensei, tentando desculpar a minha fraqueza. Suspirei, mas não vacilando, entrei.
Á primeira vista o bar parecia-se com qualquer outro. Uma música ambiente bastante agradável, uma decoração pós-moderna não muito agressiva, poltronas em tons avermelhado-escuro, com bastantes mesitas de apoio, e 2 juke-box em cada uma das duas divisões, que ainda funcionavam mesmo com moedas. Estava bastante cheio, e alguns grupinhos, sobretudo pares, bem como pessoas aparentemente sozinhas, bebiam ou dançavam. Dirigi-me timidamente ao balcão, e sentei-me num dos bancos altos metálicos, com apoio de pés. Com uma tentativa de aceno decidido chamei a atenção do barman, que se aproximou.
- Hum... um Jack Daniels com gelo por favor – pedi
- É para já! – disse, agarrando quase imediatamente com as suas mãos treinadas a garrafa laranja, servindo-me em menos de um minuto a minha bebida – Aqui está.
Dei alguns goles na bebida, sentindo o seu calor dentro de mim. Fui observando o movimento, ambientando-me cada vez mais ao bar à medida que pedia mais um copo. Não estava habituado a beber, e notei-o quando uma mulher se sentou num dos extremos do balcão. Eu, geralmente tímido, comecei a fixar o olhar na sua direcção. Uma figura esguia, de cabelo ruivo e curto, olhos grandes pintados com sombras negras, era o tipo de mulher que despertava em mim uma atração quase instantânea. Pediu também uma bebida, e ao fim de pouco tempo reparou que eu a observava. Durante alguns momentos os nossos olhares foram-se encontrando, até que uma sensação mútua de desejo me fez avançar. Fechei os olhos, acabando de um golo com o uísque e preparando-me para levantar. Quando os abri, verifiquei que ela se tinha antecipado, estando já ao meu lado, em pé.
- Posso? – perguntou-me, fazendo o gesto de se sentar no banco vazio a meu lado, ao que eu anuí imediatamente. Conversámos, e a imagem do seu corpo foi enchendo a minha mente com idéias nascidas do puro desejo. Comecei a tocá-la ocasionalmente, por entre gestos, na perna ou no braço, e notei que cada vez que o fazia ela parecia estremecer ligeiramente. Uma hora volvida, completamente enlevado pela sua aura provocante, decidi arriscar.
- Estava a apetecer-me uma bebida num local mais... íntimo. Que achas? – o meu coração batia descontroladamente, mas não acalmou com a sua resposta, oferecendo a sua casa para essa “bebida” íntima. Saímos os dois, deixando para trás os rituais de acasalamento modernos que se davam pelo bar. Seguimos no carro dela, um Colt vermelho, e meia dúzia de quilómetros mais à frente, parámos. O desejo entre ambos não parava de aumentar, e quase corremos pelas escadas cima até ao 3º andar. Num rompante, abrimos a porta, e ela quase me arrancou a roupa. Beijámo-nos, e os seus lábios pareciam fogo. As minhas mãos começaram a percorrer-lhe o corpo, e quando comecei acariciar-lhe o peito, ela afastou-me, e começou lentamente a despir-se na penumbra da sala. Peça a peça, a sua pele branca foi surgindo, até que, completamente nua, se virou e foi para o quarto. Eu segui-a, despindo-me, e quando entrei ela estava perto da cama, a personificação da tentação em frente dos meus olhos. Agarrei-a, beijei-a intensamente, e empurrei-a com alguma brusquidão para a cama.
Peguei firmemente na sua perna, e comecei a mordiscá-la subindo pouco a pouco, cada vez com mais força Ela estremecia. Enquanto a beijava entre as coxas, não se controlava, agarrando-me no cabelo e gemendo de prazer. Um fogo interior consumia-me, e eu tratava de o tentar apagar, alimentando-me insanamente com o seu corpo. Peguei no pescoço bem delineado, e virei-a contra a parede, possuindo-a com tanto ardor como violência. Ela gritava bem alto, numa mescla de êxtase e dor. O seu corpo suado reflectia a pouca luz existente enquanto eu o percorria, uma e outra vez, à medida que a minha paixão hipnotizante se ia consumindo, lentamente. A sua respiração alternava entre um arfar rouco e um gemer doloroso, sentindo-me cada vez que a tinha como se fosse uma primeira vez, e não como mais uma, numa espiral que parecia não ter fim.
Extenuados, finalmente voltámos a cair na cama. Fumei um cigarro, clichê recorrente, e tentei acalmar a pulsação. Sentia-me como um viajante que, a meio de uma travessia no deserto, alcança um oásis e se satisfaz impetuosamente, sabendo que ainda falta muito mais areia e sol para acabar a viagem. Ela estava deitada de lado, e o cansaço tinha levado a melhor, visto já dormir profundamente. Acabei com longas baforadas o calmante, e levantei-me, ainda nu. Dirigi-me à janela, e enquanto olhava para a rua, ouvi barulho na outra divisão. Virei-me, e a porta abriu. Um homem furioso que eu reconheci estava pregado junto à entrada do quarto. Desatou a berrar, e a minha companheira acordou, primeiro surpresa, depois em pânico, e começou a gaguejar que era suposto ele estar no Porto. Atónito, não queria acreditar que tinha acabado de ter relações com a mulher do amigo que me tinha aconselhado o maldito bar!
Completamente tresloucado, o marido ultrajado saiu por breves momentos, deixando-me a olhar vitrificado para a mulher chorosa, na cama. O desejo que tinha sentido por ela há umas horas tinha-se convertido em repulsa. Ele voltou com uma faca na mão, decidido a acabar comigo e a recuperar a sua honra. Saltou para cima de mim, e rebolámos no chão, lutando pela vida. Consegui segurar-lhe a mão, e torcendo-a fiz com que a faca caísse. Esmurrei-o violentamente, até que ele se esquivou, ensaguentado, e se levantou. Rapidamente mandou-me um pontapé no queixo, e, ao cair junto da faca, peguei nela e num ápice apunhalei-o. O corpo escorregou para o chão, enquanto me sentava, arfando, sabendo que tinha morto para não o ser eu. Subitamente um berro rasgou novamente a escuridão do quarto, vindo com ele uma pancada forte metálica na minha nuca, a primeira das muitas que me reduziram o crânio a uma massa informe. A mulher vingara-se do assassino do marido.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Onde andarão...

Onde andarão os pássaros?
Que enchiam o olhar de alegria e espanto?
Onde andarão os sonhos
Que não sabem onde voam eles?
Ouvidos adormecidos no silêncio contínuo,
Sem o som do seu canto!

Melancolia noturna, rotina surda,
Em qualquer lado que se durma.
Não se vê sua sombra nem seu vento
E cada momento sopra no desalento.
Sozinhos caminharão um dia, quem sabe,
Na natureza tudo é uma incerteza...

domingo, outubro 02, 2005

Diário de um homem morto - Uma última bebida

Ainda antes do cano frio se encostar à minha nuca já eu adivinhara a sua presença. Calmamente dei uma última baforada no cigarro, expelindo languidamente o fumo numa nuvem cinzenta que se desvaneceu no ar. Atirei a beata para longe.
- Sempre me encontraste... não que alguma vez tenha duvidado disso! – disse, cruzando as pernas – Sempre o soube, apenas esperei que fosse mais... tarde - A sombra respondeu, ameaçadoramente, com um clique da arma.
- Calma, calma, não é preciso ter pressa, o destino espera sempre mais um pouco.Que ameaça posso eu ser para ti? – disse, abanando a cabeça e sentindo ainda a impressão metálica redonda na cabeça - Porque não uma última bebida, entre dois velhos... conhecidos? – propus. Senti o seu hesitar, um instante que reflectia uma breve, mas intensa, decisão. Finalmente, a pressão aligeirou-se e a arma foi baixa, com um clique inverso ao anterior.

- Óptimo. Penso ainda me lembrar da tua bebida preferida... Gin com muito gelo e um pouco de sal, certo? – o vulto aquiesceu com um ligeiro “hum” nervoso – Uma bebida tão fora do comum não se esquece facilmente. Para mim apenas o velho e vulgar “escocês” com duas pedras. – disse, permitindo-me um sorriso enquanto me dirigia para o bar da sala, onde comecei habilmente a preparar as bebidas. O vulto parecia permanecer imóvel nas sombras. Acabei, e com uma mão estendi-lhe o copo, ao mesmo tempo em que dava um golo no meu e me encostava no sofá, em pé.

- Então, que tal? Não está bom? – perguntei, observando a hesitação do meu oponente, que observava o copo sem se decidir a leva-lo à boca.
- Bebe tu primeiro – disse ela, ouvindo-se pela primeira vez no escritório a sua voz melódica, mas rouca.
- Ah, desconfiada como sempre. Pensas que deitei alguma coisa na bebida? – atirei notoriamente surpreendido – Tudo bem, eu provo primeiro... em situações normais esse sal podia fazer-me mal à tensão, mas na presente situação não me parece que o meu médico se vá aborrecer – dei um gole, soltando antes uma sonora gargalhada, e estendi novamente o copo à minha assassina, depois de alguns segundos – Como vês, ainda não estrebucho. Força, bebe à vontade. – e ela bebeu, agora mais descansada, mas sempre com a mão tensa sobre a arma.

- Sabes que esta bebida apenas te deu mais uns breves batimentos desse reles coração, não sabes? – disse ela. Com um vestido longo e preto, os seus olhos faiscavam ódio – O que ansiei por este momento!!
- Também eu ansiei... por te ver. Mesmo sabendo que isso significaria a minha morte. Sempre foste tudo para mim... – a minha adversária pareceu tremer - Mas a vingança e o ciúme falaram mais alto na altura. Ele roubou-te de mim! Eras minha, não tinha o direito! – o longo e delgado braço começou, tremendo, a levantar a arma – E que gozo me deu matá-lo! Guinchou e implorou, enquanto eu punha dolorosamente fim à sua vida! Ah! – a arma apontava agora na minha direcção, pronta a atirar, mas tremia violentamente. – Não te merecia, não era digno de te tocar nem com um dedo!! – O braço parou repentinamente, tal como o corpo, que caiu redondo no chão, completamente hirto. Apenas os seus olhos brilhantes se mexiam em pânico. Aproximei-me.

- Não tenhas medo, é apenas veneno de víbora australiana. Um paralisante poderoso, mortal apenas se eu não te der o antídoto – expliquei, cuidadosamente, fazendo uma festa na sua cabeça, como faria a uma menina. Os seus olhos espantados olhavam para o copo tombado – Sabes, apenas um gole de veneno não é suficiente para alguém que foi ganhando anticorpos como eu através de pequenas doses diárias. – tirei uma pequena seringa do bolso, e injectei o seu conteúdo no braço da mulher que estava estendida no chão. – Pronto, um antivírus produzido por anticorpos de cão. O melhor amigo do homem em todo o seu esplendor – ri-me, agora nervosamente - Daqui a uma hora estás como nova. Achas realmente que eu alguma vez seria capaz de matar a minha própria... filha? – uma lágrima correu pela minha face, enquanto dava um último, terno e muito esperado beijo na sua face

– Poupo-te o trabalho, pela segunda vez. Ninguém vai ouvir nada, o edifício está vazio. As câmaras estão desligadas. Quando te conseguires mexer levanta-te, limpa o copo e sai. – disse, enquanto pegava na arma, ainda presa na mão da minha filha. Levantei-me, limpei com um lenço a pistola enquanto me dirigia para o outro lado do escritório, e fiquei a olha-la, melancolicamente – O que fiz foi por amor... Tal como agora – Com um gesto brusco encostei o cano frio na testa e disparei.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Tonan, O Barbariano - 6ª Parte

(ANTES DE MAIS, E DEVIDO AO GRANDE INTERVALO DE TEMPO ENTRE O ÚLTIMO CAPÍTULO E O ACTUAL, URGE FAZER UM RESUMO DA HISTÓRIA ATÉ ESTE PONTO)



  • Entra em cena Tonan, o Barbariano, imundo salteador e temido morador da Floresta Negra.
  • Após intensa sessão de brainstorming entre os seus dois neurónios (coisa rara!), Tonan decide rumar a Tarkul, capital de Takar, no intuito de... bem, não vamos já estragar a surpresa ao leitor, não é? Mais vale dizer que o herói morre no fim... oh, porra!
  • Cena de acção na qual Tonan despacha uma patrulha de soldados. Alguma violência gratuita.
  • Mudança de cenário: na estrada para a capital, encontramos o jovem Vitus, aprendiz de feiticeiro, também conhecido como “o Vitalho, cabeça de ca...”
  • Vitus encontra Tonan, mas este não parece estar na melhor das suas más disposições e demonstra-o, prontamente, arrancando várias árvores pela raíz e lançando-as a uma distância considerável. Vários recordes de lançamento de dardo e peso são batidos.
  • Vitus, em pânico, urina na túnica. Ah, e ainda consegue conjurar um misterioso feitiço contra o seu obtuso agressor...


TONAN, O BARBARIANO – CAPÍTULO VI – IT´S MAGIC, YOU IDIOT!



“­ – Crescepello!”

A complexidade do campo da magia é algo que continua a maravilhar até os mais eruditos. A enorme variedade de fórmulas e conjurações existentes só é ultrapassada pela miríade de aplicações diferentes que o engenho humano, sempre adaptável, se lembra de conceber. Se para fins nobres ou... não tão nobres, tal não podemos assertoar com exactidão.
No entanto o sempre avisado leitor, conhecedor da natureza humana, decerto terá ideia da proporção entre os honestos aplicadores da magia e os que lhe dão pérfido uso.
Tal como no mundano dia-a-dia, também no plano arcano existe um cisma entre benfeitores e charlatães, entre altruístas e egoístas, entre homens santos e imundos filhos da puta, incluindo a mãe.
Retrato vivo desse cisma é a rivalidade entre os paladinos da Irmandade do Pastel (um grupo secreto que se esconde sob a fachada de um clube gastronómico) e a Sociedade de Prião, um enorme consórcio de Guildas mágicas e outros representantes desonestos como banqueiros, conselheiros reais, macumbeiros e cartomantes (por ordem crescente de inocuividade).

Mas divago.

“ – Crescepello!” – bradou Vitus, uma aura verde-alface emanando de si, qual Maria José Valério.
Quase imediatamente, Tonan sentiu um formigueiro percorrer-lhe o corpo todo.
“Que diabo”, pensou. Não podiam ser pulgas. Essas, as carraças e demais parasitas há muito que tinham desistido de povoar tão hedionda epiderme.
Só então Tonan reparou que a sua pilosidade corporal, já de si equiparável à de um mamute, aumentava a olhos vistos! Em pouco tempo, os seus pêlos estavam tão crescidos que Tonan não pôde evitar tropeçar e enrodilhar-se neles, ficando convenientemente bem amarrado no processo.
“ – Ha ha ha! Não pensavas poder comparar-te ao grande Invictus, o Mago Supremo!” – Vitus quase voltava a molhar a túnica com a emoção – “Na na na, nem penses nisso!” – Tonan, passada a surpresa inicial, tentava soltar-se daquela prisão capilar.
“ – Queres voltar a provar outro dos meus potentes feitiços? Garanto-te que o próximo não será tão meigo para com a tua pessoa!”

Tal bravata esganiçada não correspondia nem de perto nem de longe à realidade. De facto, “Crescepello” era o único feitiço do currículo de Vitus que se podia considerar vagamente ofensivo. Vitus era licenciado em “Iniciação às Artes Místicas e Afins” pelo famigerado Professor Kibomba, reputado vidente/aldrabão, procurado em três países por fraude e burla agravada. Actualmente, encontra-se em parte incerta – não sem antes se ter eclipsado com as propinas dos seus pupilos; a meio do curso, entenda-se.
Na verdade, “Crescepello” foi criado, sabe-se lá quando, por um feiticeiro amador, barbeiro de profissão, quiçá por falta de clientela.
Muito simplesmente, bastava ao dito escanhoador sussurrar a fórmula mágica a qualquer incauto que lhe passasse à porta do estabelecimento...
Mas tal história não estava destinada a ter um final feliz, pois é sabido que a Fortuna (leia-se capricho do autor) dá e tira com igual celeridade.
Pois então o anónimo baeta, na ânsia de aumentar os seus dividendos, teve a triste ideia de mudar para o ofício de cabeleireiro. Ora, se até aqui o desmesurado crescimento da barba e cabelo dos seus clientes não lhe proporcionava senão avultada freguesia e gorjeta, o mesmo não sucedeu com as suas clientes. Poupamos os leitores sensíveis às cenas de indizível horror e violência que tiveram lugar naquele salão, quando respeitáveis aristocratas se viram, de um momento para o outro, cobertas por uma espessa carpete capilar...
Por fim, aleijado, falido pelos processos em tribunal e com a reputação arruinada, decidiu pegar na sua fiel navalha e... ZÁS! Cortou ambas as patilhas; não queria ser reconhecido quando saísse do país...

“ – Muahahahaha! Irónico, não, Barbariano? Um home...euh, um animal tão possante e não se consegue desembaraçar de si mesmo!” – Vitus voltou ao ataque, inspirado – “Mas se nem eu me consigo desembaraçar de mim mesmo, desta inconstância do ser,desta consciência do sofrimento... desta... desta murzels and the freckles and the beautiful fireworks exploding into the sky e...”

>>BOUM!<<



O punho de Tonan descera sobre a cabeça de Vitus com óbvio momento linear. Mas, coisa incomum, Vitus limitou-se a deslizar para o solo e permanecer lá, inconsciente. Os seus olhos não saltaram das órbitas, nem o seu crânio se abriu, nem o conteúdo polposo e cinzento se espalhou por todo o lado.

Não, Vitus estava vivo. Pois era essa a vontade de Tonan.

(continua...)

segunda-feira, agosto 22, 2005

Tic
Sonhar
Tic Tac Tic
Hábito de estar
Tic Tac Tic Tac Tic
Não querer dizer nada
Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic
Calar com medo de tudo acabar
Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic Tac Tic
Acabaste por apenas o sofrimento adiar

Explodiste e o relógio parou
A corda até ao fim chegou
A vida agora acabou
Tic

quarta-feira, agosto 03, 2005

Ventos de Mudança

O vento da mudança soprou
Nos ecos mudos da solidão
Ninguém lhe estendeu a mão
Quem o perdeu nunca o alcançou

No vento entoa a voz ferida
Nos espaços vazios do coração
Ninguém escuta com razão
Quando sente a força perdida

O vento acalmou adormecido
No silêncio triste da condição
Ninguém olhou para o clarão
Quem não o viu foi esquecido

quarta-feira, julho 20, 2005

Contos do Exílio - O Regresso, Parte IV: A última vela (continuação)

Chegou a noite do dia seguinte e do velho nem sinal. Começou-se então a preparar para partir e assim que pegou na vara, dois vultos atravessaram a orla do clarão da fogueira e sentaram-se junto dela.
- Demoraste demasiado tempo a partir, ó Filho da Montanha! - Era o Mestre que lhe falava. Um dos dois vultos era o do Mestre, mas qual deles? Reparou então que ambos vestiam robes idênticos e apenas os cajados eram diferentes, sendo um deles de madeira clara e o outro de uma madeira escura. O do cajado claro virou-se então para o outro.
- Ó Guardião dos Cegos, tendes a certeza que ele está pronto?
- Tenho. -respondeu a voz do Mestre.
- Mas Guardião dos Cegos, ele parece tão frágil e tão perdido no mundo.
- Já vos esquecestes com quem falais? Já agora, já vos esquecestes de quem falais? - Esta última questão intrigou-o. Tinha a certeza que falavam dele, mas o tom empregue não se ajustava a nada do que vivera.
- Desculpem, mas que conversa é essa? - interrompeu.
- Filho da Montanha... Há tanto para saberes que te peço: senta-te connosco aqui junto ao fogo. Pela manhã partimos para o bosque de Caladon e queremos que nos acompanhes.
- Porque havia de vos acompanhar?
- Porque Caladon, fica longe de tudo o que conheces, apesar de estares relacionado com ele... - suspirou o Mestre - Mas senta-te aqui e ouve o que tenho para te contar.

--------------||---------------

Não acabou de lhe contar a história naquela noite. Na realidade, muitas noites se passaram antes que chegassem ao velho bosque e a história terminasse. A história de como num bosque ardiam sete velas, cada uma representando um dos guardiões da floresta, a história do porque é que hoje só ardia uma delas, a do Guardião dos Cegos, o povo que vivia no coração da floresta, a zona mais escura e onde o mal, até recentemente, não ousara nunca entrar. Ao fim e ao cabo, a história do velho a quem ele chamava Mestre, a história do tempo que o Mestre procurara uma criança há muito desaparecida. Ele! O Exilado!
Em tempos idos, habitava no coração da floresta um feiticeiro que tinha um filho. No dia em que, pela última vez, o feiticeiro gritou de dor, a criança transformou-se em pedra. Os sete guardiães partiram com essa estátua para a mais alta das montanhas que conheciam. Uma vez lá chegados, soprou um vento terrível, que por entre fragas assobiava melodias proféticas sobre Caladon. Rezavam os ventos notícias de como gnomes e elfos devastavam Caladon, apenas poupando as zonas escuras, que eram assolaas pela fúria devastadora dos orcs, que armadilhavam os caminhos e incendiavam a floresta.
Dos sete guardiães, seis regressaram a cantar aquele que ficou conhecido como o Cântico do Vento, mas o Guardião dos Cegos ficou e tomou conta da estátua, até ao dia em que esta desapareceu.
- Um dia mais tarde passei pela aldeia dos Caminhantes. Contaram-me tudo sobre o que se passara e que culminara no exílio de um deles e numa luta interna na tribo, após a qual os Caçadores abandonaram a vida da aldeia. Desde a noite em que te encontrei até hoje é uma história que já conheces.

Estavam acampados na orla de Caladon, planeando como furar através das linhas de terror escarlate que se viam ao longe, bem dentro da muralha verde. Só ali culminara a história e encontravam-se a comer tranquilamente do pão que o velho tinha e que parecia não acabar! Quando mais tarde se preparavam para dormir, um grunhido próximo deles alertou-os.
O Mestre levantou-se segurando a vara na mão e começou a entoar um lamento, soprando como o vento nas copas das árvores e em simultâneo, como o zéfiro que bate nas fragas da encosta de uma montanha. O seu companheiro exclamou "A Canção do Ancião" e ele reconheceu-a, pois lá no fundo da sua alma aqueles suspiros e uivos eram-lhe familiares e sentia-se inquebrável ao entoar mentalmente aquela ladaínha. Subitamente uma horda de orcs surgiu da floresta. Mal tiveram tempo de se levantar e pegar nas varas, enquanto o Mestre atingia um orc violentamente na cabeça e partia a perna a outro. Assim que se pôs de pé, o Exilado entrou também em acção, servindo-se da hesitação dos orcs perante o ímpeto do Mestre. Rodopiando a vara acima da cabeça rachou o crâneo a pelo menos seis orcs. Graças ao treino do Mestre conseguia antever os movimentos dos inimigos e a escuridão não o incomodava, mas ali os inimigos pareciam uma avalanche que se abatera sobre eles, era impossível vencê-los a todos, morreriam ali, a lutar heroicamente! Quando o seu corpo começava a acusar o cansaço e o cheiro a sangue de orc lhe provocava vómitos, um urro ecoou na clareira e todos os orcs bateram em retirada.

domingo, julho 17, 2005

Contos do Exílio - O Regresso, parte IV: A última vela.

Estava novamente sozinho. Olhava em seu redor e ainda não acreditava que estava outra vez sozinho. Vinha-lhe à cabeça a noite em que conhecera o velho e via nessa nopite muitas semelhanças com aquela. Noite escura e pesada, como se fosse uma treva eterna, o cheiro a pinho queimado a perfumar o ar e a única luz e cor provinha da tremeluzente chama da fogueira.

Ali no chão, ao lado da fogueira, repousavam as mesmas varas que o Mestre correra mundo para lhe dar. As varas que outrora haviam sido dele e que regressavam agora às mãos do seu dono. Faltava só o cajado do velho... Faltava-lhe tudo o que o Mestre simbolizava.

"Não sejas para o teu povo o que eu fui para o meu: a última vela a apagar-se..." Essa frase remoía-lhe a alma. Tanta coisa mudara, mas o desejo de vingança tomava agora uma outra dimensão. Não procurava vingar o mal que lhe fizeram, procurava sim mostrar que o Mestre estava correcto, procurava não destruir os outros, mas antes mostrar-lhes que estavam errados... O que para eles era pior do que serem destruídos!

----------------- || -------------

Treinaram durante três meses. Nos dois primeiros apurou os sentidos de uma forma que nunca o havia feito. No primeiro dos dois meses nunca viu a luz do sol, devido à venda que o Mestre lhe colocou. Teve de caçar, identificar árvores e plantas, sem que nunca a pudesse tirar e de noite ainda tinha de realizar percursos na floresta. Aliás, todas as deslocações que efectuavam, efectuavam-nas apena de noite, ele com o Mestre às costas, enquanto que este dormia pesadamente. No segundo mês apurou apenas a visão, de tal forma o fazendo que conseguia distinguir o suave movimento dos pêlos no braço do Mestre, quando à noite se sentavam à fogueira.

O terceiro mês foi de todos o mais exigente, uma vez que o Mestre o iniciou no treino da luta com vara. Ao ver a sua vara de guerreiro, um ramo de eucalipto forte e robusto, seco e endurecido pelo tempo e pelo fogo, sentiu um formigueiro nas mãos e lembrava-se dos duelos que outrora fizera. O Mestre contudo, trazia também a sua vara de Caminhante, uma vara bifurcada, pouco maior que ele e que havia sido toda ela trabalhada. "Tomei a liberdade de esculpir nela a tua história", disse-lhe o velho com um olhar terno e meigo, "Mas deixei a bifurcação para ti. Afinal, daqui para a frente a escolha é tua..." acrescentou. Na manhã seguinte começaram a treinar movimentos de combate. Apesar de se lembrar dos movimentos, os seus músculos encontravam-se demasiado entorpecidos, pelo que levou toda a manhã para readquirir toda a destreza e coordenação necessárias, tendo na parte da tarde treinado movimentos avançados, tais como defesas e ataques com uma mão. No dia seguinte o Mestre desafiou-o para um duelo e só então percebeu que o cajado do velho era sim um bastão de duelo, à semelhança da sua vara, endurecido pelo tempo e pelo fogo. O duelo durou o dia todo, pois o Mestre apenas o considerava acabado quando um dos dois caísse inconsciente no chão. O Mestre movia-se graciosamente, parecendo leve como uma pena ao vento, e batia com a força de um urso. A meio da tarde, já com um dedo inchado e um enorme alto na testa, vencido pela dor e pelo cansaço, caíu.

Sentiu o sol quente a bater-lhe na face e acordou. Era a manhã que se erguia e o corpo dele já não apresentava nenhuma das mazelas com que havia desfalecido. Não havia mais ninguém no campo, pelo que teve tempo para repousar. Quando o sol já se punha, apareceu o Mestre, que apenas pronunciou as palavras "Recomeçamos agora." e prontamente o atacou. Não evitando a surpresa, não conseguiu evitar ser zurzido com violência na cabeça e, tonto, limitou-se a defender nos primeiros instantes. Ao recuperar o discernimento apercebeu-se de uma certa cadência repetitiva nos movimentos do Mestre e deciciu passar ao ataque. na sua primeira investida, uma esquiva lateral, seguida de ataque às pernas, quase conseguiu acertar, mas no último instante o Mestre saltou por cima dele e atingiu-o violentamente nas costas.

- Paramos por agora. - pronunciou, enquanto ele procurava levantar-se. - Fazes progressos notáveis, mas algo me apoquenta agora. - olhou em redor e depois continuou - Vou ausentar-me por uns instantes, se não estiver de volta até ao pôr-do-sol de amanhã, dirige-te para longe da montanha, levando tudo contigo. Se em alguma altura não souberes para onde ir, procura uma árvore e segue o lado sem musgo. - Dizendo isto partiu, sem lhe permitir qualquer pergunta. Assim que o velho desapareceu atrás da folhagem, um corvo aterrou junto à fogueira e grasnou ruidosamente. Pelo menos não estava sozinho!

(continua)