quinta-feira, janeiro 27, 2011
O Cruzeiro (pt. 2)
“Parvo… Que significam? Ou simplesmente gostas de corvos?” insiste. Hesita. “Bom, em várias culturas os corvos são vistos como uma ligação ao mundo dos mortos. Na mitologia nórdica, existem dois corvos em particular, Huginn e Muninn, que são uma forma de comunicar directamente com Odin, o líder dos deuses.”
“E tu precisas de comunicar com Odin?” pergunta, não sem evitar uma certa entoação de escárnio. Ontem mal conseguia articular duas palavras sem ficar mais vermelha que o sol que ilumina a cabina. Hoje dá-se ao luxo de gozar com o que não conhece. Pior! Eu deixo e rio-me com ela e gozo com coisas demasiado sérias e para as quais não a quero arrastar. Raios! Este tipo de preocupações são perigosas e já nem me refiro ao meu dia-a-dia, refiro-me a este cruzeiro em particular.
Ponho um ar o mais sério possível, levanto-me e enquanto visto os calções e a t-shirt digo-lhe que “Devia ir para o meu quarto arranjar-me. Se calhar é melhor jantares sem mim.” e saio do quarto. Não lhe dei tempo de me seguir, mas não estranho quando menos de um minuto depois ela me bate à porta do quarto. “Que foi aquilo?” pergunta entre o choque e a raiva. “Para saberes vais ter de pensar muito bem no que foi o nosso fim de tarde. Amanhã vou almoçar com um amigo no Funchal. Se o nosso fim de tarde foi só isso, um fim de tarde, não esperes por mim ao meio-dia no cais. Hoje tenho assuntos pessoais para tratar e se calhar não devia ter sido tão brusco contigo, mas amanhã falamos melhor. Pode ser?” Vejo ainda alguma indecisão e espero que tenha parecido estúpido o suficiente para ela não esperar por mim. Despeço-me e encosto a porta.
Debaixo da cama duas malas iguais. Numa delas uma etiqueta diz Gungnir, a lendária lança de Odin. Na outra, Huginn e Muninn, os corvos de Odin, que em algumas culturas representam uma ligação ao mundo dos mortos. Lembro-me da conversa de ontem com o Malvindo e abraço-as…
Um náufrago não é um acontecimento habitual, mesmo para quem passa a vida no mar, mas um náufrago que, sem articular palavra, cura a bebedeira de Ernesto Malvindo, a “Fada-Madrinha”, é um náufrago que até a mim me interessa. E deixa nervoso! Procuro segui-lo, mas a comoção chamou gente de todo o barco e Marlene interpela-me. Não consigo dizer que não àqueles caracóis ruivos e ficamos para mais uma bebida, ou duas, ou três... Finalmente acompanho-a à porta do quarto. Carrego-a até à porta, pelo braço, seria um termo mais correcto. Pelo caminho peço a uma das tripulantes que me acompanhe “para a deitar”. Após alguma relutância fingida lá nos acompanha.
Perto do convés da tripulação cruzamo-nos com a flor-de-estufa. Parece que já entregou o seu peixinho a quem de direito e anda agora à pesca doutro atum. O olhar desiludido com que me olha diz-me que podia muito bem ter sido eu. Deixo a Marlene no quarto com a Joana, uma simpática tripulante que tem a nobre tarefa de fazer as camas. Quando ela sai do quarto pergunto-lhe se há camas muito desfeitas e ela responde-me que a dela “está sempre pronta para ser desfeita” porque “sempre serve de treino fazê-la”. O sorriso perverso que me deita fala por ela e convido-a para irmos até à amurada apanhar ar. Ela esquiva-se com um “é demasiado fresco. Sei de um sítio onde podemos apanhar ar mais quente.” Sigo a deixa e vou atrás dela.
O quarto dela fica na outra ponta do barco. No regresso ao meu barco aproveito mesmo o ar fresco da amurada. No salão o piano electrónico foi esquecido e continua a tocar. Dirijo-me lá dentro e vejo que na mesa de honra alguém se esqueceu de uma caixa de charutos. Cohiba. Reformulo, alguém com bom gosto esqueceu-se de um caixa de charutos. Tiro quatro, os que cabem no bolso da camisa e os fósforos que ali estão ao lado e continuo para o meu quarto. Na amurada, ainda junto ao bar uma voz rouca e familiar. “Fodidos, estamos todos fodidos”. O barman… Ou melhor outro barman “Tem de se ir embora. Qual o seu quarto?”
“Você não percebe? Estamos todos fodidos!” afinal parece que a bebedeira não está totalmente curada. Dirijo-me ao bar e digo ao barman que o levo para o quarto. Encosto-o à amurada e estendo-lhe um charuto.
“Cohiba! Sabes o que é bom miúdo!” Diz-me com o ar embevecido dos bêbados. Olha para mim um bocado à luz do terceiro fósforo. “Eu não te conheço de algum lado?” Respondo-lhe com o nome da cidade. “Berlim” Ele fica um bocado ocupado com o seu charuto até que me pergunta “Asgard?". Respondo afirmativamente. “Um caso complicado. Muito sujo. Mal feito. Não que a culpa fosse vossa, simplesmente não deu para melhor. Fiquei um ano fora da Alemanha e sabe Deus a quantidade de barrisque lá se beberam nesse ano…” Agora era um bêbado a recordar o passado, algo que eu queria evitar. Acima de nós havia pelo menos mais dois conveses, antes de se chegar à ponte. A última coisa que eu queria era alguém a ouvir conversas camufladas.
“Grande noite, esta!” soltei.
“Só te digo uma coisa: estamos todos fo-di-dos!”
“Então porquê?”
Quando chego ao meu quarto, depois de deixar o Malvindo no quarto dele, tiro duas malas debaixo da cama. Verifico que o conteúdo está completo e amaldiçoo a hora em que não trouxe uma ligação satélite segura.
quinta-feira, janeiro 20, 2011
segunda-feira, dezembro 06, 2010
Pairam sobre a tua cabeça
Pedaço de inferno na Terra
Mil e um corpos rodeiam-te
De braços estendidos para te tocarem
Mil e um com vontade de te levar
Erguido bem acima deles
Passando a mensagem que os vais tu
Levar erguer salvar
Sombra fingida de luz negra
Brilho apagado
Carta sem letras
Banquete de fome
Idolo de barro
Mil e uma palavras brotam da tua boca
Cápsulas vazias que se propagam
Pelas vazias orelhas da multidão
Que guias
Que te arrasta
Quando nos levas
Para esse maravilhoso Inferno
Que te mandam
domingo, novembro 28, 2010
sábado, setembro 04, 2010
Um Charuto
Tiro o casaco e atiro-o para cima da mesa da cozinha. Quando aterra expõe um dos charutos que o Miguel levou hoje para o almoço. No caso o charuto que ele me deu e que não me apetecia fumar. Que estupidez, charutos porque vai ser pai! E depois de almoço sem podermos beber uns copos… Ficava a tarde toda com o sabor do tabaco na boca e…
Estou em minha casa. Na garrafeira há uma garrafa de Jack Daniels, porque não aproveito? Já sei, por causa do cheiro pestilento com que a casa fica depois! Mas posso sempre abrir uma janela. Bom, seja então!
Que merda, a porcaria do fumo passa a vida a ir para dentro de casa. Mas não vou para a varanda de boxers, porra! Oh! Que se lixe, também a esta hora não está ninguém na rua.
sexta-feira, agosto 13, 2010
O Funeral
Havia começado uns anos largos antes. No velório alguém lembrara como a transportavam ao colo, como a acarinhavam, a mostravam a desconhecidos. Como em todas as famílias a educação dos filhos também neles provocou discussões, algumas em tom bem amargo, outras bem regadas, mas indiferente a todas estas discussões a menina ia-se fazendo rapariga. Até que um dia sentiu necessidade de se expandir.
Andou um bocado intermitente. Experimentou várias roupas, vários estilos. Nunca se deu por satisfeita, chamou a atenção de gentes várias e não se apercebeu que crescia para lá do controlo da família. Não se apercebia que era ela própria o cimento que juntava a família, mas qual o adolescente que tem essa noção? Como todos os adolescentes fez-se adulta e tentou então aproximar-se da família. Ainda os juntou mas aos poucos sentia a vida a fugir-lhe. Foi uma daquelas doenças que surgem devagarinho, os sintomas tão camuflados que nem nos apercebemos que são sinal de algo grave. As reuniões de família traziam sempre novos elementos, mas ela saía de lá esgotada. Cheia de vitalidade, mas esgotada e isso perturbava-a. Nos dias seguintes queria fazer coisas, mas não encontrava eco.
Foi então que percebeu que os anos em que crescia a família tornava-se várias famílias. Não era mais o garante de união de várias pessoas, antes motivo para as várias famílias se verem de quando em quando e recordarem a sua pequena menina.
Com o afastamento da família ela descobriu o que era a solidão. Não de uma vez, aos poucos, à medida que o bicho lhe comia as entranhas e as pessoas se afastavam, não de nojo, desinteressadas, sem vontade de ajudar uma doente que cambaleava, mas não parecia doente. Havia dias em que acordava e o sol parecia brilhar com mais intensidade e nesses dias punha um sorriso bonito, num desses dias ousou até fumar, algo que não fazia desde... Não se lembrava!
Na verdade não acabou o cigarro. A meio sentiu-se melhor, muito melhor, e já só viu a sua vizinha de mãos na cabeça, quando estava de pé ao lado dela, a olhar o seu corpo caído no chão.
Mais uma vez tinha conseguido juntar a família. Sabia que era a última vez. Sabia-o e percebia-o agora finalmente. Tudo o que começa apenas tem por certo o fim. Queria aproveitar aqueles instantes ali no meio deles, ouvir as memórias pela última vez, antes de se desfazer em cinzas e se espalhar pelos cantos da memória colectiva daqueles que um dias foram a sua família.
quarta-feira, junho 23, 2010
Um Charuto
Não um salão de jogos na acepção de um local onde se paga para entrar e onde se gasta dinheiro. O que se passou foi que o pai dela queria um espaço para meter uma mesa de bilhar e uns computadores para jogar na net. Parece que umas máquinas todas artilhadas, mas como posso saber, estão todos bloqueados! Agora a mesa de bilhar não e ao final da tarde não é raro irmos para lá jogar.
Esta tarde estava-lhe a dar nas horas e por muitos jogos que fizéssemos, em menos de um quarto de hora já tinham acabado, com o resultado a ser invariavelmente uma vitória minha. Compreensivelmente a vontade de jogar não era muita e a Anabela decidiu que queria antes ir ver montras ao centro. Quando estávamos a sair do pequeno jardim
(talvez canteiro seja o termo mais correcto, mas a mãe dela insiste tanto em chamar-lhe jardim, que toda a gente acaba por alinhar com ela; quem disse que uma mentira repetida não se torna verdade?)
reparámos numa situação estranha: um homem, de calções e t-shirt, estava na varanda a fumar.
(Esqueci-me de dizer que todo o bairro está organizado por pracetas, com a frente das casas orientada para o centro e um acesso a uma rua principal no topo norte da rua. Todas as casas têm um acesso à porta ladeado por canteiros, uma garagem mesmo ao lado da porta e, a cobrir ambas as ombreiras, um varandim com não mais do que um metro de largura, mas onde alguns moradores ainda conseguiam colocar alguma verdura. A decoração das varandas é o segundo, e penúltimo, traço de individualidade.)
O estranho na situação é o haver alguém a olhar o quadrado morto em que se torna a praceta a meio da tarde. Aquela cena pareceu-me tão fora do sítio que o que me tomou não foi um sentimento de “é um homem a fumar um charuto”. Não! Naquele momento era mais que isso, era um estranho com um comportamento estranho! Não se pense que o estranho era o fumar, como já referi, o estranho era alguém olhar para a praceta enquanto o fazia, porque era isso mesmo que ele fazia, estava ali, de pé, encostado à ombreira da porta da varanda, um charuto na mão e o olhar vazio. Ou seria um olhar cheio, a tentar captar toda a praceta? Mas que havia na praceta para captar?
“Estás bem?” perguntou-me a Anabela, e só então percebi que estava parada a olhar para a varanda. “Não é nada de tão especial que pares para aí a olhar. Até parece ser já um bocado velho demais para ti!”
“Não é isso! Não achas esquisito o que ele está a fazer?” perguntei-lhe. A resposta veio na forma de uma pergunta e de uma risada e senti-me um bocado aparvalhada por ser confrontada com a naturalidade de acto de se fumar um charuto. “Mas não achas estranho alguém estar a fumá-lo sozinho a olhar para a praceta a meio da tarde? Que é que há aqui para ver?”
“Olha… Se estás tão cheia de dúvidas porque não vais lá perguntar?”
(continua)
terça-feira, abril 06, 2010
Ana Berta (conclusão)
Quando faltava cerca de um quarto de hora para o combinado vi aquele balancear de pernas familiar a entrar no bar. Vestida e maquilhada quase que passava despercebida, mas aquele andar, aquilo era-lhe tão enraizado e tão dela que não precisava de ver mais nada para saber quem entrava e se dirigia a mim.
-Então campeão? - disse-me aquela voz quente que não ouvia há muitos anos.
-Então? - estava ainda um pouco incrédulo que aquilo estava realmente a acontecer - Sei lá, "então"!... Há quanto tempo?
-Às vezes parece demasiado.
-Outras nem tanto. Vi hoje que fizeste carreira no mundo do espectáculo.
-É uma maneira simpática de pôr as coisas. Eu também já sei que dedicaste a, como alguém me disse uma vez, "morrer de tédio no lento suicídio do escritório". Lembra-te alguma coisa?
-Lembra-me alguém iludido com a vida. Quando não conheces o mundo, ele parece mais entusiasmante, com mais opções, menos impossíveis.
-E quando o conheces aprendes a ver outros possíveis, mas possíveis que te permitem fugir à rotina. Se olharmos bem - aqui uma pausa para pedir uma imperial - só temos de saber procurar as opções para fugir ao escritório.
-Tipo o quê? Tornar-me uma estrela porno?
-É uma opção. - sorriso maroto - Não é tão entusiasmante como parece, mas não é entediante. Claro que como qualquer profissão não é para qualquer um.
-Pois não, é preciso muito treino para...
-O Rui tinha razão! - interrompe-me com um tom algures entre o chateado e o cansado - Está uma sombra do que eras, partido, vencido, derrotado.
-Desculpa, o Rui!?
-Sim o idiota é que me arranjou a entrevista e é que me disse que estavas aqui agora.
-E tu vieste porque...
-Porque já não te vejo há imenso tempo! Não se pode ter saudades dos amigos? No meu ramo precisamos dos amigos, sabes?
-Claro que podes, mas vais-me desculpar estar esquisito, sabes nunca pensei que tu acabasses...
-...A vender o corpo?
-Sim. Provavelmente é isso. Que te correu mal na vida?
-Mal? - o ar dela enquanto gritava esta palavra era de espanto indignado - Ai tu achas que algo me corre mal na vida porque faço o que faço? Nunca pensaste no contrário, que isto é a vida a correr-me bem? Tu que passas nove horas num escritório, cinco dias por semana, quatro semanas por mês e tens menos de um mês de férias, quando te deixam gozá-las, perguntas-me o que me correu mal?
Filipe, Filipe... - e acenava com a cabeça condescendentemente - Que sabes tu de a vida correr bem? Desde que acabámos o décimo segundo que não ligas nem falas. Se não fosse pelo Rui nem sequer agora estávamos a falar.
-Desculpa mas o que é que isso tem a ver?
-Estás desculpado. Tu que ias mudar o mundo, passar a vida em férias constantes, quando é paraste de acreditar que isso era possível? Pára e pensa: és mesmo feliz? Sabes que para quem te conheceu a resposta é bastante óbvia: não!
-Porque com a tua actividade vem incluído um curso de psicologia barata que dá alegria aos outros. Bom a parte da alegria se calhar até vem...
-Porque com a minha actividade tenho uma semana de férias por mês, porque neste momento escolho os trabalhos que faço, com quem os faço, tenho direito a assistência médica paga e acima de tudo - aqui frisou que o que se seguia era a parte realmente importante - não tenho a monotonia da fábrica de carros onde penei durante dois anos, ganho num mês o que ganhava lá num ano, não tenho turnos impossíveis e tenho um horário reduzido. Ah! E quando chego ao fim do dia cansada é porque provavelmente nesse dia consegui ter um orgasmo genuíno e não porque nem para orgasmos tenho vontade.
Aqui eu já não ouvia bem o que ela ia dizendo. Pensei, por breves instantes, que poderiam ser as desculpas que ela se dava para justificar o trabalho, mas algo na forma de falar me dizia que não era esse o caso. Aquilo não eram desculpas, eram motivos, eram as razões pelas quais ela, ao fim de um dia na fábrica, farta de processar guias de transporte, folhas de pagamento e deves-e-haveres, havia decidido deixar aquela vida. Aquilo havia sido pensado, aquelas eram as razões e ela vivia tranquila com a sua consciência e encarava de frente um mundo que a segregava. Quase que fazia com que parecesse inveja!
-Então e namorados? - perguntei, apenas com a curiosidade de saber como conjugava o incompatível.
-Casada, divorciada. Presentemente sem ninguém. Estás interessado é? - não consegui resistir a sorrir.
-Não costumo cometer o mesmo erro duas vezes.
-Então e uma quecazinha? Aposto que tenho uns truques para te ensinar. - aqui engasguei-me. No meio de tudo não vi esta a chegar e só aqui percebi que a hora de encontro com o Rui já tinha passado para lá do atraso normal. Comecei a questionar-me que ao "pagas tu" não faltou acrescentar um "não e preocupes que é só copos para dois".
-O Rui sabia? - perguntei, quase que esperando um "foi ideia dele".
-Sabia. Foi complicado convencê-lo, mas lá acabou por concordar em não aparecer.
-Então ele sabe da proposta?
-Qual proposta? Achas que estava a falar a sério?
-Pensei que...
-Que eu era uma puta que dava uma borla de vez em quando? Nem uma, nem a outra! Mostro-me e deixo que me façam coisas, também faço coisas, mas isso tem um espaço definido e é só mais um trabalho.
-Ah, peço desculpa se confundi as coisas.
-Não é isso. Emocionalmente, achas que te consegues distanciar? Se sim, bora lá, até filmamos e poupas-me umas horas de trabalho. Até te mostro como se faz, quem sabe tenho um orgasmo daqueles que se ouve na rua toda e acorda os vizinhos. Mas pensa bem no dia seguinte. Achas que estás distante o suficiente para te meteres nisso? Não esperes que eu amanhã esteja toda ramelosa à tua volta.
Eu sei que achas que preciso de ser salva, mas não preciso. E mesmo se precisasse não era por ti! Agora pensa lá bem: queres alguma coisa?
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O sol bate-me de frente na cara e acordo num quarto de hotel. Penso para mim que deviam proibir quartos virados a nascente e apercebo-me que a água corre na banheira da casa de banho.
-Bom dia dorminhoco. - diz-me uma voz familiar e aconchegante - Não faças esse ar de parvo. Consigo ver-te pelo espelho. - olho e confirmo que é possível ver o seu corpo despido enquanto o seca.
-Bom dia! - solto aquilo que penso ser palavras, mas assumo que possa ser ouvido como um balbuciar.
-Quem era a tua amiga de ontem?
-A Ana?
-É esse o nome dela? Na revista dizia outro, um inglês.
-Sim, é actriz porno. Na revista vem o nome artístico.
-Uh! O meu namorado dá-se com actrizes porno. Tenho motivos de preocupação?
-Não 'mor, preocupa-te antes com o teu marido, que as minhas amigas são só isso mesmo: amigas!
quinta-feira, abril 01, 2010
Ana Berta
-Bom dia senhor Bastos. Hoje é "O Apito" e o "Diário de Trivialidades".
-Acho que "O Apito" esgotou, deixe só cá ver se sobrou algum. - e dizendo isto desaparece nas profundezas do quiosque, como que engolido.
O momento em que se espera pelo jornal é um momento mágico para o vendedor. Aquele ritmo lento com que ele procura, apurado com o lento passar dos anos, faz com que quem espera pelo jornal desde cedo perceba que é melhor entreter-se. Como o que não falta são cabeçalhos e capas para ler, a verdade é que nem nos importamos de sermos presos a uma outra capa e levar sempre algo mais do que vínhamos comprar.
Naquele dia chamou-me a atenção uma revista masculina, a CCM, que trazia na capa uma modelo escultural. Ou seria uma apresentadora semi-despida? Enfim, era escultural ou aparentava... Mesmo assim, o que me chamou a atenção foi uma das fotos mais pequenas, daquelas que aparecem nos cantos e cuja legenda anunciava "Uma portuguesa com a Europa entre as pernas" e que retratava nada mais nada menos que uma das minhas amigas de longa data, mas da qual havia já alguns anos não ouvia notícias. Na altura chamava-se Ana Filipa Machado, mas agora respondia por Cuntrine Wide.
Sei que fiquei ali um bocado, mas quando dei por mim já o senhor Bastos me olhava com os jornais na mão.
-Dê-me também uma CCM, faz favor.
-Aqui tem. - expedito - Para a semana quer que lhe guarde o Jornal de Palavras?
-Sim, se puder ser.
-Então ora aqui tem. Acertamos contas no Sábado?
-Sim, como de costume.
-Então passe bem, senhor Saraiva.
-Até logo, senhor Bastos. - e segui para o escritório com os jornais e a revista debaixo do braço, mas só um dele me fazia fervilhar de curiosidade.
-//-
Trabalhar naquele dia era impossível. Simplesmente não estava a ali, estava na revista. De facto nem sei dizer exactamente porque é que estava incomodado, afinal as estrelas porno também andaram na escola e foram colegas de alguém, simplesmente a vida não lhes havia corrido como aos outros. Eu simplesmente tinha sido colega de uma delas. E namorado.
Até compreendia que houvesse quem gostasse que lhe pagassem para fazerem aquilo, mas com a pressão das câmaras e o peso de milhares... milhões (vivemos numa época de milhões) de visualizadores de conteúdos para adultos (milhões de quase-adultos convém acrescentar) ao qual ainda se pode juntar a dificuldade de manter uma relação...
Toca o telefone:
-Estou?
-Foda-se, viste a capa da CM hoje? - a voz, quase que o grito, pertence ao Rui, amigo de muito longa data.
-A capa da...
-CCM, a revista de gajos, pá! Tens de ver, nem acreditas quem vem lá.
-A Filipa do secundário?! - disse, dando uma entoação de palpite casual.
-Porra, já viste. Ganda cena meu, andaste com uma estrela porno. - E quando ele diz isto quase que lhe vejo o grande sorriso trocista que certamente está a exibir para o telemóvel.
-Não se pode dizer que tenha o exclusivo da coisa, não é?
-Deixa-te de merdas! Logo copos no Bazar, pagas tu Dick Mountenjoy - Com a referência pornográfica desligou o telefone. O resto do dia prometia...
(continua)
terça-feira, março 09, 2010
Novo velho blog meu
domingo, fevereiro 28, 2010
Concurso de Fotografia :: PENA 2010
Cada autor deve participar com o máximo de três fotografias, uma por tema!
Nesta edição os temas são os seguintes:
- pessoas
- urbano
- natureza
- científico
- abstracto
A submissão de fotografias durará até ao final do mês de Março.
As submissões são aceites para o email geral do com-palavras. Neste deverá ser mencionado o(s) tema(s) e o nickname do autor.
Em Abril abriremos as votações.
Bom concurso!!! :)
quarta-feira, janeiro 06, 2010
Concurso de Fotografia com-palavras.com
sábado, novembro 07, 2009
Não me olhes assim II
És suave como uma manhã de Outono…
Quando os raios de sol, filtrados pelo nevoeiro matinal, entram pela janela do quarto a acariciarem o meu despertar…
Vou à janela ver o mundo!
Umas quantas folhas amarelecidas pelo calor do verão voam na brisa para se acumularem num acolchoado tapete ruivo…
Sinto que te aproximas, viro-me para contemplar o teu vestido de pele branca… Hoje trazes esse longo cabelo preto solto até à cintura… Tens na mão, duas metades de romã… De uma delas, solta-se uma gota de sumo que tomba no chão branco, como se de uma gota de sangue se tratasse!
Os teus enormes olhos negros presos em mim…
- Porque me olhas assim?
- Assim como?
- Como se esperasses algo de mim!
Afasto-me, em direcção à janela… A respiração forte e irregular, a minha mão que treme como se fosse exterior a mim… Tu abraças-me pelas minhas costas, os teus braços entram por baixo dos meus, provocando um pouco de cócegas, para se alojarem no meu peito exaltado, sei que te apercebes, mas não o comentas, suspiras em silêncio e beijas o meu omoplata… Umas quantas lágrimas humedecem-me o olhar…
A nossa sombra, provavelmente, projectada na parede branca do quarto… E o nevoeiro matinal que tudo encobre… E o sumo da romã que continua a cair formando agora uma pequena mancha vermelha, no chão branco do nosso quarto.
Os nossos corpos nus fundidos naquela sombra, que, provavelmente, se reflecte na parede do quarto… Afasto-me mais um pouco, num gesto de vergonha, que também poderia ser considerado desprezo… Tu não me segues, mas as nossas mãos ficam suspensas, como uma ponte, entre os nossos dois seres… A minha mão esquerda continua a tremer demasiado… Se, ao mesmo, tu pudesses compreender…
Giro-me em direcção a ti… Verifico quão bela és! E, de novo, esse olhar…
- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me enlouqueces!
Uma metade de romã solta-se da tua mão e flutua, estranhamente, em câmara lenta até ao chão… Ao mesmo tempo, na avenida, uma bolota solta-se do carvalho mais próximo da minha porta… Saltitam umas três vezes antes de encontrarem o sítio perfeito para repousarem!
Algumas gotas de sumo voaram até às tuas pernas brancas! Ajoelho-me diante de ti e bebo o teu doce sangue! A mancha vermelha do chão continua a alastrar-se como se me fosse aprisionar… Discirno, claramente, como ganha vida e se alastra na minha direcção como se de uma enorme amiba vermelha se tratasse... Começam a formar-se uns braços em volta da minha perna… Procuro refugio nos teus olhos, mas, também eles, parecem devorar-me vivo…
- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me aleijas!
Moves-te em direcção à cama, começas por desfaze-la como se desmontasses o cenário do nosso pequeno Teatro dos Sonhos… Enquanto trocas os lençóis por uns lavados recentemente, o cheiro a lavanda inunda a pequena habitação em que nos encontramos… Com o meu braço na tua cintura obrigo-te a que te gires na minha direcção e abraço-te… o teu braço direito, tremulo, e que sustém, ainda, a romã encontra um repouso acutilante no meu peito, como se me apunhalasse o coração… O sangue, excessivamente, vermelho da romã escorre pelo meu tronco antes de cair no chão! Sinto-me fraco, e refugiando-me no teu abraço caímos os dois nos lençóis brancos que acabas de pôr na cama… As nossas peles brancas, camufladas, entre os lençóis são como pele de fantasmas, como se já não existíssemos… Acaricio-te a cara com ambas as mãos e aproximo os nossos lábios, talvez eles mais vermelhos que o sangue que tinge os lençóis, para te beijar… Neste movimento lento os meus olhos encontram os teus enormes botões negros neste universo branco e vermelho…
- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque me dás medo!
Tomo consciência que a nossa pele desapareceu já, fundida por entre os lençóis… De nós sobra apenas a romã, agora esmagada entre os nossos corpos, os nossos lábios quentes e os teus olhos negros… Somos fantasmas do casal que viveu aqui um dia… Somos a recordação! Não voltaremos a ter vinte anos… Nunca mais voltaremos a ter vinte anos… Tento em vão olhar pela janela e aperceber-me do Outono… Sinto o ar gelado do quarto… Sinto o frio dos lençóis… Vejo o nevoeiro matinal a invadir o quarto, com ele veio a Morte para me acariciar as costas, mas ficou, ali a um canto, quando se apercebeu que já não tenho costas… Veio, também, um Anjo acariciar-te o cabelo, mas também ele permaneceu naquele canto, ao ver que já não tens cabelo… Aperto o lençol contra si mesmo, na esperança vã que sejam as nossas mãos que se apertam… Não quero perder-te… Fiquemos aqui para sempre, neste limbo… E que a Morte e o Anjo sejam os nossos guardas… Mas tudo é em vão… Cedo descobriram uma forma de nos levarem… E, eu, eu já sinto frio… Muito frio… Perecemos aqui no palco onde um dia construímos o nosso enorme Teatro de Sonhos… Nunca fomos uma bela história de Amor… Mas diluímo-nos como Amantes, entre os lençóis brancos tingidos pelo vermelho-rubro da romã… Fora da janela do nosso quarto o Outono continua a tingir tudo de ruivo… O nevoeiro permanecerá para sempre, como o ultimo suspiro de Nós… Num ultimo esforço busco o teu olhar fascinante…
- Não me olhes assim!
- Porquê?
- Porque não!
E eu, que esta manhã só queria sair à rua descalço e percorrer lentamente a avenida enquanto o tapete ruivo de folhas secas se destruía debaixo dos meus pés… E tu, na janela, a ver-me, enquanto comias essa romã… Podíamos passar a tarde na praia… Voltar e acender a lareira… Eu sentava-me no chão… E tu no sofá… Abríamos uma garrafa de vinho… Eu lia-te um livro… No final beijava-te e dizia que te amava… Tu sorrias… Uma lágrima, provavelmente, humedeceria o meu olhar…
E eu, que esta manhã só queria que fossemos, descalços e de mãos dadas percorrer o enorme tapete ruivo que cobre a avenida onde está a nossa casa…
Este texto é uma outra forma de contruir um texto anterior:
http://www.pena.com-palavras.com/2008/12/no-me-olhes-assim.html
quinta-feira, novembro 05, 2009
V – Os Transportes
Passam táxis
Passam pessoas
Espera-se e espera-se
Aí vem o próximo
Passam pessoas
Passam paisagens
Passam transportes
De quem asseia por casa
terça-feira, outubro 27, 2009
IV - A Noite
E o tempo que congela
Vadios de rumo certo
Olhares ansiosos e vorazes
Apetites loucos à solta
Um sentimento de desconhecido
A cada esquina conhecida
Nos estranhos companhia
Que nos leva a estranhar
E abandonar a razão que temos
Grupos que crescem mesmo que apenas por horas
Horas que passam sem se verem
Véu negro que clareia
Passagem para o amanhã
Renascer da alegria
quinta-feira, outubro 22, 2009
III - Fim de Tarde
Os raios mortiços
De um sol que está de partida
O rebuliço das gentes
Que se vai com o calor
E o calor das gentes nos bares,
Que aumenta com a escuridão.
O ar sorridente
O ar cansado
O ar pesado
O ar carente
O ar de toda essa gente
O ar que tenho em mim.
O Basilisco
O Basilisco abandona o seu abrigo,
Com os seus olhos que inspiram loucura,
Tudo o que respira está em perigo.
Abrindo as asas sobe no ar,
Espalhando pelos campos o terror,
Voa sob os raios de luar,
Enchendo quem o contempla de torpor.
Misto de morcego e serpente,
Corpo de galo e de dragão,
Aterroriza fraca e forte gente,
Matando tudo o que se atravessa na visão.
Com o seu olhar venenoso,
Transforma em cinzas quem o vislumbra…
Com o seu hálito sulfuroso,
Sufoca o incauto na penumbra…
Este monstro, poucos o sabem deter…
Não com o odor de doninha nem canto de galo,
Pois apenas o seu reflexo o consegue abater,
Obrigando as trevas a recolher o seu vassalo.
E assim todas as longas noites brumosas,
O Basilisco atravessa o firmamento,
Aterrorizando as pessoas receosas,
Para por fim regressar ao seu acolhimento.
[Mergulhando na água escura,
O Basilisco regressa ao seu abrigo,
A uns, os seus olhos lançaram na loucura,
Aos outros, o medo do regresso do perigo.]
terça-feira, outubro 13, 2009
II - Os Cafés
Que ocasionalmente olha para mim.
Estranhos não por serem esquisitos
Estranhos por serem diferentes.
Os muros que erguem são altos
E maciços, mas ali, na aragem do final de tarde
Sentimos os ventos da liberdade
E vemos o sol
Por entre as falhas dos tijolos.
É ali,
Com as suas bebidas e comidas
Do que para mim é o final do dia
Para eles o começo da noite
Que os vemos como são
Em amena conversa
De olhar agressivo.
segunda-feira, outubro 12, 2009
Sem pensar
Estou a tentar não me esforçar,
mas se tento tanto não pensar
será que vale a pena não me preocupar?
Estou a mentir a mim próprio.
Eu digo que não vale a pena pensar,
mas será que não vale mais a pena dar as costas ao vento
e caminhar daqui para fora?
Tu olhas para mim e tento não pensar.
Penso nas palavras e elas tropeçam para fora.
Penso no andar e fico congelado no lugar.
Penso em não me preocupar o que achas de mim
e fico ridículo tentando não me esforçar.
quarta-feira, outubro 07, 2009
Verão
Ainda te lembras dos jardins que visitámos?
Ainda te lembras das fotografias que tirámos?
Ainda te lembras das carícias que trocámos?
O sol nas nossas costas ardia mas era tão fácil ignorá-lo enquanto subíamos a serra. A paisagem até perder de vista fazia-nos perder o fôlego. Teus olhos brivalham enquanto olhavas para longe e os meus brilhavam olhando para ti. Ainda me lembro de ti a tirares fotos a tudo enquanto eu me ria e roubava fotos de ti. Foi o nosso Verão, presos um ao outro, num romance tão lindo.
Ainda te lembras dos edifícios que vimos?
Ainda te lembras dos sonhos que descobrimos?
Ainda te lembras dos prazeres que sentimos?
E agora aqui estamos, alegres desconhecidos um do outro. Tu passeando com a tua família, de braço dado com o teu marido, por entre o ar nocturno suave e quente. O quanto parece aborrecida a nossa existência agora...
Ainda te lembras do quanto quis ficar contigo?
Ainda te lembras do amor que senti perdido?
Ainda te lembras de mim????