quarta-feira, janeiro 16, 2013
Buraco
Confusa a vida que se emaranha nos sinais, metamorfose espiritual preenchida no vazio.
Na fortaleza emocional um imprevisto, o coração, iluminou feliz os alegres momentos.
De negro caminha pelos trilhos da vida, fraco, não vê cor da chama da pessoa que ama.
Agora guarda, agora oprime, agora oculta seu fracasso... um pouco triste no seu buraco.
quarta-feira, janeiro 09, 2013
Imperfeições
Hoje estou mais resistente às injustiças da sorte,
Já não vejo os problemas, apenas as soluções.
Talvez seja a auto-estima que esteja forte,
Já não sinto dor, apenas algumas imperfeições.
Já não vejo os problemas, apenas as soluções.
Talvez seja a auto-estima que esteja forte,
Já não sinto dor, apenas algumas imperfeições.
terça-feira, janeiro 08, 2013
Inconsequente
Ignoro o silêncio a cada segundo,
Ruidoso este meu pequeno mundo.
Não barro os ponteiros da emoção,
Seria bloquear o sentido do coração.
O relógio do meu ser é partilhar,
O mais sincero momento e amar.
Ruidoso este meu pequeno mundo.
Não barro os ponteiros da emoção,
Seria bloquear o sentido do coração.
O relógio do meu ser é partilhar,
O mais sincero momento e amar.
segunda-feira, janeiro 07, 2013
Reencontro
Queimo palavras antigas e distantes
No calor escudo meu coração.
Apago as memórias dilacerantes
No frio profundo da razão.
Introvertido, afasto-me do abismo carnal,
Da promiscuidade superficial... e do prazer.
Extrovertido, neste descontrolo emocional,
Reencontro a estabilidade do meu ser.
No calor escudo meu coração.
Apago as memórias dilacerantes
No frio profundo da razão.
Introvertido, afasto-me do abismo carnal,
Da promiscuidade superficial... e do prazer.
Extrovertido, neste descontrolo emocional,
Reencontro a estabilidade do meu ser.
quinta-feira, janeiro 03, 2013
Melancolia
A vida é uma cela melancólica...
Aprisionada às boas memórias.
Fugida do presente com medo do futuro.
A vida dorme no relógio emocional...
Nas insónias e nas entrelinhas.
Ofusca o presente na escuridão do passado.
terça-feira, janeiro 01, 2013
Viverei
Andei enganado, julguei que existiam sinais.
Andei cego, criei falsas metáforas no meu ser.
Andei perdido, nas conversas e nos pensamentos.
Subestimei a natureza e sua imensidão.
Subestimei a minha razão e sua clara noção.
Subestimei a minha essência acreditando na paixão.
Vou afastar, mesmo contrariado.
Vou ignorar, mesmo inquieto.
Vou esquecer, o que julguei inesquecível.
Seguirei o caminho, nesta vida de incertezas.
Seguirei sem nenhuma preocupação ou arrependimento.
Seguirei novamente onde me lavar o coração.
Viverei... o momento.
Andei cego, criei falsas metáforas no meu ser.
Andei perdido, nas conversas e nos pensamentos.
Subestimei a natureza e sua imensidão.
Subestimei a minha razão e sua clara noção.
Subestimei a minha essência acreditando na paixão.
Vou afastar, mesmo contrariado.
Vou ignorar, mesmo inquieto.
Vou esquecer, o que julguei inesquecível.
Seguirei o caminho, nesta vida de incertezas.
Seguirei sem nenhuma preocupação ou arrependimento.
Seguirei novamente onde me lavar o coração.
Viverei... o momento.
sábado, dezembro 29, 2012
Inquietude
Hoje mal dormi... inquietude.
Tento não dar importância mas é poderoso.
Questiono minha razão,
Menosprezo meus sentimentos,
Esta força, esta paz, esta emoção?
Por mais distância que o olhar não alcance,
Por mais diferenças que a razão reconheça,
Por mais pessoas que a vida nos apresente,
Devo fechar a porta ao meu coração?
quarta-feira, dezembro 26, 2012
Viagens
Viajo no inconsciente, lúcido
Procurando o desconhecido.
Ignorante nos trilhos da vida
Como uma mão ao ser lida.
Criança a minha inocência,
Meu coração recuperado.
Procuro na vida a essência
A viagem final para o meu fado.
Procurando o desconhecido.
Ignorante nos trilhos da vida
Como uma mão ao ser lida.
Criança a minha inocência,
Meu coração recuperado.
Procuro na vida a essência
A viagem final para o meu fado.
domingo, dezembro 23, 2012
Passado
Antes via o mundo concebido de paixão
Na sua mais pura e natural plenitude.
Depois vivi no mundo desprovido de emoção
Na sua mais crua e falsa amargura.
Na sua mais pura e natural plenitude.
Depois vivi no mundo desprovido de emoção
Na sua mais crua e falsa amargura.
Amor
Serei Verdadeiro
Serás Interesseiro
Serei Jovem
Serás Velho
Serei Trégua
Serás Luta
Serei Belo
Serás Feio
Serei Fiel
Serás Falso
Serei Líbido
Serás Promiscuo
Serei apenas eu.
Serás Interesseiro
Serei Jovem
Serás Velho
Serei Trégua
Serás Luta
Serei Belo
Serás Feio
Serei Fiel
Serás Falso
Serei Líbido
Serás Promiscuo
Serei apenas eu.
Medo
Leigo no muro desconhecido
Encostado ao mundo aborrecido,
Assombras a morte na consciência
Como amando em penitência.
Encostado ao mundo aborrecido,
Assombras a morte na consciência
Como amando em penitência.
Doce e meiga
Doce o olhar inocente
que me fez despertar
da emoção indolente.
Longos anos a sonhar
Que amava loucamente
Uma vida proibida.
Meiga a razão que me libertou
De dúvidas existentes
e na ferida aberta me tocou.
Longos anos a ignorar,
Não soube preservar
A minha própria essência.
E se hoje escrevo
A essa meiga e doce pessoa
É porque nela existe
Uma força que subestimei
E sinais que ignorei.
que me fez despertar
da emoção indolente.
Longos anos a sonhar
Que amava loucamente
Uma vida proibida.
Meiga a razão que me libertou
De dúvidas existentes
e na ferida aberta me tocou.
Longos anos a ignorar,
Não soube preservar
A minha própria essência.
E se hoje escrevo
A essa meiga e doce pessoa
É porque nela existe
Uma força que subestimei
E sinais que ignorei.
quinta-feira, março 22, 2012
A Amante
Tens outra?
Perguntas e eu respondo
Tenho
Ficas sem resposta
Não esperavas esta honestidade
Perguntas e eu respondo
Tenho
Ficas sem resposta
Não esperavas esta honestidade
Mas se eu dissesse
Não
Procurarias que dissesse
Tenho
E tu então poderias dizer
Eu sabia
Quando não sabias
Quando agora te digo
Tenho
Continuas sem saber
Não sabes como gosto de acordar
Junto do seu coração
O sangue que começa a fluir
O burburinho que aumenta
E a cor que retorna aos membros
Com o Sol que a ilumina
A reflectir em poças de suor
Aqui e ali na sua pele negra e áspera
Que lhe lavam pela manhã
Remelas acumuladas pelos cantos
Bolas de cotão que restam ainda
Das noites loucas nos bares
Dos amantes nas esquinas
Dos bêbados cambaleantes nas avenidas
Saio pela manhã para a ver
Corro-lhe sobre os dedos pela tarde
Ela chama-me e deixa que a abrace
Que lhe sinta os humores
Que com ela partilhe frio e calores
Sem nunca me dizer nada
Sem nada me proibir
Até que a dada altura retorno para o seu coração
E parto para ti, a minha mulher
Tens outra?
Tenho
Mas tu não sabes
Nem agora que te digo
Tenho
Que a outra que tenho não é mulher
É uma cidade à beira-mar
Que me fascina com sombras e me conquista!
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
A Cidade
O sol bate-me nos olhos. Penso que casas com janelas viradas a nascente deviam ser proibidas. Olho pela janela e o brilho parece-me demasiado para um sol que nasce. Levanto-me e chego-me à janela, sem me importar com a nudez, apesar do parapeito baixo da janela.
Olho para o prédio em frente e para os que o ladeiam. As janelas são todas elas enormes,
(Não custa muito pensar o porquê: é o sol! As janelas são enormes para o sol poder entrar mesmo quando está oculto.)
mas no prédio em frente ninguém nu me contempla. Olho para o céu e vejo o Sol bem no seu pico. Não é uma casa com janelas a nascente, é uma casa com janelas a sul, aquela em que acordei. Olho em meu redor. Estou numa espécie de escritório. Ou numa de espécie de quarto. Será certamente um quartório, divisão híbrida que é habitada por espécies sem dinheiro para uma casa e que duma divisão fazem toda uma casa. Olho para a cama onde dormi, um colchão no chão com uns lençóis. Tento recordar a noite anterior mas não me lembro dos acontecimentos.
(Ou se calhar até lembro, mas prefiro apelar ao esquecimento. Estranha essa divisão a que chamamos memória. Tem na porta uma janelinha que abre do lado de fora e donde vemos todos os seus compartimentos, com janelinhas nas portas, para escolhermos os que nos convêm.)
Lembro-me isso sim dos prédios, a humidade palpável, as ruas imensas a passarem aos ésses por baixo dos meus pés e duas presenças. De um lado estava ela, pequenina, a rir-se copo de…
(sei lá que merda era aquela, era uma bebida qualquer, o copo era de cerveja, mas cerveja não tem aquela cor)
No outro.
(Pausa. Uma memória que sai do armário.)
Por instantes penso na amiga da Rapariga, a que mora na mesma casa, num quarto em frente, mas a presença não era ela, apesar da memória visual. Todos os restantes sentidos me transmitiam um conjunto de sentimentos diferentes. Por todo o lado, em meu redor, a presença que se sentia era como se o nevoeiro tivesse ganho vida, como se as sombras fossem gente, as gentes sombra, os candeeiros pirilampos e toda a cidade tivesse ganho vida e me abraçasse como uma mãe a um filho.
Ah! Cidade!
Um abraço terno, amoroso, apaixonado, como uma amante sedutora arrastando o seu amado, por ruas de algodão, colinas de molas, becos escuros de paredes rosadas.
Ah! Cidade!
E o sol reflectido nas janelas da frente, nas poças da rua,
(Não me lembro de chover.)
os passeios sujos a clamarem pelos meus passos. Os parques verdejantes, a assobiarem
(Deve ser do vento nas árvores.)
e atrás de mim uma porta que se abre, uma voz que pergunta se dormi bem. Olho para trás. A Rapariga aí está, roupas simples, discretas, e o mesmo olhar sem fundo, o mesmo sorriso eterno.
(Como podia ter dormido mal. Dormi que nem um bebé bêbado. Provavelmente mais como um bêbado do que um bebé.)
Diz-me que se quiser alguma coisa para a cabeça tem uma farmácia recheada. Respondo-lhe que quero algo para a barriga. Pergunta-me se dói e eu
(não percebes nada Rapariga)
respondo-lhe que não, tenho é fome.
(Como não me lembro de ter vomitado na noite anterior, provavelmente é do tempo que passou desde a última refeição.)
Ela conhece um sítio que servem grandes-pequenos-almoços. Porreiro.
O pequeno-almoço desta gente é muito parecido com o meu almoço. Diferença? Não o tomo numa livraria quando na sala ao lado decorre a apresentação de um livro. Não percebo nada do que dizem, mas parece-me que os que percebem na minha sala preferiam não perceber.
Acabo de comer. A Rapariga saiu para fumar e fiquei sozinho. Pego num livro. Não percebo isto. Dicionário Cidadês-Inglês, duas prateleira mais acima. “Embrenhei-me em terras longínquas, longe de rei, família e amigos” assim começa o calhamaço de poesia que tirei ao calhas da estante ao lado da mesa. Longe de rei, família e amigos… Rio-me para dentro.
Três meses. O orçamento não dá para tudo, mas a mudança para o chão do escritório da Rapariga ajudou a esticar. O partilhar momentos com a companheira encurtou-o. Gostava de ficar mais uns meses, talvez chegar ao ano, até arrisco pensar em não partir...
(Afinal o quarto era a porta em frente.)
O tempo lá fora está cinzento, escuro e frio, mas por dentro não sou já o tempo. Não é Rapariga que me mudou. No tempo que aqui passei nada se passou.
Já de Cidade não posso dizer o mesmo. Com Cidade e Companheira tudo se passou, tudo se transformou e os dias de frio e de tempo escuro e molhado foram-se entranhando nos ossos até serem tão naturais como acordar. Já não sentia frio, sentia a temperatura amena do dia-a-dia, nem tão quente que apelasse à preguiça, nem era aquele gelo que gelava o espírito mais inflamado.
As gentes que fugiam no passeio, os motoristas, os ciclistas e outros transeuntes preocupados com a sua vida, os bares apinhados, as ruas de tijolo vermelho antigo, adornadas com heras, arbustos e flores murchas, tornaram-se irmãos, irmãs e roupas adornadas, no colo de quem encontro refúgio, com as quais me aqueço no Inverno. Não eram já desconhecidos. Eram os primos afastados que ao fim de muitos anos precisamos de reconhecer, reconquistar. E aquela ciclista que à tarde quase me atropelava, no bar à noite podia ser com quem falava!
Fecho a mala preta. A mala preta, pequena, com umas quantas mudas de roupa, o suficiente para uma semana, ou assim. Leva as roupas e pequenas lembranças.
Pequenas lembranças, coisas, símbolos. Nada de postais ou t-shirts ou pins ou miniaturas. Copos como milhares de outros,
(Recheados com meias usadas para proteger do choque. Os funcionários de aeroporto acrescentam um carinho e simpatia nas malas, que a violência do descolar e aterrar parecem carícias que uma mãe extremosa.)
recolhidos em bares, no final de noites bem regadas. Dados desses bares, sujos, gastos nos cantos, de pintas grandes e pequenas, descalibrados. Bilhetes, de transportes, museus, concertos. Uns roubados, outros sobre-usados. Memórias. Essencialmente levo as memórias. O que era, quando cheguei. A memória do que é a descoberta. Levo-me a mim na mala preta que só leva roupa e memórias.
Na mesa da cozinha um bilhete de avião. Por cima do bilhete um maço de tabaco.
(Relembra-me que às vezes fumo.)
“Quando voltas?”
“Não sei”, respondo. Talvez amanhã, depois ou nunca. Emigro hoje para o meu país, porque quando o avião descolar e passar o manto cinza, estarei a deixar para trás, a minha Cidade.
quinta-feira, janeiro 12, 2012
A Cidade
O ar é fresco nesta cidade. Mesmo quando está calor, o ar que corre é sempre fresco e traz o cheiro da água dos canais,
(O que esta gente faz com o desvio de cursos é maravilhoso. E a forma como vendem a atracção…)
não um cheiro pestilento a águas paradas, o cheiro de vida, de peixes a nadarem, barcos a circularem, uma vida ligada. E hoje ela foi trabalhar… Ontem não deu para muito estava cansado, ela estava com um grupo de amigos. Uma cerveja e outra de conversa, queixas do tempo, queixas da comida e da frieza das relações, de como o pessoal e o profissional eram tão diferentes. Eu não sei. Nada de profissional me liga aqui.
(Nem pessoal, para dizer a verdade. Deveria dizer então que ‘nada me liga aqui’? Se o dissesse como tenho a certeza que vou perder o voo que descola daqui a pouco?)
Logo à noite vou jantar com ela.
(E como era bom o dia passar rápido. Assim, eu desejar ser noite e eis que as estrelas se vêem no céu. Não são muitas e o céu não é tão escuro.)
Afinal ela mora duas ruas acima da pensão
(Não que ela tenha de saber.)
e consigo não chegar atrasado. A colega de casa abre-me a porta, alta, magra, o cabelo artificialmente moreno,
(O contrário da Rapariga. Poder-se-ia dizer que coabitavam no mesmo espaço o positivo e o negativo de uma mesma pessoa.)
numa mão um cigarro aceso, na outra um copo de vinho tinto. O olhar já semi-cerrado do copo extra que nunca devia ter sido bebido. Quero-lhe perguntar por Rapariga, mas ainda antes de abrir a boca já ela me sorri
(Um sorriso desprovido de expressão, mas cheio de vontades...)
e pergunta se sou a visita. Respondo que não sou visita, estou só de passagem. “Há muitos que vêm de passagem e nunca mais passam daqui.” Pergunto-lhe se morre assim tanta gente em Cidade. “Morrem por dentro, e renascem, descobrem encantos nos becos escuros, apaixonam-se por telhados de cobre esverdeado e não conseguem nunca mais olhar para outras gentes que não estas. Tu tens esse olhar baço de quem se procura. Não queres entrar?”
Não quero mas acabo por entrar. Enquanto o meu contacto não se despacha, fechado que está num segundo andar, fico aqui na cozinha, sentado à mesa, e vejo a garrafa lentamente a ficar mais vazia e vejo uma segunda, que eu mesmo abro, vazar-se como a primeira. E enquanto passam os copos de vinho conversamos, conversamos e na rua levanta-se um burburinho. Gentes passeiam
(Amanhã não trabalham, é verdade! Hoje deve estar tudo cheio.)
e o pitoresco nocturno aparece. Do outro lado da rua, em frente à sex-shop, duas prostitutas conversam animadamente e, de vez em quando, metem-se com transeuntes. Um deles fica lá a dar-lhe conversa, até que um fulano, aspecto de oriental, vai ter uma conversa com ele. Parece-me ouvir a palavra ‘pagar’ no meio do burburinho. Uma bicicleta passa e quase atropela o turco,
(Sei lá se é turco. Veio-me agora a música o verso “veio ver se está tudo bem com as suas meninas”, mas isso não é o turco, é Conan o Bárbaro.)
que não protesta, mas que é protestado. Humildemente sobe para o passeio e vinga-se no transeunte, que entretanto já está de mão dada a uma das prostitutas.
Eu sei isto porque estou na janela, com a companheira da Rapariga a fumarmos. Descobri agora que fumo. Ela ofereceu-me e não disse que não. Descobri agora que o maço dela não tem cigarros só com tabaco e digo a mim mesmo que a noite a partir daqui só pode melhorar.
Viagem Para Casa
Segura-te ao varão com a mão
Não caias a caminho de casa
Deixa-te embalar pelo suave ondular
Dum autocarro cheio de gente
De cheiros
De histórias para contar
Segura-te ao varão com a mão
A mão de produção
Cansada de produzir
Conta-me esta noite as histórias do teu dia
Embala-me no berço em que durmo quando chegas
E não te esqueças de mim amanhã
Quando antes do sol saíres e te despedires de mim
A caminho do autocarro onde te vais segurar ao varão
Com a mão da produção cansada
Da produção que me tira de ti
Que te tira de mim
Que me deixa sozinho em casa e na rua
A crescer sozinho
A comer sozinho
A aprender sozinho
A chorar sozinho
Segura-me a mão no teu leito de morte
Tenho uma hora contigo antes de sair
Entrar no autocarro e sozinho
Segurar-me ao varão com a minha mão produtora
quarta-feira, dezembro 07, 2011
A Cidade
Sopra um vento frio nas ruas como nunca senti. Mais do que os ossos é a minha alma que está gelada. O porteiro da pensão disse-me que havia por aqui um bar de vinhos porreiro,
(Ainda pensei que porreiro para ele fosse na onda de com quem me viu quando cheguei à pensão. Quase que ficou ofendido quando o sugeri…)
mas a verdade é que não vejo nada. As portas são fechadas, os bares, se existem, são caves com janelas minúsculas e ninguém passeia nas ruas. Caminho um pouco mais até que vejo um ajuntamento. Gente bem vestida, bem disposta, conversa calorosa. Não é um bar de vinhos, mas é um bar. Entro e sento-me ao balcão. Peço uma cerveja e recebo um copo de meio litro cheio de uma cerveja fraquinha, mal gaseificada, mas fresca. Perco-me nos pensamentos
(Na realidade não são pensamentos, são caras e com cada cara um pensamento de me aproximar, como o fazer, o que dizer, qual as respostas que vou ter. Todos estes pensamentos acabando nessa fatal e grande conclusão de que já estou demasiado enferrujado neste jogo.)
(Ainda pensei que porreiro para ele fosse na onda de com quem me viu quando cheguei à pensão. Quase que ficou ofendido quando o sugeri…)
mas a verdade é que não vejo nada. As portas são fechadas, os bares, se existem, são caves com janelas minúsculas e ninguém passeia nas ruas. Caminho um pouco mais até que vejo um ajuntamento. Gente bem vestida, bem disposta, conversa calorosa. Não é um bar de vinhos, mas é um bar. Entro e sento-me ao balcão. Peço uma cerveja e recebo um copo de meio litro cheio de uma cerveja fraquinha, mal gaseificada, mas fresca. Perco-me nos pensamentos
(Na realidade não são pensamentos, são caras e com cada cara um pensamento de me aproximar, como o fazer, o que dizer, qual as respostas que vou ter. Todos estes pensamentos acabando nessa fatal e grande conclusão de que já estou demasiado enferrujado neste jogo.)
e nem me apercebo que um grupo se sentou ao meu lado e me tem estado a empurrar discretamente. Começo a ficar um pouco enervado até que uma rapariga, totalmente deslocada desta cidade, se mete comigo. A princípio não me apercebo, mas quando a vejo a olhar para mim, com duas cervejas na mão, acordo para a realidade.
“Estás com ar de quem bebia outra!” diz-me num inglês com sotaque de estrangeira. Como se não chegasse a baixa estatura e o cabelo preto para o denunciarem. E os olhos! Meu Deus os olhos! Nunca houve poeta que cantasse olhos escuros,
(Não castanhos escuros, pretos como carvão. Um antracite tão escuro e tão profundo que nos podíamos afogar lá dentro, mas que de certos ângulos ganhavam um brilho luminoso.)
e isso é porque nunca conheceram estes! Eu vejo-lhe a boca a mexer, oiço ruídos mas estou completamente absorvido pelos olhos. Nem o generoso decote
(que deixa antever umas gémeas 36. Não é imenso eu sei, mas prefiro elegância na escultura, a excessivo volume.)
me faz desviar o olhar. “O meu nome é Rapariga e o teu?” e respondo-lhe com o meu nome e cruzando a óbvia entoação das letras e a pronúncia com que os dizemos, concluímos ser conterrâneos.
“Estás com ar de quem bebia outra!” diz-me num inglês com sotaque de estrangeira. Como se não chegasse a baixa estatura e o cabelo preto para o denunciarem. E os olhos! Meu Deus os olhos! Nunca houve poeta que cantasse olhos escuros,
(Não castanhos escuros, pretos como carvão. Um antracite tão escuro e tão profundo que nos podíamos afogar lá dentro, mas que de certos ângulos ganhavam um brilho luminoso.)
e isso é porque nunca conheceram estes! Eu vejo-lhe a boca a mexer, oiço ruídos mas estou completamente absorvido pelos olhos. Nem o generoso decote
(que deixa antever umas gémeas 36. Não é imenso eu sei, mas prefiro elegância na escultura, a excessivo volume.)
me faz desviar o olhar. “O meu nome é Rapariga e o teu?” e respondo-lhe com o meu nome e cruzando a óbvia entoação das letras e a pronúncia com que os dizemos, concluímos ser conterrâneos.
segunda-feira, novembro 28, 2011
A Cidade
Não vai ser preciso calcorrear prolongadamente os passeios
(Tão diferentes dos meus, tão cinzentos, sujos, com tantos restos das noites que por eles passaram que se poderia escrever um romance por metro quadrado. Toda uma colecção onde não seria preciso repetir fórmulas nem personagens, apesar de estes poderem fazer visitas esporádicas noutros contos.)
tão desacertados que se diria que pulsam, agora subindo, agora descendo, consoante a inclinação do bloco de cimento, para encontrar o que procuro.
Tudo organizado, ali estão elas, ao longo das perpendiculares em grupos de três ou quatro, mas pouco mais. Um olhar em redor e reparo que alguns carros têm o condutor, ou, distanciados, homens a fumarem languidamente como se não fosse nada com eles.
(É assim que se arrumam em qualquer cidade: junto ao coração da mesma, onde o sangue novo chega quentinho, pronto a ser chupado.)
Deixei para trás o quarteirão dos hotéis, pensando que aqueles halls iluminados, de mármores reluzentes não são para mim, são para os que procuram em cada cidade o lado luminoso e vistoso, o vestido de gala com que ela se adorna para seduzir o visitante.
“Need some company for the night?”
(Oh baby if you only knew!)
Eis-me chegado ao que procurava. Olho-a. Não é o melhor exemplar que podia encontrar. Tem o ar de uma veterana da zona,
(Ou pelo menos a indumentária e a postura.)
o que me leva a concluir que a busca terminou, porque é mesmo isto que preciso. Não me preocupo com o aspecto físico. Podia arranjar melhor, mas também já havia tido pior, por um preço bem mais caro.
(Quando paramos para pensar, todos os engates são no fundo uma ida às putas. Tudo se resume a formas de pagamento: para umas é dinheiro vivo, para outras géneros.)
Respondo-lhe que cheguei agora, ela pensa ser uma desculpa para a evitar e começa a urdir os feitiços com que os incautos se deixam apanhar. Não sou incauto, mas deixo-me ir na mesma. Eu quero ir, ser levado, caçado e abusado!
(Pela conversa percebo que é de facto uma veterana. Nenhuma novata me diria as coisas como ela, nenhuma recém-chegada deixaria um veterano de ruas e vielas ansioso da maneira que fiquei.)
Ela perguntou em que hotel estava e eu respondi-lhe que ainda nenhum. Ela apontou então para uma janela com um letreiro intermitente ao fundo da rua. O meu palácio aguardava-me!
Não adianta estar a relatar os pormenores da noite. O sol vai alto
(Ou deveria ir, pelas horas, porque nesta cidade o sol dura uns dias no Verão. Não é Verão. O céu é cinzento, sempre cinza, ora escuro, ora claro, mas sempre um deprimente tom cinza.)
e estou numa esplanada embrulhado numa manta. Vejo o tráfego das bicicletas, que partilham o asfalto com carros e autocarros, e as ruas do centro com os peões. Vejo gente. Não vejo tipos de pessoas, vejo gente. Vejo engravatados, vejo atletas, vejo raparigas e rapazes, no fundo todo um povo. Levo o sumo de laranja aos lábios
(Está tão aguado que poderia confundi-lo com uma qualquer espelunca de turistas na minha cidade.)
para molhar a garganta. Tiro o panfleto do turismo do bolso de dentro do casaco e começo a ver o que a cidade tem para me oferecer. A verdade é que não queria ser turista, mas aqui é o que sou.
(Será alguém outra coisa quando chega a um sítio novo?)
Primeiro tenho de conhecer ruas. Até agora o que vi foi prédios de três ou quatro andares, todos num tijolo vermelho, com escadinhas à porta. Tudo construções, no mínimo, centenárias. Ou, pelo menos, de fachadas centenárias e reconstruídas no interior. Ruas largas, onde caberiam dois carros, fechadas ao trânsito para liberdade dos peões e bicicletas. E gente alta de cabelo claro, corpos magros. Para mim é fácil sobressair nesta multidão.
Um raio de sol fura as nuvens e toca-me na cara. Surpreendentemente esse toque aquece-me. Por entre um golo e outro tenho estado a tentar decifrar o que estou aqui a fazer. É verdade que ainda não passaram três dias desde que vendi a casa. Nessa noite fui ao site da companhia aérea e escolhi a promoção para Cidade, bilhete ida e volta, preço reduzido. Amanhã por esta hora estarei a perder o vôo de regresso e ainda não sei porquê. Na pensão já acertei uma renda. Consegui um negócio porreiro e consigo duplicar a estadia. Dois meses. É esse o tempo que tenho. Posso bem aproveitar o dia nesta esplanada, a ler um livro.
terça-feira, novembro 22, 2011
A Cidade
Que saída triunfante para um átrio cheio de desconhecidos que esboçam ares de felicidade quando me vêem. Ares que desaparecem assim que me não reconhecem e os seus olhares se focam na cara que vem atrás de mim.
Comboios para baixo, metro para cima e autocarros nas portas laterais do mesmo nível. Não sei para onde ir. Penso que com o dinheiro na conta posso dormir num hotel limpinho uma semana, ou numa pensão manhosa durante um mês. Nas informações para turistas devem ter recomendações. Enquanto caminho interrogo-me se terei o ar aparvalhado e perdido do turista típico; olhos esbugalhados
(Como se por estarem mais abertos conseguissem captar mais informação.)
e passinhos curtinhos.
(Com medo de pisar uma mina certamente.)
“Em que posso ajudar?” perguntam-me num inglês limpíssimo e sem sotaque.
(Há dois mil anos seria um latim do mais alto calibre, há quinhentos castelhano, há cinquenta se calhar esperavam que eu perguntasse em francês… Vou responder em francês!)
“Un bonne hotel, s’il vou plait.” Digo com a absoluta convicção de que alguma coisa está errada na frase. “Bien sure” e tira um mapa onde escrevinha umas coisas. Começa a falar num francês com sotaque, mas não é por isso que a conversa me passa ao lado, o francês é que é demasiado avançado para mim e perco-me a acenar que sim e a murmurar aceitação.
(Daqui a cinquenta anos que outra língua falarão? E daqui a quinhentos? Português? Chinês? Esperanto? Seremos parte dessa aldeia-global onde todas as ruas falam a mesma língua, ou continuaremos na herdade rural onde o estábulo muge, o senhor fala com o fazendeiro num dialecto erudito que é posteriormente transmitido brejeiramente à esposa que ouve o cacarejar das galinhas, enquanto pensa “o meu homem não se devia meter no que não percebe” e, lá longe, um pato grasna, os burros zurram e o vento assobia por entre as copas das árvores, enquanto na seara um lamento…)
Olho as cruzes no mapa, agradeço, e vou para o comboio.
Uma certeza do comboio é a estação central. Toda a cidade tem a sua Cidade-Central, onde o comboio se cruza com o autocarro, os táxis, o posto de correios, o turista que chega e o turista que está de partida,
(Como metáfora da ignorância do que será e da memória do que foi.)
e parece, com esse burburinho, que é em redor deste edifício, centenário, mas com laivos de contemporâneo introduzidos aquando das últimas obras de requalificação, que a cidade se ergueu, como que a facilitar as partidas e as chegadas.
(Teremos então daqui a uns centénios por coração das cidades o aeroporto Cidade-Aeroporto? Ou será que os aeroportos assumirão como sua a designação de Cidade-Central?)
A viagem para Cidade-Central decorre pelo meio de túneis, verde e braços de água, túneis, fábricas e algumas estações e apeadeiros, fábricas e estações fora de serviço, vidros partidos e Cidade-Central. Eis-me chegado ao coração da fera, onde o sangue circula depressa e se distribui pelas várias artérias e capilares, onde desembocam veias de diesel e táxis, o sangue novo chega para lhes dar vida, o velho parte com a melancolia
(Será isso? Não haverá algo de cansaço e desilusão? Quantos dos que vão irão também amanhã, porque entretanto regressaram? Estarei entre quais deles?)
de tempos passados em tecidos de profundidade variável, quantos deixaram carteira e valores, importante o primeiro, acessório o segundo.
Com este pensamento lembrei-me da questão da estadia. Afinal que melhor forma de mergulhar na profundidade dos tecidos da cidade do que misturar-me com o produto que todo o seu metabolismo, e que melhor sítio para encontrar esses metabolitos do que numa pensão rasca? Dobro o guia turístico; aquilo que procuro não vem lá, nunca vem, não importa a cidade, não importa o país, o produto final daquilo que somos não está no guia turístico, preciso de alguém que me saiba orientar para as minhas reais necessidades. Com a mala preta na mão desço as escadas no lado poente e dirijo-me à zona ocidental à procura de uma prostituta!
segunda-feira, novembro 14, 2011
A Cidade
O avião aterrou já há uma hora
(Céus como o tempo voa!)
mas da nova cidade ainda não vi mais do que pequenas casas em miniatura quando o avião curvou acentuadamente, tudo lá ao longe, enquadrado por campos de verde e encimado por nuvens em diversos tons de cinza,
(Será que o sol já brilha?)
como que a pressionar-me para fugir…
Uma hora à espera da mala, uma pequena mala preta que por não caber num gradeamento me obrigaram a despachar no porão. Pequena mala que só traz umas quantas mudas de roupa,
(O suficiente para uma semana ou duas.)
as necessárias para me encontrar. É isso! Encontrar-me.
Procuro-me nesta cidade, como me procuraria noutra qualquer que não fosse minha. Na minha conheço-lhe as curvas, as colinas, as gentes e os carros.
“Bom dia vizinho! Tudo bem?”
Tudo dito à pressa e sem esperar resposta.
(Não é retórica porque a resposta não é imediata. As coisas até podem estar mal, eu é que não quero saber.)
“Vai-se indo…”
(Que tanto quer dizer que está tudo bem, como podia estar melhor, ou simplesmente que não se está morto.)
Um “O cabrão do Clio está a ocupar dois lugares” de raiva dirigida ao carro que não tem vontade própria.
Nesta cidade não há o monótono afogamento da rotina nem sou consumido pelo tédio.
“Estás morto! Ou se não morreste, parece; não reages, não sais de casa, não…” Não interessa pois não? A verdade é que eu não saio
(ou deveria dizer saía?)
mas tu saíste e contigo tudo o que me prendia à casa. Que vendi quando saíste! Vendi e comprei a passagem, um bilhete de ida-e-volta que espero sem regresso breve, porque espero há uma hora pela mala preta, mas à minha volta respira-se outro ar. Olho e vejo aceitação, despreocupação. Olho e vejo que só eu estou impaciente e enervado com a situação. Na minha cidade, apesar de esperas constantes, medidas em blocos de sessenta minutos
(Porque razão terei pensado em minutos? Sessenta são uma hora. Será que é a necessidade de fazer parecer mais? Porque não em segundos então? Três mil e seiscentos. Sessenta minutos vezes sessenta segundos e o tempo seria já o de uma espera eterna.)
intermináveis na sua morosidade, não se desenvolveu a refinada calma e tranquilidade na espera. Aqui, pelo que experimentei até agora, também se espera horas, mas espera-se com um ar de aceitação triunfante e não derrotado desespero. Aqui quando se espera o tempo não é perdido mas ganho. Quando eles esperam põe a cara de quem vê os ponteiros a retroceder três mil e seiscentas vezes…
(E eis que a passadeira se começa a mexer e vejo que a minha mala é a segunda a sair das entranhas do aeroporto.)
(continua)
Texto publicado originalmente na Antologia BBdE
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