sábado, novembro 15, 2008

Ainda podemos esperar em silêncio

Ainda podemos esperar em silêncio, sei-o agora. O silêncio consegue explodir veias, dizer tudo: o orvalho das ameias, a rotina dos gestos, a mão que demora a sombra nos lábios, corpos de mar e céu sem se tocarem, o desassossego das ausências.
Quando de noite há mais clareza nos meus olhos sei que o que dói não é o silêncio, mas o teu nome em todo o lado a mendigar o meu amor, a tecer um e outro (e outro mais) regresso ao meu peito, sempre em abandono. Os teus restos estão espalhados por todo o lado - planícies de tempo já sem tempo. E andas por aí a passear-te e eu aqui a fingir que vivo. A fingir que sei respirar quando tu não estás, quando os dedos são tãos frios que se torna impossível escrever as entranhas. E o teu perfume a esquartejar-me os sentidos, a debelar-se contra um amor que nasce e morre todos os dias. Pudesse eu achar-te entre a carne que aperto com as mãos, no meio da ternura que me sufoca e não me deixa falar.
Não há paz quando os meus beijos não nascem já na tua boca e na tua pele não tacteio o meu desejo. Podes orgulhar-te. Dizer ao mundo que todos os poemas são para ti. Que poderia ter sido para sempre. Este amor.

Ainda podemos esperar em silêncio, sei-o agora. Mas, há muito que te chamo e na minha garganta se escreve com sangue. E tu não vens.


Vanessa Pelerigo

quinta-feira, novembro 13, 2008

A Farsa

Há fraudes que nos apaziguam a mente
Palavras dóceis,
Gestos banais,
Goteiras que irrompem
Pela vida cansada.

Como uma vela ardendo por detrás da janela,
Criaste sombras entre as sombras da própria noite
E nesses pedaços escuros,
Pela tua mão aleitaste e fizeste,
Aquilo que no oculto nem tentava existir.

E agora…? À luz do dia o que resta?
Palavras dóceis,
Gestos banais,
Dos outros
Nos outros…
Porque na verdade
Esta fraude imaginada
Não vinga,
Não dura,
Apenas finge, na ousadia do gesto,
Resistir.

quarta-feira, novembro 12, 2008

PENA - As verdadeiras Estórias :: Mobilização

Estamos a mobilizar pessoal para publicarmos um PDF no blog, uma coisa chamada :
"P.E.N.A. - As Verdadeiras Estórias"

A ideia base consiste em reunir um conjunto de testemunhos, sobre a sua visão dos últimos seteanos, preferencialmente centrados na PENA, mas não obrigatoriamente! A ideia não é ter apenas relatos dos autores do Blog mas também dos leitores, amigos, críticos...

Para garantir a imparcialidade será feito nos seguintes moldes (ainda retórico):

A pessoas enviam o seu texto, este é agregado aos demais depoimentos. Todos os participantes serão convidados a comentar os textos dos outros particiantes. Finalmente o material será recompilado e Voalá... temos a versão final online.

Quem tiver interessado basta adicionar o seu nome e email no seguinte formulário:
https://spreadsheets.google.com/viewform?key=pP6Diq10Foq2QoXuE0bV5Bg&hl=pt_PT

Serão dadas mais instruções por email até final do mês.

Aproveito para convidar todos os interessados para uma reunião na Portvgalia do Cais Sodré, dia 22 de Novembro, pelas 15:30. O objectivo da reunião é discutirmos ideias e traçar objectivos para a expansão do projecto PENA nos próximos tempos. Se preferirem Almoço digam...

Conto com a vossa participação.

domingo, novembro 09, 2008

II Jantar tertúlia D´Pena

Ontem foi o grande dia... E grande foi a fila de autocarros a caminho a Baixa de Lisboa... nunca visto
Começamos a ramboia na esplanada da Portvgalia do Cais do Sodré, com umas Boémias de Ouro e umas imperiais menos douradas:
Prosseguimos finalmente para o destino escolhido, Alessandro Nannini, na Baixa:
Tivemos entradas:
E finalmente a cultura:

Houve modelos alternativos:
O Staff de segurança:


A lista de Músicas:
  • November Rain - Guns N' Roses - APC
  • Unnatural Selection - Ayreon - Chas.
  • Black Soul Choir - 16 Horsepower - Sackcloth 'n' Ashes - Captain Dildough
  • Young Gods - Envoyé - Paulo (por lapso não estava na lista)
  • Opus Dei - Laibach Opus Dei - Jantarada
  • Iter Impius - Pain Of Salvation Be - João
  • Another World - Antony & the Johnsons - Another world ep - Vanessa
  • Starlight - Muse - Black Holes & Revelations - Tiago
  • The Noose - A Perfect Circle - Thirteenth Step - Vaz
  • Metatron - The Mars Volta Bedlam in Goliath - Norsk Tørskfisk
  • (Diz) A verdade - Paulo Praça & Os Bons Rapazes - André Silva
  • Rosa - Rodrigo Leão - Luísa
  • Far beyond metal - Strapping Young Lad - The New Black - Artur
  • Tom Traubert's Blues (Four Sheets to the Wind in Copenhagen) - Tom Waits - Small Change
  • Na tua ausência - Toada Coimbrã - Alphatocopherol
  • You can´t say what you want - Texas Greatest Hits - Cátia

(Um das músicas não adicionei por desconhecer o autor e o nome. Quem a escolheu que se acuse! :P)

Podem consultar algumas das fotos aqui:
Fotos Chas.

Fotos APC

Serão actualizadas durante os próximos dias, ficaremos à espera das vossas!

Obrigado a todos, pela empatia e companheirismo cultural!

Até à próxima!

Cegueira

Desço e, depois de um cigarro
A lembrar uma boca a saber a lágrimas,
Escolho com minúcia
O que me deve matar primeiro
Às vezes basta-me o frio dos dedos
O vazio das palmas das mãos
E o sono que nunca vem
Noutras basta-me
Não te ver.

terça-feira, outubro 21, 2008

Estrada de cinza (ou Alien)

Sentes um vazio de tudo na alma, se é que ainda tens alma… Tentas, por breves momentos seguir por essa estrada na tentativa desesperada de encontrar algo familiar… Sentes-te um estranho ao teu próprio corpo… Percorres as ruas desta cidade que não é tua, tens medo de continuar, principalmente por não saberes como vai reagir a mente, que já não é tua, quando se aperceber que, de facto, não existe nada familiar nesta cidade… Buscas no bolso interior do casaco uma qualquer agenda velha apenas para verificar que está cheia de nenhum compromisso… Tu és Ausência… 

Sentes uma necessidade absurda de te sentir vivo, como se não bastassem as dores que afligem cada um dos teus miseráveis músculos… Encontras-te por fim na Porta do Desespero… Tal é o desespero, que apenas a semelhança de uma qualquer pedra da calçada seria o suficiente para te acalmar o espírito! Eu sei e Tu sabes… Tu és Raiva… 

Por breves momentos julgas reconhecer um reflexo amarelado no chão de pedra… Como aqueles dos centros históricos de cidades muito antigas que nos levam a pensar que são os mesmos candeeiros de sempre a tentar iluminar as mesmas pedras… Eternas! Mas não é mais que um candeeiro velho em uma qualquer rua desta cidade que não reconheces… Tu és Necessidade… 

Sentas-te num degrau de pedra com vista para um pequeno vale coberto de casas… Estás mais elevado que esse vale que se estende a teus pés fervilhando de energia e movimento por entre a “luz” do crepúsculo… Tens, durante breves momentos, a sensação de dominar o vale! Uma sensação que desperta mais uma vez aquele aperto no estômago, aquele grito da alma… Tu és Desilusão… 

Atordoado pela descarga hormonal o teu corpo sucumbe nos degraus… O teu corpo repousa, no entanto, a tua mente voa, tentando reconstituir a viagem que te trouxe aqui… Vês claramente, o pôr-do-sol a reflectir-se nos campos verdes com animais e vinhas, também pequenas zonas de cultivo onde foste capaz de distinguir milho, arroz e centeio… Talvez também trigo… A tua lembrança traz também um belo rosto… Eras capaz de jurar estar mesmo agora a cheirar aquele mesmo perfume suave… A sentir aquelas pequenas maças de rosto na palma da tua mão… Beijar aqueles lábios de seda… Sabes que não o estás a fazer, e de certa forma sabes que não o voltarás a fazer… Há algo dentro de Ti que o afirma muito claramente! Sentes a vibração do comboio que desliza suave… Tu és Esquecimento…

O teu sangue palpita-te nas veias, todo Tu pulsação… Sentes uma ameaça ininteligível… Uma sensação de Terror absoluto… Uma incapacidade irracional de continuar… Estás gelado, todo Tu iceberg… Sentes-te a alma a esvair-se do teu corpo… Tu és Medo…

Despertas! Uma enorme vontade de continuar, invade-te o espírito sem saberes muito bem porquê… Talvez o teu corpo necessite desse movimento… Talvez a tua mente precise de algo que deixe não pensar… Talvez… Enquanto te recompões, nesse pequeno degrau a que chamaste cama, vês as primeiras estrelas da noite… Tu és Esforço…

Continuas a subir essa mesma colina… Que imaginas repleta de esqueletos no seu ventre… Olhas os edifícios em volta e tentas adivinhar a idade dessas ruas que pisas, tentas, de alguma forma absurda, saber quantas pessoas já morreram nessa colina, e quantas estarão, ainda hoje, aí enterradas… De certa forma sabes que não é acertado ter este tipo de pensamentos, no entanto, também julgas ser permitido a um Apátrida de Si coisas que não são permitidas a outras pessoas… Tu és Depravação… 

Julgas ver por entre alguns edifícios mais baixos, uma grande igreja, ou catedral… Que pelos vistos aparece só quando lhe apetece… Umas vezes com uma iluminação quase mágica destacando enormes pinturas azuis e douradas… Outras sem qualquer tipo de iluminação como as ruínas de uma qualquer grande guerra… Segues em direcção à miragem, não por te ser familiar, mas por de certa forma, ser tão estranho que te faz sentir em casa… Sentes uma atracção inexplicável por esse pedaço de pedra… Indescritível… Tu és Esperança… 

Conforme te aproximas reparas que é uma catedral real e que, de facto, algumas partes estão completamente destruídas sobrando apenas os enormes pilares e pequenos troços da parede… Enquanto outras mantêm um esplendor digno das melhores histórias de literatura fantástica, suplantando o que imaginas ser o esplendor máximo de qualquer dos Extintos Impérios Mágicos… As pinturas que, agora, reconheces como sendo, claramente, de lápis-lazúli e ouro estão intactas e com uma luminosidade incrível, própria diria eu, parecendo brilhar entre o nevoeiro que cobre a noite… Tu és Ilusão…

Assim, olhada de um determinado ângulo a Catedral tem um porte imponente sobre a Cidade, quase se poderia dizer que domina sobre qualquer outro edifício, enquanto que vista de outro é apenas um amontoado de calhaus, dos quais sobressaem umas grandes colunas góticas… Vendo ambas as partes ao mesmo tempo a Catedral parece uma ferida aberta na Alma da Terra… Tu és Sangue…

Vejo claramente que não consegues resistir aproximar-te dela, sinto no teu olhar a atracção que essas ruínas te causam, embora não sintas nenhum tipo de familiaridade com o edifício em questão, nem de forma alguma aches que alguma vez o tenhas visto… Sentes que lhe pertences, da mesma forma que ele te pertence a ti… Uma forma de possuir e ser possuído só comparável aos gritos do primeiro amor… Tu és Coragem…

Entras por uma pequena abertura nas paredes, na zona mais destruída da catedral… caminhas directo ao seu Coração… Verificas que és incapaz de reconhecer os símbolos das paredes ou de associá-los a qualquer religião… Quando chegas ao que consideras ser a zona central… Talvez por estar rodeada de quatro colunas de mármore, sendo todas as outras de granito… Talvez por saberes… Tocas o mármore, e sentes as colunas quentes, como que a ferver no seu interior, de alguma forma sentes a pulsação da Terra nas colunas da Catedral… Tu és Elemental…

Verificas que o mármore, agora rosado, parece cintilar… A Terra parece tremer no exacto local onde te encontras, mas sem provocar qualquer perturbação nos restantes locais dentro ou fora da Catedral… As pedras que cobrem o chão da zona entre as quatro colinas começam a ceder e a cair em direcção ao infinito, se é que pode haver infinito em direcção ao interior da Terra… Quando sentes as pedras debaixo dos teus pés a cederem, também, fechas os olhos e recebes o último Abraço… Sentes-te, como que a flutuar numa corrente de ar quente… Uma mão acaricia-te o Rosto… Abres os olhos para veres este Anjo que te sustém… 

Tu és…

9 minutos

Ultimamente sonho muito… Muito, não! Sonho demasiado! Acordo de madrugada com o suor frio a incomodar-me as costas… E deixou-me ficar assim, mais lá do que cá… Ainda demoro um certo tempo a digerir o sonho… A despertar-me! Fico sempre na dúvida de quanto tempo será? É neste intervalo, enquanto a minha alma passeia entre o lá e o cá, que eu sonho na realidade… Sou capaz de ver com clareza o que aconteceu no sonho que me havia despertado momentos antes! Fico sempre com a sensação que passo horas neste estado de transe, sem que isto tenha uma repercussão directa no relógio que tenho à cabeceira da cama… Não deixa de ser impressionante a quantidade de momentos que posso viver nestes minutos! Chego a perguntar-me se será saudável… Chego a querer acordar e não conseguir, literalmente, lutando contra Eu mesmo… 

Foi assim que fiquei a primeira vez que te vi…

Vi o teu ventre bailar por entre as alucinações! Vi o teu sorriso, destacado pelos teus suaves lábios da batalha que pequenos heróis vestidos de branco travaram, tentando escrever os seus nomes nos grandes Livros de História.

Pequenos heróis vestidos de branco com, não mais que, alguns centímetros de altura a inscreverem a sangue os seus nomes na História!

Juntos percorremos o Mundo… Entregamo-nos um ao outro sem nos preocuparmos com as consequências…

Não sei se foi sonho ou alucinação, sei apenas que nos relógios humanos durou exactamente 9 minutos!

Nove minutos apenas chegaram para me fixar na tua beleza, para beber da tua vida como se não houvesse amanhã! Nesse “curto” espaço temporal as nossas almas tocaram-se… Doce alucinação, esta, que deixa até a minha alma a tremer! Sentir-te tão próxima de mim é algo de tão indescritível que chega a ser ridículo querer explicá-lo a mim próprio…

Por isso quero pedir-te que voltes a fazê-lo… Invade os meus sonhos e arranca-me o coração com as tuas mãos, bebe o sangue que o rodeia e toma-o como teu! Prefiro Não Existir em Ti, a fazer de conta que existo neste Mundo… Sei que parece patético, louco na melhor das hipóteses, inclusivamente pode ser desculpa, ou razão, para me internarem rapidamente! Mas, sinceramente, tudo isto sou Eu! Quando abro as asas e voo sobre este Mundo em que vivemos, a única coisa que procuro é a tua janela, com a luz, ainda, acesa à espera do meu abraço... A angústia da busca tolda-me o pensamento e a visão, tudo me parece uma série de fotogramas desfocados, com os quais sou incapaz de construir um sequência lógica… Sei apenas que busco o teu quarto, quero entrar nesse ninho e… 

Cheirar a tua Alma, Tocar o teu Pensar, Ouvir o teu Sangue, Saborear o teu Chorar, Ver o teu Ser…

 Quero ser os teus olhos e não chorar nunca!

Quero ser o teu sorriso e não parar nunca!

Quero ser o teu coração e não sofrer nunca!

Quero ser Tu e não deixar de ser Eu nunca!

Quero gritar e fugir, mas não tenho força… Quero chorar, mas não tenho lágrimas… Quero morrer, mas não tenho onde… Quero o Mundo, mas não tenho onde o guardar... Quero um sentido, mas estou no centro… Quero-te a ti! Quero-nos a Nós!

Quero ser Eterno e, contigo, gozar com esse Velho a quem chamam Tempo! Quero ser deus e oferecer-me a Ti como o Escravo que mereces! Quero ser Nada, Todo Eu um Livro em Branco, para que em mim possas escrever o Homem que Sou!

 E tu?

terça-feira, outubro 14, 2008

II Jantar Tertúlia d' Revista P.E.N.A. - 8 Novembro



O grande Jantar Tertúlia da Revista P.E.N.A. aproxima-se a passos largos, é já dia 8 de Novembro!

Convidamos todos os visitantes do BLOG para comparecerem a partir das 18h com um livro, uma música e usufruírem de todos os prazeres literários.

A música pode ser enviada para o seguinte email: geral(arroba)com-palavras.com até dia 31 de Outubro. Serão posteriormente reproduzidas durante o evento.

Para confirmarem a vossa intenção de ingresso utilizem o seguinte formulário: https://spreadsheets.google.com/viewform?key=pP6Diq10Foq2tzoGtYD85AA

Haverá à disposição: entradas, jantar (com bebida à descrição), sobremesa e café.
O ingresso terá o valor simbólico de 13 euros por pessoa.
Local: Alessandro Nannini - Baixa de Lisboa (maps)
A duração máxima da Tertúlia serão 4-5 horas (fecho do estabelecimento: 23h).

Para os estreantes, estou certo que irão adorar!!
Fico a contar com a vossa participação!

terça-feira, outubro 07, 2008

Petrificando a memória



Sinto o húmido aviso...
Depressivo e sentido.
Sinto-o quente, o sorriso...
Relampejando adormecido!

Áspero, o teu rosto...
Imaculado e bonito.
Entristece no desgosto...
Petrificando como granito.

Entoa na lembrança...
No eco intemporal!
Optimismo é esperança,
O pessimismo imortal!

sexta-feira, setembro 26, 2008

Soneto

Tem livros e revistas,

Tem comida e bebida,

Tem poetas e artistas,

E também tem muita vida!

 

Tem ouvintes e leitores:

Uns activos… Outros passivos…

Já se ouvem os rumores,

Mas não há lugares cativos!

 

D’A P.E.N.A. tinha de ser,

Esta festa tão animada!

Pois sete anos vai fazer!

 

Traz de lá a tua amada,

Venham somar-se à agitação!

Não se esqueçam dum livro na mão…

quinta-feira, setembro 25, 2008

Tens o resto da tarde para sair daí

Gosto de um guarda-chuva grande, daqueles com um bico. E de ir para à praia com frio. Quando a chuva acaba dá para escrever o teu nome na areia molhada. Lembro-me da extrema violência que me invadia quando o fazia. Tão bem que as minhas mãos não a conseguiam afugentar. Os dedos tão gelados e tão fortes.
Nunca medi tanto as palavras, não fosse alguma matar-me de arrependimento, mas a verdade é que vi sempre o meu nome, por aí, à procura do teu. Triste, cabisbaixo, taciturno, em penitência. Quando somos novos, mostramos a paixão com orgulho no meio da rua, no autocarro, na sala de aula. Mais tarde, vivemos a paixão errada no sítio certo à hora errada. Problemas de tempo. E eu gosto de me rever todos os dias a polir as horas em busca da perfeição. À procura de ti. E só vejo a minha alma a trair-me com as tuas recordações. Já dei uma parte de mim para te ter. A mais valiosa. Só que, às vezes, sinto-me forte, capaz de enfrentar o mundo nesta minha condição de mutilada; noutras cedo ao pânico.
Todas as pessoas têm dentro terrenos baldios. Espaços sem dono, vazios e extremamente reveladores. Como as caixas de sapatos - não pelo que são, mas pelo que conseguimos lá guardar. É aí que moram bilhetes com apenas um verso, cartões com despedidas, rosas secas, fotografias, cartas por enviar. As primeiras lágrimas, os primeiros sonhos de gente grande e a inocência que, a páginas tantas, nos traiu.
Todas as histórias belíssimas são dramáticas. A nossa não fugiu à regra, fugiu-nos a nós. Para bem longe. E o problema é que nunca fizémos amor.
O grande trunfo do Amor foi convencer as pessoas que não mata. Mas, mata e cega e eu preciso que tu me cegues. De alguém que me prive da realidade e me faça sonhar. Tens o resto da tarde para sair daí.

Vanessa Pelerigo

terça-feira, setembro 23, 2008

Foto Vencedora - II Tertulia d' A Revista P.E.N.A.

A fotografia vencedora:
Obrigado a todos pela colaboração.

Nos próximos dias será apresentado o flyer promocional, fiquem atentos!!

sexta-feira, setembro 19, 2008

Votação de Fotos - II Tertulia d' A Revista P.E.N.A.

Boas,

Recebi poucas fotos (6 a contar com as minhas) o que me surpreendeu pela negativa, esperava mais alguma receptividade...
Como o prometido é devido vamos submeter as fotos a votação.

As regras são: os Autores não podem votar na deles próprios; devem atribuir um valor de 1 a 4, sendo que o 4 é a nota mais alta; A votação terminará dia 22 deste mês; só serão validados votos que sejam assinados e reconhecíveis.

Fotos do Artur (A e B)



Fotos André (C e D)

Leonardo (E e F)

Boa votação!!!

segunda-feira, setembro 15, 2008

Uma estrela

Tatuei uma estrela no ombro, na esperança de inventar a eternidade na minha pele. É quase sempre assim: deixo-me levar pelas dores que me pontuam a vida e pelos sonhos imperfeitos. A definhar de mocidade, nos restos da noite. Ponho-me a olhar para fotografias à espera de qualquer coisa conhecida como o crepitar das chamas na noite do mundo. Uma voz a balbuciar-me o teu cheiro. Rostos a arderem devagar na minha memória cheia de saudade do que não foi. Se te expulso dela, então não me restará mais nada.
É inútil dizer que o tempo tudo cura. Há dias em que se esquece dos sulcos cravados no coração, das cicatrizes no rosto da alma, mas depressa faz frente a uma esperança impossível e tudo acende. Tudo desperta, até a ave magoada. E eu, sem conseguir respirar. Um aperto que me carcome os sentidos.
O que me falta é outra coisa qualquer. Espero. Respiro. Apenas um ranger de dentes na voz exaltada do amor. Um amor quase sempre a sucumbir no teu regaço. Gosto de ti, sem conseguir explicar porque ainda gosto e porque me recuso a deixar de fazê-lo. Foi sem querer que me comovi. Mas, eu sabia que isto não podia durar para sempre. O Inverno sempre arranja maneira de se anunciar nos meus olhos. E um silêncio para poder gritar.
Não consigo dormir e acabo por me desvelar na hesitação da escrita.

Vanessa Pelerigo

terça-feira, setembro 02, 2008

Quando...

E quando queria saborear
Esse teu rosto fechado,
Rasgava-te os lábios
Com meus dentes afiados.

E quando queria rasgar
Esses teus lábios encarnados,
Beijava-te de paixão
Enquanto rebolávamos no chão.

E quando quis sentir
Esse teu corpo perfeito,
Abri com as garras
Esse teu branco peito.

E quando a paixão
Foi embora de meu corpo
Atirei-me com teu cadáver
Para o fim do rio da dor...

quinta-feira, agosto 28, 2008

Ombro

No frio do amanhecer
Uma insónia te domina.
Algo te faz tremer
Assustada, como uma menina.
[Sossega, meu amor…

Um suspiro leve e alterado
Que me desperta.
Um murmúrio baixo e sobressaltado
Que me aperta.
[Aproxima-te, meu amor…

Aconchega-te no meu ombro
Enquanto te beijo o rosto.
Esquece esse teu assombro
Que o sol ainda está posto.
[Dorme, meu amor…

terça-feira, agosto 05, 2008

A Música (descrição de 4 minutos de prazer)

Som....
Uma guitarra electrizada.
Ritmo...
Uma bateria endiabrada.

Solo...
Respiração de emoção. 
Voz...
Uma magia teatral.

Música...
Abordagem espiritual.
Refrão...
O momento de reflexão.

Sinfonia...
Pura acção dos sentidos.
Harmonia...
Descanso meus ouvidos.

quinta-feira, julho 24, 2008

Lamento

Preenche-me o vazio que há na minha alma… Nesta noite quente em que a Lua me roubou as Estrelas…

Lamento desiludir-te, mas não sou Cyrano D’Bergerac… Não tenho, ao contrário dele, jeito com a espada e muito menos com a pena…

Sou apenas um homem… Este homem, com um pouco de cientista, outro tanto de artista e nada de poeta… A única poesia em mim existe no teu olhar, no teu sorriso, nas tuas mãos… No teu corpo dançando ao vento coberto por um manto de seda! O teu sorriso não é mais que uma forma na tua cara! Eu, vejo-o perfeito… Assim como vejo a ondulação do teu ventre…

Lamento desiludir-te, mas não sou Dorian Gray… Não tenho, ao contrário dele, uma beleza irrepreensível e muito menos guardo em mim o segredo da eterna juventude…

Sou apenas este que te olha com ternura… Possuo em mim apenas a vontade… O desejo de ser livre como o vento… De ir contigo… De Ser contigo… De deixar este garfo e este copo de uma qualquer bebida fermentada e sair daqui! Ir até onde Selene não nos roube as estrelas… Onde não faça tanto calor e possa ouvir o bater do teu coração por entre a ondulação do mar…

Lamento desiludir-te, mas não sou Romeu… Não sou, ao contrário dele, puro Amor, e muito menos seria capaz de morrer por ti…

Sou apenas alguém, que por um golpe de sorte ou azar se apaixonou por ti naquela praia! Sou apenas este alguém, que um dia ousou sonhar contigo! Ainda recordo o sabor da tua boca, mas já não sinto o bater do teu coração…

Lamento desiludir-te, mas não sou Hércules… Não sou, ao contrário dele, filho de um deus e muito menos tenho a sua Força…

Sou apenas mais um no meio da multidão… Certamente vês em mim o nada que sou…
Sou apenas filho do pó que cobre o asfalto e que um dia quis ser vento… A minha única tarefa é esperar pelo próximo carro e tentar voar um pouco mais…

Lamento desiludir-te, mas não sou O Rei Artur… Não tenho, ao contrário dele, o coração cheio de Virtude e muito menos a sua Bravura…

Sou apenas um homem com todos os defeitos inerentes e pouca ou nenhuma virtude… Com uma Vontade que nem o próprio corpo respeita!

Lamento desiludir-te, mas não sou Tom Swayer… Não sou, ao contrário dele, livre e muito menos tenho a ingenuidade de uma criança…

Sou apenas uma lembrança do jovem que fui um dia…. Como o Leão do jardim zoológico! E, que mais é a lembrança, senão o medo de esquecer? Sou apenas um homem com medo de esquecer o jovem que fui um dia… Com medo de esquecer a criança que queria mudar o Mundo!

Lamento desiludir-te, mas sou apenas este homem!

quarta-feira, julho 16, 2008

Tributo ao soldado perdido

Soldado que velas os mortos
num campo de batalha esquecido
Soldado que proteges os vivos
num campo de batalha afastado
Soldado que esqueces os amigos
num campo de batalha isolado
Soldado desconhecido
que morres sozinho
num campo, de teu sangue, encarnado

quarta-feira, julho 09, 2008

Para a Bruxa Encornada

Mel que escorrega viscoso pela alva pele
da Usina que te aquece o corpo quando o arqueias
quando te percorrem essas mãos delicadas
quando mergulha, essa tua musa, por entre as tuas pernas
donde brota esse mel...

Mato espesso que outrora era
aparado à força de dentadas violentas
que essa tua amiga te dava
quando nas costas cravava profundas
garras afiadas em tons de verniz escarlate.

Armações, dos antigos xamãs europeus
Cornos ornamentais pendurados nas casas das bruxas
Aquelas que comiam os filhos que não querias ter
Aquelas que te conduziram até onde não sabias ir
Aquelas que te percorreram o corpo, te furaram vezes e vezes sem conta
Com a sua língua afiada
Aquela outra que não vias na tua cama deitada
Que te deixou hoje uma mulher frustrada
E dos filhos dele será sempre a mãe amada...