sexta-feira, agosto 13, 2010

O Funeral

O dia estava cinzento. Mais do que as nuvens no céu, a disposição dos presentes contribuía para tal. Nenhum deles estava propriamente surpreendido, mas o longo definhar em nada ajudou a apaziguar a dor que cada um sentia naquele momento.

Havia começado uns anos largos antes. No velório alguém lembrara como a transportavam ao colo, como a acarinhavam, a mostravam a desconhecidos. Como em todas as famílias a educação dos filhos também neles provocou discussões, algumas em tom bem amargo, outras bem regadas, mas indiferente a todas estas discussões a menina ia-se fazendo rapariga. Até que um dia sentiu necessidade de se expandir.

Andou um bocado intermitente. Experimentou várias roupas, vários estilos. Nunca se deu por satisfeita, chamou a atenção de gentes várias e não se apercebeu que crescia para lá do controlo da família. Não se apercebia que era ela própria o cimento que juntava a família, mas qual o adolescente que tem essa noção? Como todos os adolescentes fez-se adulta e tentou então aproximar-se da família. Ainda os juntou mas aos poucos sentia a vida a fugir-lhe. Foi uma daquelas doenças que surgem devagarinho, os sintomas tão camuflados que nem nos apercebemos que são sinal de algo grave. As reuniões de família traziam sempre novos elementos, mas ela saía de lá esgotada. Cheia de vitalidade, mas esgotada e isso perturbava-a. Nos dias seguintes queria fazer coisas, mas não encontrava eco.

Foi então que percebeu que os anos em que crescia a família tornava-se várias famílias. Não era mais o garante de união de várias pessoas, antes motivo para as várias famílias se verem de quando em quando e recordarem a sua pequena menina.

Com o afastamento da família ela descobriu o que era a solidão. Não de uma vez, aos poucos, à medida que o bicho lhe comia as entranhas e as pessoas se afastavam, não de nojo, desinteressadas, sem vontade de ajudar uma doente que cambaleava, mas não parecia doente. Havia dias em que acordava e o sol parecia brilhar com mais intensidade e nesses dias punha um sorriso bonito, num desses dias ousou até fumar, algo que não fazia desde... Não se lembrava!

Na verdade não acabou o cigarro. A meio sentiu-se melhor, muito melhor, e já só viu a sua vizinha de mãos na cabeça, quando estava de pé ao lado dela, a olhar o seu corpo caído no chão.

Mais uma vez tinha conseguido juntar a família. Sabia que era a última vez. Sabia-o e percebia-o agora finalmente. Tudo o que começa apenas tem por certo o fim. Queria aproveitar aqueles instantes ali no meio deles, ouvir as memórias pela última vez, antes de se desfazer em cinzas e se espalhar pelos cantos da memória colectiva daqueles que um dias foram a sua família.

quarta-feira, junho 23, 2010

Um Charuto

No meu bairro as casas são todas iguais. Todas têm dois andares, as mesmas cores na fachada e o mesmo telhado alto. Debaixo deste telhado surge o primeiro traço de originalidade e individualidade. Escondida. Debaixo destes telhados altos estão em algumas casa quartos, noutras arrecadações e noutras, como na da minha amiga Anabela, houve quem montasse um salão de jogos.

Não um salão de jogos na acepção de um local onde se paga para entrar e onde se gasta dinheiro. O que se passou foi que o pai dela queria um espaço para meter uma mesa de bilhar e uns computadores para jogar na net. Parece que umas máquinas todas artilhadas, mas como posso saber, estão todos bloqueados! Agora a mesa de bilhar não e ao final da tarde não é raro irmos para lá jogar.

Esta tarde estava-lhe a dar nas horas e por muitos jogos que fizéssemos, em menos de um quarto de hora já tinham acabado, com o resultado a ser invariavelmente uma vitória minha. Compreensivelmente a vontade de jogar não era muita e a Anabela decidiu que queria antes ir ver montras ao centro. Quando estávamos a sair do pequeno jardim
(talvez canteiro seja o termo mais correcto, mas a mãe dela insiste tanto em chamar-lhe jardim, que toda a gente acaba por alinhar com ela; quem disse que uma mentira repetida não se torna verdade?)
reparámos numa situação estranha: um homem, de calções e t-shirt, estava na varanda a fumar.

(Esqueci-me de dizer que todo o bairro está organizado por pracetas, com a frente das casas orientada para o centro e um acesso a uma rua principal no topo norte da rua. Todas as casas têm um acesso à porta ladeado por canteiros, uma garagem mesmo ao lado da porta e, a cobrir ambas as ombreiras, um varandim com não mais do que um metro de largura, mas onde alguns moradores ainda conseguiam colocar alguma verdura. A decoração das varandas é o segundo, e penúltimo, traço de individualidade.)

O estranho na situação é o haver alguém a olhar o quadrado morto em que se torna a praceta a meio da tarde. Aquela cena pareceu-me tão fora do sítio que o que me tomou não foi um sentimento de “é um homem a fumar um charuto”. Não! Naquele momento era mais que isso, era um estranho com um comportamento estranho! Não se pense que o estranho era o fumar, como já referi, o estranho era alguém olhar para a praceta enquanto o fazia, porque era isso mesmo que ele fazia, estava ali, de pé, encostado à ombreira da porta da varanda, um charuto na mão e o olhar vazio. Ou seria um olhar cheio, a tentar captar toda a praceta? Mas que havia na praceta para captar?

“Estás bem?” perguntou-me a Anabela, e só então percebi que estava parada a olhar para a varanda. “Não é nada de tão especial que pares para aí a olhar. Até parece ser já um bocado velho demais para ti!”

“Não é isso! Não achas esquisito o que ele está a fazer?” perguntei-lhe. A resposta veio na forma de uma pergunta e de uma risada e senti-me um bocado aparvalhada por ser confrontada com a naturalidade de acto de se fumar um charuto. “Mas não achas estranho alguém estar a fumá-lo sozinho a olhar para a praceta a meio da tarde? Que é que há aqui para ver?”

“Olha… Se estás tão cheia de dúvidas porque não vais lá perguntar?”

(continua)

terça-feira, abril 06, 2010

Ana Berta (conclusão)

O Bazar era pequeno para as multidões que lá se juntavam todas as noites. Conhecendo o Rui, ele sozinho de certeza que tinha convidado uma pequena multidão, a maior parte deles malta do secundário, para falarmos da nossa mais famosa colega, de tempos idos e de como as vidas tinham sido madrastas para nós e não para os outros. Como não me apetecia repetir conversas de pé, fui para lá reservar mesa uma hora antes do combinado.

Quando faltava cerca de um quarto de hora para o combinado vi aquele balancear de pernas familiar a entrar no bar. Vestida e maquilhada quase que passava despercebida, mas aquele andar, aquilo era-lhe tão enraizado e tão dela que não precisava de ver mais nada para saber quem entrava e se dirigia a mim.
-Então campeão? - disse-me aquela voz quente que não ouvia há muitos anos.
-Então? - estava ainda um pouco incrédulo que aquilo estava realmente a acontecer - Sei lá, "então"!... Há quanto tempo?
-Às vezes parece demasiado.
-Outras nem tanto. Vi hoje que fizeste carreira no mundo do espectáculo.
-É uma maneira simpática de pôr as coisas. Eu também já sei que dedicaste a, como alguém me disse uma vez, "morrer de tédio no lento suicídio do escritório". Lembra-te alguma coisa?
-Lembra-me alguém iludido com a vida. Quando não conheces o mundo, ele parece mais entusiasmante, com mais opções, menos impossíveis.
-E quando o conheces aprendes a ver outros possíveis, mas possíveis que te permitem fugir à rotina. Se olharmos bem - aqui uma pausa para pedir uma imperial - só temos de saber procurar as opções para fugir ao escritório.
-Tipo o quê? Tornar-me uma estrela porno?
-É uma opção. - sorriso maroto - Não é tão entusiasmante como parece, mas não é entediante. Claro que como qualquer profissão não é para qualquer um.
-Pois não, é preciso muito treino para...
-O Rui tinha razão! - interrompe-me com um tom algures entre o chateado e o cansado - Está uma sombra do que eras, partido, vencido, derrotado.
-Desculpa, o Rui!?
-Sim o idiota é que me arranjou a entrevista e é que me disse que estavas aqui agora.
-E tu vieste porque...
-Porque já não te vejo há imenso tempo! Não se pode ter saudades dos amigos? No meu ramo precisamos dos amigos, sabes?
-Claro que podes, mas vais-me desculpar estar esquisito, sabes nunca pensei que tu acabasses...
-...A vender o corpo?
-Sim. Provavelmente é isso. Que te correu mal na vida?
-Mal? - o ar dela enquanto gritava esta palavra era de espanto indignado - Ai tu achas que algo me corre mal na vida porque faço o que faço? Nunca pensaste no contrário, que isto é a vida a correr-me bem? Tu que passas nove horas num escritório, cinco dias por semana, quatro semanas por mês e tens menos de um mês de férias, quando te deixam gozá-las, perguntas-me o que me correu mal?
Filipe, Filipe... - e acenava com a cabeça condescendentemente - Que sabes tu de a vida correr bem? Desde que acabámos o décimo segundo que não ligas nem falas. Se não fosse pelo Rui nem sequer agora estávamos a falar.
-Desculpa mas o que é que isso tem a ver?
-Estás desculpado. Tu que ias mudar o mundo, passar a vida em férias constantes, quando é paraste de acreditar que isso era possível? Pára e pensa: és mesmo feliz? Sabes que para quem te conheceu a resposta é bastante óbvia: não!
-Porque com a tua actividade vem incluído um curso de psicologia barata que dá alegria aos outros. Bom a parte da alegria se calhar até vem...
-Porque com a minha actividade tenho uma semana de férias por mês, porque neste momento escolho os trabalhos que faço, com quem os faço, tenho direito a assistência médica paga e acima de tudo - aqui frisou que o que se seguia era a parte realmente importante - não tenho a monotonia da fábrica de carros onde penei durante dois anos, ganho num mês o que ganhava lá num ano, não tenho turnos impossíveis e tenho um horário reduzido. Ah! E quando chego ao fim do dia cansada é porque provavelmente nesse dia consegui ter um orgasmo genuíno e não porque nem para orgasmos tenho vontade.

Aqui eu já não ouvia bem o que ela ia dizendo. Pensei, por breves instantes, que poderiam ser as desculpas que ela se dava para justificar o trabalho, mas algo na forma de falar me dizia que não era esse o caso. Aquilo não eram desculpas, eram motivos, eram as razões pelas quais ela, ao fim de um dia na fábrica, farta de processar guias de transporte, folhas de pagamento e deves-e-haveres, havia decidido deixar aquela vida. Aquilo havia sido pensado, aquelas eram as razões e ela vivia tranquila com a sua consciência e encarava de frente um mundo que a segregava. Quase que fazia com que parecesse inveja!

-Então e namorados? - perguntei, apenas com a curiosidade de saber como conjugava o incompatível.
-Casada, divorciada. Presentemente sem ninguém. Estás interessado é? - não consegui resistir a sorrir.
-Não costumo cometer o mesmo erro duas vezes.
-Então e uma quecazinha? Aposto que tenho uns truques para te ensinar. - aqui engasguei-me. No meio de tudo não vi esta a chegar e só aqui percebi que a hora de encontro com o Rui já tinha passado para lá do atraso normal. Comecei a questionar-me que ao "pagas tu" não faltou acrescentar um "não e preocupes que é só copos para dois".
-O Rui sabia? - perguntei, quase que esperando um "foi ideia dele".
-Sabia. Foi complicado convencê-lo, mas lá acabou por concordar em não aparecer.
-Então ele sabe da proposta?
-Qual proposta? Achas que estava a falar a sério?
-Pensei que...
-Que eu era uma puta que dava uma borla de vez em quando? Nem uma, nem a outra! Mostro-me e deixo que me façam coisas, também faço coisas, mas isso tem um espaço definido e é só mais um trabalho.
-Ah, peço desculpa se confundi as coisas.
-Não é isso. Emocionalmente, achas que te consegues distanciar? Se sim, bora lá, até filmamos e poupas-me umas horas de trabalho. Até te mostro como se faz, quem sabe tenho um orgasmo daqueles que se ouve na rua toda e acorda os vizinhos. Mas pensa bem no dia seguinte. Achas que estás distante o suficiente para te meteres nisso? Não esperes que eu amanhã esteja toda ramelosa à tua volta.
Eu sei que achas que preciso de ser salva, mas não preciso. E mesmo se precisasse não era por ti! Agora pensa lá bem: queres alguma coisa?

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O sol bate-me de frente na cara e acordo num quarto de hotel. Penso para mim que deviam proibir quartos virados a nascente e apercebo-me que a água corre na banheira da casa de banho.
-Bom dia dorminhoco. - diz-me uma voz familiar e aconchegante - Não faças esse ar de parvo. Consigo ver-te pelo espelho. - olho e confirmo que é possível ver o seu corpo despido enquanto o seca.
-Bom dia! - solto aquilo que penso ser palavras, mas assumo que possa ser ouvido como um balbuciar.
-Quem era a tua amiga de ontem?
-A Ana?
-É esse o nome dela? Na revista dizia outro, um inglês.
-Sim, é actriz porno. Na revista vem o nome artístico.
-Uh! O meu namorado dá-se com actrizes porno. Tenho motivos de preocupação?
-Não 'mor, preocupa-te antes com o teu marido, que as minhas amigas são só isso mesmo: amigas!

quinta-feira, abril 01, 2010

Ana Berta

-Bom dia, senhor Saraiva. Que vai ser hoje? - a saudação parece mais ajustada a um café do que um quiosque, mas a verdade é que desde sempre ali comprava o jornal, desde o menino Filipe até, agora, o senhor Saraiva, desde sempre vendido pelo, agora idoso, senhor Bastos do quiosque.
-Bom dia senhor Bastos. Hoje é "O Apito" e o "Diário de Trivialidades".
-Acho que "O Apito" esgotou, deixe só cá ver se sobrou algum. - e dizendo isto desaparece nas profundezas do quiosque, como que engolido.

O momento em que se espera pelo jornal é um momento mágico para o vendedor. Aquele ritmo lento com que ele procura, apurado com o lento passar dos anos, faz com que quem espera pelo jornal desde cedo perceba que é melhor entreter-se. Como o que não falta são cabeçalhos e capas para ler, a verdade é que nem nos importamos de sermos presos a uma outra capa e levar sempre algo mais do que vínhamos comprar.

Naquele dia chamou-me a atenção uma revista masculina, a CCM, que trazia na capa uma modelo escultural. Ou seria uma apresentadora semi-despida? Enfim, era escultural ou aparentava... Mesmo assim, o que me chamou a atenção foi uma das fotos mais pequenas, daquelas que aparecem nos cantos e cuja legenda anunciava "Uma portuguesa com a Europa entre as pernas" e que retratava nada mais nada menos que uma das minhas amigas de longa data, mas da qual havia já alguns anos não ouvia notícias. Na altura chamava-se Ana Filipa Machado, mas agora respondia por Cuntrine Wide.

Sei que fiquei ali um bocado, mas quando dei por mim já o senhor Bastos me olhava com os jornais na mão.
-Dê-me também uma CCM, faz favor.
-Aqui tem. - expedito - Para a semana quer que lhe guarde o Jornal de Palavras?
-Sim, se puder ser.
-Então ora aqui tem. Acertamos contas no Sábado?
-Sim, como de costume.
-Então passe bem, senhor Saraiva.
-Até logo, senhor Bastos. - e segui para o escritório com os jornais e a revista debaixo do braço, mas só um dele me fazia fervilhar de curiosidade.

-//-

Trabalhar naquele dia era impossível. Simplesmente não estava a ali, estava na revista. De facto nem sei dizer exactamente porque é que estava incomodado, afinal as estrelas porno também andaram na escola e foram colegas de alguém, simplesmente a vida não lhes havia corrido como aos outros. Eu simplesmente tinha sido colega de uma delas. E namorado.

Até compreendia que houvesse quem gostasse que lhe pagassem para fazerem aquilo, mas com a pressão das câmaras e o peso de milhares... milhões (vivemos numa época de milhões) de visualizadores de conteúdos para adultos (milhões de quase-adultos convém acrescentar) ao qual ainda se pode juntar a dificuldade de manter uma relação...

Toca o telefone:
-Estou?
-Foda-se, viste a capa da CM hoje? - a voz, quase que o grito, pertence ao Rui, amigo de muito longa data.
-A capa da...
-CCM, a revista de gajos, pá! Tens de ver, nem acreditas quem vem lá.
-A Filipa do secundário?! - disse, dando uma entoação de palpite casual.
-Porra, já viste. Ganda cena meu, andaste com uma estrela porno. - E quando ele diz isto quase que lhe vejo o grande sorriso trocista que certamente está a exibir para o telemóvel.
-Não se pode dizer que tenha o exclusivo da coisa, não é?
-Deixa-te de merdas! Logo copos no Bazar, pagas tu Dick Mountenjoy - Com a referência pornográfica desligou o telefone. O resto do dia prometia...

(continua)

terça-feira, março 09, 2010

Novo velho blog meu

Eis um novo blog que mantenho desde o início do ano, mais dedicado a comentários do que oiço e leio.

Aguarda-se visitas e comentários!

domingo, fevereiro 28, 2010

Concurso de Fotografia :: PENA 2010

Camaradas, venho abrir o tão esperado concurso de Fotografia :: PENA 2010!

Cada autor deve participar com o máximo de três fotografias, uma por tema!

Nesta edição os temas são os seguintes:

  •  pessoas
  •  urbano
  •  natureza
  •  científico
  •  abstracto


A submissão de fotografias durará até ao final do mês de Março.

As submissões são aceites para o email geral do com-palavras. Neste deverá ser mencionado o(s) tema(s) e o nickname do autor.

Em Abril abriremos as votações.

Bom concurso!!!  :)

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Concurso de Fotografia com-palavras.com

Meninos e Meninas,

E que tal fazemos um concurso de Fotografia, com-palavras.com 2010?
Em que cada um entra com 2-3 fotos.

Depois podíamos também repensar numa tertúlia em 2010? Faltam é locais...

sábado, novembro 07, 2009

Não me olhes assim II

Não me olhes assim

És suave como uma manhã de Outono…

Quando os raios de sol, filtrados pelo nevoeiro matinal, entram pela janela do quarto a acariciarem o meu despertar…

Vou à janela ver o mundo!

Umas quantas folhas amarelecidas pelo calor do verão voam na brisa para se acumularem num acolchoado tapete ruivo…

Sinto que te aproximas, viro-me para contemplar o teu vestido de pele branca… Hoje trazes esse longo cabelo preto solto até à cintura… Tens na mão, duas metades de romã… De uma delas, solta-se uma gota de sumo que tomba no chão branco, como se de uma gota de sangue se tratasse!

Os teus enormes olhos negros presos em mim…

- Porque me olhas assim?

- Assim como?

- Como se esperasses algo de mim!

Afasto-me, em direcção à janela… A respiração forte e irregular, a minha mão que treme como se fosse exterior a mim… Tu abraças-me pelas minhas costas, os teus braços entram por baixo dos meus, provocando um pouco de cócegas, para se alojarem no meu peito exaltado, sei que te apercebes, mas não o comentas, suspiras em silêncio e beijas o meu omoplata… Umas quantas lágrimas humedecem-me o olhar…

A nossa sombra, provavelmente, projectada na parede branca do quarto… E o nevoeiro matinal que tudo encobre… E o sumo da romã que continua a cair formando agora uma pequena mancha vermelha, no chão branco do nosso quarto.

Os nossos corpos nus fundidos naquela sombra, que, provavelmente, se reflecte na parede do quarto… Afasto-me mais um pouco, num gesto de vergonha, que também poderia ser considerado desprezo… Tu não me segues, mas as nossas mãos ficam suspensas, como uma ponte, entre os nossos dois seres… A minha mão esquerda continua a tremer demasiado… Se, ao mesmo, tu pudesses compreender…

Giro-me em direcção a ti… Verifico quão bela és! E, de novo, esse olhar…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me enlouqueces!

Uma metade de romã solta-se da tua mão e flutua, estranhamente, em câmara lenta até ao chão… Ao mesmo tempo, na avenida, uma bolota solta-se do carvalho mais próximo da minha porta… Saltitam umas três vezes antes de encontrarem o sítio perfeito para repousarem!

Algumas gotas de sumo voaram até às tuas pernas brancas! Ajoelho-me diante de ti e bebo o teu doce sangue! A mancha vermelha do chão continua a alastrar-se como se me fosse aprisionar… Discirno, claramente, como ganha vida e se alastra na minha direcção como se de uma enorme amiba vermelha se tratasse... Começam a formar-se uns braços em volta da minha perna… Procuro refugio nos teus olhos, mas, também eles, parecem devorar-me vivo…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me aleijas!

Moves-te em direcção à cama, começas por desfaze-la como se desmontasses o cenário do nosso pequeno Teatro dos Sonhos… Enquanto trocas os lençóis por uns lavados recentemente, o cheiro a lavanda inunda a pequena habitação em que nos encontramos… Com o meu braço na tua cintura obrigo-te a que te gires na minha direcção e abraço-te… o teu braço direito, tremulo, e que sustém, ainda, a romã encontra um repouso acutilante no meu peito, como se me apunhalasse o coração… O sangue, excessivamente, vermelho da romã escorre pelo meu tronco antes de cair no chão! Sinto-me fraco, e refugiando-me no teu abraço caímos os dois nos lençóis brancos que acabas de pôr na cama… As nossas peles brancas, camufladas, entre os lençóis são como pele de fantasmas, como se já não existíssemos… Acaricio-te a cara com ambas as mãos e aproximo os nossos lábios, talvez eles mais vermelhos que o sangue que tinge os lençóis, para te beijar… Neste movimento lento os meus olhos encontram os teus enormes botões negros neste universo branco e vermelho…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me dás medo!

Tomo consciência que a nossa pele desapareceu já, fundida por entre os lençóis… De nós sobra apenas a romã, agora esmagada entre os nossos corpos, os nossos lábios quentes e os teus olhos negros… Somos fantasmas do casal que viveu aqui um dia… Somos a recordação! Não voltaremos a ter vinte anos… Nunca mais voltaremos a ter vinte anos… Tento em vão olhar pela janela e aperceber-me do Outono… Sinto o ar gelado do quarto… Sinto o frio dos lençóis… Vejo o nevoeiro matinal a invadir o quarto, com ele veio a Morte para me acariciar as costas, mas ficou, ali a um canto, quando se apercebeu que já não tenho costas… Veio, também, um Anjo acariciar-te o cabelo, mas também ele permaneceu naquele canto, ao ver que já não tens cabelo… Aperto o lençol contra si mesmo, na esperança vã que sejam as nossas mãos que se apertam… Não quero perder-te… Fiquemos aqui para sempre, neste limbo… E que a Morte e o Anjo sejam os nossos guardas… Mas tudo é em vão… Cedo descobriram uma forma de nos levarem… E, eu, eu já sinto frio… Muito frio… Perecemos aqui no palco onde um dia construímos o nosso enorme Teatro de Sonhos… Nunca fomos uma bela história de Amor… Mas diluímo-nos como Amantes, entre os lençóis brancos tingidos pelo vermelho-rubro da romã… Fora da janela do nosso quarto o Outono continua a tingir tudo de ruivo… O nevoeiro permanecerá para sempre, como o ultimo suspiro de Nós… Num ultimo esforço busco o teu olhar fascinante…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque não!

E eu, que esta manhã só queria sair à rua descalço e percorrer lentamente a avenida enquanto o tapete ruivo de folhas secas se destruía debaixo dos meus pés… E tu, na janela, a ver-me, enquanto comias essa romã… Podíamos passar a tarde na praia… Voltar e acender a lareira… Eu sentava-me no chão… E tu no sofá… Abríamos uma garrafa de vinho… Eu lia-te um livro… No final beijava-te e dizia que te amava… Tu sorrias… Uma lágrima, provavelmente, humedeceria o meu olhar…

E eu, que esta manhã só queria que fossemos, descalços e de mãos dadas percorrer o enorme tapete ruivo que cobre a avenida onde está a nossa casa…


Este texto é uma outra forma de contruir um texto anterior:

http://www.pena.com-palavras.com/2008/12/no-me-olhes-assim.html


quinta-feira, novembro 05, 2009

V – Os Transportes

Passam autocarros
Passam táxis
Passam pessoas
Espera-se e espera-se
Aí vem o próximo
Passam pessoas
Passam paisagens
Passam transportes
De quem asseia por casa

terça-feira, outubro 27, 2009

IV - A Noite

Luzes de mil cores
E o tempo que congela
Vadios de rumo certo
Olhares ansiosos e vorazes
Apetites loucos à solta
Um sentimento de desconhecido
A cada esquina conhecida
Nos estranhos companhia
Que nos leva a estranhar
E abandonar a razão que temos
Grupos que crescem mesmo que apenas por horas
Horas que passam sem se verem
Véu negro que clareia
Passagem para o amanhã
Renascer da alegria

quinta-feira, outubro 22, 2009

III - Fim de Tarde

Sentir a brisa do fim de tarde
Os raios mortiços
De um sol que está de partida
O rebuliço das gentes
Que se vai com o calor
E o calor das gentes nos bares,
Que aumenta com a escuridão.

O ar sorridente
O ar cansado
O ar pesado
O ar carente
O ar de toda essa gente
O ar que tenho em mim.

O Basilisco

Erguendo-se da água escura,
O Basilisco abandona o seu abrigo,
Com os seus olhos que inspiram loucura,
Tudo o que respira está em perigo.


Abrindo as asas sobe no ar,
Espalhando pelos campos o terror,
Voa sob os raios de luar,
Enchendo quem o contempla de torpor.


Misto de morcego e serpente,
Corpo de galo e de dragão,
Aterroriza fraca e forte gente,
Matando tudo o que se atravessa na visão.


Com o seu olhar venenoso,
Transforma em cinzas quem o vislumbra…
Com o seu hálito sulfuroso,
Sufoca o incauto na penumbra…


Este monstro, poucos o sabem deter…
Não com o odor de doninha nem canto de galo,
Pois apenas o seu reflexo o consegue abater,
Obrigando as trevas a recolher o seu vassalo.


E assim todas as longas noites brumosas,
O Basilisco atravessa o firmamento,
Aterrorizando as pessoas receosas,
Para por fim regressar ao seu acolhimento.


[Mergulhando na água escura,
O Basilisco regressa ao seu abrigo,
A uns, os seus olhos lançaram na loucura,
Aos outros, o medo do regresso do perigo.]

terça-feira, outubro 13, 2009

II - Os Cafés

Há gente estranha
Que ocasionalmente olha para mim.
Estranhos não por serem esquisitos
Estranhos por serem diferentes.
Os muros que erguem são altos
E maciços, mas ali, na aragem do final de tarde
Sentimos os ventos da liberdade
E vemos o sol
Por entre as falhas dos tijolos.

É ali,
Com as suas bebidas e comidas
Do que para mim é o final do dia
Para eles o começo da noite
Que os vemos como são
Em amena conversa
De olhar agressivo.

segunda-feira, outubro 12, 2009

Sem pensar

Estou a tentar, com tanto esforço, não pensar tanto.
Estou a tentar não me esforçar,
mas se tento tanto não pensar
será que vale a pena não me preocupar?

Estou a mentir a mim próprio.
Eu digo que não vale a pena pensar,
mas será que não vale mais a pena dar as costas ao vento
e caminhar daqui para fora?

Tu olhas para mim e tento não pensar.

Penso nas palavras e elas tropeçam para fora.
Penso no andar e fico congelado no lugar.
Penso em não me preocupar o que achas de mim
e fico ridículo tentando não me esforçar.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Verão

O ar nocturno era suave e quente, com uma brisa ligeira girando em torno dos nossos pés, tornando o nosso passo uma caminhada pelas nuvens. O rio ficava à nossa esquerda enquanto caminhávamos pela margem, um copo de bebida tentava gelar os nossos dedos mas sabia tão bem na nossa garganta. Ainda me lembro de ti a falares de politica e do mundo, alheia a tudo, esbraçejando com emoção enquanto eu sorria e desviava-te das pessoas antes que as empurrasses à tua frente. Foi o nosso Verão, alheios ao mundo, num romance tão belo.

Ainda te lembras dos jardins que visitámos?
Ainda te lembras das fotografias que tirámos?
Ainda te lembras das carícias que trocámos?

O sol nas nossas costas ardia mas era tão fácil ignorá-lo enquanto subíamos a serra. A paisagem até perder de vista fazia-nos perder o fôlego. Teus olhos brivalham enquanto olhavas para longe e os meus brilhavam olhando para ti. Ainda me lembro de ti a tirares fotos a tudo enquanto eu me ria e roubava fotos de ti. Foi o nosso Verão, presos um ao outro, num romance tão lindo.

Ainda te lembras dos edifícios que vimos?
Ainda te lembras dos sonhos que descobrimos?
Ainda te lembras dos prazeres que sentimos?

E agora aqui estamos, alegres desconhecidos um do outro. Tu passeando com a tua família, de braço dado com o teu marido, por entre o ar nocturno suave e quente. O quanto parece aborrecida a nossa existência agora...

Ainda te lembras do quanto quis ficar contigo?
Ainda te lembras do amor que senti perdido?
Ainda te lembras de mim????

segunda-feira, setembro 14, 2009

I - Os Passeios

Percorri como um vulto as ruas da cidade
Calcorreando os negros caminhos de pedra
E abrigando-me do calor do sol
Em sombras de centenários prédios.
Cada passo era um passo já dado
Por outros, noutros tempos,
Mas eram mesmo assim passos originais…

Percorri com um vulto as ruas de que falo.
Sentia-o sempre ali ao meu lado
Calado, a tentar não me dar importância,
Mas a conduzir-me
Por ruas e vielas de outrora
Por entre gentes e culturas de agora.

O sol alto aquece-me os passos,
Só as palavras são frias,
Porque frio é o ar que vem do mar,
Que me desperta os sentidos
Que me faz olhar em redor
Que me faz esquecer o calor

sábado, agosto 01, 2009

A Torre de Marfim

Contemplei, admirado, as suas paredes esbranquiçadas. Ao longe pareciam ser de um branco alvo e imaculado, mas à medida que o metro me levava mais perto, percebi que aqui e ali estava manchada com traços de cinza e azul. Já mais perto, mesmo junto à porta, reparei que era de um cinza com traços de preto, sinais evidentes da sua idade.

Chegava com sonhos e ilusões de grandeza. Era ali que se reuniam os maiores génios da sua actualidade. No cimo daquele monte, o ambiente era propício ao desenvolvimento intelectual. À medida que me perdia, apercebia-me da vedação, que deixava de fora daquele ambiente privilegiado a ralé e a escumalha intelectual que passeiam pelas nossas ruas. Uma vedação, feita de rede aqui, muros de cimento ali e com portões em tons de verde, com vinhas nas vedações de arame circundantes, colocados em todo o perímetro.

Ali estava uma ilha no mar de ignorância. Era o local, friso-o novamente, onde as mais brilhantes mentes do nosso tempo se reuniam e eu queria absorver todo o seu saber. Subi os três degraus para a base da torre e entrei, passando o balcão de segurança onde ninguém estava e contemplando o mar de mesas onde uma multidão trabalhava.

O grande átrio de mesas era cortado mesmo no centro por uma grande escadaria. No momento em que pisei o primeiro degrau uma voz de trovão ecoou por todo o átrio. “E há que ter em linha de conta os créditos! Não podemos esquecer os créditos. Os créditos são fundamentais!” procurei em vão a fonte de tal afirmação e descobri ser um indivíduo de baixa estatura, com uma barriga de cerveja bem proeminente, de cabelos grisalhos e de aspecto oleoso apanhados num rabo-de-cavalo que lhe chegava a meio das costas. Rodeavam-no algumas das mulheres mais horrendas que já vi na minha vida, apensa comparáveis a descrições de criaturas das trevas em livros de fantasia. Desciam as escadas e ao passarem por mim agiram como se eu não existisse, empurrando-me contra o corrimão azul, que abanava como uma seara ao vento, à medida que desciam as escadas. “O problema é que os alunos não estão para se dar ao trabalho, é melhor não exigirmos muito. Há que falar com aqueles que são demasiado exigentes, porque se a proposta de avaliar em função do mérito avançar, temos de estabelecer quotas de aprovação!” continuava a dissertar indivíduo a quem a multidão de bajuladoras chamava de Prof. Posta.

Confesso que a impressão que aquele grupo causou em mim foi de estranheza e estupefacção. Estava estupefacto com o que ouvia, e causava-me estranheza a forma messiânica como o referido Prof. Posta se passeava. Por momentos tive a sensação estranha que ele se sentia o dono do edifício, a forma como balanceava não os braços mas o ombros ao andar, os braços arqueados como um culturista, e que aquela multidão que o seguia mais não era do que a sua merecida multidão de servidoras.

Num dos cantos do edifício havia uma escada em espiral que facultava o acesso a todos os pisos. Decidi-me a subi-la. Havia-me candidatado a um bolsa de investigação com um tal de Prof. Saudita, que tinha o seu laboratório no sexto piso deste edifício. Estava bastante entusiasmado com a proposta e o convite pronto que havia recebido para vir à entrevista deixava-me com grandes esperanças.

Ao passar pelo segundo piso uma outra voz fez-me parar de subir escadas. No corredor imediatamente em frente uma senhora, de aspecto um tanto ou quanto tresloucado, falava com um grupo de alunos que tentava, até eu me apercebia à distância, desesperadamente sair dali. “Então meus filhinhos,” dizia ela com uma voz meio rouca “não querem uma bolsa? São cem euros por seis meses de trabalho intenso no meu laboratório a tentar descobrir uma maneira de furar uma patente para um anti-viral famoso” continuava e ria-se e tentava outra abordagem “E já viram o triângulo das minhas bermudas?” A imagem tinha tanto de horripilante que só mencioná-la ainda me dá calafrios. Face ao tenebroso daquela personagem, que vim a saber posteriormente dava pelo nome de Prof.ª Quinha, decidi subir as escadas.

“Olhe lá, seu paneleirote, importa-se de tirar a minha coluna do seu rabo?” gritava uma estridente voz ao fundo do corredor, mas eu ouvia-a como se estivesse ali logo ao meu lado. “Veja lá como fala comigo! Olhe que eu acuso-a de discriminação sexual!” dizia um fulano de voz pouco grave mas rouca, de rabo empinado, calças verde alface, com laivos de fluorescente, uma camisa de um rosa intenso e que ao correr corredor acima balouçava mais o rabo que uma modelo na semana da moda de Milão. O Prof. Rabe era famoso por não necessitar de orçamentos para equipar o seu laboratório e parecia estar a meio de uma ida às compras.

Continuei a subir e no quarto piso sou surpreendido por um fulano com uma larga calva, com uma coroa de cabelos brancos e encaracolados, com uns óculos fininhos e de olhos imensamente abertos, para lá do que pensei possível a um ser que não seja arraçado de sapo. O Prof. Ascensio Ilevattori recolhia assinaturas para aquilo que considerava ser um atentado à excelência académica: o mau funcionamento dos elevadores no edifício. Falava e dissertava como um seu amigo inglês havia, numa recente visita, ficado muito cansado ao subir os três lanços de escadas até ao seu laboratório.

No piso seguinte o cansaço começou a apoderar-se de mim, certamente por fazer tantas paragens, pelo que decidi não parar e seguir directamente para o sexto piso. Tive no entanto tempo para ver um poster a anunciar a abertura do novo curso em Bio-Engenharia Molecular em Nanoquímica Verde Sustentável. O sexto piso parecia-me menos estranho que os anteriores pois não se via gente nos corredores, apenas alguns posters referentes a trabalhos famosos do departamento, como por exemplo “A Handersenase e a Fointanase: um conto de enzimas para toda a família” e “Estudo do grupo heme em anfíbios: o caso do cachalote (Cetacius patranhus)”, estudos que de resto são marcos na ciência em Portugal.

Ao fundo do corredor ficava o gabinete do Prof. Saudita. A entrevista correu muito bem. O Prof. propôs-me inclusivamente pensar em fazer o doutoramento com ele. Aparentemente o facto de ter o currículo científico de uma amêijoa e ter acabado o curso com uma média de 12 não interferiam porque como ele disse “isto fala-se com o júri e a coisa passa sempre”.

Quando passei novamente o portão, havia uma questão que ainda levava comigo e que me fez repensar a função daqueles muros. Ao falarmos de todo o projecto perguntei, um tanto ou quanto inocentemente, qual a aplicação prática de tudo o que faríamos. O “não se preocupe que isso logo se vê” que recebi como resposta deixou-me um pouco abananado e perguntei de seguida se havia alguma empresa a colaborar com o departamento. A resposta de “uma ou duas mas isso é só em coisas muito específicas, aqui não temos disso” é que me afastou. Percebi então para que servem muros numa instituição de excelência e a resposta que encontro é que não é para deixar a mediocridade do lado de fora…

domingo, julho 05, 2009

CoBrA

B-A-Bá
As escamas como tijolos
Vermelhas de barro
Com vestígios do sal do Báltico
Com a sujidade do pântano
E os tons inspiradores do Norte de África

Dentes de criatividade aguçados
Preparados para cuspir veneno
Apertar a vítima nas suas ruas
Para sempre presa armadilhada
Agarrada a esse deambular

Janelas parcamente iluminadas
Uma urbe que vive para sempre à noite
Capital como pacata vila
O correio que se perde na viagem

Uma criança que agora começou a ver
Com rabiscos e palavras sem nexo
Mergulhada em águas de inocência

Quero voltar e perder-me nas vossas curvas
Ver-vos novamente com novos olhos

Oh! Esplendor da infância!

sexta-feira, junho 26, 2009

O Caminho para Casa

O rebuliço que vai na minha cabeça
Contrasta com a calma em redor
Sentado, jornal dobrado na mesa
Copo de cerveja, apático, na mão
Os olhos a sondar o ambiente
E a mente, fora do corpo a vaguear.

Há um espaço oco cá dentro.
Havia antes de deixar o meu corpo
E tão cedo não se enche.
Por vezes, o ar fresco da tarde,
Traz um sorriso
Mas o dia-a-dia apressado
Traz as rugas
E leva-me para longe do Paraíso.

Não digo que seja infeliz,
Não digo que seja feliz,
Podia dizer que nada digo
Mas quando passo os dias
Há muito que me digo e não digo.

Não sou desprovido de conteúdo
Mas sinto-me vazio
Falta-me realização, sentir que escolho
O caminho que tomo para casa.

Segue em frente, vira à direita,
Segunda à esquerda, logo à frente.
Segue em frente, vira à direita,
Segunda à esquerda, logo à frente.
Segue em frente, vira à direita,
Segunda à esquerda, logo à frente.

E no dia em que entro pela porta das traseiras,
Por andei, estavam preocupados
Sem espaço para respirar, para me atrasar,
Para mudar, para ser, para alterar,
Para começar a andar e me perder!

domingo, junho 21, 2009

Senti-te à espera

Senti-te rasgares-me a alma,
Quando de mim só pedias espaço.
Senti-te a fugires,
Como se fosse um vil criminoso.
Senti-te a fugir de ti,
Porque as forças para me enfrentares te fugiam.

Esperei longamente o põr-do-sol,
Para nas sombras me esconder
E por entre gemidos
Poder chorar a dor.

Esperei que o sol não se risse mais;
Pelo suave manto da noite,
Como veludo negro e suave onde
Me preparo para o pior que há-de vir.