terça-feira, dezembro 21, 2004

Desejo...

Paixão arrebatadora e quente
Que incontrolável me invade
Torna o meu olhar ardente
E cheio de desejo, beijando-te
Com insana vontade...

Mãos trémulas e desejosas
Percorrem teu corpo tentador
Determinadas, embora ansiosas
Por uma carícia ardente...
Em mim, todo o teu calor!

Os teus beijos me envolvem
Lábios húmidos, insaciáveis
Que ao paraíso me devolvem...
Horas parecendo segundos
Cheios de prazeres inigualáveis...

Dois corpos que se abraçam
Unidos num ritual de amor
Dois pulsares que se entrelaçam
Num nó, momentaneamente, eterno...
Clímax de prazer entontecedor!

Sinto-te, sentes-me...
Dois seres, sentindo como um só...

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Inconsciente

“A razão chama por mim,

Na realidade do cansaço,

Na cama que desfaço,

Acaba mais um dia, enfim…”


Pelas ruas semi-vidradas do inconsciente vibram vozes nas janelas, nelas sorriem pessoas alegremente. São como tons de cristal a organizar a minha orquestra mental.
A melancolia, numa janelinha ao fundo, quebra a organização musical. Partem-se vidros em infinitos estilhaços como refugiando-se na sua pequenez. A janelinha aproxima-se transformando a melancolia em malvadez. Já não há pessoas a sorrir, apenas rostos a partir, escondendo-se do mundo, tentando refugiar-se nas suas origens, mas a dor acaba por derrotar-me a mim também.

“O coração olha para ti,

Na imaginação da dor,

Na cama uma chama de amor,

Acabo mais uma noite, sem ti…”

Ecos relembram-me do mundo imaginário, como um aviso. Talvez nem tudo seja imaginário, talvez nem tudo seja um sonho, talvez algum pessimismo… Oriento-me em direcção ao que não sou, ao que não acredito. O medo persegue-me e não desaparece… Tudo em mim enlouquece…


“Na escuridão olho pelo mundo,

E não o vejo,

Com um desejo

De querer sair do fundo…”

Sem nada a apoiar meu inconsciente tento adormecer novamente.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Contos do Exílio - O Regresso, parte II: Encontro (cont.)

Exilado... Vêm-lhe à cabeça imagens de uma aldeia, um grupo de adultos a olhar para ele, um grupo de crianças na brincadeira, uma caçada na floresta! Exilado... A palavra faz badalar um sino na sua cabeça, acorda nele a memória do antigamente, memória essa que lhe refresca a alma como se da brisa do mar, na orla do Grande Mar se tratasse!

-Levanta-te Filho da Montanha! Aqueles que um dia chamaste pais esquecem-se de ti, a cada dia que passa e tu, preso neste teu exílio do mundo, acentuas o esquecimento, esqueces-te de quem és, de quem foste e de quem tens de ser! Levanta-te que não és nenhuma criatura da floresta, não te vergues como elas se vergam perante ti.

Toda e cada palavra que o velho pronunciava, despertavam-no para a sua humanidade. Sentia-se agora como não se sentia havia já muitas Viagens... Sentia-se um Homem Novo, sentia que tinha acabado de nascer só que o mundo lá fora não era estranho, só os sentimentos! Levantou-se e caminhou em direcção ao velho, que entretanto não mexera mais nenhum músculo para além dos necessários para levantar levemente um dos cantos da boca, gesto que lhe acentuava as muitas rugas do rosto.

-Tenho fome... Tenho sede... - balbuciou, a sua voz entaramelada dada as poucas palavras que havia pronunciado desde que chegara à floresta. Parecia-lhe que era a primeira vez, desde sempre, que se dirigia a alguém. Não andava longe desta realidade uma vez que essa última vez havia já sido apagada da sua memória e certamente não lhe havia transmitido a satisfação que este encontro lhe trazia.

-Acredito, Filho da Montanha, Exilado do teu povo, Vítima Injustiçada. Senta-te comigo junto do fogo, trouxe-te comida e vestes. - dizendo isto sentou-se. O Exilado sentou-se ao seu lado. Sentia agora na face o ar quente que emanava da fogueira. Comeu do pão que o velho trazia, saciando-se como se de um animal de grande porte se tratasse. De seguida bebeu do cantil do velho, que lhe assegurava que era água, no entanto não havia água em toda a floresta que fosse tão refrescante e que mais do que saciar a sede, aliviava os pensamentos e parecia limpá-lo por dentro. Quando acabou o velho ordenou-lhe que dormisse ali no chão, junto à fogueira. "A manhã traz consigo um novo dia. Que estejas recuperado para o enfrentares e à tua nova vida."

terça-feira, novembro 23, 2004

Contos do Exílio - O Regresso, Parte II: Encontro

Aquela floresta era-lhe tão familiar como se parte integrante de si mesmo, um mero prolongamento do seu ser. Cada galho, cada raíz eram-lhe tão familiares como se fossem os seus dedos e as suas mãos. Conhecia cada árvore como os seus próprios braços, o ribeiro saudava-o todas as manhãs e as grutas abriam-se ao pôr-do-sol, para que nelas repousasse em paz. Apesar de tudo isso, neste momento caminhava hesitante!...

Era um sentimento novo e estranho. Ele, que se tornara parte das lendas sobre seres fantásticos e tenebrosos, caminhava hesitante. Ele que combatera alcateias de lobos e era visto como devorador de Homem e Animal, estava agora no lugar da presa, caminhando hesitante e receoso, rumo a uma chama que ardia tão longe e no entanto tão perto. Cada vez mais perto...

Subitamente uma forte lufada de ar da noite tapou-lhe a vista com os seus próprios cabelos desgrenhados. O seu instinto de caçador fê-lo correr para a sua esquerda e agachar-se na erva alta que aí brotava. Havia decidido avançar sobre a fogueira pelo lado contrário àquele em que antes de encontrara, de modo a evitar que o vento levasse o seu cheiro até quem quer que estivesse junto da fogueira. Colado ao chão começou então a rastejar. Quando finalmente se encontrava ao alcance da vista de quem quer que estivesse junto da fogueira, reparou que apenas um velho se sentava, de costas voltadas para ele, junto ao lume onde assava um pequeno animal. Atrás dele, pousados no chão, repousavam dois cajados e ao seu lado havia uma pequena trouxa, que mais não parecia do que um amontoado de trapos...

A Fome!... Esse sentimento escondido, esse desejo de pão, essa vontade de pegar numa vara, essa sensação que lhe acelera a pulsação, lhe retesa os músculos, que o isola de todo o mundo, menos daquele que os seus olhos conseguem captar. Já há muitas Viagens que não a sentia vibrar em si, mas a vista dos cajados acordou esse sentimento escondido nos recantos do seu ser onde a humanidade hibernava.

Imagens de uma vara partida, um grupo com tochas, um guerreiro vestido de verde, memórias passadas e imagens futuras, tudo lhe atravessava a mente enquanto contemplava o velho, que se encontrava agora de pé e a olhar atentamente para o local em que se encontrava.

-Levanta-te ó Exilado! O teu futuro começa hoje e não lhe poderás escapar! - a voz do velho ressoou pelas copas das árvores. Era uma voz cavernosa e ninguém diria que um velho de aspecto tão frágil seria capaz de fazer vibrar o meio em seu redor daquela forma. Aquelas palavras gelaram-lhe o sangue. Gelava-o não tanto a forma como haviam sido ditas, mas sim pelo que diziam e pelo que significavam. Aquele velho sabia onde ele estava! O velho revelara saber ainda algo mais, revelara que a sua humanidade perdida, não lhe era de todo desconhecida!
(continua)

quarta-feira, novembro 17, 2004

Criança

Sonho com naves flamejantes
extraterrestres e humanos
Sonho com prados verdejantes
flores e nuvens num céu azul
Sonho com histórias de encantar
princesas e dragões para escravizar
Sonho com lutas terriveis
em que saio sempre vitorioso
Sonho com corridas
em que sou sempre o mais rápido

Sonho, sonho, sonho... em ser criança outra vez e não me preocupar com o mundo

segunda-feira, novembro 15, 2004

“E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço”
Jorge de Sena

Encontrar-nos-emos noutros lugares,
Estranhos e novos
Plenos de sentido
Num outro tempo,
Em que o momento é o certo
À espera de ser vivido

Encontrar-nos-emos noutros lugares,
Em que o hoje é diferente
E as distâncias são as mesmas
E a comunhão se faz sentir
E o olhar finalmente
se encontra

Encontrar-nos-emos noutros lugares
Já que separados,
Só resta a esperança
Que esta rotina rompida
Toque o espírito
E nos faça crer

Encontrar-nos-emos noutros lugares
Convictos que o destino
Que actuou assim,
Firme no seu propósito,
O fez porque hoje não teria sentido
O que amanhã fará

Encontrar-nos-emos...

segunda-feira, novembro 08, 2004

Contos do Exílio - O Regresso, Parte I: Despertar

A noite cai, escura e pesada como se anunciasse a todos os seres vivos a total ausência de amanhã.
A noite cai e acorda nele essa sede adormecida. Sentado ali na clareira, sem a presença da lua, sente despertar em si toda uma fúria acumulada ao longo dos tempos. Na sua mente desfilam imagens que não conhece, imagens de uma falésia, imagens de pessoas, imagens todas elas de uma outra vida passada.
"Abre os olhos e contempla o Céu!"
Uma voz que ressoa dentro da sua cabeça. Fumo! O cheiro áspero de pinho queimado invade-lhe as narinas e o crepitar de uma fogueira ao longe, ressoa através das árvores. Sente perigo, um perigo que se aproxima!... Reside já há muito tempo deste lado da montanha, tempo suficiente para saber que ninguém se aventura para este lado da montanha com o ânimo tão leve que faça uma fogueira, tão leve que revele a sua presença nas imediações. O tempo ensinou-lhe que perseguir os incautos era a melhor forma de adquirir roupas e provisões, pois mais cedo ou mais tarde a floresta acabaria por cobrar-lhes algo mais do que um mero pagamento pela travessia nunca terminada. A fogueira revelava assim ou alguém muito confiante, um agressor, ou mais um visitante incauto, uma vítima.
A Sede voltou, secando-lhe a garganta! Sentia esse apelo, esse aperto, essa vontade imensa de falar com alguém, não um animal, não o ribeiro, não a Floresta, mas alguém, um semelhante. Sentia esse aperto de uma forma nunca antes sentida e o cheiro a pinho queimado intensificava-o a cada instante.
Levantou-se, sem se aperceber, e começou a caminhar desse fogacho intermitente do outro lado da grande clareira onde dormia já há três noites. Caminhava hesitantemente, sem se dar conta que cada passo representava um regresso à humanidade perdida, o despertar para uma nova vida.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Tonan, o Barbariano - 4ª Parte

"Olha qui coisa tão linda, tão cheia dji graça, é a não-sei-quantas qui coiso, a mina qui passa, é a coisa mai linda qu'eu já vi passaaar..."
Assim trauteava o cabeçudo aprendiz de feiticeiro aquela velha música das praias de Titiloqui, o país mais solarengo do grande continente de Takar. Sob domínio Pharpal, podia não ter a aura de sofisticação e requinte de Létis, a sua homóloga Tartaglionesa, mas compensava-o com o seu clima quente e a sua exótica fauna local. Por assim dizer...
O jovem fazia esvoaçar a túnica encardida enquanto saltitava pelo carreiro que atravessava o bucólico bosque, degustando aquelas saudosas recordações da sua viagem de fim de curso, a lembrança daqueles cálidos encontros com as jovens «titilôcas» (e também as não muito jovens, diga-se de passagem) ainda acariciando a sua memória... Ao ponto de ter de compor, dissimuladamente, uma prega no manto.
Não havia passado muito tempo desde que concluira o curso de Iniciação às Artes Místicas e Afins na Faculdade de Ciências Mágicas, nas soalheiras encostas de Capanova, uma localidade no pequeno país de Gurtapol.
Bom, não era o mesmo que um canudo em Iniciação às Artes Arcanas, Marciais e Outras Que Tais, na mítica Cidade-Fortaleza-Universidade de Oxifarad, nas agrestes montanhas de Shrlombo-Tim, mas já era alguma coisa. Era uma rampa para se lançar em estágios mais elaborados, e quiçá até um Mestrado!
Pelo menos fora o que lhe garantira o velho Professor Kibomba, o seu tutor durante as árduas duas semanas de curso.
"Tu lembra di qui este curso, apesar di útil, não chegará pra desenrascar! Lembra di qui ainda tem qui ler muita folha de chá e tripa de saguim pra chegar à unha do pé di qualquer grandi sábio! Tu lembra ainda de que......
...Chi, esqueci!"
Fora a última vez que vira o velho sábio antes deste desaparecer misteriosamente para destino incerto, com a igualmente incógnita quantia que cobrara como propina aos alunos inscritos (sim, todos os nove! Os Nove? Hum... Será que?... Nahhh)
Mas tinha o seu canudo! E apesar de ter perdido a conta ao número de vezes que lhe bateram a porta na cara, lhe chamaram "Palhaço!" ou atiraram lama (queria pensar que era lama), nunca desistiu de procurar o seu lugar no conturbado mundo de então.
Até aquele momento. Estava farto. Preferia viver como um eremita porco e sujo na Floresta Negra do que continuar a gramar aquelas merdas.
Olhou para o seu canudo como se fosse um bocado de papel higiénico várias vezes reutilisado, e lançou-o com um grito de raiva para lá das árvores que o rodeavam...
...até que o ouviu embater em algo que, julgara, seria grande e pesado. Não pelo ruído que o canudo fizera ao bater. Antes pelo tamanho das árvores que começaram a ser arrancadas na curta distância que o separava daquilo... A facilidade com que eram lançadas vários metros acima e além da sua cabeça também não o tranquilizava.
O terror que dele se apossara já lhe tinha ensopado as vestes quando se encontrou, finalmente, frente a frente com a temível criatura. Era mais baixa do que estava à espera, mas isso não queria dizer nada. Tinha um aspecto que feria só de olhar, e do cheiro nem falar. Tinha uns desenhos no corpo que faziam lembrar o rapaz de umas histórias que ouvira enquanto criança, de uns vagabundos meio tresloucados que gostavam de andar à bulha e de apanhar grandes bebedeiras...

Sim, só podia ser! Estava a olhar para um Barbariano!

(fim da 4ª Parte)

terça-feira, outubro 26, 2004

Samhain

Nesta noite da morte, a vida vibra
Palpitante e ébria
Imersa na sua própria essência
A roda gira, e uma vez mais
O ciclo perdura
Nada é estanque e imóvel
E na noite da morte
Os que foram, voltam
Para serem celebrados
Para serem perpetuados
E na roda da vida,
E da morte
Nesta noite
As vozes erguem-se
A luz estremece com a brisa
Os fumos esvaem-se
E em comunhão plena
A morte, a vida
Num ciclo eterno
Coincidem
Na noite escura

segunda-feira, outubro 18, 2004

Sentido "Escaldante"

Um toque de paixão
Vibrou naquela noite
Numa música celestial.
Fora de controlo
Senti o calor invadir-me,
Sem sentido.
Fechei os olhos
Possuindo a imaginação...
Algo chamava por mim,
Um toque de razão!?
Não!!!
Algo mais chamava por mim,
Minha mão sentia calor,
Meus lábios sentiam o sabor,
Meu nariz sentia seu odor,
Era seu, só seu…
Agachei-me sobre seus pés
Beijei-os… E fui subindo…
Seu desenho corporal
Reluzia no meu inconsciente…
Curvas de prazer sentindo o calor,
Escondidas no sabor,
Satisfeitas pela dor.
Tudo nela era mágico...
Tudo nela era meu, só meu…
Mas ao abrir os olhos
Tudo o que via nela se perdeu…

sábado, outubro 16, 2004

Posso sentir o vento que sopra lá fora
As árvores estremecem
Amarguradas,
Presas na imobilidade
Eu também estremeço,
E a prisão em que me encerras
Pior que uma raiz presa no solo
Leva-me a vida e a alma

Posso sentir o frio que esta noite de Inverno traz
Um frio cortante
Uma lâmina, uma navalha
Que marca os seres
Com traços sanguinolentos
E assim, sou eu
Marcado, traçado
Pelas tuas mãos

E no escuro,
Choro e sussurro sozinho
Pois as dores que me infliges
E o cárcere em que me fechas
Não são mais que belas quimeras
Ao imaginar que te perdes
Um dia
Para mim...

segunda-feira, outubro 11, 2004

Outono

Mágica a voz que caminha por dentro da natureza, grave, aguda, por vez harmoniosa outras vezes melancólica, nem sempre a mesma mas a mesma voltará a ser…
Suas notas libertam folhas das árvores, que por vezes choram... disfarçando as feridas do tempo, entoando seu som estaladiço em gritos de revolta.
Mais um ciclo findou, não foi a vida que acabou, pois ainda agora tudo começou.

quarta-feira, agosto 25, 2004

Photomaton

Encerro a graciosidade do gesto com um toque, e de repente a intemporalidade pertence-me... sou eu o dono do momento, aquele que já se encontra perdido. E os dias passam, e o tempo avança, e eu, ladrão das horas, capturo os gestos e as frases e os sorrisos que se tornam meus. E todos os que se cruzam com o meu gesto, pertencem-me, imobilizando a sua essência numa forma imperceptível ao mundo e ao tempo. E eu, possuidor das memórias, revejo as que não tive, possuindo as vidas que não vivi, saboreando esses escassos instantes capturados como se fossem meus.

segunda-feira, agosto 16, 2004

Tonan, o Barbariano - 3ª Parte

A estrada de terra batida encontrava-se menos poeirenta do que o costume. Normalmente era na época das monções (em que a vegetação da Floresta Negra se mostrava ainda mais encaracolada e propensa a piadas de mau gosto do que o costume) que as paupérrimas vias de trânsito se encontravam alagadas, transformando-se em rios de lama mais propícios à navegação do que às caravanas de carroça.
No entanto estavamos a meio da estação seca. A estrada estava ensopada, sim, mas não era de água. Não, era de...
- Sangue! aArrGhhh!!
Uma cabeça decepada voou pelo ar, indo cair junto de uma toca de répteis que, agradecidos, começaram imediatamente a descarnar a iguaria.
O grupo de soldados recuou, assustado, enquanto o corpo decapitado do seu capitão escorregava para o chão. Na lama avermelhada jaziam já metade dos seus companheiros, ou o que restava deles.
No meio dos cadáveres estava a figura que lançara o grito.
Tonan, o último dos Gu'Man, podia não saber contar os dedos da própria mão direita ou distinguir um verso arcano de uma esgichadela de babuíno com disenteria, mas lá que era um ás no que se tratava de cortar, mutilar, torturar, rasgar e trincar as carnes alheias, isso era. E com que brio Tonan abria o peito de um soldado só para lhe arrancar o coração e o meter na boca de um segundo, este empalado na lança com um terceiro! Para não falar dos que agonizavam e rodavam no espeto, sem braços nem pernas, enquanto o lume brando lhes prolongava o sofrimento...
Era com estes mimos que Tonan, esse Barbariano, presenteava os que tinham a infelicidade de o encontrar no caminho, fossem monjes estóicos, velhos mendigos, virgens imaculadas ou até bebés de colo (irra, que ainda vou preso!).
O que restava do grupo de soldados debandou em pânico, correndo em todas as direcções até chocar contra uma árvore ou cair de algum penhasco.
Tonan ignorou a fuga e começou a tentar pensar no que iria fazer a seguir.
Não conseguiu.

(fim da 3ª Parte)

Tonan, o Barbariano - 2ª Parte

Despontava um novo dia na Floresta Negra, o que era o mesmo que dizer porra nenhuma. Era um pardieiro sem o mínimo interesse, cuja vegetação encaracolada se repetia monotonamente até ao horizonte, para desespero dos amantes de discrições tolkianas de paisagens exuberantes.
Era por entre este esgoto botânico que Tonan se movimentava, ágil e rápido como uma lesma paralítica, tropeçando em cada galho e caindo em cada buraco. Ao fim da enésima esfoladela, Tonan sacudiu o pó do seu corpo tatuado - invariavelmente com figuras de mulheres nuas em poses mais que chocantes e outros arabescos de duvidosa moralidade - ao mesmo tempo que pensava na distância que o separava ainda da civilização.
Não que ansiasse por água corrente ou comida no prazo de validade, tais bens nada diziam a Tonan: eram o refúgio dos fracos.
Não, o que Tonan desejava era SANGUE! Cortar as orelhas daqueles aprumadinhos da cidade, violar-lhes as mulheres, fritar-lhes os animais de estimação em óleo de cinco dias... Isso tudo, por esta ordem ou até ao mesmo tempo, sim, isso tudo Tonan lhes faria, pois tal não era mais do que o retrato fiel da sua natureza animalesca.
A natureza de um verdadeiro Barbariano.

(fim da 2ª Parte)

segunda-feira, agosto 09, 2004

As minhas palavras

Na dor da ausência, encontro as palavras, as formas que, encerram os sentidos. E é nestas palavras, repletas, que desvendo o meu ser. Só na sua perfeição física me encontro, e me perco, na plenitude dos sons talhados, das palavras que ficaram por proferir. Por isso escrevo, e exponho as mágoas e os desejos, os que ficaram por concretizar no ontem perdido. E na frugalidade das horas, estes tomam figura, tornando real o gesto nunca traçado. E o tempo descerra-se, assim devagar, e a ilusão de realidade que me encerra, vai tornando existentes estas palavras que aguardo.

sexta-feira, julho 30, 2004

Contos do Exílio - O Acordar

Acordei! Pelo menos assim o creio...
Alguns sentidos pelo menos tenho a certeza que acordaram em definitivo! Ouço um gotejar próximo e ao mesmo tempo distante. Ouço-o como se estivesse aqui, ao meu lado, em enorme lago com árvores verdejantes em seu redor, donde pinga a água para a grande massa de água. Sinto-o tão próximo que estranho o tempo que me arrasto até essa pequena poça de água fria e de sabor barrento.
Abro os olhos e vejo ainda a escuridão! Olho em meu redor mas tudo o que vejo é breu, apenas esse manto escuro me devolve o olhar frio... Levo as mãos à vista e sinto as minhas unhas a arranharem-me as pálpebras. Estranho! Seria capaz de assegurar que parecem ter crescido apenas para a frente e durante meses, como se o meu sono tivesse sido um sono prolongado... Procuro pôr-me de pé, mas tal tarefa revela-se impossível, doem-me em demasia as pernas adormecidas e torpes. Tento sentir em meu redor o local onde estou. Chão macio, árvores espalhadas em redor, uma brisa que me bate suavemente no rosto e um calor na face esuqerda que atribuo ao Sol.
Volto a tentar abrir os olhos, mas desta vez a luz magoa-me profundamente e rapidamente os fecho! Não estou cego, mas tenho a noçao que novas tentativas rapidamente conduzirão a esse estado. Tento abrir os olhos progressivamente, mas nem assim... O tempo vai passando e vou-me esforçando. Uma eternidade depois, quando o sol me bate no rosto já de frente consigo finalmente abrir os olhos, contemplando esse espectáculo de infinita beleza: o pôr-do-sol.
Tão belo, tão simples... Parece que é um acontecimento novo para mim, algo que nunca tinha presenciado, algo que... me dá um novo alento, algo que me grita cá dentro que há todo um mundo para eu descobrir!
Então alcança-me uma outra sensação: a fome! Uma sensação violenta que me assalta de rompante, fazendo-me agarrar ao estômago e curvar-me de dor... Com esse movimento sou obrigado a olhar os meu braços sujos de terra, olho as minhas mãos e vejo unhas parecidas com garras, longas e ligeiramente curvadas nas extremidades, aguçadas e afiadas como que para rasgar, unhas que cresceram e não se entranharam na carne, unhas como se pertencessem a um animal! A Fome! Tenho de a saciar... Tenho de encontrar alimentos... Tenho...
Um monte de animais mortos repousa no local onde despertei os sentidos, uns metros mais atrás de mim. Um monte de coelhos e pequenas aves, todos empilhados como se ali houvessem sido deixados para me alimentar.
Procuro colocar-me de pé, penso que já o consigo, mas não passa de uma ilusão. Com a violência com que a Fome me assaltou mal me consigo mexer e tudo o que faço é contorcer-me em direcção ao alimento. Quando enfim chego junto deles não penso e lanço-me com avidez à comida ali colocada, deglutindo sofregamente todas aquelas carnes, cuspindo penas e pêlos. No final, sentido-me já mais forte consigo enfim colocar-me de pé.
Vejo, detrás do Monte um enorme clarão. É certamente o Fogo da Despedida, que marca o final do Acampamento de Verão, a Tribo está de partida do Grande Vale e é então que me assola a ânsia de partir para junto deles. A memória! A memória de tudo assola-me de novo, as imagens da violência e da expulsão, as palavras proferidas no julgamento e as traições ocorridas. Sinto-me partir por dentro até que o último raio de Sol seca as lágrimas que me começam a escorrer pela cara.
A memória é dolorosa mas esse raio de Sol ilumina no meu espírito outra memória. A do Concelho dos Anciãos, a do nome de Exilado e do futuro que me está reservado. É agora que o nome de Exilado faz sentido. É agora que começa o meu futuro, que a ninguém revelei e que só agora percebo. Sou pois agora o Exilado. Estou, finalmente, acordado.

Fantasias

Abriu a janela do seu quarto, o sol de inverno desfez-se no seu corpo nu e arrepiado pelo frio. O vento que provinha de norte desviava-se das suas formas como se temesse formar uma tempestade de prazer. Eram sopros de memórias e antigas fantasias, erguidas pelo suor do sol de verão. Testemunhos calados no silêncio de um mundo meio morto pelo medo das noites, das pessoas, da vida...
Sentimentos que a cada passo pela casa iam crescendo, como quem teme a solidão.
No corpo nu e gelado vestiu umas roupas justas e saiu de casa. No horizonte da rua, o branco misturava-se com o azul do céu, estava frio mas nem por isso as roupas que usava eram apropriadas. Sua alma aquecia-o, mas era o desepero e a tristeza que o orientava. Caminhou até não conseguir mais e deitou-se no chão. Já fraco e com frio dobrou-se sobre si mesmo, mas nem por isso temia o frio, o seu desespero ultrapassava qualquer limite físico. O congelar da razão e o sentimento de culpa deixaram-no a chorar, pensava ser forte e resistir à conduta natural do seu ser, pensava que suportaria um mundo sem sentimentos, pensava que a vida era feita de sonhos e fantasias, pensava ser capaz de tudo, de lutar em busca do prazer... Mas nessa manhã não foi capaz de lutar por si...

domingo, julho 25, 2004

Estranha noite... (FIM)

Ficou pensativo, ao mesmo tempo que estava com curiosidade uma sensação de medo tomou conta dele, os pêlos dos braços ergueram-se perpendicularmente à pele, o coração começou a bater mais depressa e as pupilas dilataram. Ficou parado por uns instantes como se toda a sua energia tivesse sido deslocada para a periferia do seu corpo, por uns momentos o seu corpo reluziu como um raio e desapareceu...

Deu por si dentro da mansão, não tinha percebido como tinha entrado mas o medo tinha dado lugar a uma sensação de paz interior.
Estava na entrada da mansão, a entrada era enorme, o chão de mármore brilhante reflectia as pinturas do tecto, as paredes eram igualmente de pedra cinzenta e robusta, ao centro havia uma escadaria de pedra, largas e em curva. De cada lado da entrada havia um corredor comprido que era iluminado por uma janela ao fundo.

Por uns instantes sentiu-se perdido, mas uma voz dentro da sua cabeça disse para subir as escadas e ele subiu. Já no 1º andar foi dar a um corredor igualmente comprido e iluminado por uma janela ao fundo e com várias portas, ele contou sete. A voz continuava a indicar-lhe o caminho e ele continou acabando por entrar na sétima porta. Abriu a porta mas lá dentro não havia janelas e não via nada, apenas via aquilo que a luz do corredor permitia, o chão era de madeira negra. Entrou à mesma e fechou a porta, a voz tinha-lhe dito que quando fechasse a porta tudo se iluminaria, e assim foi. Na sala não havia um único objecto e esta não parecia ter fim, a porta tinha desaparecio, no horizonte via uma cor cinzenta e um tecto cinzento, ambos com a sensação de infinito, o chão tinha dado origem a um tapete azul que se estendia pelo horizonte da sua visão. Por uns momentos sentiu-se perdido, mas a voz falou-lhe de novo, e disse para ele fechar os olhos e guiar-se pelo seu novo sexto sentido. A voz era suave como uma criança, meiga como uma mulher, mas ao mesmo tempo tranquilizadora uma mãe. Ele não sabia qual era o seu novo sentido mas fez o que a voz lhe tinha pedido, e começou a andar arbitrariamente, sentia-se bem com o que ouvia. Continuou a andar e a andar por umas boas horas, até que a voz manda-o parar, e ele pára, nesse momento começou a sentir uma brisa e começa a ouvir relampejar, abriu os olhos e nisto deu conta que já era de noite e estava num penedo com vista para a cidade, e tinha uma criança a segurar a sua mão direita. Ao contrário do que tinha começado a acontecer ele via a criança, uma sensação estranha impediu-o de olhar para seu rosto e continuou a observar arrepiado para a trovoada. A voz falou de novo enquanto começava a cair granizo, por momentos ele sentiu que aquilo fosse um dejá-vu, mas a voz cautelosamente disse-lhe que aquilo que estava a ver era o amanhã... e a criança desapareceu...
Ao levantar-se dá conta que estava noutra dimensão, já não sabia que dia era qual, nem o que tinha que fazer, chamou o empregado e perguntou-lhe:
- Bom dia... Qual foi o último dia em que trovejou?
Ao que ele respondeu admirado:
- Bom Dia Srº Melt. Não me recordo muito bem mas tenho ideia que este ano ainda não trovejou...
Ele agradeceu e mandou-o retirar... Já não via esqueletos!
Nesse momento resolveu telefonar para a protecção civil alarmar que poderia acontecer uma catástrofe nessa noite, eles riram-se, dizendo que não havia dados ciêntificos que apontassem para esse facto.
E nessa noite o pior aconteceu...

quarta-feira, julho 21, 2004

Estranha Noite... (parte2)

Tanto procurou que descobriu uma criança, a criança estava sentada no degrau de uma igreja, ela olhou para cima, na direcção da alma prateada e sorriu, e nisto a sombra caiu, como se ficasse sem asas. O vulto prateado levantou-se e procurou a criança mas ela tinha desaparecido... Com tudo isto Melt acordou, sentia-se pesado, não se recordava de nada do que tinha passado durante a noite. Tomou o pequeno almoço e romou em direcção ao trabalho, de carro conduzido pelo motorista... Ele era patrão de uma firma de robótica, o seu escritório estava situado no prédio mais alto da cidade, e tinha vista para toda ela. Ainda não se tinha apercebido da devastação que tinha ocorrido durante a noite e deu por isso quando reparou no vidro da janela do seu escritório, estava feito em pedaços. Olhou à volta de toda a cidade e reparou que toda ela estava desfeita, não havia telhados nem carros com vidros inteiros. Não se tinha apercebido de nada durante a viagem, porque ela era curta e tinha ido a ler um dos seus livros de poesia. Sentou-se na cadeira a reflectir, não percebia nada... O domingo tinha sido um dia em cheio, tinha conseguido contactar futuros clientes e depois de um almoço calmo foi passear pela cidade, a pé, até começar a sentir aquele mal estar. Já de noite, no regresso a casa, não avistou os simpáticos pássaros que espiavam o enorme jardim de sua casa, situada no bairro mais rico de Rain Maker. Esta sequência de acontecimentos não fazia sentido. Não conseguia concentrar-se e deixou o trabalho para os seus assistentes. Iria voltar ao mesmo restaurante do dia anterior para almoçar... No restaurante não notou nada de anormal e almoçou normalmente, desta vez vendo esqueletos a servirem-no. No caminho de regresso a casa apercebeu-se de uma casa, uma mansão antiga, e gelou. A mansão tinha um jardim enorme na parte da frente, as árvores eram centenárias e estavam rodeadas de musgo, musgo este que era tão espesso como os seus troncos. Decidiu trepar a vedação enferrujada, conforme foi passando pelo jardim foi-se apercebendo que este tinha aspecto de não ser tratado à muito tempo. Ao chegar junto da fachada da mansão notou que esta estava intacta, não tinha janelas partidas e lembrou-se de olhar de novo para o jardim, sim as folhas das árvores estavam perfeitas e a vegetação não parecia ter sido abalada pela devastação. Havia algo estranho ali. Voltou a saltar o portão para se certificar se as casas na periferia estavam destruídas, mas não, aquela era mesmo a única que tinha sido salva...